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segunda-feira, 17 de agosto de 2020

C. & F.

parece cocaína, mas é só pressa

pela vastidão-devassidão do pertencer.

o seu beijo não se vende em garrafa.

parece cocaína, mas é só você.


dentro e fora dos absolutismos

e exageros das curvas, declives

do corpo e dos corpos, os vãos

e sulcos sulcados no colchão.


parece pressa, mas é só a paz,

quinhão de vida no meio nu,

culhão, pulsação olorosa na ponta

do dedo arriscando o rio da derme.


licor de promessas e espumas

ao ventre, a vida desponta do três,

seis olhares perplexos e embevecidos

- santo milagre, trindade, aparecidos.


os olhos se fecham em comunhão.

os ouvidos se encerram, comungam.

as bocas desistem de ser: fala e falácia.

e incontinenti reina o tato, tarântula.


o sonho emerge lento e real

dos recônditos amenos do que é

e sussurra em verso e prosa à alma

que é de amor, é de vida, é de calma.

sábado, 24 de dezembro de 2011

não-respostas para guardar um recado gostoso de algo que ninguém-ninguém

Andar de bicicleta na areia fez Between the cheats fazer algum sentido. Hoje, tomando alguns sorvetes - compilados, espremidos - ouvindo Valerie, pensei na bênção de ser classe média. Então subi na bike ouvindo The girl from Ipanema. Esse álbum póstumo da Amy me deixou muito... Amy feelings.
E agora, ouvindo Mr. Magic, música que conheci com a Amy, na versão de Grover Washington Jr., cervejado - uma (apenas) sub-zero - me sinto apto a inaptamente ex-crê-ver. Tive um ano (in)(im)produtivo em textos blogados. Não sei, acho que nem uma retro'spec'tiva faria muito sentido, não sei se eu escrevi o bruto assim - comum - para uma. O quanti., querido, não é tão - assim, como vou dizer - (im)(por)tant'e, talvez faça a retrospectiva, o bruto deve estar em São Paulo (santo/a HD externa/o).
Meus amigos são uma coisa tanta.
Minhas músicas - ouvido/as - outra.
Estar a seiscentos quilômetros - imaginados - de distância me faz pens'ativo. Penso, penso, sinto. Me faz, sobretudo, pensitivo. Tenho pensado no sul-cesso. Muito. Aqui em Pontal - especial.
Ca(d)(rr)eiras a(cadê)micas e (ar)tís(t)icas.
Pessoas sobre-tudo. Estou um carente social. Voltei ao normal! É, como conhecer pessoas fosse aquilo que me mantém energizado. Imaginar que eu conheço, conhecer de fato, 'seudo-conhecer. Preciso que as pessoas (não!) (sim!) me amem, ouçam, apreciem, leiam... Elas (não) fazem! Ser eu é gostoso, o (re)conhecimento lindo!
Tá bem assim, como se tivesse dado certo (...); pois é! Como como.

noite de na(da)tal, Pon-tal do Paraná, 24122011d.C.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Fim. ou Fim? ou Não.

Achei que dando este título, as coisas fariam mais sentido.


confissão 3112011

lembro de cabeça algo anotado há bastantes meses atrás sobre a escrivaninha.

"2008 me ensinou a pensar
2009 me ensinou a ser frio
2010 vai me ensinar a congelar"

não posso deixar de revisitá-lo.
o que significa jogá-lo fora.
desde 2006 comecei a intentar vida. assumidamente em 2008.
2009 foi um ano de aproximação com certa auto-responsabilidade.
2010 foi, a contragosto de mim mesmo em sua aurora, o melhor ano da minha vida; este janeiro e o dezembro precedente, os dois melhores meses.
2010 foi um ano de esquentar e congelar, de projetar e o meu futuro será o efeito total de tomar essas rédeas todas (e não tomá-las todas, o que é igualmente fundamental).
assim como em 2010 foi possível pensar superar 2009, tão cedo supor que este ano superará o precedente seria exagerada presunção.
acontece que eu não estou supondo nada.

3112011


Nota sobre 922011

Tão rapidamente nos despedimos e eu já estava fazendo quilômetros de lágrimas (secas como o desespero, úmidas como o quente e dourado dia -você estava lá o tempo inteiro) pela cidade estrelada. Pensei na Lua em grande medida. Ela seria a grã-triunfal-entrada. Apenas uma flor. Mas a gente sabe. Não devemos interpretar apenas como uma flor de despedida. Só sei que sobre as duas grandes mulheres da minha vida, Heloísa e Maria Eugênia, redondas, estagnei hipnotizado, assim como você, que sumia conforme a patética chancela cor-de-chumbo lhe eclipsava.
A porta fechou, e nada mais me restou.
Não sei você, mas na forma de algo entre arrependimento e hesitação desesperada, talvez um cristal pós-esperança, rolei em direção ao centro da cidade. Talvez. Talvez porque simplesmente eu na realidade quisesse muito pedalar diretamente para você e dizer tudo aquilo que em cinco minutos eu não tive tempo.
Dizer que eu tinha uma música para lhe mostrar, perguntar se ele havia terminado aquela poesia sobre a Lua, e levar às últimas consequências suas possíveis respostas. Queria muito. Queria muito fazer com que ficasse mais tempo comigo. Queria pegar em sua mão. Enfim, apenas consegui situar nosso próximo encontro.
Você jogou em minha direção aquela flor.
E eu estou muito arrependida de não tê-la agora comigo.
Me sinto sozinho.
Demais.
Aqui.
Né?

1h43
1022011


História dos Deuses

O suicídio me intriga.
Gostaria de entender que tipo de sofrimento é esse que impede as pessoas que estarem vivas. E queria saber quem são essas pessoas que se privam da experiência mais maravilhosa da vida, que é sofrer.

Tinha que ser novo, afinal as coisas boas são sempre novas, à excessão do próprio estatuto de que são. Tinha que ser belo, ainda que as outras pessoas não observassem nele os belos traços da mediocridade. Porque algumas pessoas são como deuses gregos. Na multidão, onde são produzidas e guardadas (ou melhor, enriquecidas e escondidas) não lhes parece corriqueiro necessariamente causar sensação. Digo isso porque não lhes interessa necessariamente aparecer ou sumir. Não lhes interessa, como deuses convencionais, ter o controle do tempo nem estabelecer a sistemática de seus jogos sociais. Isso tudo é muito secundário. Interessa-lhes viver.
Tinha que ter outro. E quando esses mutantes se encontram, não há também um protocolo fixo de comunicação. Eles são antes de tudo meros administradores de vícios (ainda que a sofisticação com que realizam suas vidas seja um pouco diferente da da média). Mas aí, na história, eles se trocam.
Eles se tocam.
Mas, como convencionalmente acontece, um ganha e outro perde. Se bem que, em se tratando dessas coisas (que possuem um dispositivo central funciona como um liquidificador, que transforma as coisas bonitas e abjetas, as sujas e as corriqueiras, em um maravilhoso e sistemático milk shake). Um ganha e outro perde, em infinitas combinações, incontáveis dimensões.
Diz-se que são felizes. Seria pretensão demais dizer que fulano ou ciclano são felizes, e a mediocridade tem fórmulas muito lógicas e cruéis para mensurá-lo. Se não isso, então, apenas chuto que, ao menos, são muito mais interessantes do que a média.
Como nas tragédias, um morre e o outro não. É isso que acontece no fim da narrativa: um morre, não sei o outro, não sei não, mas um morre, e do pó, e das ossadas, surge algo intrigante, como o que havia antes, excêntrico no melhor estilo continuar-vivendo. Basta não ser frouxo. Basta não se tornar essa coisa brega e triste que é a neutra sobrevivência.
Tinham que ser novos. Tinham que ser plenos. Tinham que ser deuses. E tinha que ter uma tragédia.
Decididamente, viver, aqui, é simplesmente protagonizar a mais bela das tragédias.

13h48
1522011

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Paixão.

Sublime.
Flutuando, nossa!, fazia muito tempo que isso não acontecia, no metrô cantante, eu cantando. Fazia muito tempo que homem nenhum me inspirava (e expirava) tanto. Acho mesmo que era eu, entrando nas intermitentes narinas do humor pós-noturno.
Nunca imaginei que um resto de certeza, uma tão precária segurança pudesse ser capaz de me içar desse jeito. Não adianta, né, a gente sempre acha que prevê tudo, mas se uma coisa não mudou nos últimos dois anos, pelo visto, foi a ingenuidade do grande amor platônico. E grandes amores platônicos não me apareciam há uns dois anos. Esse é um pouco mais do que platônico, ao mesmo tempo acessível e inacessível, e tudo que julgo ser da ordem da comunicação acontece no subterrâneo de olhares que não posso dizer se de fato são significativos de nada (talvez eu esteja em uma grande paranoia). Mas eu tenho essa intuição.

Hoje me soou como um encontro.
Na mulher da nossa vida acho que há uma marginal inter-comunicação, não sei se de fato. Por exemplo, um gesto que dura mais tempo do que deveria quando sua intenção é simplesmente funcional. Uma bola de bilhar que desliza de minha mão e patina em sua, enquanto nossos tentáculos se esforçam para continuar presos no segundo. Um abraço de despedida que só termina quando a ponta do maior dedo de nossa mão cessa de deslizar em nossas costas. Ao mesmo tempo, não tenho a impressão que o moço se esforça para estar fisicamente mais próximo de mim. Quando dessa situação, parece que se aproxima visualmente.
Enquanto a outra dá uma tacada na alva esfera que contrasta com a verde relva, nossos olhos se atacam, na forma de semicerrados sorrisos, durante um segundo, o que pode não significar nada, mas que, minha nossa!, podem significar absolutamente tudo!
E quando a moça cessa e eu lhe acompanho, o moço, até sua casa, as gracinhas cessam, andamos sem nos olhar, porque agora não fisicamente, nem ocularmente, mas mentalmente nos contorcemos para entrar no consenso do ritmo dos passos. Então desistimos de sua casa, o papo vai muito bem, e então arranjamos uma nova meta, e então quando eu me vejo, tempo estendido, estou sentado em sua frente na área externa do McDonalds dividindo contigo um milk shake de chocolate (o melhor que já tomei), enquanto falo sobre a vanguarda e você sobre Heráclito. E o mais interessante foram seus olhos. Fiz um esforço absurdo para não perdê-los, mas às vezes fica horrível se não acontece.
Do portão de sua casa saltitei até a minha. Flutuando.

Estou apaixonado por um heterossexual.

3h01
1412011dc

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

pequenas prosas do começo de 3012011

esta 200ª postagem.


te vejo no sonho
insistência (muda-trocada) fria.
depois e doce, acoberta-me (feliz algodão), seus dedos recheiam os meus, através da tecida película.
morro ao acordar.

3012011


minha falta-de-vida-quinta-feira, lembra?, liquidificou as dores todas elas: aquela). derramou-as na forma de torturantes gotas salgadas -lágrimas de viado-, ai minha pose de blasé posição.

3012011


nada menos sexual do que o nosso tocar de calos. passam sombras atormentadas na tão bem -puxa! quem diria!- iluminada -avenida- rua, passa aquele -encharcado- maravilhoso colchão de molas.
(anda! catapulta-me para o infinito!)
molas, catalisar: cata-alisar. meus dedos escorrendo no doce trigal -dourado- da sua inerte coxa.
nada mais sexual do que isto.
felicidade.

