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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

st (Meu amor é um tigre de papel)

Ele estava lá, dançando, contido. E eu, eu era uma verdadeira mulher, balançando descoordenadamente os meus ombros (dos quais quadris, nessa complexa rede que são as minhas articulações, não dissociam) na tentativa relativamente ingênua -como qualquer tentativa sobrelitosa- de provar a algo-alguém que sofro-não-sofro. Ou melhor, não de forma descoordenada, mas formalmente coordenada tal como tigre de papel (meu) dançante -dança um funk estadunidense.
Mas não tão-contido, como um heterossexual que expõe todo o seu brilho secreto após algumas pingas, cervejas. Rajadas, são seus olhos verdes que me faíscam. Esqueço. Fico funkeando livre, leve, solta, bebida, até o homem me abraçar. Com apenas um braço me envolve em todo o seu universo. Eu te amo.


Escrevi durante a primeira aula de Sociologia do semestre. Tigre de papel é uma referência lambida primeiro de Jards Macalé.
"Meu Amor É Um Tigre De Papel/Range, Ruge, Morde

Mas Não Passa De Um Tigre De Papel/Numa Sala Ausente Meu Amor Presente/Me Esconde Entre Os Dentes/Depois Me Abandona E Vai Definitivamente/Definitivamente Volta Ilude Desilude/Range Ruge Rosna/Velho Tigre De Virtudes/Nas Selvas De Seu Quarto Entre Florestas Cartas/Frases Desesperadas Lençóis/Onde Me Ama/Furiosas Garras/Meu Amor Me Agarra & Geme & Treme & Chora & Mata/Um Tigre De Papel Perdido Nos Lençóis Da Casa"

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Carta a Samanta (in memoriam)

Chove chove chove.
Presentes de natal amontoam-se mutuamente sobre a mesa ex-branca -agora cinza, de tristeza. Um rádio de pilha verde-vovô, um malbec vinho-tia, uma bruxinha chamada Margie que ri alucinadamente quando você bate palma...
Aliás, quando você batia...
Um par de canetas cor-de-mãe, ex-presentes também. O Roberto Carlos cantou hoje de 1966 a 1972. Não me importo se ele está cansado, amanhã cansarei o Wilson Simonal ou algo assim. Hoje ouvi Sua Estupidez, do álbum de 1969, a música que eu canto pra você quando...
A música que eu cantava pra você (ao menos mentalmente, faz tanto tempo isso) para nos reconciliarmos. Incrível como essa água desde manhã me confinou em pensamentos domésticos. Olhe para o Natalino. Ele precisa de uma tosa, vergonha na cara, canina alegria, banho, e por falar em banho, já estou indo aí pra gente se encontrar e...

Nossa! Agora percebo, Samanta. Como um dia de chuva pode ser prejudicial.



St #Amor

A amarela lua da poluída cidade sem estrelas se despediu à tarde. Logo ao fim da tarde que é quando o luminoso Sol se prepara também para descansar. Ficou um breu.
O luau que eu tinha imaginado se transportou para o lugar das meteorologias, climas, suicídios, e o começo da noite luarenta e não luarenta lubrificou meus ictéricos olhos.
O lumpemproletariado pegava fogo nas ruas, os dourados e luminosos campos de trigo da minha imaginação criavam densa lubrina cor pastel, e em meio de tudo isso apanhado em brilhante lucão agonizei. Nem vi farol, farolete, lucerna, vaga-lume, lucidez minha se perdeu...
Lúcifer.
Lucilante naquele preto todo algo de resto-coração pululava. Luzi. Luzi. Luzi. Mas para o lar das longitudes e latitudes meu Sol-lua havia se transportado.
Eu sou uma menina lucípeta, atrás do meu Sol-lua lucipotente, em busca de um amarelecido lucro aclimativo, lucrativa empreitada do ouro.
Ludibrio as cores de mim, quero um prisma. Mais do que todo o prisma, quero aqui ver lufar a areia, e quero lutar para exterminar a lugubridade da Sol-idão.
Ele-lume.
Eu lunática menina lucípeta, presa ao trigo-lustre dos seus cabelos, na nossa idealizada luxúria.
Lubrificados olhos no fim da tarde-arde, Sol-lua me abandonou, e eu perdi a vida.



Dois breves comentários sobre Roberto Carlos

I
Vocês já pararam pra reparar no asfalto da ruazinha à uma da manhã com o som dos postes de luz e com os tons da lampadinha verticalóide acoplada à roda da bicicleta? Já repararam na cor do asfalto (que brilha com a purpurina de quartzo refletida insone)? É preto-claro. Não é cinza, é outra cor. É preto-claro sim!
Na ruazinha eu estive pedalando. Nas ruazinhas. Peguei a Serra de Bragança até o final, depois a Conselheiro Carrão, a Taubaté, subi até a Praça Sampaio Vidal e fui em direção à Emílio Mallet (ou Emília Marengo?), desci a Antônio de Barros, virei na Cantagalo, depois a Coelho Lisboa, Praça Sílvio Romero, Padre Adelino, Bonsucesso e estou em casa. E quem me consolou a estranha noite foi o Roberto Carlos. As coisas que ele canta fazem pouco sentido. A princípio. Quando você está na vibe elas fazem mais sentido do que muita coisa (como a falta de música, como o moralismo, como a putaria, como o excesso de racionalismo, como a falta de cérebro). "Foi pensando em me guardar e querendo não querer, me dizendo pra esquecer, foi pensando só em mim que eu pensei só em você".

Vibratos peregrinam na noite [sem estrelas].


II
Atravessei a Avenida Paulista. Pela metade. No meio do automobilístico rio, à espera das luzes arrogantes, "esqueça se ele não te ama! esqueça se ele não te quer!", e eu morri.
Sete vezes.



Propostas de Animação Museológica

Folheando um caderninho que preenchi em 2008 percebi a maravilhosa contribuição que o meu curso técnico de museu me deu. Passei a entender depois de tal curso como o museu ocupa uma função de perpetuar a desigualdade social ao registrar como legítima ou "erudita" (em outros termos, maior) uma história ou um estilo de vida com antepassados inteligíveis.
Pensando nisso, durante alguma aula do curso concebi duas ideias de atividade artística. A primeira delas [2] não tem ligação direta com o problema da segregação artística, mas a co-tematiza comicamente. A segunda [1] tem a forma de uma crítica à expografia, está então diretamente relacionada.

[2] mulher morta
Um quadro (uma pintura -a óleo, de preferência) retratando garota mais ou menos nova, entre 12 e 16, branca e com cara de peixe-morto como nos quadros do neoclássico, tamanho médio, cabelos castanhos caprichosamente arrumados (trançados ou não, de preferência decorados), olhos azuis (de preferência), aparentemente úmida, impressões de sufocamento, olhos abertos, pupilas dilatadas, cabeça mais ou menos tombada (caída), vestindo um vestido gigante, composto por muitas camadas (a menina como sufocada por roupas), moscas, fundo negro (marrom ou preto), moldura elaborada (meio rococó).

[1] Grande esfiha de carne (flamejante), gordurosa, no espaço expositivo
Trata-se de uma esfiha de carne (generosa no tamanho) fixada (pode haver um prego para causar efeito) na parede (de preferência que não seja uma dry wall) do espaço expositivo, e que permaneça neste o tempo que for necessário, sem manutenção, e com o risco de apodrecer ou impregnar o ar do ambiente.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Balanço de dois mil e dez.

Comparando meus escritos e digitados de 2010 com os de 2009 estou reparando que o número de bloquinhos reduziu drasticamente e o número de arquivos de texto-poesia também reduziram. Em contrapartida tenho papéis de anotações e esquemas de estudos digitalizados que não têm fim. Entrei na faculdade, passei a estudar pra caralho. Me senti particularmente inspirado no início do ano (tive um amor platônico no exato reveillon, vestibular, viajei etc.) e também na semana em que frequentei a Escola Livre de Cinema e Vídeo de Santo André, no início do segundo semestre, quatro dias que conseguiram me inspirar durante um mês.
Sobre as férias...

