Uma espécie (peculiar) de crônica. #Amor [3]
Minhas mãos cheiram ao pós-dia suado. Teimosamente. Elas acordam o corpo inteiro. Ciclicamente, trazem para cima, para baixo, para um lado, para o outro todo o seu corpo ligth-acafetado, vestido no branco aceso da luz negra, para cima, para baixo, para um lado, para o outro toda a sua carga, logo de manhã, logo de tarde...
Explosões temporais de cândido amor.
Um. Se-gun-do.
E de repente estou livre.
Pingos de suor verde-limão piscando na pista da vida.
E viver é o maior barato.
23h21
812011dc
Sonho: Choro, choro...
Era bem nítido no sonho. Você me amava.
Eu estava ali deitado, de costas para a mulher da minha vida, quando você, o homem, seu dono, me cobriu, com seu couro dourado, o trigal, aquele que o insistente vórtice do tempo só extinguiria no fim de um de nós dois, o que representaria automaticamente o fim de ambos.
Não havia roçar de bocas, umidade, fluido salivar, nada, só havia troca de respiração, um roçar de dermes, um mútuo pentear, uma aproximação, um carinho não explícito, mas um amor vergonhosamente exibicionista exalando direto do invisível para os olhos lacrimejantes dos demais admnistradores de vícios na rua. Aquilo era o bastante, e aquilo era o amor.
E o maior pesadelo da minha vida foi simplesmente acordar e descobrir que amor irreversível da minha estava na sala contígua, sozinho, e eu nada poderia fazer por nós.
Não sei se lhe interessa saber disso, mas você me amou nitidamente no sonho mais bonito da minha vida.
0h27
1312011dc
Sinto que é hora, salto!
"Se me der um beijo eu gosto
Se me der um tapa eu brigo
Se me der um grito não calo
Se mandar calar mais eu falo"
Recado, Luís Gonzaga Júnior
Quarteto em Cy ilumina(ria) mais ainda a amarela (e chorosa) lâmpada do poste central -no risonho e lateral epílogo.
O poslúdio foi magnético, amarelecendo as coisas em ritmo cada vez mais agonizante. Houve um vencedor, e fui eu. Sempre nós, sempre nós, não entendo, já não entendia. Compreensibilíssimo, eu, tu, nós, vós, ele e eu, ali, onde havíamos começado, e estávamos terminando, claro, evidente, clarividentemente vaticinado, como a Razão não diagnosticara ainda?
Dias com pseudo-psicólogos da cidade-mundo-eu (uma psicogeografia delimitada pela mais distante partícula -em relação ao centro gravitacional), noites, madrugadas, também manhãs, açaí com cranberry sauce, barbas, faltas de barbas, uma semana, mais de uma semana, uns dias a mais, e nós lá, e você querendo, e eu não querendo, ou melhor, o contrário.
Éramos dois. Fomos. Somos dois-quase. Hoje. Digamos, con permiso, agora.
O Quarteto em Cy, com força e com vontade, me prometem, amarelecidamente, chorosamente, risonhamente, outros outubros irreversíveis (e portas matinais castanhas e abertas como meus olhos abertos e castanhos).
Ces't possible, ma non troppo!
"Mas se me der a mão claro aberto
Se for franco direto aberto
Tô contigo amigo e não abro
Vamos ver o diabo de perto"
Recado, Luís Gonzada Júnior
0h42
1312011dc
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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
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quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Peça: Domingos na vida (Não faz a'loca!)
Deve acontecer na cidade sem estrelas, e absolutamente ao acaso.
A cena é composta por um vagão de trem razoavelmente vazio, em um metrô de um bairro médio de emergentes, também um polo social da região. Acontece no limiar entre as quinze e as dezesseis horas, em um domingo mais ou menos frio em medida nublado.
Personagens:
o homofóbico militante gay: roupas escuras, calça, blusa de manga comprida deixando à mostra algumas tatuagens (uma delas lembra uma cruz), boné, provavelmente tênis, cabelo curto ma non troppo, alargador, óculos sem contorno de armação em volta das lentes, magro, cara de louco;
o bissexual discreto: barba por fazer, inchado, óculos de armação unissex, cabelo curto ma non troppo, camiseta preta de manga comprida, calça jeans, tênis, segurando uma folha do jornal da Igreja Universal do Reino de Deus, que tinha cruzadinhas (o miolo do jornal havia sido recém-jogado fora, por motivos evidentes);
o homossexual havaiano: camisa florida, bermuda xadrez marrom com azul claro, chinelo, mais inchado que o homofóbico gay mas menos inchado que o bissexual discreto, ponta do cabelo com gel descolorida e mezzo desbotada mezzo violeta versus rosa.
Prólogo
O bissexual discreto senta em um banco duplo paralelo ao do metrô, enquanto o homossexual havaiano no banco duplo perpendicular. O homofóbico gay militante senta no banco duplo perpendicular que forma uma linha contínua com o banco perpendicular em que está sentado o homossexual havaiano. As portas fecham. O metrô começa a andar, deixando à mostra a pequena ponte estaiada prestes a ser inaugurada.
O homofóbico gay militante começa a encarar o bissexual discreto. Olha fixamente para ele, em uma expressão crescente que aparentemente misturava medo, perplexidade, ódio e vários outros sentimentos mistos. Ainda não estava evidente que de fato ele olhava para o bissexual discreto, que apenas achava graça.
Tem início o diálogo.
O Diálogo
HH: I guess, he's with a fork, and he's going to start killing us.
Risos.
O homofóbico gay militante se levanta põe o dedo em riste, acusando o bissexual discreto. Quando fala, fala gravemente, com muito sentimento, misturando alerta com ameaça, e com assustador fôlego. O primeiro clímax.
HGM: Não faz a'loca! Não faz a'loca.
Acusa o bissexual discreto mais um tempo, fazendo ameaças e também com sentido de ofensa. Vai se afastando de repente em passos largos e desajeitados, e também hesitantes e chega até próximo do fim do vagão em pouco tempo. Entretanto, o homossexual havaiano não parava de provocá-lo.