3012011


feri-lhe -docemente como só a gente entende: legal como críquete- o peito com o destro indicador em riste: intimo!
(ai que vontade de agudar: íntimo!)
enfim, ces't la vie: ínfimo.

no último visual contato um sincero, misericordioso e fraternal -algo como um eterno e potente amor projetado no infinito- beijo ocular.
ser feliz.

3012011


os olhos de você me bastam.
os olhos de você me vivem, né?
são mais do que auto-mantenedores da -cativada- escultura castanha; conhecem um talento -a gente sabe-, na real o talento -aquele.
não basta qualquer um te olhar pra entender, né?
pra TE entender tem que bastar competente intercâmbio.
leia-se -esta maravilhosa coisa!- eu e você.

3012011


o -ripado- disco rasgado nos hiper-superpostos tecidos do recém-desempoeirado (pseudo) lar acompanham a graforragia.
nítidos e legíveis como nossas duas vidas, dois -nossos- corações se balançam no úmido e quente espaço -só nosso- sideral.
são as duas únicas estrelas ali.

hoje, 3012011


não há amor irreversível, lógica ou contra-lógica do amor, príncipe ou anti-príncipe, suruba, outubro ou pós-outubro, amor de reveillon, utópico Guilherme, platonismo de telefone, namoro de armário, ou casamentira explícita, ou paixãozinha pública, ou blackout, ou paredes permeáveis, casamento de balada ou de banheiro, flerte em ônibus, rua, shopping ou parque.
só resta o suficiente e eterno potente -unilateral amor- que -eu invento!- você me deu.
carinho.

3012011

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Grande bobagem

Casal imbatível, eu e o Eduardo?
Que grande besteira!


APOCALIPSE
perto da uma hora - não sei se o suficiente*
(paraíso) as estrelas trigo-luziram, delas despencaram -água fresca & palmeira tropical- suas graças-senhoras.
a lua tosca era fosca -transmutação para umbigo verde no terrorismo que andava. que andava de mãos dadas com(o presente)igo.
(caos) chuva de cinismo. carregado cores insanas peguei-lhe a vida, calejada de precárias armaduras.
os dedos mais bonitos do mundo.
duas tentativas, acuadas, são o mundo, têm o mundo, hoje de madrugada, e sabem disso.

*a gente nunca sabe

(na) madrugada mais linda do mundo, 1912011


Crônica de um janeiro

Leio duas páginas do Foucault. Me desafia a empreitada-biografia-da-Elis-Regina (de uma quase homônima Regina Echeverria); o desfrute é maravilhoso, exceto a coceira nasal pós-leitura. Tentando considerar outros estados de espírito ponho a moça Waleska, no septagésimo quarto A Fossa, uma primorosa tentativa de resumir num bolachão a história da depressão boêmia da elite descolada intelectual quarentas-setentas. Primorosa tentativa.
Ah! Esse cara tem me consumido. A mim e a tudo que eu quis. Com seus olhinhos infantis. Como os olhos de um bandido. Ele está na minha vida porque quer. Eu estou pro que der e vier. Ele chega ao anoitecer. Quando vem a madrugada ele some. Ele é quem quer. Ele é homem. E eu sou apenas uma mulher.
Sobre os livros chocolates alemães inibidos sob plástico, sufocante e alvo véu. Recém-ganhados. Palmeira tropical, charminho lilás, sereia, água fresca, pistache e base vitaminada estão à esquerda desse coletivo de teclas. À direita NIVEA for men SENSITIVE PROTECT, extrato de camomila. Um malbec d'O Boticário. E Waleska cantando.
Pareço mais vivo hoje. Mais do que o dia retrasado, para mim mesmo. Redundante não. Fiquei contente. Com ele de novo. Na despedida, né? Tivemos todos um dia mais ou menos peculiar. Me senti na obrigação de trazer coesão ao rolê. Não foi um fracasso total. Só sei que, se despedindo, nos olhamos. E a incisiva iniciativa foi sua. A acompanhei, naquele misto de vontade e bichinho acuado. Nos despedimos da tarde fracassada na esguelha da esperança. A mais esperançosa. A mais sedenta e seca.
No canto dos seus olhos estou vivendo bem como nunca.
E quem diria... Se soubesse dos teus olhos, não tinha namorado com ninguém não. Basta cinco segundos de recíproca ocular, e me sinto o homem mais completo do mundo. Carência? Não sei mais como definir.
Essa é a coisa mais linda do mundo. Sabe mais? Não me importa mais nada.
Ah! Você está vendo só do jeito que eu fiquei e que tudo ficou? Uma tristeza tão grande nas coisas mais simples que você tocou. A nossa casa, querido, já estava acostumada guardando você. As flores na janela sorriam, cantavam por causa de você. Olhe meu bem, nunca mais nos deixe por favor. Somos a vida e o sonho, nós somos o amor. Entre meu bem, por favor, não deixe o mundo mau lhe levar outra vez. Me abrace simplesmente, não fale, não lembre, não chore meu bem.

1h22
2712011


st #grande sonho

Há uma cena no início do Enigma de Kaspar Hauser, Herzog, 1974, que retrata algo parecido com um trigal sofrendo intensamente a ação do vento e formando enormes e violentas ondas douradas.
Fico pensando se, ao invés de trigo, se tratasse de pêlos. Estar ali seria o meu maior sonho.

1h39
2912011


Sintoma

Hoje pensei bastante em você.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O Amor Irreversível #algo_como_o_sétimo_ou_o_primeiro

I
Pela primeira vez, desde que li Raoul Vaneigem e conheci meu primeiro relacionamento de prezado afeto, no fim de 2008, estou revendo -com tons de irreversível futuro- minha filosofia de relacionamento.
Na última semana tive uma experiência que me fez rever, revisitar e reavaliar todos os meus relacionamentos (enfim, toda a história dessa dimensão da minha vida). Em uma quarta-feira, dia 12 deste janeiro irreversível, no meio dos meus dezoito anos, decidi terminar um namoro que já transbordava dos sete meses, culpado, mas determinado. Muitos motivos. Falta de romantismo recíproca, déficit na prática sexual, vontade incontrolável de ter relacionamentos extra-contratuais, estresse desnecessário, descumprimento bilateral de expectativas, discussões desnecessárias, brigas etc. Interpreto de forma mais resumida dois pontos como centrais para essa minha decisão: o problema das expectativas dentro de um contrato frágil e o meu vício em um relacionamento espetacular, esquecendo algo essencial, a atração pelo meu namorado; problemas estruturais e cansaço, em suma.
Cruelmente, no dia seguinte eu passei uma tarde maravilhosa, completamente livre, satisfeito, aliviado, apenas um pouco culpado (culpa que não resistiu mais do que o passar daquela quinta-feira). Havia entretanto algo que, acho eu, contribuía para esse incrível e eficaz esquecimento ser catapultado. É estranho lidar com palavras, mas nós humanos fazemos isso. Não sei até que ponto posso errar ou acertar. Mas se eu fosse chutar, chutaria que estava apaixonado.
Eu me apaixonei pela pessoa mais linda do mundo. À primeira vista isso pareceria óbvio, mas a gente sabe na prática que não é assim. Qual é a nossa chance em relação à pessoa mais bonita do mundo? Aliás que utilidade essa pessoa tem se eu a possuo? Enfim, é um dado. Passei o fim de semana inteiro aflito pensando na hipótese de desfrutar de uma relação com essa pessoa. Segunda-feira saí com ela e uma amiga (espécie de prerrogativa para o bom senso). Terça mais uma vez, e quando nossa amiga se foi continuamos -por conta própria- a conversar, enquanto as horas do dia findavam.
O moço só havia conhecido relacionamentos com mulheres (embora estes mesmos tenham sido poucos). Referíamo-nos a ele, então, como heterossexual -ainda que ele mesmo não gostasse de se definir. Algo que inclusive aumentava a minha aflição, já que, por definição, heterossexuais masculinos não têm relações afetivo-sexuais com homens.
Havia outra coisa que me afligia em muito: o moço era belo. Em excesso, como sugeri em uma oração-preâmbulo; era fisicamente belo, com a voz mais bela, e bela mente sensível e inteligente. Isso é agora uma certeza absoluta para mim, foi naquele momento a minha maior intuição.
Mas, também em termos de intuição, me deixei guiar -e ele também, creio- por olhares e toques mais ou menos demorados, por gentilezas mútuas, favores exclusivos, charme.
Como eu o quis.
Como me quis. Bom, não o sei. O sonho. O crio e recrio mentalmente. O dia inteiro.
Através das horas.


II
Depois do Fran's Café andamos mais pela escura e paulistana noite sem estrelas. Me acompanhou até o metrô, mas não conseguimos nos deixar. No ponto de ônibus sugeri-lhe a conversa-aquela. Conversamos ininterruptamente durante meia hora apenas sobre a hipótese de eu lhe dizer aquilo que ele supunha saber.
Enfim.
Aconteceu.
-Lucas, eu estou afim de você. E gostaria que você, se possível, quando se sentir confortável, me respondesse duas perguntas. Se você ficaria comigo, e se você quer ficar comigo.
Um texto que eu havia calculado com uma semana de antecedência. Deu certo, porque ele aceitou.

No fim de tarde do dia seguinte à quarta-feira (ironicamente uma quarta-feira!) estivemos no Fran's Café conversando sobre sua, minha e nossa vida -natimorta.
Mas foi uma experiência de quase-morte. Na real, uma experiência de morte! E de renascimento.
Enfim, a experiência havia sido maravilhosa. Mas, longe de uma barreira de gênero, sequer uma discrepância da ordem da beleza, simplesmente havia um terceiro elemento; uma possível incapacidade para expressar determinados sentimentos dentro de uma relação a dois, o que impossibilitaria a recíproca e, então, o relacionamento. Algo para o que havia me alertado minutos antes de me beijar. E me beijou. Disse-lhe de forma a encorajá-lo -não sei se funcionou- que eu pagava pra ver, que estava assumindo um risco que é o risco que assumo em todos os relacionamentos. Disse-lhe:
-Eu só sei que eu quero ficar muito com você.
E ele disse:
-Tendo em vista esse argumento, não me resta opção senão...

Enfim, estávamos no Fran's Café, eu na maior ressaca de amor que tive a oportunidade de viver. Senão a única (digna), naquele fim-de-tarde-quinta-feira. Apesar de tudo, ele não conseguiria responder na mesma moeda que eu nossa troca de afetos. Essa disposição era inclusive uma intuição pela qual se guiava antes de termos ficado. Parece que eu fui a prova que ele precisava para ter certeza de que, não o gênero, mas simplesmente o relacionamento em si que fosse o problema.

Nos dias seguintes acabei percebendo que eu seria muito idiota se eu o ignorasse no futuro. Me sinto um igual perto dele.
Mas os dias ainda não passaram.


