1984 e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.
Sensacionais.
A crítica é da metade do século passado, mas continua, de alguma forma, atual.
Ambos discorrem, mais ou menos, sobre os mesmos assuntos, e prevêm um futuro completamente sistemático e maquiavélicamente organizado.
E, durante a leitura do Orwell, quantas vezes eu pensei que a realidade por ele prevista, e descrita, estava longe da minha, e que a crítica por ele discorrida não dizia respeito à época atual...
Como eu estava enganado.
Hoje à noite, voltando de metrô de uma sessão de cinema (nada a ver com sexo ou um jovem estadunidense que salva a pátria, a pátria dele; Across The Universe era o nome do filme), percebi que já até é capaz que estejamos vivendo numa sociedade do Grande Irmão.
O preço do transporte sobe todo o ano; cada vez mais o transporte se mostra ineficiente; as pessoas continuam indiferentes, como se isso fosse algo que não as dissesse respeito, como se aperto, esperas, greves inesperadas, fosse algo de corriqueirice nas cidades de Primeiro Mundo, e que fizesse parte da contínua manutenção dos meios de transporte público.
Pois tinha muita gente esperando o trem, que não chegava nunca.
Esperaram muito tempo, muito tempo mesmo.
Quando o trem chegou, houve até quem aplaudisse.
Na semana seguinte, ninguém mais lembrará disso.
E o Orwell também fala disso.
As pessoas ficam satisfeitas em chegar em casa e não perder o Festival de Verão do Salvador ou, em outras palavras, as pernas da Ivete Sangalo, porque isso as faz crer que está tudo bem, e é isso.
Outro aspecto presente no livro, além da perda da memória diária, é completa estagnação da classe baixa em relação aos eventos políticos: é a camada mais abundante da população que, se soubesse de seu poder, poria abaixo qualquer regimentação, se isso fosse de interesse.
Nos dois clássicos supracitados, a queda do governo não é o que realmente importa; em Admirável Mundo Novo, os trabalhadores trabalham quase que hipnóticamente (Ford é considerado uma entidade divina no livro), e ao final do dia recebem um comprimido chamado soma, uma droga alucinógena, aparentemente inofensiva.
Enfim, cheguei em casa após a sessão de cinema, terminei de ler o livro e resolvi prestar atenção um pouco à televisão.
Fiquem tranqüilos, era o jornal.
Uma reportagem falando sobre um software desenvolvido pela Microsoft, direcionado a empresas, o qual prometia manter o controle dos funcionários através da medição e análise da respiração e dos batimentos cardíacos deles, além de outras coisas, as quais eu naturalmente esqueci até chegar a este ponto do texto.
Porra, não lhes ocorre que esta é a maior falta de privacidade possível?
Está bem, ainda não chegou às nossas casas.
Ué, é questão de tempo.
Há pouco tempo, a Microsoft também lançara um sistema acoplado a certos futuros televisores, capaz de prever o que o espectador deseja assistir, a partir de dados colhidos antes e durante o uso do sistema.
Conforto?
Privacidade?
Quem não vê semelhança entre o software para chefes completamente sistemáticos e controladores, descrito há sete parágrafos, e uma teletela, não enxerga um palmo à frente do rosto.
Agora, quem não vê semelhança alguma entre o reality show Big Brother e o livro de Orwell, eu respeito.
Quinta-feira, 17 de janeiro de 2008.
Talvez seja importante ressaltar que é 01:44.
Talvez não.

2 comentários:
eu tenho medo do futuro
eu tenho medo do Eros
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