HH: Ei, cara, vamos conversar, vamos conversar! Vamos bater um papo! [E quando ele se afasta,] Olha só, mas que homem nós temos aqui!
Enfurecido com a última provocação, o homofóbico gay militante volta rapidamente, enquanto o homossexual havaiano levanta, e posteriormente o bissexual discreto. Enquanto o primeiro, peitando reciprocamente o segundo (de forma que este notou o doce hálito daquele) continua a praguejar, e o terceiro se esforça em previnir qualquer contato físico apartando os dois primeiros, o segundo consegue engendrar uma conversa mais ou menos lógica no sentido narrativo, que consiste no segundo clímax da peça.
HH: Cara, vamo bater um papinho. A gente desce na próxima estação e vai conversar com os policiais.
HGM: Pra quê?
HH: Porque você está me discriminando.
HGM, surpreendemente, em uma voz mais ou menos audível: Você acha que eu não sou veado igual a você?
Chegavam à seguida estação. Encaminhavam-se para a porta de saída, as vítimas insistentes para que o louco (como se as próprias vítimas fossem sãs) com elas descesse para que a conversa chegasse de fato em termos mais sérios e efetivos -não necessariamente graves. A porta se abre, o homossexual havaiano desce, o homofóbico gay militante fica do lado de dentro mas próximo do limite da porta para o lado de fora, e o bissexual discreto entre o chão da plataforma e o trem. E é este último que engendra o terceiro grande clímax (logo, as três principais personagens da peça são suas três protagonistas).
BD, acusando: Você está preso! Eu como cidadão estou te prendendo por discriminação!
A porta apita. O bissexual discreto tenta trazê-lo para a plataforma, mas não conseguindo, empurra o homofóbico gay militante, que neste ato arranca do primeiro o resto do jornal da Igreja Universal do Reino de Deus que continha as cruzadinhas.
A porta se fecha. O bissexual discreto mostra-lhe o dedo do meio, o homossexual havaiano manda-lhe um beijo, o homofóbico gay militante continua olhando odiosamente através do vidro da porta do metrô.
Epílogo
HH: Gente, que cara loucão, velho!
BD: Eu prendi ele!
Risos.
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quarta-feira, 28 de julho de 2010
A Digressão
Dá um medo.
De não saber o que fazer.
Por um instante eu pensei.
Vontade de abraçar. E o abraço é engraçado, ele é só praticamente um dos gestos que mais dão margem para se acusar de insegurança. Parece que abraçar significa ingenuidade.
Talvez seja isso mesmo.
Não creio que os paulistanos gostem de abraçar. Nem acho também que estejam aptos para começar a fazê-lo.
Acho que, pobrezinho, o abraço será esquecido. Parece algo elementar em todos os lugares. Mas o que esperar de uma sociedade que abole o amor senão o esquecimento das práticas românticas. O abraço tende a durar enquanto continuarmos nos reificando. Quando esse processo terminar, nós, máquinas humanas, poremos em início o processo de hiperfuncionalização. Serão abolidas a estética e beleza, pois, a princípio, elas não têm utilidade para a manutenção daquilo que é vital. O beijo não fará, pois, mais sentido e, tampouco, o abraço. O sexo continuará a ser mecânico, mais ou menos como é hoje em dia, só que institucionalizado.
Mas será exatamente aí que a máquina ruirá. A beleza é apenas aparentemente improdutiva. Ela, entretanto, no mínimo, alimenta o espírito, e aí a máquina perderá no que diz respeito à sua alimentação.
Espera-se contudo que os homens perfeitos que a criarem se preocupem em manter a pluralidade, mesmo que artificial. Uma máquina social que prescindisse da alteridade, que minasse todas as particularidades estaria minando a si própria.
Engraçado.
Por um instante esta digressão monstruosa me fez esquecer do medo. Daquele medo de não saber o que fazer.
De não saber o que fazer quando não se tem o que ou quem abraçar.
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sexta-feira, 16 de julho de 2010
Canção do Asfalto ou Canção do Assalto
Era uma subida, não muito íngreme, e na rua recém-reasfaltada, Heloísa, que é o nome da minha bike, e eu passeávamos. Não me interessava chegar mais cedo ou mais tarde em casa, desde que as minhas preocupações pudessem ser dissolvidas por inteiro na brisa da paulistana noite sem estrelas. Como eu ia explicar que o meu terceiro aparelho celular quebrara, como os outros dois, para os meus responsáveis? Mas o problema logo se resolveria.
Para converter-se em outro.
Eram duas horas da manhã. A postura que eu assumo em relação ao mundo, eu não quero mudá-la. Digo exatamento o mesmo para todas as pessoas quando elas me dão sermão quando pinto o cabelo de verde, quando saio de mãos dadas com o meu namorado, quando atravesso a cidade com Heloísa, quando saio para andar de bike às duas da manhã: eu estou disposto a assumir o risco para poder me sentir mais livre. E, também por enquanto, sou inexorável quanto a esta ideologia. Foi o que restou de mim depois de ler Raoul Vaneigem.
E o risco tornou-se efetivo quando, naquela subida, um sujeito, na direção oposta, ou seja, na descida, parou a moto, desceu e me encarou com uma cara odiosa. Entendi absolutamente tudo na hora. Fui em sua direção e pretendi acelerar Heloísa, mas na pré-dispersão em que me encontrava, e também pelo fato de eu estar em uma subida, o meu plano engasgou, de forma que o meu grito de "filho da puta" logo cessou quando o novo amigo me derrubou da bicicleta, com uma força que só a abstinência pode produzir.
Eu bem poderia ter dado meia volta. Mas o único pensamento que o meu reflexo considerou foi o de possivelmente destruir meu oponente, o que não aconteceu.
[A bem da verdade pode-se pensar no oposto.]