III
Todos os meus relacionamentos, nocivos e não nocivos, abertos e fechados, fixos e voláteis, de armário e de rua, duradouros e natimortos, todos esses tipos, que tive a oportunidade de conhecer, sinceramente representaram na minha história tanto quanto representam nas narrativas de ficção romântica dos livros em voga para o senso comum na última estação.
Depois de terça, quarta e quinta, posso dizer que uma intuição minha foi confirmada; de que a estrutura de um relacionamento é secundária. Não é importante de fato se é uma ficada, uma trepada, um relacionamento aberto, namoro, casamento. O mais crucial é estar amando. E a questão é: como vou amar plenamente alguém que não conheço?
Tudo o que tive, e esta epifania aconteceu no meio de uma enxurrada de lágrimas na noite da quinta-feira, até o precedente ralacionamento, havia sido pautado primeiramente pela estrutura da relação, jamais simplesmente pela paixão mútua, pelo estar de fato afim, pelo simples conhecimento da pessoa a qual se admira, pelo fato de não haver uma contemplação plena de determinada pessoa -algo que, fatalmente, mesmo eu conhecendo melhor meus parceiros mais duradouros, jamais aconteceu.
Esse reconhecimento mútuo foi importante para mim, porque me deu mais consciência do que eu mesmo represento. Ficar com uma pessoa que eu admiro há semanas, representa também de alguma forma um certo tipo de recíproca: os dias vão passando, a gente vai se conhecendo, e se mesmo os meus posicionamentos (para a maior parte das pessoas ingênuos ou imaturos) são reconhecidos e lidos de forma coerente com as minhas atitudes, e isso não é um impecílio para a relação, significa que a pessoa do outro lado justamente está lá porque quer e vai fundo porque tem real vontade. Isso não é uma regra geral, mas creio que com o moço foi assim.
Simplesmente, já disse, porque me senti um igual perto dele. Porque notei nele algo que persigo e que em poucas vezes sondei nas pessoas com que convivo (e é como se pela primeira vez em São Paulo eu tivesse certeza disso, o que me dá mais força para continuar vivendo como sei viver): a existência de um projeto coeso e lógico pautado pela busca de conhecimento das próprias expectativas e pela interpretação das próprias expectativas (interpretação e lógica: instrumentos individuais). Ou seja, admiro o Lucas porque o considero uma unidade nítida e precisamente delimitada, que não sabe viver sem sê-lo. Me sinto menos só, persigo algo que pareça este projeto, algo que não vejo na maior parte das pessoas.

Não sei se me atreverei -salvo crises de carência ou de libido, não sei vaticinar o futuro- (tão logo) me dar o luxo de me relacionar com pessoas que realmente não me acrescentem. De superficial já conheço tudo. Estou apaixonado pela ideia do nada-rígido, estou apaixonado pela ideia de encontrar pessoas-deuses, esses fenômenos da cidade que, por quedarem na cidade, são dificílimos de serem captados. A multidão gera essas aberrações, mas também as guarda. E viverei assim, em busca de iguais.

Não mais a determinação "quero apenas ficar com você e ver o que acontece", mas simplesmente a lateral -e óbvia- "por que eu deveria ficar com alguém hoje, e por que esse alguém seria você?"; simplesmente o projeto de saber exatamente o que eu quero, quando e por quê; essas expectativas. E fica muito mais bonito com segurança.
Algo que, depois de descobrir que eu não sou mais o único único em São Paulo, se tornou sensivelmente mais fácil.
E eu devo isso tudo ao grande amor irreversível da minha vida.
Viver é um barato.

2312011

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Uma espécie (peculiar) de crônica. #Amor [3]

Minhas mãos cheiram ao pós-dia suado. Teimosamente. Elas acordam o corpo inteiro. Ciclicamente, trazem para cima, para baixo, para um lado, para o outro todo o seu corpo ligth-acafetado, vestido no branco aceso da luz negra, para cima, para baixo, para um lado, para o outro toda a sua carga, logo de manhã, logo de tarde...
Explosões temporais de cândido amor.
Um. Se-gun-do.
E de repente estou livre.
Pingos de suor verde-limão piscando na pista da vida.
E viver é o maior barato.

23h21
812011dc


Sonho: Choro, choro...

Era bem nítido no sonho. Você me amava.
Eu estava ali deitado, de costas para a mulher da minha vida, quando você, o homem, seu dono, me cobriu, com seu couro dourado, o trigal, aquele que o insistente vórtice do tempo só extinguiria no fim de um de nós dois, o que representaria automaticamente o fim de ambos.
Não havia roçar de bocas, umidade, fluido salivar, nada, só havia troca de respiração, um roçar de dermes, um mútuo pentear, uma aproximação, um carinho não explícito, mas um amor vergonhosamente exibicionista exalando direto do invisível para os olhos lacrimejantes dos demais admnistradores de vícios na rua. Aquilo era o bastante, e aquilo era o amor.
E o maior pesadelo da minha vida foi simplesmente acordar e descobrir que amor irreversível da minha estava na sala contígua, sozinho, e eu nada poderia fazer por nós.

Não sei se lhe interessa saber disso, mas você me amou nitidamente no sonho mais bonito da minha vida.

0h27
1312011dc


Sinto que é hora, salto!

"Se me der um beijo eu gosto
Se me der um tapa eu brigo
Se me der um grito não calo
Se mandar calar mais eu falo"
Recado, Luís Gonzaga Júnior

Quarteto em Cy ilumina(ria) mais ainda a amarela (e chorosa) lâmpada do poste central -no risonho e lateral epílogo.
O poslúdio foi magnético, amarelecendo as coisas em ritmo cada vez mais agonizante. Houve um vencedor, e fui eu. Sempre nós, sempre nós, não entendo, já não entendia. Compreensibilíssimo, eu, tu, nós, vós, ele e eu, ali, onde havíamos começado, e estávamos terminando, claro, evidente, clarividentemente vaticinado, como a Razão não diagnosticara ainda?
Dias com pseudo-psicólogos da cidade-mundo-eu (uma psicogeografia delimitada pela mais distante partícula -em relação ao centro gravitacional), noites, madrugadas, também manhãs, açaí com cranberry sauce, barbas, faltas de barbas, uma semana, mais de uma semana, uns dias a mais, e nós lá, e você querendo, e eu não querendo, ou melhor, o contrário.
Éramos dois. Fomos. Somos dois-quase. Hoje. Digamos, con permiso, agora.
O Quarteto em Cy, com força e com vontade, me prometem, amarelecidamente, chorosamente, risonhamente, outros outubros irreversíveis (e portas matinais castanhas e abertas como meus olhos abertos e castanhos).
Ces't possible, ma non troppo!

"Mas se me der a mão claro aberto
Se for franco direto aberto
Tô contigo amigo e não abro
Vamos ver o diabo de perto"
Recado, Luís Gonzada Júnior

0h42
1312011dc

sábado, 8 de janeiro de 2011

Uma espécie de crônica. #Amor [2]

Na Fun House amores físicos.
Na parede amores uspianos.
The dog days are over, the dog days are done, e na melodia a certeza de tempos maiores, menores, dinâmicos, mais do que os pré-suados.
No negro tijolado dois corpos bem vestidos de branco neon se amassam, mãos que passeiam, barbas recém-quase-feitas que se roçam com violento calor. Líquidos que se misturam na batida da lotada-cotada sala: suor, cerveja e saliva.
Uma mão vestida com brilhante branco de ciclo-festim dança com sua garrafa fálica, e os dois fálicos homens ciclo-circulam, para cima, para baixo, mais pra baixo, ainda mais pra baixo, com o gingado rítmico do mundo.
E o mundo era eu e ele.
Na pré-dança ao meu estimu-lado. Melhor mesmo não ter desistido. Um belo passeio de bicicleta não serviu mais do que um catalisador do meu espírito.
Na Fun House amei um coração alcalino.
Amante efêmero-radioativo. Um homem. Um homem. Um homem.
Que falta me fazia um homem.
Decidido na chuva de secreções humanas: os dias de cão se foram, restam na belíssima ciclo-vida apenas outras manhãs plenas de Sol e de luz.
Na porta das quais meu amor me espera.

6h39
812011dc

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Carta a Samanta (in memoriam)

Chove chove chove.
Presentes de natal amontoam-se mutuamente sobre a mesa ex-branca -agora cinza, de tristeza. Um rádio de pilha verde-vovô, um malbec vinho-tia, uma bruxinha chamada Margie que ri alucinadamente quando você bate palma...
Aliás, quando você batia...
Um par de canetas cor-de-mãe, ex-presentes também. O Roberto Carlos cantou hoje de 1966 a 1972. Não me importo se ele está cansado, amanhã cansarei o Wilson Simonal ou algo assim. Hoje ouvi Sua Estupidez, do álbum de 1969, a música que eu canto pra você quando...
A música que eu cantava pra você (ao menos mentalmente, faz tanto tempo isso) para nos reconciliarmos. Incrível como essa água desde manhã me confinou em pensamentos domésticos. Olhe para o Natalino. Ele precisa de uma tosa, vergonha na cara, canina alegria, banho, e por falar em banho, já estou indo aí pra gente se encontrar e...

Nossa! Agora percebo, Samanta. Como um dia de chuva pode ser prejudicial.



St #Amor

A amarela lua da poluída cidade sem estrelas se despediu à tarde. Logo ao fim da tarde que é quando o luminoso Sol se prepara também para descansar. Ficou um breu.
O luau que eu tinha imaginado se transportou para o lugar das meteorologias, climas, suicídios, e o começo da noite luarenta e não luarenta lubrificou meus ictéricos olhos.
O lumpemproletariado pegava fogo nas ruas, os dourados e luminosos campos de trigo da minha imaginação criavam densa lubrina cor pastel, e em meio de tudo isso apanhado em brilhante lucão agonizei. Nem vi farol, farolete, lucerna, vaga-lume, lucidez minha se perdeu...
Lúcifer.
Lucilante naquele preto todo algo de resto-coração pululava. Luzi. Luzi. Luzi. Mas para o lar das longitudes e latitudes meu Sol-lua havia se transportado.
Eu sou uma menina lucípeta, atrás do meu Sol-lua lucipotente, em busca de um amarelecido lucro aclimativo, lucrativa empreitada do ouro.
Ludibrio as cores de mim, quero um prisma. Mais do que todo o prisma, quero aqui ver lufar a areia, e quero lutar para exterminar a lugubridade da Sol-idão.
Ele-lume.
Eu lunática menina lucípeta, presa ao trigo-lustre dos seus cabelos, na nossa idealizada luxúria.
Lubrificados olhos no fim da tarde-arde, Sol-lua me abandonou, e eu perdi a vida.



Dois breves comentários sobre Roberto Carlos

I
Vocês já pararam pra reparar no asfalto da ruazinha à uma da manhã com o som dos postes de luz e com os tons da lampadinha verticalóide acoplada à roda da bicicleta? Já repararam na cor do asfalto (que brilha com a purpurina de quartzo refletida insone)? É preto-claro. Não é cinza, é outra cor. É preto-claro sim!
Na ruazinha eu estive pedalando. Nas ruazinhas. Peguei a Serra de Bragança até o final, depois a Conselheiro Carrão, a Taubaté, subi até a Praça Sampaio Vidal e fui em direção à Emílio Mallet (ou Emília Marengo?), desci a Antônio de Barros, virei na Cantagalo, depois a Coelho Lisboa, Praça Sílvio Romero, Padre Adelino, Bonsucesso e estou em casa. E quem me consolou a estranha noite foi o Roberto Carlos. As coisas que ele canta fazem pouco sentido. A princípio. Quando você está na vibe elas fazem mais sentido do que muita coisa (como a falta de música, como o moralismo, como a putaria, como o excesso de racionalismo, como a falta de cérebro). "Foi pensando em me guardar e querendo não querer, me dizendo pra esquecer, foi pensando só em mim que eu pensei só em você".

