a vida é pica
te quEROS
HAPPENIS
a vida dele em slow motion
eu via seu movimento em slow motion, a costura inferior da sua cueca denunciava uma série de propriedades com precisão: a maciez da pele, a elasticidade do músculo. seu rosto sincopava entre angústia retorcida e alívio exagerado. abafado, seu couro cabeludo sublimava em gotas, na testa caindo, do boné preto, como o resto da roupa.
seu pênis, escultura difícil de aventar, passeava de um lado para o outro. para a bunda magra, escorregava uma gota feliz pelo tobogã esforçado da lombar. o cócix dilatado pontuava a vértice da letra S na extremidade oposta.
lágrimas involuntárias orvalhavam cada milímetro rumo ao chão. em slow motion é possível observar o momento em que irrompiam, depois o tráfego gravitacional e o salto dos suvacos. seu suor era orvalho, mas também vapor.
em slow motion ele era perfeito. muito tempo se passou. vão-se os fôlegos, os músculos, os vigores. fica marcado, no rastro de suor, a memória, mais viva do que em algum dia pudéramos ser.
o neném que Esther nunca teve
– a Esther não pode ter neném.
silêncio. a sentença sugeriu algum sentido no meio daquele absurdo todo.
– é?
– ela teve acidente.
ele, o garoto, desejou muito que o assunto não lograsse. odiava esse lado pateta dos seus clientes. os fixos, sobretudo. há segundos o infeliz berrava METE METE LEKÃO!, agora incipiava no velho choramingo do fracasso. viajara quarenta quilômetros numa Mercedes, pagara quinhentos reais pelo serviço, cento e quarenta e cinco pelas horas bem passadas no motel, aproximadamente trinta em Galicia, sete em cigarros, e agora o véu irresistível do fracasso nublava-lhe a fronte.
Newton, o jovem rapaz de ângulos imodestos, esse sim tinha um nome público. sua vida dupla nunca fora dupla, senão infinita, intermitente. temeu antever mais um chororô barroco. temeu, aliás, o pior. o pior não aconteceria, mas era lícito temer. uma vez um velho auto-defenestrou-se do segundo andar. o filho da puta foi burro, burro em cascata, otário em cadeia, agora maneta, preferiu relegar-se voluntariamente ao ostracismo. Newton aguarda dele alguma quantia – cuja quantidade de dígitos ignora – da indenização moral, pelas noites mal dormidas entre os aidéticos – quase um acidente de trabalho irreversível, que o Estado jamais assistiria.
Newton sobrevivera aos grilhões tetânicos, e agora mais uma vez se via agrilhoado aos lençóis cansados de um motel de bons ares em Cotia. não, ele não queria ouvir mais uma história de um fracassado rico e bem casado – FRACASADO é como batizara o nicho.
Newton tinha que agir.
– sabe como escreve meu nome?
– ué!
e riu. as pessoas medíocres reagem à criatividade rindo involuntariamente.
– sei.
– como é? soletra!
ele foi soletrando buscando confirmação com o franzir interessado do cenho.
– N, I, L, T, O, M.
– Errou.
– É com N!
– Errou!
– É?
– É como... Se escreve como o, o, o, o físico. Sabe?
– Físico?
– É, o, o, o, esqueci o primeiro nome. TÃNÃNÃ Newton...
ele aprofunda a cara dolorida de dúvida.
– o da maçã e da gravidade.
– Aaaaaa! É assim?
– É.
– Olha...
Newton olha pra dento de si mesmo, tem um espelho no teto. sorri, não pela eventual surpresa que causara em seu cliente, mas pela eficácia da fuga da lorota patética. de que poderia tornar-se uma vez mais vítima.
ontem o levei para matar o zumbi e resgatar nosso precioso fone_de_ouvido.
Tadinho nos esperava no inferno.
nunca uma quantidade tão grande de EU TE AMO foi traduzida em proporção e de tão precisa maneira.
estou ficando bom nisso.
ou ele que está ficando bom em ser amado.
quero um dia dar a Lua pra ele.
vi isso num curta-metragem em 2014.
acho que dá.

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