Era como se o meu inconsciente ordenasse
CORRA! SEJA ASSALTADO!!
Na queda quebrei um dente.
Irreversivelmente.
Heloísa também zuou a clavícula, pobrezinha, não tinha nada a ver com isso.
Sobre mim, na calçada da vida, me asfixiando com uma chave de braço, ordenou-me que sacasse o celular. Obviamente eu não o fiz (i) porque estava imobilizado e também porque (ii) estava asfixiado. Felizmente (sim, porque tudo aconteceu felizmente) ele pegou o celular, que estava com o visor quebrado a quinze minutos (o que é uma pena, porque o dispêndio de sua empreitada acabara sendo infrutífero) e se foi em seu alazão em busca da cocaína sonhada.
Um babaca! Achou que ia conseguir assaltar alguém às duas horas da manhã de um domingo. Conseguiu só porque tem muita sorte (ou felizmente não, afinal furtou um aparelho que não valia naquele instante um terço do que quando fora me dado).
Recompus-me na velocidade que consegui.
Levantei-me mais ou menos.
Lesado.
Onde está o meu dente?
A liberdade levou.
Levantei Heloísa e rumei em direção a um pouco mais de satisfação pessoal.
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segunda-feira, 12 de julho de 2010
Do cabelo verde
O preço que eu pago por pintar o cabelo de verde é, minimamente, a paranoia. Ousaria dizer que o pacote inclui um aumento absurdo da falta de respeito dos outros em relação a mim: meus direitos de cidadão moderno são suspensos e, conforme a animosidade dos meus concidadãos, o poder de análise destes se torna audível, seja o diagnóstico positivo ou não.
A crítica mais ferrenha a respeito dessa atitude diz respeito àquilo que no senso comum se dá o nome de chamar atenção. Uma explicação ingênua para essa repulsa seria dizer que os demais têm inveja da minha coragem de efetivar aquilo que na verdade seria um desejo latente. Não posso crer que seja assim fácil de explicar.
A crítica se volta a uma atitude que chama atenção. Por ser diferente, talvez. Não sei também se a explicação está ao meu alcance, diria que não. O fato é que a cor excêntrica instiga.
O verde em especial -e aqui eu me dou o direito de fazer tal comentário com argumento de autoridade.
A lógica é simples: alguém pinta o cabelo de verde para chamar atenção, afinal, é inconcebível que alguém o faça pensando no efeito estético que isso pode produzir. Logo, os indivíduos se esforçam para catalogar a anomalia conforme determinado motivo ou ideologia nos quais ela se encaixa taxonomicamente.
É fácil: eu sou palmeirense! A outra comum é o Hulk. Ambas explicações são automáticas e obviamente superficiais. Um ou dois me perguntaram se se tratava de vegetarianismo ou veganismo. Um perguntou se eu era punk. Alguns poucos fizeram gestos de aprovação, alguns outros grunhiram de reprovação.
Mas é óbvio, para quem me conhece, que a última coisa na qual eu estou pensando é na Mancha Verde, imitar uma personagem ou em parecer um straigh edge consciente. Trata-se do efeito estético que a cor verde, minha predileta, apresenta enquanto cor do meu cabelo. Acho realmente bonito.
Outra observação diz respeito ao pensamento das pessoas acerca dos instantes em que eu estou de cabelo colorido e um parceiro. A associação do afeminado com aquele homossexual que chama atenção é o lugar comum do qual se depreende a máxima não basta ser gay, tem que chamar a atenção. Pintar o cabelo de verde então é a extensão de um projeto cuja essência se encontra na homossexualidade.
Contudo, como enunciado no início, além da situação humilhante de objeto de estudo no qual me transponho ao pintar o cabelo, o outro preço que eu pago é a paranoia. É sair de casa e, a cada pessoa que passa, pensar no que ela está achando, mesmo involuntariamente (salvo certos momentos em que eu realmente esqueço disso ou estou com amigos, algo assim), ou pensar no impacto que eu estou causando (e essa é a parte divertida; fico entusiasmado de pensar no risco que eu assumo para me sentir mais livre, pois às vezes, eu realmente acho, perturbo um ambiente apenas com a minha singela e colorida presença). É medir cada um dos meus passos, cada uma das minhas ações, cronometrar gestos, planejar a entonação da voz...
Tudo isso apenas para que eu possa provar para mim mesmo e para o resto do mundo que uma pessoa de cabelo verde pode apresentar uma conduta não necessariamente agressiva diante dos demais, excetuando, claro, a própria agressividade e, portanto, também o sentido político, intrínsecos ao efeito do cabelo.
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quarta-feira, 7 de julho de 2010
Notas
O homem que eu era voltou.
Eu disse ao garçom que quero que ele morra.
Em sua garçonnière ri com as notas de dinheiro.
Me trocou por uma de cem! Por uma! Só uma!
Mais um gim tônica.
