Cena I
a sopa rançosa da melancolia desceu melodiosa e sedutora pelas paredes de concreto. os mosquitos nunca se dão conta porque não têm sentimentos, e atacam as placas ensebadas com uma paixão furiosa. isso enquanto o céu esbraveja a sua cantiga da noite, e o horizonte cor-de-nada suspira um flutuar vertical. mariposas gordas e outros abraços voadores, feito lepidópteros amassados pelas cortinas-de-ar cor-de-fogo, completam a cena.
-Na noite do meu ser, peças e mais peças, tantas peças juntas que formam uma lista noelesca. Um suspiro com aroma de toca-de-rato é o primeiro item desta lista, e cada um dos novecentos e oito itens listados aqui supera o anterior em dificuldade.
deita em uma rede de cabelos vindos de cometas e luas confortáveis em plasma de frutas vermelhas. prossegue a cena.
-Com este isqueiro, cataliso as dores e os amores, catapultando esta lista ao cemitério de cinzas preocupadas e doutrinantes. O combustível é o meu sangue.
a lista pega fogo, mas se apaga depressa, pois a ordem requer que tudo volte ao planejado. torres exóticas feitas de tijolos, duas ao todo, sorriem panópticas jorrando toneladas de esperma fresco a cada segundo. e o mar é branco por este motivo.
o poeta deitado na rede se vitrifica.
e cena está acabada, e o quadro será guardado em um porão de poeira indecisa.
18 1 2010
Carta aos amores
as manhãs regurgitam.
e sob a minha cueca azul berrante o meu pinto suado cheira a pinto suado.
na praia eu quero sempre assim: de dia rede, inóspito, e leitura marxista, à noite cerveja & coração fraterno. sabe? nun. ca. consegui.
controlável saudade de um peniano beijo. nastalgia invisível.
diga ao amor da semana passada que tudo acabou -não sei se ele se importa-, que não se preocupe, por. que. aqui. tá. tudo. bem.
centenas de mosquitos, zumbido stereo -insetos à esquerda, o roncar-arroto insone insone praia à direit, ao centro a coluna sans culotte, mudinha, olha para os meus pés fálicos, presa ao gancho que sustenta a rede, de longe é um sorriso-, algumas corujas, céu preto, sem estrelas -mas que bosta! se as estrelas não estão aqui, onde estão afinal? Miami?
diga aos amores atrasados que São Paulo infelizmente voltará esfumaçada para os meus braços de pernilongo, perto do fim-de-semana, então não há motivo para pânico. afinal, alegria só existe porque existe também a tristeza.
e aos amores escoteiros, a minha glândula pineal dá um salve -em nítido francês, bon voyage!
a carta tem fim: dedico agora atenção ao meu pinto suado, isto é, ao seu cheiro lácteo.
20 1 2010
Declaração de Amor Sem Nexo Selvagem
Se eu apoiar minha cabeça no teu travesseiro de nuvens, não haverá mais filosofia, porque darei aos lexicógrafos e políticos o comando para que esqueçam o termo "guerra". Significa que deixarei de pagar os impostos da realidade, pois meus pés não estarão mais no chão. Significa que a gravidade, se acionada caso eu me jogue no teu poço cardíaco tornando cada segundo o mais irreversível, será a entidade responsável pelo meu arbítrio. Significa que o último livro será fechado e a última rubrica será assinada, porque o mundo finito terminará para que se reconheça a infinitude de uma vida plenamente ilimitada, cujo início será incomensuravelmente enigmático e o destino obscuramente inexistente -até que a morte assuma o comando. Significa a perda dos meus bigodes, desgraçadamente hipotecados na mais desgraçada das horas, o que causaria a minha falta de equilíbrio -compensada nos teus braços no pós-queda. Significa que as coisas todas pegarão fogo.
Amigo, se eu apoiar a minha cabeça no teu travesseiro de nuvens, e tu dormires na minha cama de sonhos, é porque vencemos, e da janela da nossa vida apontaremos pros babacas sortidos e riremos intermitentemente (jabuticaba-beijo-sarro).
22 1 2010
noite venenosa -sem lua, sem estrela, sem nada-, eu quero morrer sob a sufocante fragrância do teu olor venenoso, que se confundirá ao meu sangue venoso e trará dialética (feito) um punhal a vermelha e hemorrágico-vertical mancha no meu róseo-manchado punho sangrento e furioso, içando o meu ser-sem-ser ao infinito e radical céu (brilhante feito o simétrico-radial Sol -ali em cima, sorrindo no consuetudinário império das seis horas) redimensionando o ciclo consueto e me trazendo (levando-ando desconcreta & cretinamente) algodoado ao invisível mundo dos séculos.
a mensura é muito perigosa.
23 1 2010
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
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Um comentário:
eu sentia saudade dos seus posts
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