Carta de amor do ano novo

Oi Guilherme. Minha vida muda só tem ouvidos para a garoa arrogante. O resto da noite passada está aqui, entortando a minha vista e fazendo com que os paralelepípedos dancem em um ritmo marítimo. Do outro lado da rua uma pomba está andando, como andam os humanos, porque está convicta de que os imitando conseguirá entrar invicta dentro da padaria algum dia. O céu inicia o bocejo da manhã, que é quando as coisas começam a clarear, a rua, a árvore, o prédio, o portão, o cachorro, tudo cada vez mais nítido. E eu estou prometendo a mim mesmo que os dias serão cada vez mais irreversíveis. Se está ao meu alcance eu não sei, pode ser ingenuidade. Prefiro pensar que não. Prefiro pensar, Guilherme, que os meus atos têm sentido. Guilherme, as coisas não se mensuram. Eu vou viver ao teu lado nesse mundo imensurável, Guilherme, e o mundo será nosso, apenas, unicamente, exclusivamente, nosso. Nós nos...
Guiamos da maneira que quisermos, Guilherme. Guilherme, eu não espero que você leia isso algum dia, você imaginaria "que raio de sujeito é esse? esse fraco, esse fraco, esse fraco", mas eu garanto, que é inevitável, o meu amor irreversível me içou, e agora eu estou muito longe do chão, há um...
Guindaste invisível, quase metafísico. Guilherme, quando os fogos arrebentaram no céu eu estava no metrô, provando para mim mesmo que eu sou a pessoa mais forte no universo, mas você humilhou a minha filosofia quando, naquele boteco com estranhos recém-conhecidos você me olhou, e fez exatamente aquilo que o amor da minha vida faria para me conquistar. Então com as lágrimas que pululam do meu ser eu senti um aperto no coração de não poder te reter para sempre, na penumbra da luz sensual e tênue da sinuca da minha vida. Você me encaçapou e depois abandonou o bilhar, desligando a luz da minha felicidade, apertando o interruptor do meu coração. Não me admira ter chovido depois. Você levou consigo toda a estabilidade, você e o seu sorriso levaram o meu oxigênio, e agora eu me sinto morto. Acho que estou sento levado à...
Guilhotina, cumprindo essa pena horrível, que é a angústia da esperança, à qual ainda não me acostumei. Sim, Guilherme, porque eu sou pós-graduado na ressaca do amor, e agora eu estou imerso em um fluido que não existe, e quando eu menos esperar estarei em queda livre. Agora a minha vida não tem outra função senão te encontrar, amigo, e eu sequer sei por onde começar.
Guizos de natal sinalizam a morte de um ciclo e o nascimento formal de mais uma escravidão temporal. As mulheres idosas tiram das portas suas...
Guirlandas. As renas do Papai Noel abandonam a televisão e vão repousar guardadas em gavetas. E quilos de dinheiro são devorados em labaredas coloridas na Avenida Paulista -e o meu coração é devorado por você-, lâmpadas azuis, brancas, vinho barato. E a Rua Augusta, e todas as suas...
Guildas, tribos, seus botecos e suas boticas, sufoca na garoa intragável. Mas a culpa de estar garoando é sua Guilherme, porque você me abandonou, e agora a minha incubência é te achar a qualquer custo, já que não resta dúvida de que você é o meu príncipe. Porque você olhou para os meus olhos como um homem apaixonado olha, e com uma simpatia hipnotizante que me deixou estupefato, e não foi com "uma" simpatia, e sim com "a" simpatia, a simpatia que eu esperava para obter a felicidade, a tua simpatia, Guilherme! E você me ofereceu meia garrafa de cerveja, Guilherme, e você não faz ideia do que isso significa, amigo. Guilherme, você me perguntou meu nome, Guilherme! Guilherme, você foi embora, mas me deu de presente a maior esperança que eu nunca tive, com o seu sorriso moleque, sua simpatia gigante, seus olhos maravilhosos e aquela meia garrafa de cerveja. E me disse que lhe encontrasse em uma sexta-feira, na pizzaria ali perto, apenas essas coordenadas, logística simplista. E então você deu meia-volta e foi embora, e eu corri atrás de você, mas nenhum de nós dois podia anotar informações pertinentes, por falta de recursos físicos. Então eu só sei que você se chama Guilherme, e que frequenta o Vitrine às sextas-feiras.
E a minha vida está prestes a dar uma impossível...
Gui-nada.

Guilherme me guiando guitarrante, guildas, guizos, guirlandas, guilhotinas, guindastes, guichês, guisados, guilhermes mil... Alvoroço em meu coração, amanhã ou depois de amanhã, resistindo na boca da noite um gosto de Sol...

janeiro 2010


texto

título que já perdeu acena
porque a conta do analista
me foi paga com o corpo
docente
doente
de bombeirinhos

2010


caroço-angústia-suspeita onipresença,

eu disse ao Francisco no sábado passado que o custo-benefício dos meus relacionamentos estabiliza-se com a negação das relações virtuais, a favor das trocas reais, relações verdadeiras.
ele me disse que, se eu sou convicto disso, sou a pessoa mais bela.
é uma pena que os meus amores não-perus não sintam por mim um amor tão avassalador que os faça superar seus medos, e também é uma pena que esse medo os impeça de que vivam amores avassaladores.
e enquanto isso, na cidade, o amor funciona como deve funcionar, sob este céu sem estrelas.

8 2 2010


por que o chocolate que você me deu me espia e as flores estão tão diferentes se até a porta para o quintal está aberta?
por que o ventilador teimoso gritando feito uma cigarra continua balançando de um lado para o outro, em um silencioso "não"?
por que o violão está mudo mesmo com todas as possibilidades de poesia que noite quente e estrelada oferta?
e por que escrevo estas linhas se tudo acabou definitivamente entre nós?
deve ser porque... definitivamente. acabou-se. tudo.

farmácia, 8 2 2010


você (realmente) acha e tem todo o DIREITO
de mudar a minha vida (assim -sem mais nem mais nem mais)
enquanto os sentimentos-pulga pululam dos meus poros e são arremessados uns contra os outros na garrafa térmica do meu ser, teus olhos castanhos -lindos olhos castanhos- mais fundos que o braço da floresta penetram nos meus e se instalam no meu intelecto-ecto-ecto, e impossibilitam o antigo Eros de respirar com o empoeirado ar da semana passada.
ou você queria apenas mais um beijo?
como sempre foi certo que o meu futuro seria promissor... sempre foi! eu senti que nas últimas semanas que a minha vida subia uma escada ruma a níveis cada vez mais catastróficos, fabulosos e fantásticos. e eu venço no cassino do amor, eu já posso virar para o fevereiro passado e gritar que EU VENCI O CASSINO. e isso tudo under meus abstracionismos ultrapassados.
mas é porque você tem o DIREITO.

18 2 2010


empecilhos em pé são cílios
de pé nos teus sexuais olhos
que dançam na minha fálica cabeça
mesmo que nem direito eu te conheça
dançam com a paixão mineral
co'a qual brilham

fevereiro ferve na rádio
dos atômicos tímpanos do dia promissar
as coisas todas não fazem ideia
de que eu sou o irresponsável cantor
na janela do frio e ignorante ônibus
no qual brilho

o dia é nosso
o dia é nosso sim
muito. muito.
o dia é muito. muito nosso

20 2 2010


o celular toca
eu tenho alface no dente
o fio dental corre
freneticamente
eu pego o aparelho
tão esperançoso
o fio dental dança
na boca raivoso
largo o telefone
alface no dente
quem é que me liga
amigo, parente
ou será o amor
que conheci quarta-feira
que imerge das horas
pra contar besteira

20 2 2010


COMUNICADO

não entendo por que, mas meus dedos, que roo incessantemente, estão cheirando ao teu beijo com dentes escovados. este frio, que se torna quente, que é o diálogo-amor das dialéticas-línguas, tem um porquê gutural. porquê da vida, combustível do meu sangue, saliva da saliva, antisséptico do meu ser.
(tua boca muito mais alva, gostosa e
re. fres. can. te.)