Relato do Rolê Miado
Convidado feito um estranho senti certo receio. Mas os vários de mim convenceram a não duvidar, e lá fui, livro na cueca, cueca na calça, previnido de tédio-dos-outros-que-também-me-quer. Mas diacho que o cobrador do bús pra quem pedi informação não deu palavra durante a viagem, e dei por conta do infortúnio apenas no fim do passeio. Quis ligar, avisar que eu 'tava miado, mas não encontrei dois celulares no bolso. Embriagado de medo naquele terminal que eu não conhecia -que, eu temia, terminasse comigo antes que eu terminasse co'aquilo-, 'inda criei coragem e colei no orelhão. Avisar-lhes-ia a respeito das minhas condições em relação ao rolê, mas aqui o futuro do pretérito indica pro senhor que o efeito foi abortado: certa figura me pausou e puxou conversa. Disse-lhe que 'tava meio zuado pra discursar, mas o piá não me deixou em paz com história de família, de Jesus, de dinheiro, e eu gritei pro pivete que saísse do meu pé. Pois o trote foi duplo, o pai do pestinha me colou no ouvido antes mesmo que eu tirasse o gancho do fone. Veio sim, e veio com história de respeito, educação e o escambau, então eu simplesmente gritei que aquele cachorro fosse pro inferno. Pra quê?, o tio enlouqueceu, e também nunca vi pessoa mudar de cor de emputecida. Pois eu garanto, o mano lá do terminal ficou azul de raiva. Literalmente. Eu disse "Calma, campeão, eu só não dou o dinheiro porque 'cabaram de me roubar", mas o azulão parecia não estar mais interessado em nada senão me destruir. E, puta que pariu, eu não tinha grana nenhuma. Então um tio de bombeta e óculos mui bregas, feito o Roberto Carlos (com barriga feito gigante cisto), de longe me disse que não temesse, se tratava de televisiva anedota. Cristo! Bradei que pro inferno fossem com aquela maldita pilhéria, que eu não estava em condições et cætera. Uma semana depois apareci na televisão. Não assinei nada, não precisei, eles forjaram uma rubrica. Ignorei a ideia de processá-los. Comecei a comer uma mina que me conheceu por meio do programa de pegadinhas. Tanto melhor.
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terça-feira, 12 de janeiro de 2010
De mudança.
Atrasado.
A rua exalava um suor natalino, cheirando a mormaço e resquícios de um grupo de usuários de maconha, a um restinho de chuva e a uma alegria dissimulada, uma alegria envergonhante, uma alegria violenta e sem razão de ser. Enfim, a rua queria me provar que, como todos, e diferente de mim, estava cumprindo a sua obrigação, de ser rua normal, rua pacata, rua mandada. Es-cra-va! Rua escrava! É isso que é, escrava! Eu não me lamento, não me encho de porquês, estou sério comigo mesmo, e a minha seriedade só me permite fazer uma coisa, que é gozar. Minha seriedade nunca me permitiu fazer outra coisa, e se existe algum deus, deve ele ser essa minha séria vontade de que as coisas não sejam sérias, não sejam nada senão vontades.
Gargalhando de séria paixão subi a rua incansável como eu, acompanhado do barulho dos meus chinelos, que muito parece com o barulho de tamancos -é o que todos me dizem, aqueles que deixaram a janela e agora assistem a um São Pedro enlatado, confortáveis em seus sofás, suas camas, suas cadeiras de balanço, suas caixas de papelão. Foi bom as luzes estarem apagadas. Elas só fariam sentido se houvesse além de mim outro alguém na rua, que me veria, se assustaria, me amaria ou me ignoraria. A Lua, cansada de tutelar-me em vão, pois afinal minha ingratidão é de proporções espaciais, estava fechada em nuvens sem cor. O que me iluminava era o reflexo da lareira do meu coração, que por sinal também estava com suspeita escassez de combustível, pois só enxergava a cinco palmos de mim (e quando ela está bem alimentada, enxergo inclusive através das pessoas).
Mas eu entendia quase tudo. Lutando emergentemente contra uma certa solidão, decidi ir ao cinema. Só que as pessoas se esqueceram de sair de casa na véspera do ano novo, e o cinema esqueceu de ir chamá-las em casa. E foi triste, muito triste, porque eu fui ao cinema sozinho, no mesmo cinema onde um dia estivemos, juntos, unidos pelo suor de nossas mãos, e a sala estava vazia, e os cinco reais e cinquenta centavos berraram de horror para mim da bilheteria, porque queriam me avisar que a sala estaria vazia, e a minha solidão só ecoaria mais e mais e mais, porque o filme era ruim, mas não os ouvi, e eu não voltei.
Parei de gargalhar, continuei andando. A rua ainda olhava com aqueles olhos sombrios de ofensa, úmida, preta, inflexível. Mas, como sempre, não me impediu de chegar em casa. As luzes funcionam em casa, em casa não tenho a quem desafiar. Mas minha casa só serve pra dormir. Mas quando eu tiver um piano, ela será a extensão da rua, que então será minha amiga, tolerante, acesa. Um dia a rua será a minha casa. No outro dia será o cinema. E então será depois o metrô. Bobagem. Minha casa é este mundo. Com ou sem estrelas, não tenho opção, mutilado e decomposto em um terreno baldio, minha casa será este lugar.
Tudo isso para dizer que as coisas não precisam de você.
Gargalhando de séria paixão subi a rua incansável como eu, acompanhado do barulho dos meus chinelos, que muito parece com o barulho de tamancos -é o que todos me dizem, aqueles que deixaram a janela e agora assistem a um São Pedro enlatado, confortáveis em seus sofás, suas camas, suas cadeiras de balanço, suas caixas de papelão. Foi bom as luzes estarem apagadas. Elas só fariam sentido se houvesse além de mim outro alguém na rua, que me veria, se assustaria, me amaria ou me ignoraria. A Lua, cansada de tutelar-me em vão, pois afinal minha ingratidão é de proporções espaciais, estava fechada em nuvens sem cor. O que me iluminava era o reflexo da lareira do meu coração, que por sinal também estava com suspeita escassez de combustível, pois só enxergava a cinco palmos de mim (e quando ela está bem alimentada, enxergo inclusive através das pessoas).
Mas eu entendia quase tudo. Lutando emergentemente contra uma certa solidão, decidi ir ao cinema. Só que as pessoas se esqueceram de sair de casa na véspera do ano novo, e o cinema esqueceu de ir chamá-las em casa. E foi triste, muito triste, porque eu fui ao cinema sozinho, no mesmo cinema onde um dia estivemos, juntos, unidos pelo suor de nossas mãos, e a sala estava vazia, e os cinco reais e cinquenta centavos berraram de horror para mim da bilheteria, porque queriam me avisar que a sala estaria vazia, e a minha solidão só ecoaria mais e mais e mais, porque o filme era ruim, mas não os ouvi, e eu não voltei.
