ou 'Uganda em mim'
Porque a minha principal ideologia é a vida -especialmente a minha- saí correndo, em uma atitude que costumo chamar de pânico, de outra atitude, a qual qualifico como terror, insolitamente personificada na figura de quatro sujeitos, ou mais, altos e musculosos, sem camisa e de calça preta, carecas, segurando facões. Alguns deles não eram exatamente brancos. Isso poderá -ou não- ser importante mais tarde. Porque a minha principal ideologia é a vida saí correndo, em uma atitude que os outros qualificariam como covarde, mas é porque não conhecem o significado real do termo "terrorismo".
Esta cidade é demasiadamente grande. Olhei com o coração exausto de tantos slides para o fim dessa Radial Leste, que na verdade não existia. Não tem fim. São Paulo não tem fim. Pensei em todas essas pessoas consumidas completamente pelo medo, pensei no medo que eu sinto, no medo que eu nego.
Quando cheguei perto do shopping e vi que um pedaço da calçada estava vazio de novo pensei "puta que pariu esses seguranças... o pior é o rebanho que sai mesmo", porque os seguranças do shopping inventaram uma história, que não pode ficar naquela calçada -reparem que a calçada é pública, mesmo a do shopping, eles ainda não têm direito de isolá-las-, e os integrantes daquele grupo gigantesco, composto por principalmente gays, lésbicas e simpatizantes, obedecem direitinho conforme o pedido, quer dizer, conforme o obrigado. É quase obrigado sim, porque se você resiste, acaba sozinho na calçada, visto como subvertor pelos funcionários do shopping e isolado do grupo.
O shopping Tatuapé tomou várias providências em relação ao encontro que acontece toda segunda-feira há um bom tempo em uma de suas fachadas. A maioria delas é recente. Por causa da aglomeração de pessoas, os seguranças foram instruídos para dispersarem o grupo dentro do shopping, de forma a não obstruírem a passagem dos consumidores em potencial -como se os próprios homossexuais não fossem consumidores em potencial também. No pátio da fachada onde ocorre o encontro iniciou-se uma reforma. Uma reforma que nunca tem continuidade. Isso deslocou parte da massa do encontro para a calçada, pois a passagem entre a porta automática do shopping e a calçada também passou a contar com um chato anti-obstrução. Só que esse chato anti-obstrução só foi necessário pois a) as pessoas não podem ficar estáticas dentro do shopping, b) o pátio foi cercado para uma reforma infinita, c) as pessoas não podem ficar estáticas dentro do shopping e atrapalhar ou ofender a saída dos consumidores em potencial pedestres do shopping.
Uma quarta medida tomada foi a de fechar os portões daquela fachada meia hora mais cedo, talvez para evitar os problemas que os trombadinhas e batedores de carteira traziam para dentro do shopping (uma multidão em pânico, às vezes tossindo por causa de ataques avulsos com spray de pimenta, entrando ensandecida no shopping e causando uma mixórdia). A quinta medida é a de cercar o bordo da calçada, para evitar que o trânsito se torne um caos, isto é, evitar que o grupo ocupe ou dificulte a passagem nas pistas da Rua Domingos Agostim. Mas é também uma atitude controversa (que ninguém questiona), já que o bordo é importante no trânsito, para carros que necessitam estacionar urgentemente, e para os motociclistas e ciclistas, já que a pista mais próxima ao bordo direito é preferencial a estes, e quem diz isso não sou eu, é o Código de Trânsito Brasileiro. Esta providência é controversa, mas a última é simplesmente ilegal. É o isolamento de uma seção da calçada.
Lembrando que todas essas medidas são tomadas apenas na fachada do encontro às segundas-feiras.
A "política" do shopping é uma coisa. Não sei se a CET autorizou o uso de cavaletes na calçada. Agora, que o Estado não permite essa atitude que eu qualifico como discriminatória (não pelo fato de o grupo ser de homossexuais, mas sim pelo fato de assustarem o público homófobo do shopping) de impedir a permanência na calçada, é óbvio que é mentira. Mas o rebanho não está preocupado com isso, e nisso consiste o meu ressentimento. Pensam feito perus, só estão preocupados com imagem e beijar na boca, obviamente jamais boicotarão o shopping porque são conformados, porque não associam uma coisa à outra, porque eles mesmos são consumidores, porque acham que os maiores culpados são os seguranças "chatos" do shopping, e não os administradores da logística da salvaguarda.
As ovelhas estúpidas, naquele gramado, onde a periferia da Zona Leste, da Zona Norte e de outros lados de São Paulo, porque São Paulo tem muitos lados, vêm abastecer seus cérebros televisivos agindo como devem agir, pensando feito perus, dispostas como ovelhas que são. Então hoje, contrariando as minhas expectativas, um grupo pequeno mas assustador de rottweilers enfurecidos, xiitas adeptos de uma ideologia chamada skinhead, transformou o calmo rebanho em uma manada histérica. Contrariando minhas expectativas, porque depois da semana que antecedeu esta, quando um arrastão gigantesco escapou ileso de cinco viaturas de policiais (ah! os policiais, tão simpáticos, pedindo passagem com spray de pimenta), eu jurava que alguma providência seria tomada. Doce sonhar. Nenhuma providência, da parte do rebanho, da parte do comércio, da parte do shopping e da parte do Estado, isto é, da própria polícia, em relação à criminalidade e à violação dos direitos humanos. Hoje, isolados do shopping, sem proteção policial, um enorme grupo GLS foi intimidado por um minúsculo grupo de skinheads aqui no meu bairro chamado Tatuapé.
E o pior? Nenhuma providência será tomada.
Nenhuma precaução.
Nenhuma medida.
Nada.

5 comentários:
Ah... Seres humanos... Sempre consumidos pelos próprios medos, preconceitos e ideologias nada ideológicas...
sangue pede sangue, tudo isso é reflexo da mediocridade de alguns grupos
que pena que o sr não foi mais claro. a discussão seria divertida.
xD
Acido, mas, mais uma vez, verdadeiro. Isso me remete ao dia que fui num encontro desses. Eu e meu amigo passavamos em direção a entrada do shopping, e por um momento eu pude perceber que todos que cercavam a rampa olhavam para nós. Me senti como um pedaço de carne. Sabe, você analisa 'lugares', já eu 'pessoas'...
"Nenhuma providência, da parte do rebanho, da parte do comércio, da parte do shopping e da parte do Estado, isto é, da própria polícia, em relação à criminalidade e à violação dos direitos humanos."
Veja você, há um consenso nisso tudo; pergunte-se quem vai jogar a pedra nas engrenagens de todo esse mecanismo social, quem vai chutar o balde. É complicado, principalmente quando se envolve o alto escalão das autoridades nacionais, ou das instituições nacionais: polícia e estado.
Absurdo.
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