2 3 2010


a melhor poesia que eu escrevo
tem as letras do meu amor
eu luto pela poesia - do meu amor cogniscível
subcuecante e supracardíaco, o amor difícil
das centenas de horas, agoras, aforas
que chora, que flora, que adoro, deploro, que adorno, que chôro

a melhor poesia que eu canto
tem o cheiro do meu amor
eu luto pelo aroma - do meu amor reconhecível
lácteo-pigiante, naso-sudoríparo, o amor sensível
meu amor escovado, lavado, chupado
lambido, marido, na cama, sacana, deitado, jogado...

esperando minha boca

5 4 2010



Conheci o atual namorado Eduardo em junho, mais ou menos na mesma época em que havia conhecido o Daniel em 2009.
Participei de um assalto mais ou menos violento. No qual eu era a vítima.
Na volta das aulas, após nervoso processo seletivo, entrei na Escola Livre de Cinema e Vídeo de Santo André, onde, por falta de vergonha na cara e condições intelecto-temporal-geográficas do rolê eu não conseguiria estudar -excentuando a possibilidade de fazê-lo tendo como efeito um aumento na minha self-mortalidade.
Em outubro fui para o ENUDS e nos meses seguintes entrei em contato com algumas atividades que testaram meu projeto de vida, hipóteses, ideologias etc., corroboraram, aprimoraram, acrescentaram.
Terminei o caderno devolver a Eros Tesão este caderno de pornografia número XXXX-XXOX (não ligar a cobrar) ou esta caligraphia calipígia ou amor irreversível.
Os últimos dias de dezembro foram um saco.

[fragmento]

I
começa com um beijo, mais ou menos molhado, mais ou menos arbitrário, mais beijo do que desejo, mais vontade do que receio. incrivelmente.

II
é como se meu inconsciente dissesse
CORRA, VÁ EM DIREÇÃO A ELE
eu simplesmente podia ter dado meia-volta, mas não
CORRA, SEJA ASSALTADO
todavia aquilo me livrou de ter que arranjar explicações para o fato de o celular ter quebrado vinte minutos antes do assalto.

III
na queda quebrei um dente

IV
a teimosia, se bem estruturada, é uma virtude. por bem-estruturada entende-se que há uma lógica-argumentação suposta.
ora, negar a teimosia, que é uma condição geral da sociedade, é hipocrisia.

V
pavores de mim. os vaticínios têm durado facilmente até às duas, duas e quinze da manhã.

VI
eu posso seduzir facilmente o diretor. só preciso de um motivo. que tipo de poder ele pode oferecer?

s/d


os meus amores são natimortos
a maior parte deles não durou mais do que dez segundos

s/d


quando nossas sombras se fundiram, na rua, senti catalisarem-se nossas emoções. (desde o início achei que nossos corações trampolinharam na mesma velocidade.)
e então você me disse "oi" na rua, escura, senti que se não desmaiasse, flutuaria. escuridão. e nossos corpos se juntaram, na esquina. senti a eternidade no meu fluxo sanguíneo. esquinados, nossos lábios labiaram-se, na noite senti que nada mais importava. e, logo, o amor dos homens, personificado no negro líquido cardíaco que bombeava alucinadamente, converteu-se no alvo e cândido néctar morno da vida, que jorrou energicamente rumo ao céu.
da boca.
preta.

s/d


se tornar adulto é um crime contra a estabilidade e a esperança contínua do mundo mágico.

um par de pernas muito finas pouco presente quer estar em casa. passeia confiado e descorajoso nas paredes brancas de luz apagada. (da mente castanha.)
confinado na atmosfera gelada da estação, quer se morfinar.
e vai conseguir.

ele senta nos sofás brancos mais ou menos insípidos da cinemateca e cruza o par de pernas suspirante de satisfação em seu orgulho-dezessete. ele é feliz e sabe muito bem.
quer olhar. consegue. bate-bate, posso ouvir daqui. o céu nublado anuncia a noite sem estrelas da cidade.
vai começar a sessão. e depois dela, ele será apenas um pouquinho menos o mesmo.
(mas sabe o que quer.)

s/d


quando caiu da mesa acordou. irada. quero dizer, que seu cabelo assemelhava-se à vida em sua explosão no limiar da intensidade. e olhou pro chão, e enxergou. e de repente se viu homem na escrivaninha, mas abandonou a carteira semi-bravo e quase-mudo, pondo a preta blusa na morena derme, mochilando-se e se dirigindo à porta. mas quando saiu estava branco, e as panteras que saíram da floresta em sua frente se esforçaram para violentá-lo. correm muito, e caiu em buraco, para uma boate gay, e aí era colorido. e vida passou a fazer todo o sentido. limites estreitos. estritos. uma boca molhada, saborosa, e um drinque cítrico. até que perdeu o chão. quando caiu da mesa acordou. irada. quero dizer, que seu cabelo assemelhava-se à vida em sua explosão no limiar da intensidade.

s/d


passa por mim a nuvem do amor ultrapassado
pisa no fundo dos pés de galinha
me reconhece
sabão de marchinha
beija minha nuca - certeza
filho da cidade - é normal
eu te ver assim - no circuito
continental - vai um biscoito?
vou num café genial
depois da película - audiovisual
vem vem comigo menino
ultrapassado tá bom
não não insisto mais, cara
eu vou seguindo na marchinha
a gente se vê dia desses,
eu sigo marchinha - sabão

s/d


(estrela de topete)
você foi pornografada em mim
estrela de topete e rala barba
estrela da assimetria
pornografada em mim
eu estigmatizade
você star-beldade
hetero-liberdade
você Sol eu Plutão
marginal coração
de estelar desejo
celestial submissão
daqui do inferno vejo
a sombra do avião

estrela de topete
pornografada em mim
você funciona como um deus
tô nas tua - eu no teus

s/d


quando ele chegou viu o chão pintado de assombrosa escuridão
sentiu tanto medo, mas tanto, tanto medo que desejou também morrer por um instante
[nada mais preocupante que a dúvida]
tentou respirar uma duas três tentativas -passivas! metabolizar de qualquer jeito, a qualquer custo
QUASE MORTE
deu meia volta, e outra, e outra volta, muitas meias voltas mentais
o chão assombrosa escuridão, sem previsão de chegada
amarrada ao não dito, preso, acorrentada na insegurança sua alma se matou cinco vezes (que era o número de meses)
vê-lo o outro, ali quietinho, com terceiro, rindo sim, grudado assim, de qualquer forma, sem mim...
[e o fim de semana mal tinha começado]

s/d

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Teoria Geral das Coisas I: Notas de rodapé