Parei de gargalhar, continuei andando. A rua ainda olhava com aqueles olhos sombrios de ofensa, úmida, preta, inflexível. Mas, como sempre, não me impediu de chegar em casa. As luzes funcionam em casa, em casa não tenho a quem desafiar. Mas minha casa só serve pra dormir. Mas quando eu tiver um piano, ela será a extensão da rua, que então será minha amiga, tolerante, acesa. Um dia a rua será a minha casa. No outro dia será o cinema. E então será depois o metrô. Bobagem. Minha casa é este mundo. Com ou sem estrelas, não tenho opção, mutilado e decomposto em um terreno baldio, minha casa será este lugar.
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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Caça.
ou 'Uganda em mim'
Porque a minha principal ideologia é a vida -especialmente a minha- saí correndo, em uma atitude que costumo chamar de pânico, de outra atitude, a qual qualifico como terror, insolitamente personificada na figura de quatro sujeitos, ou mais, altos e musculosos, sem camisa e de calça preta, carecas, segurando facões. Alguns deles não eram exatamente brancos. Isso poderá -ou não- ser importante mais tarde. Porque a minha principal ideologia é a vida saí correndo, em uma atitude que os outros qualificariam como covarde, mas é porque não conhecem o significado real do termo "terrorismo".
Esta cidade é demasiadamente grande. Olhei com o coração exausto de tantos slides para o fim dessa Radial Leste, que na verdade não existia. Não tem fim. São Paulo não tem fim. Pensei em todas essas pessoas consumidas completamente pelo medo, pensei no medo que eu sinto, no medo que eu nego.
Quando cheguei perto do shopping e vi que um pedaço da calçada estava vazio de novo pensei "puta que pariu esses seguranças... o pior é o rebanho que sai mesmo", porque os seguranças do shopping inventaram uma história, que não pode ficar naquela calçada -reparem que a calçada é pública, mesmo a do shopping, eles ainda não têm direito de isolá-las-, e os integrantes daquele grupo gigantesco, composto por principalmente gays, lésbicas e simpatizantes, obedecem direitinho conforme o pedido, quer dizer, conforme o obrigado. É quase obrigado sim, porque se você resiste, acaba sozinho na calçada, visto como subvertor pelos funcionários do shopping e isolado do grupo.
O shopping Tatuapé tomou várias providências em relação ao encontro que acontece toda segunda-feira há um bom tempo em uma de suas fachadas. A maioria delas é recente. Por causa da aglomeração de pessoas, os seguranças foram instruídos para dispersarem o grupo dentro do shopping, de forma a não obstruírem a passagem dos consumidores em potencial -como se os próprios homossexuais não fossem consumidores em potencial também. No pátio da fachada onde ocorre o encontro iniciou-se uma reforma. Uma reforma que nunca tem continuidade. Isso deslocou parte da massa do encontro para a calçada, pois a passagem entre a porta automática do shopping e a calçada também passou a contar com um chato anti-obstrução. Só que esse chato anti-obstrução só foi necessário pois a) as pessoas não podem ficar estáticas dentro do shopping, b) o pátio foi cercado para uma reforma infinita, c) as pessoas não podem ficar estáticas dentro do shopping e atrapalhar ou ofender a saída dos consumidores em potencial pedestres do shopping.
Uma quarta medida tomada foi a de fechar os portões daquela fachada meia hora mais cedo, talvez para evitar os problemas que os trombadinhas e batedores de carteira traziam para dentro do shopping (uma multidão em pânico, às vezes tossindo por causa de ataques avulsos com spray de pimenta, entrando ensandecida no shopping e causando uma mixórdia). A quinta medida é a de cercar o bordo da calçada, para evitar que o trânsito se torne um caos, isto é, evitar que o grupo ocupe ou dificulte a passagem nas pistas da Rua Domingos Agostim. Mas é também uma atitude controversa (que ninguém questiona), já que o bordo é importante no trânsito, para carros que necessitam estacionar urgentemente, e para os motociclistas e ciclistas, já que a pista mais próxima ao bordo direito é preferencial a estes, e quem diz isso não sou eu, é o Código de Trânsito Brasileiro. Esta providência é controversa, mas a última é simplesmente ilegal. É o isolamento de uma seção da calçada.
Lembrando que todas essas medidas são tomadas apenas na fachada do encontro às segundas-feiras.
A "política" do shopping é uma coisa. Não sei se a CET autorizou o uso de cavaletes na calçada. Agora, que o Estado não permite essa atitude que eu qualifico como discriminatória (não pelo fato de o grupo ser de homossexuais, mas sim pelo fato de assustarem o público homófobo do shopping) de impedir a permanência na calçada, é óbvio que é mentira. Mas o rebanho não está preocupado com isso, e nisso consiste o meu ressentimento. Pensam feito perus, só estão preocupados com imagem e beijar na boca, obviamente jamais boicotarão o shopping porque são conformados, porque não associam uma coisa à outra, porque eles mesmos são consumidores, porque acham que os maiores culpados são os seguranças "chatos" do shopping, e não os administradores da logística da salvaguarda.
As ovelhas estúpidas, naquele gramado, onde a periferia da Zona Leste, da Zona Norte e de outros lados de São Paulo, porque São Paulo tem muitos lados, vêm abastecer seus cérebros televisivos agindo como devem agir, pensando feito perus, dispostas como ovelhas que são. Então hoje, contrariando as minhas expectativas, um grupo pequeno mas assustador de rottweilers enfurecidos, xiitas adeptos de uma ideologia chamada skinhead, transformou o calmo rebanho em uma manada histérica. Contrariando minhas expectativas, porque depois da semana que antecedeu esta, quando um arrastão gigantesco escapou ileso de cinco viaturas de policiais (ah! os policiais, tão simpáticos, pedindo passagem com spray de pimenta), eu jurava que alguma providência seria tomada. Doce sonhar. Nenhuma providência, da parte do rebanho, da parte do comércio, da parte do shopping e da parte do Estado, isto é, da própria polícia, em relação à criminalidade e à violação dos direitos humanos. Hoje, isolados do shopping, sem proteção policial, um enorme grupo GLS foi intimidado por um minúsculo grupo de skinheads aqui no meu bairro chamado Tatuapé.