Vibratos peregrinam na noite [sem estrelas].


II
Atravessei a Avenida Paulista. Pela metade. No meio do automobilístico rio, à espera das luzes arrogantes, "esqueça se ele não te ama! esqueça se ele não te quer!", e eu morri.
Sete vezes.



Propostas de Animação Museológica

Folheando um caderninho que preenchi em 2008 percebi a maravilhosa contribuição que o meu curso técnico de museu me deu. Passei a entender depois de tal curso como o museu ocupa uma função de perpetuar a desigualdade social ao registrar como legítima ou "erudita" (em outros termos, maior) uma história ou um estilo de vida com antepassados inteligíveis.
Pensando nisso, durante alguma aula do curso concebi duas ideias de atividade artística. A primeira delas [2] não tem ligação direta com o problema da segregação artística, mas a co-tematiza comicamente. A segunda [1] tem a forma de uma crítica à expografia, está então diretamente relacionada.

[2] mulher morta
Um quadro (uma pintura -a óleo, de preferência) retratando garota mais ou menos nova, entre 12 e 16, branca e com cara de peixe-morto como nos quadros do neoclássico, tamanho médio, cabelos castanhos caprichosamente arrumados (trançados ou não, de preferência decorados), olhos azuis (de preferência), aparentemente úmida, impressões de sufocamento, olhos abertos, pupilas dilatadas, cabeça mais ou menos tombada (caída), vestindo um vestido gigante, composto por muitas camadas (a menina como sufocada por roupas), moscas, fundo negro (marrom ou preto), moldura elaborada (meio rococó).

[1] Grande esfiha de carne (flamejante), gordurosa, no espaço expositivo
Trata-se de uma esfiha de carne (generosa no tamanho) fixada (pode haver um prego para causar efeito) na parede (de preferência que não seja uma dry wall) do espaço expositivo, e que permaneça neste o tempo que for necessário, sem manutenção, e com o risco de apodrecer ou impregnar o ar do ambiente.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Balanço de dois mil e dez.

Comparando meus escritos e digitados de 2010 com os de 2009 estou reparando que o número de bloquinhos reduziu drasticamente e o número de arquivos de texto-poesia também reduziram. Em contrapartida tenho papéis de anotações e esquemas de estudos digitalizados que não têm fim. Entrei na faculdade, passei a estudar pra caralho. Me senti particularmente inspirado no início do ano (tive um amor platônico no exato reveillon, vestibular, viajei etc.) e também na semana em que frequentei a Escola Livre de Cinema e Vídeo de Santo André, no início do segundo semestre, quatro dias que conseguiram me inspirar durante um mês.
Sobre as férias...

Carta de amor do ano novo

Oi Guilherme. Minha vida muda só tem ouvidos para a garoa arrogante. O resto da noite passada está aqui, entortando a minha vista e fazendo com que os paralelepípedos dancem em um ritmo marítimo. Do outro lado da rua uma pomba está andando, como andam os humanos, porque está convicta de que os imitando conseguirá entrar invicta dentro da padaria algum dia. O céu inicia o bocejo da manhã, que é quando as coisas começam a clarear, a rua, a árvore, o prédio, o portão, o cachorro, tudo cada vez mais nítido. E eu estou prometendo a mim mesmo que os dias serão cada vez mais irreversíveis. Se está ao meu alcance eu não sei, pode ser ingenuidade. Prefiro pensar que não. Prefiro pensar, Guilherme, que os meus atos têm sentido. Guilherme, as coisas não se mensuram. Eu vou viver ao teu lado nesse mundo imensurável, Guilherme, e o mundo será nosso, apenas, unicamente, exclusivamente, nosso. Nós nos...
Guiamos da maneira que quisermos, Guilherme. Guilherme, eu não espero que você leia isso algum dia, você imaginaria "que raio de sujeito é esse? esse fraco, esse fraco, esse fraco", mas eu garanto, que é inevitável, o meu amor irreversível me içou, e agora eu estou muito longe do chão, há um...
Guindaste invisível, quase metafísico. Guilherme, quando os fogos arrebentaram no céu eu estava no metrô, provando para mim mesmo que eu sou a pessoa mais forte no universo, mas você humilhou a minha filosofia quando, naquele boteco com estranhos recém-conhecidos você me olhou, e fez exatamente aquilo que o amor da minha vida faria para me conquistar. Então com as lágrimas que pululam do meu ser eu senti um aperto no coração de não poder te reter para sempre, na penumbra da luz sensual e tênue da sinuca da minha vida. Você me encaçapou e depois abandonou o bilhar, desligando a luz da minha felicidade, apertando o interruptor do meu coração. Não me admira ter chovido depois. Você levou consigo toda a estabilidade, você e o seu sorriso levaram o meu oxigênio, e agora eu me sinto morto. Acho que estou sento levado à...
Guilhotina, cumprindo essa pena horrível, que é a angústia da esperança, à qual ainda não me acostumei. Sim, Guilherme, porque eu sou pós-graduado na ressaca do amor, e agora eu estou imerso em um fluido que não existe, e quando eu menos esperar estarei em queda livre. Agora a minha vida não tem outra função senão te encontrar, amigo, e eu sequer sei por onde começar.
Guizos de natal sinalizam a morte de um ciclo e o nascimento formal de mais uma escravidão temporal. As mulheres idosas tiram das portas suas...
Guirlandas. As renas do Papai Noel abandonam a televisão e vão repousar guardadas em gavetas. E quilos de dinheiro são devorados em labaredas coloridas na Avenida Paulista -e o meu coração é devorado por você-, lâmpadas azuis, brancas, vinho barato. E a Rua Augusta, e todas as suas...
Guildas, tribos, seus botecos e suas boticas, sufoca na garoa intragável. Mas a culpa de estar garoando é sua Guilherme, porque você me abandonou, e agora a minha incubência é te achar a qualquer custo, já que não resta dúvida de que você é o meu príncipe. Porque você olhou para os meus olhos como um homem apaixonado olha, e com uma simpatia hipnotizante que me deixou estupefato, e não foi com "uma" simpatia, e sim com "a" simpatia, a simpatia que eu esperava para obter a felicidade, a tua simpatia, Guilherme! E você me ofereceu meia garrafa de cerveja, Guilherme, e você não faz ideia do que isso significa, amigo. Guilherme, você me perguntou meu nome, Guilherme! Guilherme, você foi embora, mas me deu de presente a maior esperança que eu nunca tive, com o seu sorriso moleque, sua simpatia gigante, seus olhos maravilhosos e aquela meia garrafa de cerveja. E me disse que lhe encontrasse em uma sexta-feira, na pizzaria ali perto, apenas essas coordenadas, logística simplista. E então você deu meia-volta e foi embora, e eu corri atrás de você, mas nenhum de nós dois podia anotar informações pertinentes, por falta de recursos físicos. Então eu só sei que você se chama Guilherme, e que frequenta o Vitrine às sextas-feiras.
E a minha vida está prestes a dar uma impossível...
Gui-nada.

Guilherme me guiando guitarrante, guildas, guizos, guirlandas, guilhotinas, guindastes, guichês, guisados, guilhermes mil... Alvoroço em meu coração, amanhã ou depois de amanhã, resistindo na boca da noite um gosto de Sol...

janeiro 2010


texto

título que já perdeu acena
porque a conta do analista
me foi paga com o corpo
docente
doente
de bombeirinhos

2010


caroço-angústia-suspeita onipresença,

eu disse ao Francisco no sábado passado que o custo-benefício dos meus relacionamentos estabiliza-se com a negação das relações virtuais, a favor das trocas reais, relações verdadeiras.
ele me disse que, se eu sou convicto disso, sou a pessoa mais bela.
é uma pena que os meus amores não-perus não sintam por mim um amor tão avassalador que os faça superar seus medos, e também é uma pena que esse medo os impeça de que vivam amores avassaladores.
e enquanto isso, na cidade, o amor funciona como deve funcionar, sob este céu sem estrelas.

8 2 2010


por que o chocolate que você me deu me espia e as flores estão tão diferentes se até a porta para o quintal está aberta?
por que o ventilador teimoso gritando feito uma cigarra continua balançando de um lado para o outro, em um silencioso "não"?
por que o violão está mudo mesmo com todas as possibilidades de poesia que noite quente e estrelada oferta?
e por que escrevo estas linhas se tudo acabou definitivamente entre nós?
deve ser porque... definitivamente. acabou-se. tudo.

farmácia, 8 2 2010


você (realmente) acha e tem todo o DIREITO
de mudar a minha vida (assim -sem mais nem mais nem mais)
enquanto os sentimentos-pulga pululam dos meus poros e são arremessados uns contra os outros na garrafa térmica do meu ser, teus olhos castanhos -lindos olhos castanhos- mais fundos que o braço da floresta penetram nos meus e se instalam no meu intelecto-ecto-ecto, e impossibilitam o antigo Eros de respirar com o empoeirado ar da semana passada.
ou você queria apenas mais um beijo?
como sempre foi certo que o meu futuro seria promissor... sempre foi! eu senti que nas últimas semanas que a minha vida subia uma escada ruma a níveis cada vez mais catastróficos, fabulosos e fantásticos. e eu venço no cassino do amor, eu já posso virar para o fevereiro passado e gritar que EU VENCI O CASSINO. e isso tudo under meus abstracionismos ultrapassados.
mas é porque você tem o DIREITO.

18 2 2010


empecilhos em pé são cílios
de pé nos teus sexuais olhos
que dançam na minha fálica cabeça
mesmo que nem direito eu te conheça
dançam com a paixão mineral
co'a qual brilham

fevereiro ferve na rádio
dos atômicos tímpanos do dia promissar
as coisas todas não fazem ideia
de que eu sou o irresponsável cantor
na janela do frio e ignorante ônibus
no qual brilho

o dia é nosso
o dia é nosso sim
muito. muito.
o dia é muito. muito nosso

20 2 2010


o celular toca
eu tenho alface no dente
o fio dental corre
freneticamente
eu pego o aparelho
tão esperançoso
o fio dental dança
na boca raivoso
largo o telefone
alface no dente
quem é que me liga
amigo, parente
ou será o amor
que conheci quarta-feira
que imerge das horas
pra contar besteira

20 2 2010


COMUNICADO

não entendo por que, mas meus dedos, que roo incessantemente, estão cheirando ao teu beijo com dentes escovados. este frio, que se torna quente, que é o diálogo-amor das dialéticas-línguas, tem um porquê gutural. porquê da vida, combustível do meu sangue, saliva da saliva, antisséptico do meu ser.
(tua boca muito mais alva, gostosa e
re. fres. can. te.)