Anexo A: Do Sexo

A revolução estética será iminente quando da supressão da dualidade (e bipolaridade) sexual. Durkheim, Mauss, Hertz e todos esses antropólogos nos tentaram provar a a recíproca entre sociabilidade e religiosidade, polaridade "estrutural" e funções sociais. A mulher sexual é socialmente construída enquanto função para ser submissa na relação de poder entre os gêneros sexuais. Não é tanto uma relação natural e necessária com fins de reprodução como Aristóteles o concebeu: é antes um efeito do movimento social, algo cujo pioneirismo de Mead acusou, tornando patente a condição de maleabilidade das funções sociais sexuais. A polaridade religiosa portanto não responde totalmente às intenções da dimensão sexual.
Eu nunca li Clarice Lispector. Isto é, não a li por enquanto. Entretanto, certa vez um amigo disse em uma discussão -que por sua causa tornou-se caótica (seja lá o que possa ser interpretado como caótico)- que a celebrada ucraniana escrevia como uma mulher. O comentário pode ser considerado incendiário, polêmico, radical e perigoso como uma porta -que, para machucar alguém necessita que tal alguém seja talentoso. Entretanto, existe algo que escapa do alcance da interpretação de que se tratou de puro machismo. Não sei se é verdade, porque a minha ignorância acerca do assunto -como já colocado- não me permite conjecturar nada consistente (apenas hipotético, mas vocês entenderão o porquê de tudo isto logo), mas eu creio que, no fundo, o que o meu amigo queria dizer, era que a condição de mulher inevitavelmente trazia uma carga de feminilidade patente na obra da autora (o que soa como óbvio), o que para o meu amigo -e aí haveria um pouco de machismo, de fato- seria a dificuldade das mulheres, em relação às quais os homens seriam mais versáteis.
Quis dizer isso tudo porque hoje, ouvindo a feminíssima Andreia Dias, que é um produto pop, entendi com precisão que, pressupondo que a sociedade é sujeita a mudanças de seus membros sexuais e sociais, a supressão da polaridade tradicional nesse aspecto, que me soa como uma tendência da metrópole. Acho que posso citar Regina Spektor como um símbolo dessa geração de mulheres que impõe seu respeito na concepção de um estilo pretensamente inovador, mas inequivocamente feminino, não apenas vaginal.
No fundo, o sonho universal pós-tropicalista (e talvez neo-tropicalista), o sonho da brasilidade paulistana, me aparece intuitivamente -e agora eu posso explicá-lo racionalmente- simpático à androgenia e à teoria queer; ontem os Dzi Croquettes (talvez Secos & Molhados também), e hoje Solange, Tô Aberta! e Teu Pai Já Sabe?, contribuintes underground (o último, contudo, em menor medida, simplesmente pelo pedante caráter doutrinário da cultura punk) da subversão das funções sociais (inclusive das extra-heterossexuais) são personagens de biologia masculina (e aqui eu de fato corro o risco de parecer controverso com meu próprio argumento). Entendo agora o projeto político d'Os Mutantes e da banda americana The United States Of America; Arnaldo, Sérgio e Rita, Moskowitz e Byrd: pioneiros do som universal que efetivamente suprimiram as divisões sexuais em suas carreiras.
Dentre as mulheres cito Hilda Hilst (que conheço pouquíssimo, a única referência que tenho de sua versatilidade é de duas páginas de um texto ótimo -cujo nome não faço ideia qual seja- que foi recitado para mim há um ou dois anos) e Marli. Aquilo que portanto não foi realizado nas duas bandas supracitadas -no fim do último parágrafo- foi, para além da inclusão, a subversão dos papéis sexuais.
A crescente liberalidade sexual, em relação à qual os pais da geração do ego-herói citadina fazem parte por seu legado, é um dos termos da brasilidade paulistana.
Tentei, neste anexo, esclarecer as mudanças da dimensão sexual e social que são patentes na brasilidade paulistana. Tentei fazê-lo explorando os padrões de gosto, o movimento contemporâneo da arte pop e, especificamente e predominantemente, dentro disto tudo, o gênero musical de massa. A Arte de uma sociedade é reflexo da produção efetiva dos homens dessa sociedade (codificada ou não em pluralidade, ideologia, espetáculo, indústria cultural e todos esses termos). Espero que tenham entendido por que este texto é um anexo da Teoria Geral das Coisas I: a subversão dos papéis, a revolução estética, o sonho do domínio da brasilidade paulistana devidamente historiografado etcætera, são algumas de suas facetas.
Discordarão de mim do caos da universalização? Discordarão do quão bom será? Discordarão do processo? Discordarão de conceber juntas esteticamente a sub-humanização do Projeto B, a política de Marli, a agressividade de Solange, Tô Aberta! e a feminilidade elétrica da Andreia Dias?
O surf acontece aqui efetivamente. Espero ter contribuído para a cognoscibilidade dessa teoria geral.


Funcionalismo Sexual

Mais ou menos bonito, o que é em medida controverso.
-Opa, você sabe onde é o puteiro?
-O puteiro?
-É, onde tem um puteirinho aqui. Não tem um puteiro aqui na região?
-Olha amigo, tem um mas, hum, eu acho que 'tá fechado. Lá na Bonsucesso.
-Ah é? Mas como eu chego lá, é...
-Segue aqui e vira a direita e é lá na esquina, você vai ver, é uma casa amarela, mas eu não sei se 'tá aberto, não 'tá com jeito.
-Ah, beleza, eu vou lá. Obrigado!
-Por nada.
Eu fui para casa, e ele foi tentar dar uminha na noite sem estrelas.


Amor Irreversível VI

Não apenas difícil, mas impossível amar outro.
Penso nas possíveis noites regadas a beijos, madrugadas beijadas até o suspirar do dia, no êxtase da vida na mais potente das atemporalidades.
Impotente, na verdade, na mentira o luxo do hedonismo.
Hedonismo na cidade tem nome, e se chama impotência.
A ciência não descobriu ainda o milagre do prazer pleno. Simplesmente porque o prazer pleno não deve existir mesmo; se existisse fórmula que efetivasse essa quimera onírica, certamente ela seria o tiro no pé da humanidade. Pois olha só o que nós fizemos com essa fração minúscula do que podemos chamar de amor pleno: desvastamos cidades, engravidamos crianças (com moralismo e amor-alismo), passamos em décadas a seres vegetantes e carentes de anti-depressivos.
Não dá, não dá, e não é nem fruto da crítica social moderna.
Não dá pra amar se não for você. Não dá pra gozar se não contigo. Eu não quero ter que lamentar simbiose, porque a real graça de viver é justamente acompanhar os altos e baixos dos diversos vínculos nos quais estamos acorrentados. E aquele que não tem vínculos certamente, se nunca os teve, é o mais feliz, e se os já teve no passado, é o mais infeliz dos homens.
Não dá pra ser feliz se não for com você.
Não me importo se daqui a dez anos eu direi esta mesma frase para outro. Me importa agora, a saber você, que eu não posso me imaginar sem que você consista em parte, que a minha vida seria outra, intuitivamente uma menor, sem você, que te estimo, e esta estima só tem uma inimiga, ou amiga incondicional, que é o tempo.
Não dá pra ser feliz se não for com você.
Eu te amo.

domingo, 1 de agosto de 2010

Balada Afônica

Estas foram minhas férias mais irreversíveis.
No sentido e direção mais doentios.
Evoluíram em um vetor exponencial e atingiram níveis supra-perplexos.
Minha literatura foi um manual de que alguma pulsão de morte demoníaca se apossou.
Minhas férias foram um triste. Foram um feliz. Foram um qualquer coisa de sentimentos.
Preocupantes.
Estou com medo.
Algo me quer derrotar quando abraço.
Quando faz frio.
Algo que me chora. Internamente. Como uma hemorragia insistente, porque não se pode ser paulistano e querer ser amante ao mesmo tempo.
A vida está excluída da sociedade do tédio paulistana. Resta uma balada sem som, uma polifonia afônica.
Tenho a impressão de ter sido vítima de um trote do meu inconsciente, este responsável por testar todas as teorias por mim admitidas.
Resta a metáfora.
Insistentes, as senhoras sentadas em estrelas riem, pilheriam, com tanto, mas com tanto sarcasmo e tanto afinco que fazem (até) faltar o sono a São Pedro, que tem uma overdose de pó-de-guaraná -ou melhor, em termos paulistanos, de Red Bull- para manter o serviço otimizado. É exatamente neste instante que as estrelas decidem deixar a cidade.


O Amor Irreversível V

O amor da porta das manhãs é clandestino. É definitivo seu batom de mentira com que se pinta, a sombra que passa delineia sua própria sombra na rua, contra a luz dos postes, contra a luz da Lua. O amor da porta das manhãs não quer ser verdadeiro, não se importa com nada que possa dizer respeito a fidelidade particular, compromissos extra-instantâneos e outras pieguices da pré-modernidade: ele espera que simplesmente o efeito da função que proponho no meu marketing pessoal alcance o limite esperado. Nunca é, e é por isso que as empresas de Serviço de Atendimento ao Consumidor já estão mais ricas do que as de produtos básicos (como as indústrias do sexo, da felicidade e do poder).
Quando o eu-líquido escorregou pelos degraus imundos do tão límpido shopping center, não pensei em casamento, ou nenhum outro tipo de contrato satânico. O requinte diabólico estava, pelo contrário, na desonra do casamento, que se tornou uma casamentira. Sei que na cabine do banheiro, não o prazer da aventura, mas o do novo, óbvio, nos tomou imediatamente, pois ao ponto de ônibus contíguo à galeria nos direcionamos: o meio que encontramos para tornar mais confortável esse amor irreversível.
Complacente me ofereceu suco, carambola, conversas fenomenalmente acríticas a respeito de espiritualidade -ou melhor, espiritualismo, porque o sufixo me remete a doença-, mas isso tudo era apenas acessório: estávamos ali -eu estava ali, em sua casa- apenas pelo sexo.
Transamos como eu jamais faria com outra pessoa, o que é bom. É sinal de que eu pelo menos consigo identificar e distinguir atividades e condutas pontuais no sexo dentro do universo de relações que eu já tive. Esta, aliás, está na lista das irreversíveis.
No ônibus disse qualquer coisa de engraçado ao cobrador. Não sei se propositalmente ou não, o fato é que ele riu e respondeu algo até que simpático, ainda que ininteligível. Pensei baixo a respeito dos discursos dos amigos -que são meus psicólogos, embora não sejam formados nem por uma faculdade federal- que comigo tentaram tornar cognoscíveis as minhas noções a respeito das questões que envolvem a preocupação que a noite irreversível tentara solver.
A noite sem estrelas da cidade por um instante pareceu perigosa. Mas obviamente não passa de ilusão. Afinal, o amor verdadeiro me espera na porta das manhãs.


st (incrivelmente)

Até sexo como um paulistano ele faz.


