segunda-feira, 11 de julho de 2016

«balada do amor lunar» ou «meu peito é um canyon» ou «ele, a Lua e eu»

lá vem a Lua minguante
com seu sorrisinho amarelo...
implacável...
irritante...
singelo...

em tudo que meti-me por necessidade, nessas de passar, ultrapassar, perpassar, trespassar, sempre fui ratificado pela Lua.
lá vem ela ligeira uma vez mais, a Lua minguante com seu sorrisinho irritante, implacável, ai essa Lua... assim que saio de um ciclone, sento-me ansioso à espreita do próximo. tornando-me tornado. como se minha vida já não fosse esse vórtice desde que me entendo por adulto. como se minha cabeça-de-vento ignorasse o tormento das tormentas, dos abismos abissais, dos abalos císmicos, cataclísmicos. coração de pedra, tanto bate que furou, falha geológica, epifenômeno dos meus caminhos. meu peito é um canyon.
vem pra me azucrinar, o satélite dos satélites, e eu, satélite dos amores, acessório dos meus adorados amantes, minhas madonas de cueca, meus pódios de chegada, meu romantismo estendido no varal ao lado dos repentes, dos de repentes, dos repetentes. eu de pé, ajoelhado, escancaro os dentes, exponho obscenos os miúdos, de amor doentes.
lá vem a Lua e seu sorriso indecente, eu, o Cupido-de-mim-mesmo, a atingir-me em acidente a fatal flecha da paixão, a cegar-me imprudente, a empunhar o tridente, a saltar rumo ao poente, e a vagar contingente.
a Lua esnobe sorri amarela, pro continente.
e eu só a espivetar o garoto dos dias. passa por mim como passam as folias, como passam euforias, as minhas aporias, minhas epifanias.

passa.
sorri para mim o garoto, um sorriso amarelo...
implacável...
minguante...
sincero...

eu do alto o enxergo, enxergo tão fundo que quase o abduzo. mas, de baixo, vejo a Lua hedionda, de risinho abstruso, que lança a maldição, me instiga e me rechaça, acha feio, mas faz pirraça. ele o que vê não sei, tão garoto, só ri, sorri, e passa.
a Lua me enxerga, e eu tão sem graça, tem algo de mim que o segue...
com ele vai e não volta.
despedaça.

e o regaço do mundo
me arregaça.

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