domingo, 2 de novembro de 2008

A Máquina Social

co-autoria; Érick Soubihe.

Todos os indivíduos têm potencial para administrarem a si próprios, desde que as suas faculdades mentais o permitam, ou seja, desde que não estejam clinicamente comprometidas. Hoje em dia as pessoas estão sujeitas à sobrevivência, pois existe um dispositivo de poder centralizado que as induz a isso. Tal dispositivo é responsável por coagir, alienar e iludir os indivíduos quanto à validade do poder.

As pessoas condicionadas a sobrevivência, são pessoas que "vivem por apenas viver". Por mais que tenham objetivos a serem alcançados, acabam vazias e frustradas. O conteúdo dos objetivos em questão, se analisados de um ponto de vista social, são vazios, superficiais e extremamente falsos. Há o dispositivo de poder, formado por um conjunto de regras e de agentes que executam-nas. Esse dispositivo induz os indivíduos a sobreviverem (no sentido apresentado), já que é conveniente os organizadores dele; manipular fantoches, evitando que eles se revoltem, vigiando-os e punindo-os.

O indivíduo é fruto da convivência deste com o meio em que está, e absorve dos demais os discursos que farão dele um individuo. Tais discursos englobam diversos conhecimentos adquiridos que vão desde o aprender a falar até a estrutura do caráter do indivíduo. Sendo assim o indivíduo fruto de seu meio, ele tem potencial para administrar a si mesmo, mas a sua autonomia depende da reflexão que ele faz em relação aos discursos por ele absorvidos.

Os indivíduos estão condenados a morrer de tédio. Esse é o efeito colateral e também o ponto imprescindível desta máquina social; a hierarquização social cria o tédio, mas o tédio também é o pressuposto para a hierarquização social. A mobilidade social, e também a falta desta, assim como o dispositivo de poder, não passa de uma ilusão, mas o tédio está longe de ser uma ilusão. O tédio é o inimigo e o antônimo da realização pessoal; a sobrevivência pura e vazia; é a morbidez que guia os indivíduos na máquina social, e que mantém neles o espírito vazio.

Deixa-se de viver autenticamente em prol da manutenção de um dispositivo de poder. O condicionamento coage o indivíduo a escolher a máscara que melhor lhe serve, indo à vitrine que está ao seu alcance. Supre-se um papel específico e perde-se em vida. Os papéis fazem parte da organização social. Todavia, na nossa sociedade atual, eles assumem o caráter de puros agentes da segregação. O papel é o símbolo que determina a posição de alguém numa sociedade. É como uma fantasia, que serve ou não em um contexto específico, e sua mutabilidade é definida por meio do sistema de hierarquização social proposto pelo dispositivo central de poder. Vive-se ou conquista-se a permissão de se navegar em um afluente, quando na verdade tais afluentes não passam de uma ilusão. Fisicamente, o que existe é um oceano, pleno, infinito, e sedento por desbravadores.

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