História das Brincadeiras

Sobre o móvel de imbuia, no qual se encontravam um cofre noventista do Garfield (dentro do qual os indivíduos se amoedavam), um pote cilíndrico com desenho de abelha (dentro do qual funcionava uma dimensão composta de cereais, bactérias, déficit de oxigênio e um breu quase entediante), uma flanela azul, esquecida e manchada (sobre a qual multidões de bactérias e protozoários -talvez fungos- lutavam para a sobrevivência e para o domínio sobre os restos -de qualquer coisa que reste- do móvel, da mesa e da pia, compilados), e também três outros potes metálicos encostados no canto (dentro de um dos quais havia um saco de pipoca -que poderia ser descoberto segundo uma conta matemática fabulosa) acumulando poeira do lado de fora e tétano dentro de si mesmos, duas formigas apostavam corrida.
Na prática, porque na teoria elas estavam fazendo algo que apenas diz respeito à bio-sociologia.
-Eu duvido que você chegue antes de mim!
-Que pena, porque eu que vou chegar!
Estavam em um embate desgraçado.
A cozinha estava vazia, mas a luz havia sido esquecida acesa. Os objetos sobre o móvel de imbuia não se preocupavam em criar vida, entretanto.
-Olha só, a malhada vai ganhar! -diria o Garfield banqueiro se pudesse.
-Vai nada, eu aposto é na retinta! -diria a abelha-silo.
Mas as formigas estavam apenas correndo rumo a alguma coisa que lhes dissesse respeito segundo o diagnóstico do zoólogo.
Mas eu insisto que estavam apostando corrida.
-Você está comendo poeira!
-Você vai ver só! Vou falar que você é uma formiga preguiçosa!
-Isso só se você conseguir chegar até lá! -e esta soltaria uma gargalhada que até os ímãs de geladeira estremeceriam -e olha que ímã de geladeira nunca sente calafrio.
Mas a geladeira continuava no ritmo monótono -e assustador ao mesmo tempo- de sempre. Enfim as duas chegavam ao limite imposto pelo móvel.
-Não falei que era a retinta?
-Tudo bem, o dono do dinheiro sou eu mesmo!
Mas as formigas desafiam a gravidade, e elas subiram rumo ao céu, que é o teto.
-Eu ainda vou te alcançar!
-Estou só vendo!
Algum barulho de porta.
Foi apenas impressão.
As coisas continuavam intactas. Na teoria.
Porque na prática, eu insisto, elas acompanhavam a acirrada competição entre a formiga malhada e a retinta, preocupadas apenas em serem tudo, menos um inseto.

domingo, 27 de junho de 2010

Amor Irreversível III

Eu tenho o péssimo defeito de não saber de cor as letras das músicas da moda. Depois de ancorar no porto seguro (olhos, um par de botões) me resta apenas determinada simpatia e um fascínio de sociólogo sobre o que é este êxtase artificial e celular no qual esta galera moderna é viciada.

Te falar que não me exerce fascínio é te assumir alguma medida de hipocrisia. Meu rapaz, essas coisas são gostosas, eu sei. Sabes também. Não o negaremos. Mas até agora o que me resta é simplesmente a curiosidade sociológica. Descobri o amor na porta das manhãs, foi à tarde, e eu o estou vivendo nas barbas da eternidade.

Amo irreversivelmente. As senhoras sentadas em estrelas despencaram terrivelmente. As cores que pediram a conta do analista voltaram; estão quase em alta. Tirei do freezer algumas das estrelas. A cidade tem feito por merecê-las. Se minha felicidade tivesse um nome -e seria maldoso da minha parte batizar um sentimento imensurável, mas estamos falando de estética-, seria Eduardo. Nome de uma felicidade eduarda.

Eduardo, guardião das riquezas, virará o meu adjetivo predileto: qualidade daquilo que guarda as riquezas. O meu coração eduardo tem lugar para o que sente uma pessoa eduarda (aliás, que é a mesma pessoa que a minha: simbiose total). O meu amor eduardo comporta o meu amor Eduardo. Vamos eduardar os corações, torná-los possuidores e ricos. Não tenho palpites que possam ser seguidos, eu por ora tive sorte. Não sei se o caminho é a casa noturna. Esqueci de tudo, o único endereço que eu tenho é o número do celular do meu amor, que me leva até a eternidade. A eternidade eduarda.



Amor Irreversível IV (Outono em mim)

(I)

O amor que me espera na porta das manhãs tem me dado fôlego. Há uma semana, jantar em casa, e as flores na imbuia 'inda respiram, se pá com o mesmo vigor com que faço o mesmo agora.
As fotocópias agora são só amigas, com quem pratico queda de braço -sempre me vencem, mas eu gosto-, com excessão de algumas com quem 'inda tento estabelecer conversa. Às vezes eu não entendo palavra do que dizem. Pobres antiquados versus pobre mim, que não sou um clássico.
Mas o amor que me espera na porta das manhãs é supra-pulmonar, meus mecanismos biológicos não são mais da ordem normativa das fisiologias; a fisiologia do amor está me convencendo a revolucionar o fator consuetudinário daquilo que agencio.
Não tenho escolha. Acho que o doutor Marinho da Silva, que roubou o meu coração sob pretexto de melhor estudá-lo (furá-lo, espetá-lo, maltratá-lo, testá-lo, aprová-lo, tomá-lo para si e então me chutar feito sarnento cão, sem coração, sem Eduardo, sem nada) faz um bom trabalho. Senão como médico, como feiticeiro, porque eu estou enfeitiçado (ele deve ser algo parecido com um quimbanda, ou um sacerdote do vodu, com seu cajado de palavras sensíveis e seu bisturi -que mais parece um sorriso- de operações espirituais). Portando ainda seu sorriso maligno -que corta feito um bisturi- temo que me hipnotize. Ou então é tarde demais, e não domino maneira de resgate. Mas nele confio, e no seu senso de comme il faut. Ipso facto ipso jure me submeto: cruzo as pernas de lábios indecisos, cruzadas de amor, indecisos de ansiedade, I never loved a man the way I love him, a Aretha Franklin desabafa.
Mas meus pulmões não me enganam, meu sorriso está aí para tudo quanto sou eu, e de alguma forma Eduardo também está. Quanto mais passam as horas mais me sinto seu, e mais o sinto meu. Tudo tem constituído sentido singular. O Malinowski compartilha disto. De jeito símile as próprias cores, as minhas refeições e a rua. E as pessoas, que são vício tão feliz quanto o que tenho pelas minha unhas.
É esquisito, mas sinto algo de pleno. Desprezo o inverno, a poeira me enfastia. Senão de verão, de outono. Em pleno outono.
Em pleno. Outono.


(II)

As flores da semana passada se esforçam para me entender. Conheço o potencial que têm. Mas vão morrer bem antes de mim. Depois que terminar o player, o pai-dos-burros virtual, e fechar o bloco-de-notas da pós-modernidade, terei uma conversa tête-à-tête com elas.
Expio os crimes de mim -cada vez mais de porre- até lá, com o riso safado do hipócrita: ai que falta de vergonha eu tenho, de ser tão feliz.