2 3 2010


a melhor poesia que eu escrevo
tem as letras do meu amor
eu luto pela poesia - do meu amor cogniscível
subcuecante e supracardíaco, o amor difícil
das centenas de horas, agoras, aforas
que chora, que flora, que adoro, deploro, que adorno, que chôro

a melhor poesia que eu canto
tem o cheiro do meu amor
eu luto pelo aroma - do meu amor reconhecível
lácteo-pigiante, naso-sudoríparo, o amor sensível
meu amor escovado, lavado, chupado
lambido, marido, na cama, sacana, deitado, jogado...

esperando minha boca

5 4 2010



Conheci o atual namorado Eduardo em junho, mais ou menos na mesma época em que havia conhecido o Daniel em 2009.
Participei de um assalto mais ou menos violento. No qual eu era a vítima.
Na volta das aulas, após nervoso processo seletivo, entrei na Escola Livre de Cinema e Vídeo de Santo André, onde, por falta de vergonha na cara e condições intelecto-temporal-geográficas do rolê eu não conseguiria estudar -excentuando a possibilidade de fazê-lo tendo como efeito um aumento na minha self-mortalidade.
Em outubro fui para o ENUDS e nos meses seguintes entrei em contato com algumas atividades que testaram meu projeto de vida, hipóteses, ideologias etc., corroboraram, aprimoraram, acrescentaram.
Terminei o caderno devolver a Eros Tesão este caderno de pornografia número XXXX-XXOX (não ligar a cobrar) ou esta caligraphia calipígia ou amor irreversível.
Os últimos dias de dezembro foram um saco.

[fragmento]

I
começa com um beijo, mais ou menos molhado, mais ou menos arbitrário, mais beijo do que desejo, mais vontade do que receio. incrivelmente.

II
é como se meu inconsciente dissesse
CORRA, VÁ EM DIREÇÃO A ELE
eu simplesmente podia ter dado meia-volta, mas não
CORRA, SEJA ASSALTADO
todavia aquilo me livrou de ter que arranjar explicações para o fato de o celular ter quebrado vinte minutos antes do assalto.

III
na queda quebrei um dente

IV
a teimosia, se bem estruturada, é uma virtude. por bem-estruturada entende-se que há uma lógica-argumentação suposta.
ora, negar a teimosia, que é uma condição geral da sociedade, é hipocrisia.

V
pavores de mim. os vaticínios têm durado facilmente até às duas, duas e quinze da manhã.

VI
eu posso seduzir facilmente o diretor. só preciso de um motivo. que tipo de poder ele pode oferecer?

s/d


os meus amores são natimortos
a maior parte deles não durou mais do que dez segundos

s/d


quando nossas sombras se fundiram, na rua, senti catalisarem-se nossas emoções. (desde o início achei que nossos corações trampolinharam na mesma velocidade.)
e então você me disse "oi" na rua, escura, senti que se não desmaiasse, flutuaria. escuridão. e nossos corpos se juntaram, na esquina. senti a eternidade no meu fluxo sanguíneo. esquinados, nossos lábios labiaram-se, na noite senti que nada mais importava. e, logo, o amor dos homens, personificado no negro líquido cardíaco que bombeava alucinadamente, converteu-se no alvo e cândido néctar morno da vida, que jorrou energicamente rumo ao céu.
da boca.
preta.

s/d


se tornar adulto é um crime contra a estabilidade e a esperança contínua do mundo mágico.

um par de pernas muito finas pouco presente quer estar em casa. passeia confiado e descorajoso nas paredes brancas de luz apagada. (da mente castanha.)
confinado na atmosfera gelada da estação, quer se morfinar.
e vai conseguir.

ele senta nos sofás brancos mais ou menos insípidos da cinemateca e cruza o par de pernas suspirante de satisfação em seu orgulho-dezessete. ele é feliz e sabe muito bem.
quer olhar. consegue. bate-bate, posso ouvir daqui. o céu nublado anuncia a noite sem estrelas da cidade.
vai começar a sessão. e depois dela, ele será apenas um pouquinho menos o mesmo.
(mas sabe o que quer.)

s/d


quando caiu da mesa acordou. irada. quero dizer, que seu cabelo assemelhava-se à vida em sua explosão no limiar da intensidade. e olhou pro chão, e enxergou. e de repente se viu homem na escrivaninha, mas abandonou a carteira semi-bravo e quase-mudo, pondo a preta blusa na morena derme, mochilando-se e se dirigindo à porta. mas quando saiu estava branco, e as panteras que saíram da floresta em sua frente se esforçaram para violentá-lo. correm muito, e caiu em buraco, para uma boate gay, e aí era colorido. e vida passou a fazer todo o sentido. limites estreitos. estritos. uma boca molhada, saborosa, e um drinque cítrico. até que perdeu o chão. quando caiu da mesa acordou. irada. quero dizer, que seu cabelo assemelhava-se à vida em sua explosão no limiar da intensidade.

s/d


passa por mim a nuvem do amor ultrapassado
pisa no fundo dos pés de galinha
me reconhece
sabão de marchinha
beija minha nuca - certeza
filho da cidade - é normal
eu te ver assim - no circuito
continental - vai um biscoito?
vou num café genial
depois da película - audiovisual
vem vem comigo menino
ultrapassado tá bom
não não insisto mais, cara
eu vou seguindo na marchinha
a gente se vê dia desses,
eu sigo marchinha - sabão

s/d


(estrela de topete)
você foi pornografada em mim
estrela de topete e rala barba
estrela da assimetria
pornografada em mim
eu estigmatizade
você star-beldade
hetero-liberdade
você Sol eu Plutão
marginal coração
de estelar desejo
celestial submissão
daqui do inferno vejo
a sombra do avião

estrela de topete
pornografada em mim
você funciona como um deus
tô nas tua - eu no teus

s/d


quando ele chegou viu o chão pintado de assombrosa escuridão
sentiu tanto medo, mas tanto, tanto medo que desejou também morrer por um instante
[nada mais preocupante que a dúvida]
tentou respirar uma duas três tentativas -passivas! metabolizar de qualquer jeito, a qualquer custo
QUASE MORTE
deu meia volta, e outra, e outra volta, muitas meias voltas mentais
o chão assombrosa escuridão, sem previsão de chegada
amarrada ao não dito, preso, acorrentada na insegurança sua alma se matou cinco vezes (que era o número de meses)
vê-lo o outro, ali quietinho, com terceiro, rindo sim, grudado assim, de qualquer forma, sem mim...
[e o fim de semana mal tinha começado]

s/d

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Balanço de dois mil e dez; Prólogo.

Sistematizarei este balanço diferentemente do precedente. Pra começar, tem um prólogo!


Prólogo

Esse primeiro texto eu o escrevi em 2009, na segunda metade do ano. Acho que demorei uns três ou quatro meses para concebê-lo, já que eu não me debrucei sobre ele de forma sistemática, mas apenas ocasional. Ainda assim o considero um dos mais bem acabados que eu já fiz.
Não tive coragem de publicá-lo pela sua extensão e pelo caráter extremamente subjetivo do texto -ele é um pouco autobiográfico. Mas a estética me agrada muito. Não sei se seria capaz hoje de reescrevê-lo. Mas acho que ele representa muito bem como uma crônica os meus dezessete anos.
Até agora não achei um título satisfatório.
Semelhança com Oswald de Andrade não é mera coincidência.
En-fim.



s/t
ou
Admnistrador de Vícios
Vida e Peste


1.Prelúdio

-Se o metrô desligasse meia noite, não haveria toda essa folga!
A lógica só pode ser um instrumento divino, pela imperfeição terrena.
Por entre divagações e divulgações similares, passava, até experimentar as duas longas pernas metálicas e elétricas, sra. Eros. Outra administradora de vícios, preocupada com o horário que queria ter, quando enfim tudo beijaria o que contempla.
-Existem sujeitos bacanas.
Suspirava. A noite fora. E amanhã iria novamente.


2.Da meia-noite

Pronto. Era a presa.
-Algumas notas podem não parecer tão rápidas.
Seria isto?
-Notas que perderam o som.
Era sua imaginação trabalhando. Mas não importava.
-Bastet ou Foucaultlino?
Era o nome de seu filho em questão. Mas ainda não era tão tarde, e o passeio foi desviado. Como em todos os âmbitos, era a hora de investir. Sra. Eros e sua bolsa de valores morais seguiam.
-Finalmente descobrirei se existe de fato vida pós-Clínicas.
Não. Não permitiria mais a si sonhar. Queria ainda desperdiçar sua estética cerebral.
-Oi.
Aquele inferno chamado espera.
-Oi.
-Err... Qual é a sua operadora?
Esboçou um sonho.
-Depois da meia-noite, todo escravo vira um ligador.


3.Platonismo

Durante a aula de Psicologia Prática Relacionada aos Problemas Interpessoais (PPRPI), vegetava. Seus amigos até lhe contavam.
-'Cê pode tentar. Não! 'Cê vai até conseguir.
Não era o desafio, era o tédio. Arriscou-se ainda assim, e lá era. Todavia, um ser permanecível. E vegetante de tantos nutrientes.
-A esse fenômeno daremos o nome de Sabedoria Absoluta Pessoal e Democrática, que chamaremos de SAPD.
Também odiava as pessoas estilo stand up, feito a professora parcial, mas o importante era a ternura d'outro.
-Depois da meia-noite, todo escravo vira um ligador.
Risos.
-Como você se chama?
-É Augusto.
-Belo nome.
Pieguices e burocracia.
-E o teu?
-É Ynglid.
-Como?
-Ynglid. Tipo Ingrid, mas com L no lugar do R.
Risos.
-Inusitado.
Cada palavra soava mais impossível, mas o sujeito era de uma autoridade tão incrivelmente vaticinante que sra. Eros lhe desabou.
-A arbitrariedade da SAPD se dá com a coerção psicológica.
Abandonou a lição.


4.Escalpelar

Mas, como é sempre para os ateus, quem dita as regras é o corredor.
Ynglid era apenas uma plebéia, não tinha direito ao carnaval dos grandes. Era ali, na diagonalidade do seu espaço, apenas a porca da seção inferior da infinita máquina social.
-Sociabilismo! Doença!
Mas tapava os ouvidos de alienar.
-Destruir o dinheiro! Destruir o dinheiro!
A crise era intra; exoesqueleticamente, tudo indicava normalidade; o índice geral de proteínas mantinha-se, como as manhãs.

Certa folga um sujeito aleatoriamente chegou-lhe.
-A moda para o inverno agora é o convívio.
Não lhe deu muita bola.
-Poético.
-Não! Real!
Não esperava a réplica. Quando se dera conta da dimensão da filosofia, o inconfidente já zarpara, estava à sombra de alguma maravilha arquitetônica.
Sra. Eros olhou para fora, a procurá-lo, e só achou o que acharia naquele lugar; faraonismos exclusivistas.
Apoiou a cabeça sobre os braços, no jazz.
Dormiu tarde.


5.Anti-gravitacional

Sobrancelhava pra tudo. Depois de uma fase percevejante resolvera nascer, e desconfiava dos lados, dos ângulos, das linhas, das bissetrizes e todas as Beatrizes que lhe emboscava.
Com os amigos, era uma lixa.
-Comida de tiozão não rola.
E eles tentavam engolir, mas não ajudava.
-Você lembra lembra lembra lembra?
-Por que eu ainda insisto em me afirmar imbecil saindo convosco?
E o mal-estar então coloria além das placas de queratina. Mas os pobres pobres não desistiam de tentar calmar-lhe.