E o pior? Nenhuma providência será tomada.
Nenhuma precaução.
Nenhuma medida.
Nada.
É verdade que o autor deste ultrage foi
neTrop!k@lista
? Que droga!! Bom.. ele postou às
18:37
5 comentários:
Isso pode até te lembrar
cloaca,
domingos na vida,
esgoto,
impermeável,
inverno-anomalia,
tédio
sábado, 9 de janeiro de 2010
Todas as contraculturas apontam para a defesa da hegemonia do self-made man.
Discute-se que o principal problema da esquerda atual é a hiperfragmentação dos movimentos sociais. Isso significa que cada vez mais existem grupos interessados em problemas específicos e pontuais em relação à suas constituições, e em consequência disso, menos grupos interessados em resistir simplesmente ao sistema vigente levantando uma bandeira. Ou seja, no final das contas temos como balanço o seguinte: um mosaico de grupos minoritários que visam combater o sistema defendendo ideologias egoístas (não é muito difícil falar aqui de ego, já que os grupos acabam assumindo identidades), o que nada mais é reflexo da necessidade de se pôr em defesa individualmente que a ideologia do self-made man criou, isto é, a versão moderna e revisitada pela sociologia eugenista do senso de sobrevivência -que não passa de história. Ou seja, o capitalismo triunfa impregnando de medo todos os homens, impedindo que os insatisfeitos com a ordem neoliberal dêem as mãos e assim façam verão.
Mas o leitor questionará o porquê de tanto marxismo fora de época. Eu explico! É que ontem eu fui na Rua Augusta, pólo pluricultural daqui desta cidade sem estrelas chamada São Paulo, e nada mais vi lá do que um sem-número de grupos organizados feito bolhas, muitos com várias intersecções, claro, porém todos preocupados em defender um estilo (aparentemente apolítico, mas como a apolítica é utópica... vamos simplesmente fingir que há um mínimo de consistência no meio daqueles adolescentes -todos adolescentes, apesar da idade- deficitários metidos a ingleses, junkies, punks, rockers, skaters, emos, "alternativos", vida loka, hippies, amantes livres, anarquistas etc), apenas um estilo. Apenas sim, e prejudicialmente apenas. Prejudicialmente apenas porque fadando um movimento, como uma tribo urbana, a apenas um conjunto de esteriótipos e imagens, seus integrantes estarão se rendendo à sociedade do espetáculo do Guy Debord, onde as relações sociais se dão justamente por imagens, e nessa defesa absurda da aparência, diz também o Raoul Vaneigem, é que consiste o segredo da infelicidade tão bem cultivado pelo capitalismo no coração de cada um dos homens ocidentais.
Vejo como mecanismo decidido de resistência à ordem o cultivo de um estilo de vida automutilador e proibido. Não estou aqui em defesa do cristianismo, por isso não qualifico tais condutas como desregradoras ou pervertidas. Mas há de se prestar muito bem atenção no que essas ações significam. Apelar para discursos ofensivos e escandalosos, o uso clandestino de drogas ilícitas, mudanças corporais estéticas e o amor livre podem ser sim maneiras de se resistir tanto à moral quanto resistir à lei. Só que, desculpem-me pela franqueza, acho que o suspeito conforto que todas essas ações "proporcionam" deixaram há muito de serem agentes subvertores e hoje só estão cumprindo essa ideologia hedonista que a Mídia tanto defende.
O tratamento que se dá ao corpo, incluindo o uso de anabolizantes, e o consumo desenfreado de bebidas e cigarros por menores de idade, e de alucinógenos ilegais por todas as faixas etárias, são condutas condenadas pelo Estado nacional, mas legitimadas, institucionalizadas e incentivadas pelo Estado hedonista do capital (mais lubrificante no processo de alienação na máquina social, e mais uma alavanca no capital financeiro, mais mercados rentáveis no sistema que gira em torno do dinheiro, e não da vida).
O intuito do texto não era ser um manifesto comunista, e sim uma defesa da tese de que as contraculturas deixaram de ser contra há muito tempo, e hoje apenas sustentam uma imagem de rebeldia que é inclusive defendida nos comerciais da televisão. Não quero generalizar, fiquei descontente com o que vi na Rua Augusta. Sei de uma galera que, embora não seja perfeita -a incompatibilidade com o Outro oprimido, que embora seja também oprimido como eu também é o Outro, é a principal dessas falhas-, dentro da minha visão realista e arrogante, é bastante engajada e atua notavelmente aqui em São Paulo (mesmo que algumas propostas sejam bobas, temos os vegans, os freegans, os straight edges compromissados, os vários grupos de socialistas, os humanistas, os anarquistas ontológicos, a galera da Bicicletada etc).
Mas o leitor questionará o porquê de tanto marxismo fora de época. Eu explico! É que ontem eu fui na Rua Augusta, pólo pluricultural daqui desta cidade sem estrelas chamada São Paulo, e nada mais vi lá do que um sem-número de grupos organizados feito bolhas, muitos com várias intersecções, claro, porém todos preocupados em defender um estilo (aparentemente apolítico, mas como a apolítica é utópica... vamos simplesmente fingir que há um mínimo de consistência no meio daqueles adolescentes -todos adolescentes, apesar da idade- deficitários metidos a ingleses, junkies, punks, rockers, skaters, emos, "alternativos", vida loka, hippies, amantes livres, anarquistas etc), apenas um estilo. Apenas sim, e prejudicialmente apenas. Prejudicialmente apenas porque fadando um movimento, como uma tribo urbana, a apenas um conjunto de esteriótipos e imagens, seus integrantes estarão se rendendo à sociedade do espetáculo do Guy Debord, onde as relações sociais se dão justamente por imagens, e nessa defesa absurda da aparência, diz também o Raoul Vaneigem, é que consiste o segredo da infelicidade tão bem cultivado pelo capitalismo no coração de cada um dos homens ocidentais.