(III)

Sinto algo em nós que é maior do que todo o resto, algo que compartilho, que compartilha, que compartilhamos...
Sorrisos se desfazem na poeira das manhãs: é meu amor que vem me buscar mais uma vez para o dia que se anuncia, ninado, ninando, me ninando, meninando...
E eu nunca tive tanto poder.

5:15
20 6 2010

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Desabafo

Descobri em alguém mais um vez, e ao contrário das expectativas -tão murchas após um período de inferno astral secular-, alguma coisa que eu pudesse julgar mais próxima do que considero "ânimo". Depois de muito, muito tempo espe(rma)culando a respeito do que seria uma ideia de vida a dois (e as várias possibilidades e possibilidades de legitimação de tais etc) eu tive uma comprovação de que na verdade eu quero morrer ao lado de um anti-príncipe. O mais assustador é notar como esta figura familiar retornou à cena não apenas de cara, nome e roupa trocados, mas surpreendentemente de forma muito mais sedutora do que todos os outros episódios, o que eu por um instante -confesso- julgara impossível -em virtude, é claro, de muitas horas solitárias, sendo essa última estima "impossível" o estágio final de uma linha temporal que começara no "fácil", passara pelo "complicado" e precedera o "dificílimo".
A mescla de características de importantes camaradas que o precederam foi algo que me chamou a atenção. Não sei se tem a ver com alguma nostalgia latente -sou tentado a acreditar que tem, mesmo eu não querendo-, ou se é simplesmente o caráter antiintelectualista do meu novo amigo que me seduzia, a ponto de confundir a minha libido sem eu nem mesmo tê-lo possuído ainda -característica pessoal manifesta apenas em momentos específicos posteriores a encantamentos.
A corrente de metal que eu usava como colar pode ou não ter relação com isso. Mas o sujeito que eu conheci simplesmente representava uma grande medida percentual daquilo que eu aspirava (com alguma confiança não absoluta) como sendo a possibilidade de efetiva interação supra-superficial -e realização da aparência e dos papéis por mim imaginados no que toca o social, o que é podre, assumo.
Ser legal -e aqui eu me refiro a "legal" no sentido individual e próprio da concepção- não é coisa muito fácil. Ser parceiro e ser legal é praticamente meta de uma epopeia cotidiana, mesmo se tratando de uma cidade megalomaníaca como São Paulo (onde não se pode sequer ver mais as estrelas, porque elas se enfurnaram em quitinetes no COPAN).
Ainda assim não posso ser merecedor dos gritos de vítor, não porque eu esteja interessado em provar que não existe realização estrita e sim relativa, mas porque, se eu estiver falando de uma dimensão prática, porque Ele não me procurou mais, fazendo com que eu entrasse mais uma vez em um estado paranóico e talvez até de enlutamento. A analogia com as cinco fases do reconhecimento da própria morte é tentadora, mesmo que eu careça de base empírica para provar cientificamente uma relação com o caso da minha nova e velha perda. Vale a metáfora então: Choque -> I.Negação -> II.Cólera -> III.Barganha -> IV.Depressão -> V.Aceitação. José Luiz de Souza Martins, de quem eu tirei esta construção, assinala dizendo que o moribundo ainda pode morrer estagnado em uma das fases.

Lendo um livro muito pesado (para mim) chamado O que é Corpo(latria), de Wanderley Codo e Wilson Alvez Senne, deparei-me com a seguinte frase:
O prazer maior está exatamente na perda, no descobrimento do outro em mim, único caminho da construção da individualidade.
No contexto, os autores se referiam ao orgasmo e à sexualidade humana (o argumento era de que o exercício da sexualidade -pra ser mais específico, do orgasmo- é, paradoxalmente à concepção corpólatra do prazer individualizado, impossível sem o outro e que, como o trecho supracitado propõe, o prazer do orgasmo está na alienação do indivíduo de um êxtase que é simbiótico). Podemos considerar este axioma além da esfera sexual, ampliando o campo conceitual proposto para um que seja pertinente a qualquer tipo de interação social (em um sentido estrito, mais ou menos weberiano).
Posso então exprimir meu descontentamento neste desabafo, e mais especificamente, em uma pergunta (passível de entedimento dados os argumentos elencados até agora, porém de resposta aparentemente incognoscível).
Como, após mais uma desilusão como a problematizada, e lendo um texto igual a esse, posso então erguer o nariz e com uma convicção que não seja falsa dizer que posso acreditar ou que acredito no amor, mesmo que no sentido prático?

2:16
4 6 2010


Bipolaridade Mentirosa

Um sentimento. Não sei se frio, ou uma angústia intensa. Intensa de saudade. Saudade de alguém.
Parei de sofisticar as dores: as coisas são fáceis efetivamente, elas de fato dão certo. Pode ser um otimismo cego. Se for, quando eu acordar desse sonho maravilhoso (caso isso aconteça, o que é possível, mas atualmente inverossímil) não terei entraves para assumi-lo. Pago então o preço do ridículo, caso se trate disto a situação; o risco que eu assumo é maior do que o mundo, vai me sufocar de vontade, temo estar possuído: as coisas são fáceis efetivamente, elas de fato dão certo.
Anti-príncipe? De onde eu tirei essa bobagem de mensurar nessa dimensão o amor, sendo que ele jamais será racional, e portanto mensurável? Não posso confundir simples "quedas" estritamente com aquilo que eu posso esperar de um deus estático.
Não condeno minhas crises. Elas sempre estiveram aí para serem superadas. Entendo agora que uma crise demorada merece também uma revanche demorada.
Eu não vou mais me culpar a respeito de nada, ou culpar o mundo, as coisas, a sociedade, São Paulo -que não tem estrelas-, ou a Sociologia; estou num estado de transe, um êxtase egoísta que não quer saber de mais nada senão retroalimentar-se, embriagado por um sorriso, encantado pelo acaso.
As coisas são fáceis efetivamente, elas de fato dão certo. Ficam as dicas.
Minha paranoia me rendeu linhas e mais linhas, mas eu não as deslegitimo: olho para elas agora com curiosa atenção e penso em como as coisas mais terríveis no mundo já conseguiram inspirar os homens tão brilhantemente. Posso julgá-las (as linhas) ingênuas, mas sei que a princípio não são, nunca serão, são parte de mim.
O barulho da semana passada não me diz respeito no exato momento. Um dia, quando eu voltar a mim mesmo e puder fazer um balanço, eu vos informarei das coisas direito (se bem que vós já deveis estar entediados com a minha bipolaridade mentirosa). Por enquanto eu quero continuar de mãos dadas com a vida, absorto em um sorvete sem fim e amando em completo silêncio.
E este silêncio é tudo.

0:13
7 6 2010


Texto do Domingo Gelado

Quando acordei, às três horas da tarde, ainda estava um pouco tonto, ressaca da pinga. Deve ser por isso que aceitei comer o macarrão requentado -surpreendemente palatável- da noite passada, com molho de pimentão, abacaxi e café, pela minha mãe.
A noite e a seguida madrugada passadas foram muito especiais. Uma noite divertida. E romântica.
-Você quer namorar comigo?
-Sim.
Antes de sair de casa pus as músicas da Ella Fitzgerald no celular. Foi isto que ouvi no resto da tarde e na noite tão gelada. Mas a mania das bermudas não me abandona.
-Eu estou disposto a viver este amor irreversível.
Nunca pensei que fosse dizer aquilo. O capítulo d'O Suicídio, do Durkheim, era fantástico. Foi o que eu li indo de metrô até o Centro Cultural São Paulo. A Catherine Deneuve, novíssima, em uma atuação fantástica no filme do Polanski chamado Repulsion (título traduzido para Repulsão ao Sexo no português brasileiro) era tão surpreendente quanto as metáforas do filme, o enredo, o movimento do filme e as câmeras competentíssimas. A trilha sonora foi feita por um tal Chico Hamilton. Era boa.
Saindo da sessão, um pouco mais de Durkheim. Os arranjos do Nelson Riddle para as músicas da dupla Gershwin -competentissimamente interpretadas por Fitzgerald- ainda me acompanhavam. Não me dei por satisfeito, a noite geladíssima merecia um café.
-Eu estou apaixonado por você.
Quero viver um amor irreversível declarado, com data de nascimento, registro geral, e formalizações de cacau. Quando que eu ia pensar uma coisa dessas há três anos atrás?
Na padaria Lisboa, recém-reformada, aqui neste meu bairro chamado Tatuapé, pretensamente tradicional (o bairro e a padaria), pedi um café grande e um croissant, só para poder cruzar as pernas no balcão e terminar o fantástico capítulo d'O Suicídio, O Suicídio Egoísta. Não é com demonstrações dialéticas que se desenraíza a fé, simplesmente brilhante. Não entendo como a Sociologia é privilégio apenas de meia dúzia de graduandos de carreiras de humanas, e foi rejeitada da grade da educação básica durante tanto tempo. Esconder Durkheim das crianças é uma maldade tão grande, tão egoísta, não sei o que pode ser pior.
Quando terminei, descruzei as pernas, e ainda sob efeito de Ella fui à lan house tratar da minha faceta virtual -na verdade, socializar um pouco, no fim de mais um paulistano, gelado e solitário domingo sem estrelas, porém suficiente.
Voltando para casa, avistei uma embalagem violada de Kissy graviola. Mais pessoas de bom gosto na Cidade Mãe do Céu.
Estou enjoado de tanto verde e amarelo. A Cathy Deneuve realmente estava boa no filme. Achei as pessoas meio irritadas no cinema e na padaria. Será o frio? Será a copa?
-Nenhum homem jamais disse algo tão lindo para mim.
Enjoo de patriotismo-mercadoria, ...mas ele não se mata por se instruir, o man I love, Billie Holliday foi violentada, a Maria Callas é bonita, é tudo tão sórdido.
-Barreira, olha a minha nova aquisição. Comprei na Benedito Calixto, uma pechincha!
-Olha como você trata os seus homens, Eros.
(Mais) um domingo (paulistano, sem estrelas, e) gelado.
A gente namora, namorado.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Estudo#1 (fluxo)

Aquela mulher parece um homem (ou um homem que parece uma mulher). Bah! Que besteira. Às vezes me pego pensando nos porquês. Não tem porquês, Eros, acabou e acabou. Será que já chegou a minha salada? Que susto! Gostei da mochila. Que bundinha, hein? Será que o cara do CRUSP vai me ligar? Nossa! Esqueci o nome dele. É Ales...sandro. Alessandro? Não! Ele falou em luz, é Luciano! É Valdison Luciano.
-Mas Valdison significa o quê?
-Sei lá!
-Bom... Valdir significa alguma coisa.
-É, deve ser o nome original. Mas eu não pesquisei ainda.
Nossa, como estou atordoado. Quero dormir mais no Espaço Verde. A blusa da Gabriela é bonita. Eu não lembro o nome daquele cara da Letras...
-Oi! Tudo bem?
-Oi!
-O seu nome eu não lembro mas o significado dele é muito legal.
-Qual é o significado?
-Eu não lembro, mas é muito legal!
E ontem, o cara do cachorro. Hum, engraçado.
-Tem vinte e...
-Haha, trinta.
-Trinta e...
-Trinta.
-Qual é o nome dele?
-É a Drica. É menina.
-E o dono tem nome?
-É Alessandro.
Ah! Ele era o Alessandro.
-Que faz o que da vida?
-Engenheiro.
-Cê gosta?
-Gosto. Então, tá vendo aqui esta rua? Vira aqui, atravessa a Praça Roosevelt inteira, atravessa a Consolação e anda umas duas quadras. Mas toma cuidado que é meio perigoso.
-Tá. Peraí, deixa eu ver se eu entendi. Eu viro aqui...
-Vira aqui, atravessa a Praça Roosevelt...
A vista do COPAN não sai da minha cabeça. Que coisa absurda essa cidade. Mandei uma mensagem pro Diogo, mas ele não respondeu. "Foi um prazer, apesar de tudo. Beijos, bom dia!" Será que ele se ofenderia com o "apesar de tudo?"
-Quer que eu te chupe?
-Quê? Ketchup?
Risos. Mas ele é muito frio. Droga, por que ele não conseguiu até o final? Será que era por causa de mim? Não. Foda-se! O Daniel gostava. Ele era muito blasé. Será que o amor no COPAN existe? Eu posso ir ao Glória de novo. Mas quem disse que você vai encontrar alguém pra conversar assim lá, Eros? Aquela mulher que parece um homem de novo! Vou atrás da minha salada!

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

De mudança.

Atrasado.

A rua exalava um suor natalino, cheirando a mormaço e resquícios de um grupo de usuários de maconha, a um restinho de chuva e a uma alegria dissimulada, uma alegria envergonhante, uma alegria violenta e sem razão de ser. Enfim, a rua queria me provar que, como todos, e diferente de mim, estava cumprindo a sua obrigação, de ser rua normal, rua pacata, rua mandada. Es-cra-va! Rua escrava! É isso que é, escrava! Eu não me lamento, não me encho de porquês, estou sério comigo mesmo, e a minha seriedade só me permite fazer uma coisa, que é gozar. Minha seriedade nunca me permitiu fazer outra coisa, e se existe algum deus, deve ele ser essa minha séria vontade de que as coisas não sejam sérias, não sejam nada senão vontades.
Gargalhando de séria paixão subi a rua incansável como eu, acompanhado do barulho dos meus chinelos, que muito parece com o barulho de tamancos -é o que todos me dizem, aqueles que deixaram a janela e agora assistem a um São Pedro enlatado, confortáveis em seus sofás, suas camas, suas cadeiras de balanço, suas caixas de papelão. Foi bom as luzes estarem apagadas. Elas só fariam sentido se houvesse além de mim outro alguém na rua, que me veria, se assustaria, me amaria ou me ignoraria. A Lua, cansada de tutelar-me em vão, pois afinal minha ingratidão é de proporções espaciais, estava fechada em nuvens sem cor. O que me iluminava era o reflexo da lareira do meu coração, que por sinal também estava com suspeita escassez de combustível, pois só enxergava a cinco palmos de mim (e quando ela está bem alimentada, enxergo inclusive através das pessoas).
Mas eu entendia quase tudo. Lutando emergentemente contra uma certa solidão, decidi ir ao cinema. Só que as pessoas se esqueceram de sair de casa na véspera do ano novo, e o cinema esqueceu de ir chamá-las em casa. E foi triste, muito triste, porque eu fui ao cinema sozinho, no mesmo cinema onde um dia estivemos, juntos, unidos pelo suor de nossas mãos, e a sala estava vazia, e os cinco reais e cinquenta centavos berraram de horror para mim da bilheteria, porque queriam me avisar que a sala estaria vazia, e a minha solidão só ecoaria mais e mais e mais, porque o filme era ruim, mas não os ouvi, e eu não voltei.
Parei de gargalhar, continuei andando. A rua ainda olhava com aqueles olhos sombrios de ofensa, úmida, preta, inflexível. Mas, como sempre, não me impediu de chegar em casa. As luzes funcionam em casa, em casa não tenho a quem desafiar. Mas minha casa só serve pra dormir. Mas quando eu tiver um piano, ela será a extensão da rua, que então será minha amiga, tolerante, acesa. Um dia a rua será a minha casa. No outro dia será o cinema. E então será depois o metrô. Bobagem. Minha casa é este mundo. Com ou sem estrelas, não tenho opção, mutilado e decomposto em um terreno baldio, minha casa será este lugar.

Tudo isso para dizer que as coisas não precisam de você.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O texto das quatro horas.