Quase-sucesso. Extraíram-lhe, aquele dia, um mol de civilidade. A calmaria, contudo, estatuetava-se em platonismo.
-Talvez até guarde uma ternura secreta pelo meu pai. Mais cenoura?
-Não, obrigado. Como assim, Ynglid?
Eram brisas de aspirantes a psicólogos, com seqüelas de lisergia física e artificial.
-Não sei. É um sentimento azul.
E a trupe gargarejava de solidariedade.


6.Selvageria

Como tendia a sexualizar tudo. Carecia demais. Pensava amplificado, e isso já lhe causara tensões. Mas sua linha de morte era uma linha de trem, e vocês sabem como isto funciona pós-revolução industrial.
-Que eu vou com tanta intensidade que lhe arranco a língua a dentada.
O susto era dela, dele, de todas e todos. Se apaixonava, e depois pensava com tanta intensidade que abria os olhos e já estava no metrô.
-Como a vida tem sido dura.
Clichezismos e lágrimas crocodilavam pelas suas curvas satanistas e salmão. Era um muro desabando.
Tijolos de abstração.


7.Ocorrência

Sra. Eros era errante corpo dentre aquela gaiola chamada parque. Suas banhas sorvetantes choravam litros de suor agridoce.
Na sua cabeça um foguetório; que ela nadava em banheiras de uma geléia brancacenta e amarga, vinda de vários televisores boa-pinta, de bons pintos e muito dinheiro na conta. Dissecando a Lua, quase um acidente. Ou melhor, um acidente.
-Uff! Caramba. Perdão, moço!
-Porra, presta mais atenção por onde anda, véi!
-Desculpa, não vai acontecer de novo.
No que me apóio? Não havia nada mais obrigatório naquele sujeito do que a sua semelhança com o outro.
-Depois da meia-noite, todo escravo vira um ligador.
Flashes plasmáticos e plasmas traumáticos.
-Ei. Eu... eu, te conheço?
-Hein? 'Cê 'tá é maluca!
-Guto?
-Que mané, Guto! Vá dormir, sua louca.
Contrariando a sugestão do quase-quebro-um-braço daquela noite preta e engaiolada, sra. Eros esforçou-se para continuar acordada.
Na manhã seguinte, era uma equação disposta.


8.Discussão

Rebanho subterrâneo.
Um sujeito de cima, do céu, aponta pra baixo e, randomicamente, escolhe a sra. Eros.
-Desce agora e rapa aquela tia.
O pobre pobrezinho fluidamente escorre pela plataforma e domina todo o pasto. É de uma geografia ímpar, sua sensibilidade o orienta até a bolsa da coadjuvante.
-Ei! Trombadinha! Pega ladrão!
Registrando o Boleto de Ocasionismos, era um humano áspero perdido entre a lã onírica.
-Escuta! Se vocês sabem que aqui é onde tem mais trombadinha, por que não aumentam a fiscalização?
-Veja bem, minha senhora, a gente não adivinha o momento e o lugar exato onde um furto vai ocorrer.
-Mas vocês sabem que ali é um lugar perigoso, por que insistem em abandoná-lo?
-Olha, minha senhora, nós não abandonamos o local, a senhora está exaltada...
Queria, como todos os demais administradores de vícios com cérebros preparados para o mercado de trabalho, ter toda a razão.
-Abandonaram sim!
Silêncio.
-E eu não estou exaltada.
Em casa era inconsolável. O ovomaltine ia ficar pra a próxima semana.


9.Tentativa

-Faz tempo que eu não falo com o Senhor.
-Você se comunica com Ele?
Só podia ser balela.


10.Cidadania

Seus amigos curupiravam no boteco e ela com sua indignada história apenas era.
Luzes de emergência.
-Porra, presta mais atenção por onde anda, véi!
Outros olhos e armadilhas.
-A senhora está exaltada!
Recostava-se na imbuia, imbuída em instantes, e percevejava o silêncio. Suas companhias, no entanto, cervejavam em decibéis mil.
-Um brinde ao último semestre!
-Viva!
E vivavam.

Para sra. Eros, cada dia era um romance.
Depois que se responsabilizara pelo cumprimento masoquista de tarefas desnecessariamente imprescindíveis, seu dia passou a contar com mais horas, toda hora um amor.
Sua respiração era uma mixórdia de termos como dialética, academicismo, masdeísmo, látex e barbárie. Cada humor é um quilômetro e cada quilômetro são mil bipolares.
E o sono era só uma descarga.


11.Anunciação

É claro que não era fada, porque ela não existe. Tampouco deus. Esquizofrenia, talvez. Sonho, então. Alucinação pelo estresse. Só não podia ser lisergia.
Mas era. Pelo menos pareceu ser.
-Viva!
-Como?
-Sofra, e então viva!
-Do que 'cê 'tá falando?
-Você só pode saber sofrendo!
Talvez fosse Cristo.
-Sofrendo? Como assim?
-A felicidade não é o objetivo, mas sim a estrada!
-Kafka? É você?
-O limite da felicidade, é a morte!
-Alô!? C-como?
-O limite da felicidade, minha cara, é a morte!
-Q-quê? Kafka?

Mas não acreditava em fantasmas.


12.Adendo

Mas não duvidou desse.


13.Procura

E o sono era uma só descarga. Relampiava de exaustão, e logo a grande nuvem ameixante cedia.
Luzes de emergência.
Deixara de sobrancelhar, e agora claraboiava nas ruas.
Elegia uma cena e sonhava em tê-la, guardada num pote sufocado, exposta na estante, no instante.
Alguém lhe dissera para deixar os zebrismos em um tapperware hermeticamente distante.
Sra. Eros tentava. Não! Ela até conseguia.

-Você eu me esqueço.
E que vantagem leva Maria nisso?


14.Achado

Mas cada poça era um açude.
Cada rua era um sulco.
E estudava as coisas nas escalas mais malucas.
E já chegara no ponto onde a rua é a casa, quando a noite é o mundo.
-Acho que vou procurar uma Psicóloga.
Porque não podia procurar a si.
Mas achava. Era um poço de poesia, de um kafkianismo ímpar e de uma auto-negação par.
E culpava a aparição.
-Maldição! Aquilo só podia ser coisa da minha cabeça!
Mas era.
-Eu só posso 'tá maluca.
E ia se imaginando presa em um número irracional, enquanto mutilava chicletante as suas unhas.


15.Aflição

E sonhou em ser uma estátua.
Imaginou a conveniência do desdispêndio e da corrosão bostal das pombas, do terror escatófago das bactérias filomérdeas, do postalismo de atentados, da tentação das câmeras, da poluição celestial e da impotência sentimental.
Mas o pior, o que lhe causava a maior aflição, era a unha tapada.
Vejam só, unha tapada!
Unha tapada.

-Então, Ynglid, o que você tem pra me contar?
Aquela voz cálida e gélida e agudo-grave e fétida e despeculiar.
-Eu ouvi um fantasma, ou sei lá o quê! Eu sei que não foi deus porque deus não existe, mas não sei o que pode ter sido. Só sei que isso mudou minha vida... Err... Eu fiquei assustada, resolvi procurar ajuda, mas eu 'tô vendo a vida de outro jeito agora e... Err... Espero que isso ajude, porque eu não gostaria que isso acontecesse de novo e... De novo, porque eu fiquei assustada, e eu não sei o que pode ter acontecido. Quer dizer, não sei o que pode ser sido aquilo, né? Por isso que eu estou aqui, pelo... Pra procurar ajuda, mesmo, queria alguém especializado, né?
Desenredava com letras maiúsculas de criança.
E a psicóloga classificou como resistência à terapia, mas sra. Eros não pisou mais naquele consultório durante bons cometas.
E voltou a fumar.


16.Ligação

-Alô!
-Alô! Almeida!?
-Quem?
-Almeida? É do Almeida?
-Não, foi engano.
E sentava exausta de tédio, feito alegoria machadiana, lasciva e comercial, embora ninguém a encontrasse. O mundo era uma esfera abandonada no universo, esperando apenas ser atingida por um taco de golfe enorme.
Seu suspiro carbônico era um convite à náusea, desmeninava-se a cada tragada.
-Eu não sou maluca.
Enormemente, sua imagem no espelho contorcia-se de risos a juro, endividando sra. Eros de superar-se.
-Amar é uma overdose de azul.
Não entendia como aqueles morfemas sinestésicos saíam de sua garganta alicerçando orações tão estúpidas e insuportavelmente floridas.
Tocava.
-Alô!
-Alô! Almeida!?
Quantos séculos esperaríamos pelo taco de golfe?


17.Lavanderia

Porque o mar era um vômito limpo.
Na viagem era uma esperança, no passeio uma angústia.
Olhava pra todo aquele brilho e morria.
-Porque eu sou apenas uma plebéia.
O acesso que àquilo tudo teria não passaria do mero masturbatório. Pelo menos era nisso que pesadelava, e o dizia vida, e o maldizia vida.
Cachoeirava-se de céus cristalinos e infláveis. Enqüanto tudo à sua volta sorria, desdentava-se de mutilar, mangueirava seu pranto radialmente.
Enfim, pedrachutava, mas não perdeu a culinária local.
Luzes de emergência.
Não houve de volta à cidade.


18.Isolamento

Um tant'antes d'acabar a excursão, zebrou-se em uma árvore, solitária e minhocante.
As velhas haviam ido à cidade chocolatear o mundo com as suas unhas postiças, tingindo de azul-petróleo o resto do que sobrava de calor. Mas sra. Eros não queria tanto vestir uma alegria postiça, e zebrava-se a dois metros do inferno.
-Viva!
-Você de novo?
-Sofra, e então viva!
-Escuta, eu não sou maluca, sai daqui da minha vida, da minha árvore, da minha excursão...
-Calma, meu amigo, eu tenho várias notícias pra te dar.
-Em primeiro lugar, eu sou mulher! Em segundo, você não tem nada pra me contar porque você não existe!
-Então... A primeira diz respeito ao seu sexo.
Nesse instante, sra. Eros se despede de seu galho, e mergulha ao sul.


19.Do acordar

Sr. Eros levanta-se sujo de petróleo, panoramiza, pirâmides e prédios avulsos, maravilhas da genética, cores conhecidas que não pagaram a conta do analista, velhos números que conquistaram a anistia, Raoul Vaneigem e construções flutuantes de Duchamp, De Chirico, Do Campo, deduzidas e dedadas hospitalares, romances e cavaleiros, romãs e covinhas, menestréis e trovas pornocálidas, sujeitos tulipantes e escravidão das flores, escravidão das cores, tons de tabaco, cafezais trigueiros e muito Van Gogh, passeando entre as mangas, os maracujás e as jabuticabas, muitos janeiros e agostos, talvez outubros, cachaça que jorrava das picas, puteiros, palhaços discutindo Marx, caralhos voadores, céu de azia, carros subcelestiais, experimentalismos etílicos, acarajés no céu, sociologia da química espacial e curatoria especulativa, retórica mágica e feitiçaria láctea, intolerância a rã, espadas de latão, chaves-de-fenda de Cabo Verde, MDF, PVC, o Partido Canhoto de esquerda, hippies e impressoras suvinílicas do tamanho de um terremoto. Um pouco acima, alguém em um trono de aipim e vime. Conclusões precípites.
-Eu 'tô fudido.


