Alguém podia me dizer, chamar de lado, no intervalo, Eros, não olhe assim desse jeito para aquela garota... É confusão o que você quer? Pessoas ao redor assentiriam timidamente, mas eu estou acostumado - desde que virei uma pessoa - a ser mesmo o único que discorda.
Aquele vestido, responderia, orna suas curvas, valoriza seus ângulos, expressa excelência na composição estética, estende o deleite cromático de sua pele... Apesar da minha falta de credibilidade, suscito estranheza e surprezinha. Ele começa a responder, tá, tá, mas se gostou do vestido, ainda assim, pode fazê-la passar por um constrangimento desnecessário, admira o vestido, mas, mas... No seu balbucio residiu meu trunfo:
- O quero no §¢£@#$%&.
Até a cafeteira cessou seu canto acafetado. Restou a respiração dos bancos de concreto, da frondosidade das copas das árvores e do meu coração-escola-de-samba.
Fui mordendo a caneta. Quando ela enfim entrou toda dentro de mim, começou a pintar em minhas cavidades, um estilo rupestre esferográfico. Se o cúmulo da vaidade andava sendo passar batom na boca do estômago, soube que podia ostentar - para algum escafandrista que ousasse saltar goela-tobogã abaixo - uma vaidade anti-vaidosa, anti-estética.
As rugas daquela antropóloga tem muitas habilidades ocultas. Além de suar a partir de movimentos faciais, elas
I - Conseguem pensar em mais de uma coisa, e trocar de obsessões
II - Andar em dois pés durante horas sem tropeçar
III - Fazer macarrão com queijo
IV - Cantar uma música dos Los Hermanos inteira sem esquecer um verso
V - E sabem que sair de casa/s já é se aventurar!
Moço, antes de hoje andei tendo um passado. Esse passado foi marcado por alguns grandes eventos. Não é só que acordo pensando nesses dramas todo dia. Vê esta pele? Estas vísceras? Foram tecidas através desses eventos. Mas hoje, o dia de hoje, não é sobre como me enredei até aqui. Isso aí eu já tô cansado. O dia de hoje é sobre se posso, quando e como vou me enredar a você.
Mas não tenha pressa. Estou em paz.
Cabelo curto, semi-estrábico, alargador, barba, tatuagem, bigode, camiseta colada, corpo desejável, bermuda bem servida, pernas mordíveis, meia soquete...
Teoria queer, pós-estruturalismo, estudos culturais, antropologia contemporânea, geografias da sexualidade, etnoarquitetura, pós-colonialismo, música, teatro, bicicleta...
Chocolate meio amargo, queijo, vinho seco, cerveja, macarrão, sorvete de iogurte, damasco, coxinha, coca-cola, atum, grão-de-bico, batata, feijão branco, maconha...
Praça, largo, rua, parque, cinema, bar, botecão, balada, cinemão, supermercado, calçada...
Elogios gratuitos, bocas convidativas, amores desentrincheirados, brisas irreversíveis nas tardes paulistanas, devir noturno, solidariedades ecléticas potentes, furtos à deriva e reapropriação de mais-valia, dias que quero, deitar na grama, publicar um artefato meio amargo em uma rede por aí, deslocar entre minha vidas, surfar em cabeças, corpos em trânsito, pé na cara, viver poesia intensamente...
O intercambista lindo e boliviano gaguejava à medida em que o rufar insistente e encadeado das caixas se aproximava da sala de aula. Meu coração tremia... Foi bom ter vivido até agora, mas alguns medos ainda são corriqueiros. Cf. Minhocão pulando com o peso dos foliões; Ponte Eusébio Matoso em uma das manifestações ativistas das quais participei.

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