domingo, 11 de agosto de 2013

Suas palavras queriam ser meias, queriam ser meras. Hoje algumas palavras são dominadas por gente que busca algum conforto em uma ostentação barata na rede, mas outras ainda cortam, desferem golpes baixos feito uma bica na canela que te apaga os olhos como se uma chuva de maus espíritos irrompesse de um céu até então límpido. Se como as minhas, as tuas palavras não valem muitos centavos - e longe de apelar para o refúgio da iluminação e da diletância barata e serial - escrever é sobretudo o que posso fazer, se à força minha voz é arrancada, e minha garganta nada mais é do que um canal precário e dolorosamente necessário para a manutenção desta fisiologia torpe. Não há refúgios, não há conforto para esta pobre alma ateia, em nenhuma ilusão de boteco. Com a mediocridade que reina sob a minha, as nossas, espinhas, tirar algum prazer de uma mania como roubar pequenas colheres em lanchonetes chinfrins é praticamente subversivo. No entanto, se alguém ou alguma entidade do comando e da subserviência se prestasse a me observar, não sem algum divertimento atestaria o cômico e patético papel assumido por este ladrãozinho de colherinhas, que nem o pingado tomado vale. Pois este sou eu antes de te conhecer. Os pequenos prazeres ainda me pegam, mas nada é tão fatal quanto lembrar de forma tão esmiuçada deste sonho que coloridamente queremos enxergar, como se só tendo olhos para o vigor dourado que exibe a fresca face da laranja, não víssemos todavia aquela que lhe destrói e corrompe por dentro, um mofo azulado e desinteressante que a definha e faz evanescer. Temo padecerem nossos corações de um tal mal, como se, instalado sobre o tempo que lhe determina a vida, o bolor pouco a pouco nos transformassem em pequenas cascas sadias e amáveis por fora, mas podres e amargas por dentro, e a coisa mais fértil que nos restaria, seria a total decomposição.
E que insistência esta em teus olhos me ferirem, serem besta e compaixão. Os olhos que ora me fustigam com dúbio desinteresse, são aqueles que sob seus dourados cílios desvelaram com inédito pioneirismo essa vibração, capaz de tornar sensível mesmo as células mais mortas, pelo meu corpo rejeitadas. Se você reconhecesse a insistência deste olhar que teimosamente persigo e que com cega obstinação busco decifrar, se você soubesse que já sofro com seus sons, guinchos e ruídos, não abriria a boca para dizer palavra.
De onde, e de onde sai esta fúria?
Talvez um pequeno e ressentido homem, rabugento e mal educado - e que esconda uma misteriosa fraqueza em seu âmago - esteja alojado em seu corpo como uma substância entre o pâncreas e o fígado, bili que só pode ser retirada com uma bruxaria precisa. Na maior parte do tempo este homúnculo está adormecido. Mas quando acorda - e se um Deus existisse, este saberia como odeio este homenzinho - que terríveis sentimentos passo a nutrir, e o que eu não faria para vê-lo sendo fagocitado e eliminado deste pobre corpo que ingenuamente lhe abrira as portas outrora... Mas antes fosse isto, e o mistério dessa sua maledicência ácida só não é maior do que o enigma do meu coração que não pode viver sem teu sangue, meu peito que não vislumbra possibilidade outra que sequestrar teu ar, minha boca que não admite a secura da distância entre nós - teus lábios e os meus -, meus olhos que beatamente te sondam como se cada detalhe de ti apreendido fosse a última possibilidade de gozo pleno na vida, e das minhas mãos que são o canal e o casal pelo qual circula toda a minha energia quando tocam sua pele quente e enérgica, sempre ávida de ser tocada. Não tem nada que me mova neste mundo que não dependa de seus gestos, palavras e passos, como se fios invisíveis amarrados ao meu coração e cabeça me lembrassem o tempo todo de que o limite dos meus passos é condicionado pelo tamanho e elasticidade dessas ligações. E não há nada tão prazeroso quanto me enredar neles o máximo que posso.
E nada tão horroroso quanto ser compulsoriamente sepultado por esta âncora no meu coração, na areia movediça desta podridão que se assume, e conosco convive, como um inquilino indesejado, aquele agregado insuportável que colonizou a rede de esgoto subterrânea do nosso lar, tendo antes anunciado sua malgradada vida com uma comovente canção de dor, e disputado com a nossa disposição numa esgrima de faquinhas de rocambole.
Estamos inflamados. O homem se apaixona pelo fogo. No início, este aprende a brincar, brincar de chama, brincar de calor. Toda noite o homem vai de encontro ao fogo, destemido e insolente Ícaro buscando a promessa de noite calorosas e acolhedoras. Mal percebe o homem, mas o fogo pelo qual está apaixonado cresce com insuspeitável silêncio. O fogo, antes brando, abraços flamejantes na noite pobre, cresce e envolve o homem. Este passa a ter medo, muito medo, mas continua dispensando ao fogo todo o amor de sua vida, cultiva com afinco sua companhia, mas já está acorrentado. Um dia ele se aproxima, a casa está vazia. Acende o baseado, cai o fósforo ainda aceso no chão, e aí um clarão lhe fere a vista, o calor insuportável lhe consome. Morto de amor, suas cinzas enfeitam o macabro aposento onde, com olhos anteriormente vívidos e brilhantes, aquele homem amava e alimentava seu fogo com a própria vida.

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