Vejo como mecanismo decidido de resistência à ordem o cultivo de um estilo de vida automutilador e proibido. Não estou aqui em defesa do cristianismo, por isso não qualifico tais condutas como desregradoras ou pervertidas. Mas há de se prestar muito bem atenção no que essas ações significam. Apelar para discursos ofensivos e escandalosos, o uso clandestino de drogas ilícitas, mudanças corporais estéticas e o amor livre podem ser sim maneiras de se resistir tanto à moral quanto resistir à lei. Só que, desculpem-me pela franqueza, acho que o suspeito conforto que todas essas ações "proporcionam" deixaram há muito de serem agentes subvertores e hoje só estão cumprindo essa ideologia hedonista que a Mídia tanto defende.
O tratamento que se dá ao corpo, incluindo o uso de anabolizantes, e o consumo desenfreado de bebidas e cigarros por menores de idade, e de alucinógenos ilegais por todas as faixas etárias, são condutas condenadas pelo Estado nacional, mas legitimadas, institucionalizadas e incentivadas pelo Estado hedonista do capital (mais lubrificante no processo de alienação na máquina social, e mais uma alavanca no capital financeiro, mais mercados rentáveis no sistema que gira em torno do dinheiro, e não da vida).
O intuito do texto não era ser um manifesto comunista, e sim uma defesa da tese de que as contraculturas deixaram de ser contra há muito tempo, e hoje apenas sustentam uma imagem de rebeldia que é inclusive defendida nos comerciais da televisão. Não quero generalizar, fiquei descontente com o que vi na Rua Augusta. Sei de uma galera que, embora não seja perfeita -a incompatibilidade com o Outro oprimido, que embora seja também oprimido como eu também é o Outro, é a principal dessas falhas-, dentro da minha visão realista e arrogante, é bastante engajada e atua notavelmente aqui em São Paulo (mesmo que algumas propostas sejam bobas, temos os vegans, os freegans, os straight edges compromissados, os vários grupos de socialistas, os humanistas, os anarquistas ontológicos, a galera da Bicicletada etc).
É verdade que o autor deste ultrage foi
neTrop!k@lista
? Que droga!! Bom.. ele postou às
14:03
3 comentários:
Isso pode até te lembrar
domingos na vida,
esgoto,
ignóbil,
impermeável,
tédio
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
O texto das dezesseis horas.
Mas eu te espero na porta das manhãs, porque o grito dos teus olhos é mais e mais e mais, e depois que você partiu, o mel da vida apodreceu na minha boca.

Tom Zé
Hoje boicotei mais uma manhã, porque desisti delas -todas muito vulgares, essas manhãs indecentes-, de todas elas -até a obrigação me impedir de boicotá-las novamente. Comi um peixe -hoje eu defendo e piscicultura, única e exclusivamente a piscicultura, pelo fato de eu temer um dia ser comido por um peixe-, e o macarrão tinha muito óleo de oliva. Não tinha bebida, mas em contrapartida pus o Pucho & His Latin Soul Brothers pra tocar, pra parecer um pouco mais chique (embora uma pessoa com geografia zê-életista, "anômala" sexualmente e com um gramado na cabeça esteja bem longe de se encaixar em uma esteriotipação "chique" -yes! livre de mais um estigma!), e comi pensando em várias coisas que logicamente eu não lembro mais. Li uma resenha sobre o Graciliano Ramos, um resumo feito pela minha mãe sobre planos anti-inflacionários no Brasil, e já me dei por vencido. Peguei um livro de História do Brasil, outro de História Geral, um chamado Mercado Financeiro, e percebi que nas minhas atuais circunstâncias eu não conseguiria lê-los sem ser acometido por um feroz sono. Lembrei de uma música do Tom Zé, que me lembrou mais uma vez o Daniel. Aqui faz um calor absurdo e o meu nariz irritado 'tá me irritando com sucesso. Quero tomar um banho que não vai me limpar, porque eu já estou limpo. O Jackson me ligou, espero que ele não se importe com o meu new diesel green hair. Foda-se se ele se importar, eu não vou casar com ele mesmo. Acho que o Francisco desaprovaria o meu cabelo novo, porque ele é muito sério. Mas foda-se também; desculpe baby, eu vou viver mais pra mim, eu vou correndo buscar a glória. Viciei em um estilo de música, um eletro-jazz, eletro-samba, eletro-bossa, eletro-soul, achei extra-easygoing pra estudar, melhor do que o Ravel, o Gershwin e o Debussy que eu 'tava ouvindo antes. Talvez eu esteja me boicotando, mas se o tio Freud 'tivesse aqui eu virava pra ele e rispidamente diria logo que "ó, tio! eu quero tomar banho sim e acabou!", ao que ele estupefato viraria as costas e sairia pra dar uma cheiradinha, já que nunca soube falar português -blefe. E pra quem é partidário dele, estou aqui desafiando: quero que vocês me impeçam agora de ir tomar um banho!
Vocês acham mesmo que conseguem? Bando de impotentes!
É verdade que o autor deste ultrage foi
neTrop!k@lista
? Que droga!! Bom.. ele postou às
10:26
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Isso pode até te lembrar
amores primaveris desgastados,
cloaca,
domingos na vida,
esgoto,
ignóbil,
primavera abacate francesismos posar,
tédio
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Nem sei se eu publicava isto aqui. Mas depois eu pensei que, como o meu blogue tem apenas três leitores (isso surpreendendo todas as expectativas), que apesar de três são suficientemente qualitativos, não havia porquê de não publicar.
