terça-feira, 2 de setembro de 2008

Uma Peça.

De repente, se viu segurando uma panela.
Por um instante, parou de comer como um lobo faminto e selvagem.
Olhou para os lados.
Voltou a devorar a panela de picadinho de carne recém-furtada da geladeira.
Parou por mais um instante.
Mais uma vez, se viu segurando uma panela, refletido no espelho.
Ele estava enorme.
Sentou.
Bateu a panela na mesa e começou a chorar.
Uma senhora aparece na cozinha acendendo a luz.
- Meu filho, de novo isto?
- Desculpa mãe -diz o rapaz soluçando-, eu não resisti.
- Se você continuar fazendo isso, nunca mais vai arranjar um emprego decente.
- Eu até tento mãe -esperneia-, mas a pressão é muito forte.
- Desculpa, mas eu não posso mais me intrometer na sua vida.
- Mas, mãe!
É tarde demais, a senhora já cortou a própria cabeça com uma machado e está caída no chão.
O rapaz volta a chorar e, sem levantar da mesa, continua a comer o picadinho de carne.
As cortinas se fecham.
Alguém na platéia grita:
- Eu não paguei trinta e cinco reais para assistir isto! Quero meu dinheiro de volta!
Em pouco tempo, a platéia está totalmente alvoroçada e clamando por seus direitos.
- Vocês não sabem o que é teatro -gritavam alguns escandalizados.
- Eu vou entrar na justiça para receber meu dinheiro de volta -gritavam outros.
Os treze atores da peça, o diretor, o figurinista, o engenheiro de som e a dona Nice (se fala Nice), mãe de um dos atores -e que por sinal faz um cafézinho ótimo-, se trancam em um camarote apertado.
Do lado de fora, ouvem-se batidas furiosas na porta, gritos raivosos, palavras ferinas.
Eles só saem daquele cubículo apertado no dia seguinte, quando a polícia já tomara o controle da situação.
Só aí então, Narciso, filho da dona Nice (se fala Nice), notou que faltava alguém.
- O Zé! O Zé!
José Pedro Santana, vulgo Zé Peçanca, era o autor da peça.
Ninguém sabia, mas naquele momento ele estava em um trem fugindo de uns fanáticos conservadores.
Por alguma coincidência, o trem se dirigia à cidade onde a mãe dele morava.

Nenhum comentário: