Atrasado.
A rua exalava um suor natalino, cheirando a mormaço e resquícios de um grupo de usuários de maconha, a um restinho de chuva e a uma alegria dissimulada, uma alegria envergonhante, uma alegria violenta e sem razão de ser. Enfim, a rua queria me provar que, como todos, e diferente de mim, estava cumprindo a sua obrigação, de ser rua normal, rua pacata, rua mandada. Es-cra-va! Rua escrava! É isso que é, escrava! Eu não me lamento, não me encho de porquês, estou sério comigo mesmo, e a minha seriedade só me permite fazer uma coisa, que é gozar. Minha seriedade nunca me permitiu fazer outra coisa, e se existe algum deus, deve ele ser essa minha séria vontade de que as coisas não sejam sérias, não sejam nada senão vontades.
Gargalhando de séria paixão subi a rua incansável como eu, acompanhado do barulho dos meus chinelos, que muito parece com o barulho de tamancos -é o que todos me dizem, aqueles que deixaram a janela e agora assistem a um São Pedro enlatado, confortáveis em seus sofás, suas camas, suas cadeiras de balanço, suas caixas de papelão. Foi bom as luzes estarem apagadas. Elas só fariam sentido se houvesse além de mim outro alguém na rua, que me veria, se assustaria, me amaria ou me ignoraria. A Lua, cansada de tutelar-me em vão, pois afinal minha ingratidão é de proporções espaciais, estava fechada em nuvens sem cor. O que me iluminava era o reflexo da lareira do meu coração, que por sinal também estava com suspeita escassez de combustível, pois só enxergava a cinco palmos de mim (e quando ela está bem alimentada, enxergo inclusive através das pessoas).
Mas eu entendia quase tudo. Lutando emergentemente contra uma certa solidão, decidi ir ao cinema. Só que as pessoas se esqueceram de sair de casa na véspera do ano novo, e o cinema esqueceu de ir chamá-las em casa. E foi triste, muito triste, porque eu fui ao cinema sozinho, no mesmo cinema onde um dia estivemos, juntos, unidos pelo suor de nossas mãos, e a sala estava vazia, e os cinco reais e cinquenta centavos berraram de horror para mim da bilheteria, porque queriam me avisar que a sala estaria vazia, e a minha solidão só ecoaria mais e mais e mais, porque o filme era ruim, mas não os ouvi, e eu não voltei.
Parei de gargalhar, continuei andando. A rua ainda olhava com aqueles olhos sombrios de ofensa, úmida, preta, inflexível. Mas, como sempre, não me impediu de chegar em casa. As luzes funcionam em casa, em casa não tenho a quem desafiar. Mas minha casa só serve pra dormir. Mas quando eu tiver um piano, ela será a extensão da rua, que então será minha amiga, tolerante, acesa. Um dia a rua será a minha casa. No outro dia será o cinema. E então será depois o metrô. Bobagem. Minha casa é este mundo. Com ou sem estrelas, não tenho opção, mutilado e decomposto em um terreno baldio, minha casa será este lugar.
Tudo isso para dizer que as coisas não precisam de você.
Gargalhando de séria paixão subi a rua incansável como eu, acompanhado do barulho dos meus chinelos, que muito parece com o barulho de tamancos -é o que todos me dizem, aqueles que deixaram a janela e agora assistem a um São Pedro enlatado, confortáveis em seus sofás, suas camas, suas cadeiras de balanço, suas caixas de papelão. Foi bom as luzes estarem apagadas. Elas só fariam sentido se houvesse além de mim outro alguém na rua, que me veria, se assustaria, me amaria ou me ignoraria. A Lua, cansada de tutelar-me em vão, pois afinal minha ingratidão é de proporções espaciais, estava fechada em nuvens sem cor. O que me iluminava era o reflexo da lareira do meu coração, que por sinal também estava com suspeita escassez de combustível, pois só enxergava a cinco palmos de mim (e quando ela está bem alimentada, enxergo inclusive através das pessoas).
Mas eu entendia quase tudo. Lutando emergentemente contra uma certa solidão, decidi ir ao cinema. Só que as pessoas se esqueceram de sair de casa na véspera do ano novo, e o cinema esqueceu de ir chamá-las em casa. E foi triste, muito triste, porque eu fui ao cinema sozinho, no mesmo cinema onde um dia estivemos, juntos, unidos pelo suor de nossas mãos, e a sala estava vazia, e os cinco reais e cinquenta centavos berraram de horror para mim da bilheteria, porque queriam me avisar que a sala estaria vazia, e a minha solidão só ecoaria mais e mais e mais, porque o filme era ruim, mas não os ouvi, e eu não voltei.
Parei de gargalhar, continuei andando. A rua ainda olhava com aqueles olhos sombrios de ofensa, úmida, preta, inflexível. Mas, como sempre, não me impediu de chegar em casa. As luzes funcionam em casa, em casa não tenho a quem desafiar. Mas minha casa só serve pra dormir. Mas quando eu tiver um piano, ela será a extensão da rua, que então será minha amiga, tolerante, acesa. Um dia a rua será a minha casa. No outro dia será o cinema. E então será depois o metrô. Bobagem. Minha casa é este mundo. Com ou sem estrelas, não tenho opção, mutilado e decomposto em um terreno baldio, minha casa será este lugar.
Tudo isso para dizer que as coisas não precisam de você.

3 comentários:
Comentando rapidinho, nem pude ler. Prometo ler mais tarde. Só passei para dizer que dei um jeitinho no blog. Tá uma bosta, mas dá pra ler até rs.
to na maior correria hoje --'
Inspirador...
Olha quem eu encontrei por aqui: Doryan!
Fazia tempo que não passava por aqui, peço desculpas...
E quanto ao texto: melancólico, mas apesar de tudo, rancoroso.
Eu iria dizer pessimista, mas não é.
Otimista, nem tanto. Rancoroso? Nem tanto.
E o 'São Pedro enlatado' foi ótimo!
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