Esta poesia eu a escrevi faz um certo tempo, alguns meses, e como eu não sei onde está o caderno onde escrevi mas a sei de cor, não me preocupei com a data. Foi conversando agora há pouco com a Heloísa (andando com ela no bairro vizinho chamado Anália Franco, que estatisticamente é um dos que mais concentra capital aqui na zona leste -igual ao meu!), e contrariado em "ter que ler" o Vinícius de Moraes, que decidi colocar isto aqui, elegendo como mote deste impulso o meu descontentamento com o poetinha.
Eu vou dedicar isto aqui à Luciana, porque eu 'tô com saudade dela! Perdão antecipado pelas generalizações e pelos anacolutos.
Carta a uma rola.
Minha amiga, não quero que me condenes
Pelas minhas opções, e nem quero que você
Me siga, afinal, se eu tenho um pênis,
Não quero ouvir sermões, eu só quero é foder.
Sou um cara bem didático, só um cara bem didático.
Está na Bíblia, que se eu sou um pederasta
Eu vou pro Inferno, já que eu não vou para o Céu.
Oh! Minha filha, eu não sou iconoclasta:
Chega perto, tira logo esse chapéu!
Eu vou beijar a tua cabeça!
Eu vou beijar a tua cabeça!
(Nenhuma poesia fecha, é tudo aberto, o sangue, as unhas flecham... Onde estão os anjos, onde está você?)
Esta poesia eu a escrevi faz um certo tempo, alguns meses, e como eu não sei onde está o caderno onde escrevi mas a sei de cor, não me preocupei com a data. Foi conversando agora há pouco com a Heloísa (andando com ela no bairro vizinho chamado Anália Franco, que estatisticamente é um dos que mais concentra capital aqui na zona leste -igual ao meu!), e contrariado em "ter que ler" o Vinícius de Moraes, que decidi colocar isto aqui, elegendo como mote deste impulso o meu descontentamento com o poetinha.
Eu vou dedicar isto aqui à Luciana, porque eu 'tô com saudade dela! Perdão antecipado pelas generalizações e pelos anacolutos.
Carta a uma rola.
Minha amiga, não quero que me condenes
Pelas minhas opções, e nem quero que você
Me siga, afinal, se eu tenho um pênis,
Não quero ouvir sermões, eu só quero é foder.
Sou um cara bem didático, só um cara bem didático.
Está na Bíblia, que se eu sou um pederasta
Eu vou pro Inferno, já que eu não vou para o Céu.
Oh! Minha filha, eu não sou iconoclasta:
Chega perto, tira logo esse chapéu!
Eu vou beijar a tua cabeça!
Eu vou beijar a tua cabeça!
(Nenhuma poesia fecha, é tudo aberto, o sangue, as unhas flecham... Onde estão os anjos, onde está você?)
É verdade que o autor deste ultrage foi
neTrop!k@lista
? Que droga!! Bom.. ele postou às
20:26
2 comentários:
Isso pode até te lembrar
cores que pediram a conta do analista,
domingos na vida,
ignóbil,
impermeável,
inverno-anomalia
domingo, 20 de dezembro de 2009
Domingo em mim.
E estou acordado, caindo neste abismo porque perdi teus braços, e agora sem eles não tenho mais em que segurar. Não posso mais ouvir Radiohead sem pensar em você. Não posso mais ouvir o Yann Tiersen sem lembrar das noites nas quais tentamos ver o Amelie Poulain. Não vou mais ir ao Habibs sem lembrar daquelas madrugadas famintas. Hoje à noite, cansado de tanto ler -e esse vestibular só não é mais chato do que o Vinícius de Moraes- fui ao parque Sampaio, porque a minha bicicleta chamada Heloísa e eu queríamos espairecer, e os meus vizinhos estavam felizes e sonoros demais para a minha vaidade. Senti falta do meu mp4 player, que eu perdi há duas semanas, porque ele era parte da minha terapia (e eu sou viciado apenas em chá gelado, em pessoas e em música -roer as unhas, confesso, vocês sabem, é outro vício), e não tenho muito com o que relaxar ultimamente. E no parque, que estava especialmente vazio hoje (as pessoas do meu bairro estão acampando nos shoppings -e domingo é o dia onde o êxodo tem sido mais violento) tive medo, vi algumas estrelas perdidas entre as copas negras das árvores cansadas de tando tédio dominical -como eu-, que só deviam estar ali de passagem, migrando pra algum lugar importante, como Porto Alegre ou Punta Del Leste. A escuridão sufocou o meu coração vazio, já que ele estava mais oco e solitário do que todas aquelas sombras teimosas, mais insistentes que a impotente iluminação do parque. Em um instante pensei que a minha disposição havia caído da bicicleta e escorregado para o bordo daquelas vias precárias. Mas era mentira, deixei minha disposição em seu apartamento naquele domingo insólito, e fui sem rosto (tal como uma pintura metafísica do De Chirico) para o parque do Ibirapuera encontrar com os meus amigos. O parque Sampaio continuava vago, como a minha vida, e eu lembrei de tudo, do domingo, do Habibs, do Yann Tiersen, do Radiohead e, minha nossa, eu não tenho motivos para gostar assim dessa banda, mas eu às vezes a ouço, e às vezes ouvindo lembro de você, e lembrando de você não sei se quero sorrir, chorar, lembrar ou esquecer -talvez o meu problema seja querer fazer os quatro simultaneamente. Então eu fechei os meus olhos porque a brisa da noite ia limpar a minha alma, mas concomitante a isso Heloísa (acompanhada da minha estupidez maníaca) me levou para a direção errada e eu caí no bordo, que estava lama pura. De fato, minha disposição não estava lá, só havia lama, mas eu a confundia com a minha própria matéria, porque eu estou derretendo, eu estou acordado e caindo neste abismo, e é por isso que eu flutuo de medo e angústia nesse domingo. É porque eu ainda não atingi o solo.
É verdade que o autor deste ultrage foi
neTrop!k@lista
? Que droga!! Bom.. ele postou às
20:21
2 comentários:
Isso pode até te lembrar
amor irreversível,
cloaca,
domingos na vida,
esgoto,
solidão,
tédio
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