domingo, 22 de fevereiro de 2015

cenas d'Erinhos_2014

na véspera de 2014, eu ouvia duas ou três vezes O Vento até chegar no autorama do Carrão, guardava o fone de ouvido e o player, fazia um programa, tomava um pingado, fazia outro, passava depois no quiosque onde o W. trabalhava, e voltava pra casa pedalando ouvindo O Vento mais duas ou três vezes.

mal consegui dormir, Meninos e meninas ecoou na minha cabeça a madrugada inteira. acordei às sete da manhã daquele sábado, sendo que a oficina começava tipo às nove. pedalei o caminho habitual Padre Adelino-Vd.Guadalajara-Celso Garcia-Rangel Pestana, devia estar ouvindo o Ventura, e parei naquela esquina onde costumava comer, nas proximidades da Mazzaropi, e com o dinheiro do sexo pedi um pingado e um pão na chapa. era oito da manhã ainda.

durante meses e meses e meses eu fiz teatro. mas o ápice da minha coisa teatral veio depois daquele domingo - que rendeu óbito e nascimento. na terça-feira, aquele dia inesquecível, aquela sala com um piano. esperei ele recitar a poesia dele, sobre o outono, então levantei logo após, dei uma volta no círculo de gente, e então recitei, alternando o olhar que o eu-lírico-Eros lhe direcionava com os demais confidentes na sala:
Tens a face de mulher pintada pelas mãos da Natureza,
Ó Senhor, Ó Dona da minha paixão. Um coração gentil de mulher, embora avesso a rápidas mudanças e efemeridades passageiras...
Um olhar mais brilhante, e mais autêntico, e imantar tudo que contempla. E uma cor masculina, a guardar todos os seus tons.
Rouba a atenção dos homens, e causa espanto às mulheres - se como mulher tivesses sido primeiro criado.
Até a Natureza, ao te conceber, caiu-lhe o queixo
[aqui meu queixo de fato caía]
E eu, também, caído a teus pés,
[e eu de fato me ajoelhava aqui]
Nada mais acrescento ao meu propósito.
Pois,
[ia até a M.E. pegar a rosa vermelha]
Ao te escolher para o prazer mais puro,
[contornava a roda e ia até ele, ajoelhando em sua frente, com a rosa empunhada, guardada nas costas]
Teu é o meu amor e, teu uso dele,
[voilá! entregava-lhe a rosa]
O seu tesouro.

isto chama-se Soneto 20 de Will Shakespeare. foi minha melhor versão. tod_s ficaram passad_s, há uma interpretação diferente para casa pessoa sobre o que aconteceu. dupla assunção no grupo. e eu assumia estar de fato a seus pés. só eu sei quanto tempo fiquei ensaiando essa porra no quintal que nem um esquizofrênico, enquanto M.E. e M. dormiam embalados pelo Jigglypuff.
enfim, viver, com toda a putanhice - que há pouco completou um ano -, toda a política, todo o teatro e todo o amor, pareceu fazer muito sentido.

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