20.Do garçom

Lhe chega um garçom e oferece um beijinho.
-Escuta! Que lugar é esse?
-Estamos no Céu. Vai querer um beijinho ou não?
-Ando meio sem fome.
-Quer falar com alguém?
-Seu superior.
-Siga ali.
Apontou um escorregador aquático.
-Muito obrigada.
O garçom sobrancelhou-se.
-Oh! Perdão, ainda não estou muito acostumado com minha mudança de sexo.
-Ah! Normal, troquei de sexo há dois dias, às vezes me confundo também.
-Estou indo.
-Boa sorte!
-Obrigado.
Ynglid Eros, que agora pensava em trocar de nome, já esboçava um salto no tobogã, então periquitou-lhe novamente o garçom.
-Mas tem uma coisa!
-Que é?
-Meu superior pode te pedir um beijão.


21.Do rei

Pernambucodonosor era o Estado daquele reino. Era até ele que sr. Eros deveria chegar para saber de todo aquele atum.
Despiscinou-se e vagou em busca de um cheiro tutti-frutti. Eram ecléticos os assuntos nas vias.
-Sempre bate uma crise à tardinha.
-Isso é tão semana passada...
Pestanava a cada saco de café. Era um sinal gráfico. E os ruídos continuavam.
-Qual é o seu trabalho?
-Eu detenho pessoas.
Tanta pizza.
-Você cheira a manjericão.
Aulas de inglês.
-You have a hair, don't you?
Particularidades mil. Virgulava entre consertos concertantes.
-Meu pai é taxista.
-Amor, pega um tijolo?
-Eu tenho um amigo que tomou chá-de-fita e 'tá vestido de palhaço até hoje!
-É, vó! Cada um no seu quadrado!
Eram tantas cenas convexas que sua desquebrada cabeça concavava no solo em busca de novos compartimentos, eram galerias lotadas, sapateiras e gaveteiras tão fortemente agregadas que era um tanto mais e novo universo explodia. Lhe sumiam as tintas dos olhos.
-Por que eu mudei tanto?
E rumava a tal Pernambucodonosor.


22.Da loucura

Sequer entendia por que já se desengavetara tanto, mas era parte de tudo aquilo, sonho que aquela fada maluca, que ela não existe, certa estrela lhe argüiu.
-Eu vi, eu vi! O amor é o meu país!
E ia tijolando vazios, em busca do seu.
Aquilo que era vida.


23.Movimento

-Viva!
-Vai tomar no cu!
-Sofra, e então viva!
Ynglid Eros tirou de dentro das urtigas uma pistola, e assassinou seu fantasma com circunstância de pompoarismo. Poupou a arma abandonando-a em um movimento retilíneo uniforme, variado e bem longe, mais campos urtigados.
-Mas já não era sem tempo!


24.Notícias

Um outro garçom lhe chegou.
-Ficaste sabendo, senhor? Nosso brigadeiríssimo chefe Estratífico Pernambucodonosor Terceiro morreu, de operetas amendoístas.
Era de sr. Eros uma peregrinação caçambada.
-Puta que pariu!
Era apenas uma pejoração.

Não tinha tanta importância naquele lugar.
Como possível, se toda essência e doce era capaz de algodoar qualquer ternura?


25.A democracia

As vias eram uma só descarga, haviam naus que escapavam de medo, caravelas apagadas e vários guris e garis comemorando e criando enormes labaredas com suas vassouras.
-Somos um povo livre!
Ninguém nunca ia pensar que o governador do Céu seria deposto por uma revolução anafrodita, sr. Eros soluçava um gelo de pedra, ou uma pedra de gelo.
-Ninguém vai acreditar em mim quando eu contar o que vi aqui.
Mas já não sabia se vazava. Se acostumara tanto com a sua recém-calculada peregrinação até o soberano, aquele lugar tão redondo, com ciclovias, urbanismo gay e vitrolas-de-esquina. Viraram para si feito uma família.
Um alto-falante pensou.
-Decretamos esta nação como laica, tolerante a todas as crenças e descrenças de seus cidadãos. Meus amigos, o Céu é livre!
Um grito ecoou por entre todas aquelas nuvens roxas, cinzas e vermelhas.
O céu era livre.


26.Vida

Esquiatava-se todas as manhãs.
Era um gelo quando quisesse, a lua eram duas palmas, e toda a noite tinha a matinê no Cinema Olímpia. Sim, porque atrás da esquina estava o Olimpo, o futuro e a manufatura de cerveja.
Tinha casinha, parceiros, parceiras, wireless, comodidade e tolerância a lactose. E tudo isso sem moeda alguma, o Estado fora abolido pelos anafroditas. A demografia era constante, nunca havia problemas populacionais, a questão geográfica era vaginal. Quando alguém morria no Céu, e ia para o cemitério do Araçá, outro vinha -escolhido ao acaso em um lugar avulso, tipo o banheiro- e supria o pódio.
E, o melhor, quando você quisesse ser uma estátua, era só ir ali no Congelador Público, do lado dos Correios, e saudar a tiazinha da Cantina.


27.Do teste

E foi com a tiazinha da cantina que sr. Eros descobriu sua verdadeira vocação.
Era, naquela bola azul e verdejantemente podre, senhor de sua tragédia, num serviço de merda, numa firma que o explorava (os anafroditas haviam abolido a mais-valia), numa faculdade que dele demandava newtons de paciência e cafeína. No Céu tinha liberdade plena e assimétrica para traçar os seus limites, as suas buscas, e os seus próprios chás-gelados.
-Ei! Que ótimo! Como faz isso?
Pacientava-se morfinante, e seu suspiro tóxico significava "eu vou ter que ensinar mais um", mas no fundo era aquela a graça de se estar de no Céu, independente do sistema político.
Revirava.
-Meu filho, tudo começa com a virtude. Você tem virtude?
-N-não sei.
-Vamos descobrir.
Pegou um tijolo que estava sob a pia e o fez vir ao chão, ceramizando estrelas.
-O que você vê?
-Cacos.
Vomitou mais um suspiro.
-Apenas cacos?
Olhou pra velha.
-Ué! Apenas cacos!
Furou-lhe o rosto com seu globo a laser.
-Tem certeza?
Sr. Eros olhou mais uma vez para sua alma pedaçada em despedaços cor-de-carne. Então, um prazer súbito lhe arrancou a eletricidade dos órgãos e um estalo navegou em seu sangue em um segundo na velocidade da luz. Suas retinas piscaram natalinamente.
-Eu vejo... Um prato a menos.
A velha então sorriu.


28.Descoberta

Era, em pouco tempo, oficial de massas, em um distrito chamado Pasta. Olimpiava-se em nuvens de melodia, trabalhava no barulho mais calado e gasoso horas a fios de óleo, e de ovos, todos os dentes, todas as bocas, todos as pastas.
Farelava até o tardecer, quando flutuava até a noite, em um jet lag desconfuso e imaginário, vislumbrando aquela bacante negra, que era seu plano sonhado de cada dia, sua vida perfeita, o Céu, sob o império dos anafroditas.
Seus estudos in loco eram travelling abroad, chuva de farinha e ventanias de pedidos; cada prato era um vórtice. A alface era o mundo onde clorofilavam os amigos, as paixões, o tesão.
Sr. Eros era feliz e sabia.


29.Cinema

Tensão. Naus caravelantes. Cervejas nacionais. Explosões rádio-passivas e violinantes. Semiótica camoniana e outras piadas abortadas. Gramática pederasta e perversão extra-cristã, resistência anafrodita. Auto-felação.
-Eu acho que tenho bastante sorte.
A filosofia era fácil como um pé-de-cabra.
-Se eu fosse um buraco, provavelmente me preocuparia menos.
A filosofia era fácil como o inverno.
-Então eu certamente tenho bastante sorte mesmo.


30.Intermezzo

Ynglid trocou de nome. Fez a festa. Preparou os robalos. Sobrou sozinho na cozinha. Olhou pro canto e ladrou uma metáfora. De um canhão saiu uma lata. Cancioneiro obituário atualizado.


31.Nota de falecimento

O queridíssimo Róbson Eros, oficial de massas, do distrito de Pasta, Céu, vulgarmente conhecido como senhorita Ynglid Eros, estudante de psicologia e teleoperadora, latino-americana, Terra, foi atropelado por quinhentos gramas de ervilha, no dia de sua promoção para o cargo de Celebrista Oficial das Lêndeas Anafroditas.


32.Ontem

No cemitério do Araçá, era uma só alegria.
-Ah! Que bom! Verei minha família, meus tios, amigos, professores, colegas, o Donizete...
Exultava-se de tanta folia guarda-chuvante.
-Imagina só quando eu contar pr'eles tud'o que aconteceu!
Com um precário pára-quedas teleguiado dirigia-se a um lugar pouco visitado.
Quando desceu encontrou anjos, estátuas majestosas, cheiro de primaveras e árvores floridas e ensolaradas, cujo néctar atraía certa fauna voadora insetívora e grande contigente de artrópodes. Gatos viravam as pequenas esquinas, donde vez ou outra surpreendia um faxineiro.
Sr. Eros soltou um suspiro sorridente e satisfarto de porra:
-E eu que pensava que era assim o céu.
O céu era muito mais legal que aquele parque, o qual alcunham cemitério.


33.Eletricidade

Pensou em perguntar-lhe qualquer coisa, só pra saber se estava vivo.
-Ô camarada!
O sujeito olhou.
-Tem aí as horas?
-É nove e vinte e cinco.
-Valeu, irmão! Bom dia!
-Disponha.
Virou as costas e deu um salto de felicidade tão grande quanto o mausoléu dos Matarazzo.
Não se conteve, precisava de um pouco de preocupação terrena também.
A primeira, a saber, foi a de como voltar pra casa.

A segunda era o jeito de explicar a sexual e tão repentina troca. Sim, porque ainda era senhor.


34.Apelido

Na porta do cemitério uma criança pivetava certos trocos.
-Ei! Moleque! Sabe quem eu sou?
Já exausto pela sua atividade matinal de esmolar, farelar, apanhar e cheirar cola, impetava encapetamentos o garoto, mas sua fome, sua obrigação, era maior do que sua paciência.
-Quem é, tio?
-O senhor Oficial de Massas de Pasta! Grã-Pasta! Lugar para poucos!
Sr. Róbson Eros, outrora Ynglid, moça escalafobética e desvaginista, agora orgulhava-se da fotografia masculina.
Tem coisas que nem Freud explica.
-Como assim, tio?
-Eu era chef.
-Chefe de quem, tio?
-Chef de cozinha.
-E cozinha tem chefe, tio?
-Eu não sou seu tio.
E o pobre pobre ficou sem o trocado das nove e meia.


35.Intervencionismo involuntário

Pulou a catraca. Vieram uns quinhentos.
-Ei, ei, ei, amigo. Onde 'cê pensa que vai? Volta aqui!
A carteirada não funcionaria.
-Sou Oficial de Pasta, vim do Céu, o pára-quedas me deixou aqui no cemitério...
Nem terminou o texto, escoltavam-lhe.
-Vixe! Esse aí tomou um dos bons.
-A gente tem é cara de palhaço, né?
-É o quinto só hoje. Deve ser trote, estudante de teatro, sei lá!
Intervenções urbanas são fenômenos característicos da pequeno-burguesia em bairros ricos do Centro-Sul.