É na madrugada indiferente, e por isso inexoravelmente tolerante, que eu pretamente saio, com meu cabelo verde e meu capacete dourado, após uma maratona de leitura sobre geopolítica (um "estudar" entre aspas, devido ao grande número de digressões mentais de fundo virtual, armadilhas que o hipertexto e a obrigação do status nos prega), acompanhado do meu alazão, grã-Heloísa, amiga minha há um ano e meio.
Como são amigas minhas essas ruas, apesar dos demais aventureiros motorizados -ai! eu odeio dividir espaço!- que também por elas vagam, feito eu, um retardo mental voluntário, pelas quatro horas da manhã, sob este céu que não tem estrelas. Divisa da Água Rasa, Anália Franco, até a boquinha da Vila Formosa, essas artérias cujos nomes eu sempre esqueço, e que pra mim só têm utilidade quando eu as "domino" -sim! entre aspas, porque jamais passará de apenas sensação-, preenchendo o impreenchível com a minha voz rouca de quatro semanas (e portanto um mês) com as melodias do Ivan Lins que eu tanto gosto -mas é porque o meu mp4 player fatalmente mudou de dono.
E que prazer esse meu agora, escrevendo este texto sem valor estético algum, com a companhia invisível do Ennio Morricone, nesta escrivaninha desarrumada como a minha cabeça, e eu até penso que sou mais feliz do que pensava -mas isso é um pensamento de aluguel, já sei da perenidade & perpetuação da minha felicidade! Ontem, enquanto meu cabelo deixava de ser castanho para se tornar diesel green, fixei meus olhos nos olhos da minha amiga Daniela e disse-lhe com uma firmeza de fundamentalista, que certamente o nosso futuro ia ser muito legal, e isso era absolutamente certo -o oposto seria insólito.
Quero concluir isto agora. Amanhã tem mais Economia, e História, e Literatura, e talvez à noite eu vá ao cinema com o Jackson, assistir a um filme muito ruim do Cinemark, mas é só porque ele vai pagar -pelo menos eu espero. Acho que vou salvar este texto, agora às quatro e quarenta e oito -segundo o horário psicopata deste meu PêCê psicopata-, e ir me olhar no espelho, e talvez eu até sorria.
Talvez nada, eu vou sorrir e acabou!

domingo, 20 de dezembro de 2009

Delírio existencial.

É a coisa que os homens fazem, transformar tudo em poesia o tempo inteiro, embora todos eles neguem. Quando olho pr'este céu que não tem estrelas, ou espremo a minha vista tentando conquistar as tantas paredes precárias deste meu bairro de mentira, é que não tem nada mais nessas coisas que eu procure que não seja poesia, pra abastecer meu coração de energia. Quando dissimulo afeto (ou simplesmente me envolvo) por uma aranha que mora na janela do banheiro, busco poesia, e quando me deixo levar pela pseudo-rebeldia implícita nas moléculas etílicas de um bombeirinho (pr'arranjar pretexto para dizer às pessoas aquilo que eu não tenho motivos para falar quando eu estou sóbrio) busco poesia, e quando eu me sinto sozinho, abstêmio de amor, é nela que me refugio, a ponto d'eu não conseguir mais saber diferenciar o que é real do que é poético, o que é sonho do que é palpável, o que é sensato do que é invisível.
Acho que estou entrando em outra dimensão.

[Samanta está viva! Cuidando da prole. Confesso, estou com um receio (bobo, talvez) de ter minha casa infestada por suas descendentes...]

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Declaração de amor ao Acaso ou Saudades de quando a gente ia no Habibs às três da manhã, que ficava do lado da sua casa.

Dissecando os textos de um não-robô, com o qual eu casualmente trombei aqui neste mundo virtual, que também não tem estrelas, encontrei uma pérola (acredite, dentre várias outras) cujo mágico brilho me lembrou, que o acaso pode ser o instrumento mais eficiente a ser usado por esta minha deusa chamada Felicidade, se manejado com técnica e sabedoria. Oras, juro que me esforço para extrair do acaso tudo o que ele pode me oferecer de melhor (desde refrigerantes distribuídos gratuitamente em uma praça qualquer até madrugadas maravilhosas incluindo licor de jabuticaba e batatas da perna carnudas), isto é, como bem me lembrou esse mesmo camarada, pra que serve um medo, senão para ser enfrentado? Se as coisas acontecessem na minha vida um pouco mais solidamente, do jeito sólido como eu vejo que esses robôs que me rodeiam -como me sinto sozinho!- vivem, eu surtava de desgosto mesmo! Viver o insólito -quando se tem oportunidade e capacidade para fazê-lo- é a coisa mais magnífica que um homem pode esperar, e é pensando que em um dia tudo em minha vida será inovador e surpreendente eu afirmo: não perdi todas as esperanças!, estou aqui colhendo as evidências que estão espalhadas neste chão sem fundo para provar -pelo menos para mim mesmo- de que vale à pena continuar vivendo como hoje vivo.
Estou louco, louco, ansioso mesmo, para que o meu acaso me pregue a próxima peça -e se isso não acontecer logo vai ser duro & chato de aguentar, e na verdade já está demorando e já está sendo duro & chato, PRONTOFALEI!!-, e quero encerrar este texto citando aquele meu amigo não-robô do primeiro período (e eu aposto que ele nem se lembra da passagem que eu citarei);
[Preste atenção ao seu dia. O inesperado nos aguarda em cada esquina. Não o procure, ele o encontrará.]
A Samanta, que é a aranha que mora no canto da janela do banheiro, e é com quem eu converso todo dia quando vou tomar banho -até o dia em que um de nós dois morrer primeiro-, me deu uma sugestão, de ir catar coquinhos, de tanto que lhe enchi a paciência de ficar falando de amores (ultra)passados. E que ótimo! Ela não foi sequer a pioneira. Tudo aqui, o disco e os postais pendurados na parede, o Vincent Guaraldi Trio, o Mário de Andrade, o meu cachorro Natalino (que eu chamo de Natan quando estou de bom humor), minhas roupas espalhadas, as lichias emboloradas dentro do tapperware branco de tampa azul e até o meu auto-retrato pendurado na parede (que consiste em dois pregos segurando duas cartolinas coladas com fita adesiva com um desenho muito tosco feito com spray preto) estão aqui me sugerindo, que se eu não parar logo de ficar me lamentando, vão todos eles embora, me deixar aqui, sozinho, pelado com o meu desassossego, juro que disseram isto!!
Agora, se o meu desassossego gosta ou não de homem, é problema dele: eu só sei é que ele não faz nem um pouco o meu estilo, e não larga do meu pé. Se alguém quiser me devolver o sossego, estou abertíssimo, vocês sabem onde eu moro, se não conseguirem me achar pelas estrelas -já que São Pedro as tirou deste céu paulistano para presentear os nova-iorquinos- é só perguntar para o mendigo lunático que está sempre dançando sobre uma caixa de concreto (não faço idéia do que seja aquilo: a caixa e o lunático), ao lado da saída do metrô Consolação -sentido centro. Não garanto que ele lhes responderá, mas o passeio pelo menos não será perdido (o ar-primeiro-mundo da Paulista nunca é um passeio perdido).
Lunático estou eu aqui, escrevendo desesperadamente, lutando contra essa minha frieza -e eu confesso, amigos: SOCORRO, JÁ NÃO SINTO NADA!! A coisa mais intensa que eu sinto agora é uma maldita dor na língua causada, suponho, por uma afta. Segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa 1.0.12, afta é uma pequena ulceração superficial dolorosa, observada ger. na mucosa bucal e mais raramente na mucosa genital, de causa desconhecida, com recidivas atribuídas a vírus ou fungos, desequilíbrio hormonal, problemas alimentares ou estresse, podendo apresentar-se isolada ou associada a doenças sistêmicas, isto é, afta é um saco! Mas vejamos do ponto de vista positivo: pelo menos não é uma afta genital!!

[Este texto é um exemplo do que acontece ao sujeito quando ele não está nem um pouco preocupado com concepções literárias estéticas, relacionadas à coesão, problemas de digressão, e não teve um pingo de disciplina e ascetismo na infância. Uma subversão total, da qual vós, leitores, sois vítimas. É claro, vós que chegastes até aqui.]

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Este texto eu o desenterrei. Acho que ele representa uma época muito importante pra mim.
Como eu espero sair deste buraco-negro...




quando eu subo
apartamento as dores
e a porta abre
e eu vejo as tuas cores
a noite passa
e eu me deploro submisso
à tua massa
e eu te exploro e eu te dispo
as tuas mordidas no meu pescoço
me enchem de tesão até o osso
e as tuas mãos seguras
me protegem no teu ombro
da noite obscura
que é linda e um assombro
quando eu acendo e te toco feito bicho
a gente ama, e não importa o luxo ou o lixo
(as tuas mordidas no meu pescoço...
quando deita e me beija o meu moço)
e eu durmo sem pensar qualquer verdade
porque sei que estou vivendo a eternidade

21 9 2009