Durante parte substantiva da minha vida enchi a minha boca para vomitar as palavras mais sujas tipo boiola ou baitola ou viado, esses hiatos maravilhosos, que você enche a boca. Boi-o-la. Bai-to-la. Aí não é hiato, mas também começa com ditongo decrescente e é paroxítona. Vi-a-do, esse também é hiato, também é trissílabo. Eles não resistiam, os boi-o-las, a cada vez que eu lhes xingava, ficavam ruborizados de tesão, não resistiam, gemiam, retribuíam com notas de dinheiro, sempre múltiplos de cinquenta. Hoje, tem o arquétipo do viado medíocre. Eu penso nele como o arquétipo do viado medíocre. Entrei no pó por causa dele. Descendente de libaneses, empresário de comunicação autônomo, bem sucedido, subúrbio classe alta de Curitiba. Alto, franzino, uma hérnia na virilha, magro. Ligeiramente corcunda. Cada dobra escura de pele sob seus olhos equivaliam a um ano de pó. Cinco sob cada um. A força e a vontade levaram-no para dentro da pequenez do quarto na casa dos pais. Lá ele pode reinar. Trinta anos, bem sucedido como falei, mais até que os próprios pais. Preso dentro da pequenez da sua paranoia. Na cama era entusiasta das maiores difamações, o risco o excitava. Eu lá, cantando Geni e o Zepelim no sótão da casa dele. Quando passaria a ser claro para os pobres dos seus pais, seus escravos, que ele trazia pra dentro de casa os seus concubinos? Desprezava o irmão, um rapazote inacabado, claramente teve problemas de desenvolvimento motor e cognitivo. Abotoava até a gola as camisas Polo, cuidadosamente as cobria pela calça social, o cinto preto. Que torpe... Vejo ele implorando para rasgar a sua roupa e ouvir o estalar do cinto — senão da fivela — sobre o seu dorso. Nunca aconteceu, para além dos chutes, dos socos, tapas, mordidas e humilhações intermináveis, feminilizantes, desqualificantes, desumanizadas. Boi-oila. Li-xo. Ca-de-la. Usava uma pomada nas bolas para não ter ereções. Assim garantia que o meu pau estivesse sempre rijo e maior do que o dele. Me deu um tênis de marca... Para que pudesse tirá-lo e passar horas passando a língua por entre cada um dos dedos dos meus pés. Vestia meias-calças, vermelhas, rendadas. Me dava cigarros, brejas... Hoje, se o visse, destroçaria sua cabeça com um só golpe de bastão de beisebol. Não que eu me arrependa da tortura simulada. Mas que passei da hora de tolerar a mediocridade dos outros.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
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