36.Amizade

Subiu as escadas do metrô.
-Ei, amigo! Me dá um troco, eu vim do Céu e lá eles não usam dinheiro.
As meninas umbigavam debochantes, os rapazes ignoravam com narigadas de desprezo.
Mudança de tática.
-Putz, velho! Eu pensei que tivesse o dinheiro da passagem, mas eu calculei mal e...
-Ei, camarada!
Era o responsável pelo pivete.
-Aqui a área é nossa, a gente precisa comer, não enche mais o saco.
Desceu novamente as escadas e foi pedir lá embaixo.


37.Prostituição visual

Mas ainda catracava de esperança.
Bem vestido, uns tons groselhavam, com notas tabacantes de restos de bacantes sortidas, avulsas e randômicas pela calça, e bochechas empinadas, gola xadrez.
Era feito uma árvore de lembranças, incrivelmente disposta, como se tivesse dormido e o céu tivesse passado por uma revolução anafrodita.
E nem demorou muito, uma velha lhe deu uns trocos. E deu muitos trocos. Um tanto mais e dava pra comprar um Bilhete Único.
-Eu não sou puto, tia.
Em frente a eles, zombou-lhes a sina, os funcionários do metrô.


38.Visitado

Mas era um olhar só.
Era suas roupas anafroditas, seu corpo simetricamente apolíneo, sua boca dionisiacamente afrodisiaca, algum quê de engolir.
Arrepios à flor da imagem.


39.Do inferno

Mas nada podia ser mais diferente, nesse esterco povoado que chamam de Brasil.
No metrô os teventes piscavam ao nada, bando de desencontrados oculares, frota de passageiros rumando ao cálice mortífero de suas vidas, sobre uma minhoca metálica e magnética, da qual nada sabiam além da tarifa e do serviço, pessoas precisando dos néctares e alucinógenos sociais, pessoas hipnotizadas por uma caixa, esticados os olhos até a palma ótica das fibras, pessoas situadas no limite de convergência entre o saber tecnológico e a novela tectônica, pessoas situadas pela geografia dos mapas metropolitanos, pessoas que não conheciam o Céu, nem os anafroditas, nem as jabuticabas.
Pessoas sem amor, e sr. Eros as deprimiu durante um segundo gelado.


40.Pausa

Aceleração negativa. As duas longas pernas metálicas e magnéticas agulharam a minhoca cardíaca.
-Atenção, senhores passageiros. Há um assassino a bordo!
Nossa, que grave falta.
-Mas não há motivo para pânico, o problema já está em vias de ser resolvido. O metrô agradece a compreensão.
Da caverna de concreto surgiram vultos apagados, silhuetas que eram pesadelos, que forçaram a porta do vagão de Sr. Eros. Este, capturado.
-Puta que pariu!
Era um sortudo ou um azarado.
Melhor os dois.


41.Sob grilos

Gritos de protestante, de subjugado lumpemproletário.
-Ei! Senhor! Senhor!
Ofegante, sufocado, transportado em uma velocidade judiante.
-Que eu fiz agora?
Trancado numa sala escura. Grilhões.
-De que tamanho é este metrô?

Sob trilhos, só sr. Eros e sua disposição recém-grilada, prestes a grelhar-se os miolos, a porta desapartou-lhe.
-Senhor Camilo?
-Eu me chamo Róbson.
-Pode ser. Ocupação?
-Antes de trocar de sexo, era registrado como Ynglid Eros na Teí Telemarketing, também estudante de Psicologia pela Universidade Metropolitana de Psicociências. Depois fui para o Céu, hoje me chamo Róbson Eros e fui aluno de Lis, cantineira de Pasta, até a minha promoção de Celebrista Oficial das Lêndeas do Partido.
Um saco repetir as mesmas coisas. No céu as pessoas não dão tanta satisfação da vida. A Terra é um lugar para desapontados.
-Não entendi nada do que você falou. Dá pra repetir?
Pensando bem, no céu não tem metrô.
-Senhor. Por favor, me chame de Senhor.
Mas arrogância não era uma boa opção naquele instante. O outro sobrancelhou-se.
-Me chamo Róbson. 'Tava voltando pra casa. Trabalho de chef de cozinha num restaurante lá do Tatuapé, onde moro.
Pragmatismo. Ainda não entendia do rapto.
-Por que vocês querem me pegar?
-Tem documento aí?
-Esqueci antes de sair de casa.
-O motivo de sua captura é o fato de nós termos te confundido com um traficante que estaria no trem. Mas ele fala apenas espanhol. Você deu azar, ele 'tava vestido exatamente igual a você, mas já percebemos que o seu rosto difere bastante do dele.
-Err... Jura?
-Só um instante.
Tirou uma folha do bolso e mostrou uma foto do traficante, a que rodava por aí com a legenda de "Procurado", destacando que ele estava de fato vestido igual ao sr. Eros.
O interrogador abriu a porta e disse que sr. Eros saísse, enqüanto atendia seu celular.


43.Campainha

Sr. Eros então percebeu que as pessoas só olhavam pra ele por causa de suas roupas.


44.Crise

Ponteiros apontavam o final da tarde. Desistiu do Tatuapé. Queria um chá-gelado. Não queria a vida de antes. Não queria horas suicidantes, apenas sucrilhantes momentos, doces como as luas, corajosas como satélites e cometas. Queria a luta de ser e não ser. Queria sobretudo morrer nadando em paletas impressionistas, expressamente cafeinantes, altos teores de lipo-pregadores, varar os varais, sabonetando o céu, enxugando o chão, conquistando o inferno seu de cada longo centímetro.


45.Abandono

Desistiu inclusive do seu cachorro chamado Donizete.


46.Com leite

Chutando as pedras de sua vida, encontrou uma oportunidade amassada. Agarrou a nota. Eram dois reais.
Passara uma época no céu, todavia as coisas pareciam nada ter mudado. Nem seus preços.
Parou no boteco e pediu um pingado.

Do balcão via a estação de trem do Brás, onde resolvera abandonar de vez sua vida. Vivendo.
O pingado evaporava corações.


47.Do tempo

São Pedro é para quem os cristãos oram quando querem se ferrar.
De repente o céu descarregou toda a sua vontade em balões redondos e quentes. Piratas urbanos sacolejavam de desespero, nem sequer os pivetes e as ninfetas viam poesia naquele aguaceiro. O tempo quando as pessoas celebravam o cinzento celestial era um tempo dos livros, cérebros dissimulando.
-Passam uns séculos, esses cabaços do futuro me dissecarão. Vão achar até a chuva bonita.
Passado o sarcasmo, o escritor atordoado auto-mutilava.
A História é cheia de malucos e superstições cretinas.
Uma delas, é orar pra São Pedro.


48.Pingado

Entrou um molhado, sentou-se ao lado se sr. Eros e ordenou um pingado. Puxou papo.
-'Cê viu o negócio dos César? Que absurdo.
A voz era cega como uma meia-caverna.
-Ando meio desatualizado...
Uma gargalhada pontuda feito uma estalactite. Sr. Eros não entende, e atém-se aos discursos espermaculados dos tiozões do balcão. Todavia, o sujeito molhado insiste.
-Você não vai acreditar. Eu acabei de voltar de uma reunião de AA. Sabe o que é AA, né?
-Alcoólicos Anônimos?
-É! A minha mulher me deixou faz um mês porque eu apareci bêbado uma vez em casa. Uma vez! -enfatizava a quantidade de vezes como se elas invalidassem a atitude da mulher.
Sr. Eros fingia dar-lhe atenção com olhos sepulcrais, de quem está submerso há quinze séculos.
-Na verdade, ela me expulsou de casa. Falou pra eu nunca mais voltar. Então eu quero mostrar pra ela que eu posso mudar, já 'tô procurando um emprego, indo no AA, fazendo o diabo que posso...
-E você 'tá morando onde, agora?
-Aluguei um pedacinho por aqui com o dinheiro da poupança.
-Camarada, você não vai acreditar.
Sr. Eros olhava fundo como uma fossa abissal.
-O quê?
-Minha mulher também me expulsou de casa.


49.Samanta

Andaram umas cinco, seis quadras, estavam lá.
Sr. Eros prometeu-lhe ajuda nas despesas da casa (só não sabia como). Quando olhou a portinhola, uma saudade longitudinal fez-lhe nostalgia insuportável. Por quanto tempo aturaria aquela solidão? E nem se passara um dia ainda. Pediu roupas, que seu novo parceiro as tinha.
-Como te chama?
-É Rogério, mas todo mundo no AA me chama pelo sobrenome, Albuquerque.
-Então eu te chamo de Albuquerque?
Tinha uma aranha alojada na janela do banheiro. Batizou-lhe Samanta.
Mas ninguém sabe quando morre uma aranha, e nem sr. Eros sabia.
Pobre futura indigente.


50.Insônia

Durante a noite, acordou barras metálicas e as fechou, poucos cegos ruídos. Era um cigarro na sua boca, porque sr. Eros gostava de tutelá-los, todos os pobres, apagados, mortos, dentados. O cigarro em seus lábios sentia uma angústia de ser não-fumado, não tinha lágrimas nem labaredas, é isso que significa o inferno.
Sr. Eros via as moças que vendiam seus corpos porque não mais os queriam, dissimulando a sensualidade que não tinham, o amor que não tinham, porque não sabiam o que era o amor.
Nem sr. Eros e seu solitário e depressivo cigarro deveriam saber. Olhou para o céu.
Nem a Lua devia saber.
Voltou para a casa do novo parceiro e dormiu um sono perfumado.


51.Souvenirs

Na manhã dos gigantes de concreto, eram minhocas despedindo-se. Cada uma um lado. O Albuquerque pagou o bilhete e foi caçar uma morte, sr. Eros pulava as pululantes catracas de sua vida. Lembrava de um lugar na Avenida Paulista, onde daria um calote alimentar bem-sucedido. Às vezes a logística dos planos nutritivos cedia a uma ou outra imagem avulsa. Riu-se de pensar no "vida pós-Clínicas".
-Depois da meia-noite, todo escravo vira um ligador.
E então no curso de Psicologia que abandonara, nos amigos que às vezes os tratava indiferentemente, no incidente da bicicleta no parque, no assalto no metrô, na psicóloga, na fada, na excursão e no tombo, na sua jornada atrás de um líder que foi deposto, na sua feliz vida no céu, sua carreira na gastronomia, sua volta involuntária à Terra, nos incidentes do dia passado, quando o confundiram com o criminoso da moda, quando sentou no bar e desistiu do passado, e então um recém-abstêmio lhe fez companhia no pingado.
E então já havia esquecido dos planos iniciais do passeio.
Aliás, os abandonara por completo.


52.Poslúdio

-Se o metrô desligasse meia noite, não haveria toda essa folga!
A lógica só pode ser um instrumento divino, pela imperfeição terrena.
Por entre divagações e divulgações similares, pecava, até experimentar as duas longas pernas metálicas e elétricas, sr. Eros. Outro administrador de vícios, não mais preocupado com horário nenhum, sujeito nenhum, beijo nenhum.
-Que preguiça...
Suspirava. A manhã fora.
E se matou. E nunca mais viveu.