quarta-feira, 11 de junho de 2008

Texto ou Hipótese sobre o fim do mundo (Capítulo Dois)

Príncipe era o penteeiro mais famoso da Rua Turva, e assim que soube do sumiço de nossa querida mãe-de-santo, tomou duas garrafas de ayahuasca e foi se encontrar com o prefeito. Ao chegar na casa deste, que era vizinho de nossa quase-finada e finda mãe-de-santo, tomou um susto, que lhe fez pular até amarrar o gato. Uma abelha lhe disse ao pé do ouvido que durante quinze anos quadrados lhe faria perder o juízo.
Mas onde estava o maldito prefeito? No banheiro.
- Senhor prefeito, como faz o senhor para não trancar as portas em dias de ser morto e vivo na Hormissia?
- Não me fale em Hormissia, penteeiro. - disse o prefeito, que saía do banheiro com dois quilos de arroz sob os braços, em sacolas de algodão. - Não estou mais lá. Que vieste fazer aqui, biltre?
- Não me trate assim, prefeito. Aquela moça cujo nome o autor não se recorda, está morta.
- Não me diga.
O prefeito tinha dezessete anos de idade. Desejado sexualmente por toda a elite de Hormissia, cidade vizinha a Malmequer do Sul, o prefeito foi eleito porque sabia estar em quarenta e sete lugares ao mesmo tempo. Era magro, alto e tinha o defeito de ser muito burro, com cabelos quase lisos e cortados na moda mais tosca apresentada no último noticiário da TV, pés estranhos e hipnóticos, sempre à vista, pois vestia apenas uma sunga azul (podia ser verde) e túnicas roxas-claras ou invisíveis.
Quanto ao penteeiro, pense em um engenheiro de trânsito vestido de hippie, mas quase sem cores, meio pastel ou cáqui, um tanto baixo, quase pardo e a barba eternamente a fazer, mas não era grande. As mulheres de Malmequer do Sul o achavam um tanto charmoso pela barriga rígida, vermelha e nem tão grande que ganhara em seus 456 anos de idade. Seu bigode tinha 412 anos de idade, mas Príncipe era homossexual.
- Qual foi o relato do vendedor de lâmpadas? - perguntou o prefeito, cheio de curiosidade e vontade extrema e obscena de abusar sexualmente do último eqüino que chegara.
- Deu-se que a moça foi vista ao lado de uma abelha, e depois foi sugada pela própria barriga.
- Isso é estranho, penteeiro. Uma vez, eu estava navegando ali fora, e uma sereia me disse que seria capaz das abelhas deixarem os estômagos cheios de fome até o final desta década, que está para terminar. Pois isto tudo que me relatara faz o sentido completo. Ei, eu encomendei uns vinhos novos, posso ir tomar banho agora? Isto é, você não gostaria que eu resolvesse esse impasse sem umas belas taças de vinho e de pelo menos três horas no ofurô, certo?
Não há resposta.
- Penteeiro maldito! - berra o prefeito.
- Oh! Perdão, mas seus pés são um tanto hipnóticos.
- Saia de minha casa, preciso cuidar do caso.
- Caso?
- Oh! Biltre, maníaco - berrava o prefeito a empurrar Príncipe.
- Prefeito.
- Sim?
- Uma abelha veio me falar hoje.
Susto. O prefeito então vai até o criado-mudo, pega uma caderneta de anotações e uma caneta sem tinta, e volta rapidamente para onde estava, e então com uma certa vontade de ter pressa, e um tanto ingenuamente preocupado, pergunta ao penteeiro:
- Que horas são?

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