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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Minha Namorada é um Homem

Devaneios de um Octubro

1. Traga Sua Bandana Rosa
em troca de título melhor

Cheguei em casa agora, e comecei a digitar nisso que parece ser as vinte e uma e trinta e um de algo que parece um domingo -que parece quente- de algo aparentemente novembrino. E inspiradíssima para iniciar essa grande empreitada de explicar para mim mesmo -e o meu hipotético interlocutora- o que foi este último outubro -o que deve parecer estranho, já que, além das vinte e uma horas, me situo também no vigésimo primeiro dia de -nada mais nada menos que- um NOVEMBRO! Na real, uma tentativa -tive esse insight há pouquíssimos minutos, pode ser uma grande mentira- de tornar patentes as razões de um vórtice criativo -impassível de ser canalizado simplesmente em um texto de blogue. Este (vórtice)!
E vou começar a contar do avesso, e não farei um texto necessariamente artístico ou necessariamente jornalístico, ou necessariamente necessário a algum gênero (algum gênero!) de, de, DE, de algo generalizável (no sentido de compositor).
Do avesso, ai céus, explico, primeiro pela tarde/noite fantástica de hoje (meu nariz tem sangrado), depois passando para uma análise da minha experiência do Show do Gongo e do festival de cinema de "diversidade sexual" Mix Brasil (droga! não estou achando o meu tilibra -bom e barato LITERALMENTE moleskine), tratando de uma descobertinha-UNIFESP (marota!), e culminando (ai caralho, tenho uma prova sobre O Capital inteiro quinta, não me fará mal continuar falando, hein, hum, han), como uma forma de, de, de, tornar excitante, NÃO, como uma forma de tornar interessante isto aqui (isto aqui?), desculpa!, como uma forma de tornar MAIS interessante o ensaio (ensaio?), no enredar, no contar a grã-história, de responsabilidade de tudo ISTO AQUI, o que fui eu e o resto naquilo de nome ENUDS, o evento que mudou tudo, tudo... Ah! talvez vocês entendam, talvez eu esteja blefando CRUZES! nunca escrevi assim antes. mentira Mentira.

A-ny-way,
posso começar assim falando algo, uma citação, aproximada, de uma das falas, algo como eu falando algo que foi falado (dito)
[não sei se: 'okay, então temos de rejeitar -certa forma- a identidade', mas]
aqui muita gente fala SOU ANARQUISTA, bate no peito, e não interessa que corrente, mas -assumindo preceitos básicos- são anarquistas mesmo,
muita gente é punk, faz parte da cena punk, a gente assume até uma ESTÉTICA punk [pra mim essa parte é a melhor],
muita gente aqui também é vegetariana, ou vegana, e assume essa identidade,
agora, quando chega na sexualidade, a gente não pode simplesmente adotar uma identidade!
Sensacional a observação do rapaz no Espaço Impróprio, calor pós-pulos, na discussão sobre (In)Visibilidade Bissexual, um primor, um primor! Experimentei, finalmente, depois de uma certa curiosidade, o que é aquilo que está mais próximo do outro extremo do leque de tipos ativistas (o outro extremo em relação à academia, que tem sido a minha casa), e foi gostoso, e foi ótimo, 'inda que eu não tivesse como me entrosar muito bem no ambiente (mas é isso aí, quer dar uma de cientista social, antropologiza na marra!), porque eu vi o queerpunk, vi os bissexuais envolvidos com causas sociais, partindo de uma perspectiva que DETESTA a macroestrutura e se deparando também com problemas comuns à macroestrutura. Eu vi a galera dos zines, as superfeministas -já, as que eu vi lá, remediadas (teoria queer na veia) em relação ao rótulo "xiitas"-, vi os vegans, bikers, pansexuais, [se eu fosse chutar, eu diria que tinham também] poliamantes, todos unidos em um espaço, lutando entre a ciência rudimentar e a prática cotidiana para simplesmente se encontrarem, e PARA SE ENCONTRAR, porque não se sentem amparados -estes INDIVÍDUOS, se é que o termo pode ser empregado sem conotação pejorativa- pelas identidades comuns e coercitivas -afinal, no limite, ninguém pertence a nenhuma dessas identidades-, simplesmente para continuarem vivos moral, física e psicologicamente.
E vi o show do Teu Pai Já Sabe?, e cantei, e vibrei, a suei, e me realizei, no sentido em que venho inaugurando esse novo realizar, essa nova sensação. Puta, viado, travesti é engraçado!
Não consigo entender que tanto se importar com a minha sexualidade, se vai ou não aceitar. Minha vida só pertence a mim, eu não devo nada dela a você, faço o que eu estiver afim e não me importo com o que você vê! E gritos e braços e vidas saltando rumo ao limite dos músculos (e também aos limites dos fluidos músico-espaciais -bateria e guitarra e baixo e voz e vidas de verdade!) em um uníssono: GAY! GAY! GAY!
Mas obviamente são/éramos todos QUEER.
Definitivamente, fodeu o meu re-seio pré-rolê. Trombei uma conhecida tagarela, e isso ajudou. Mas, não tem como falar se não for assim como estou, emotivamente, porque o rolê foi alg'assim, tipo, precisamente emocional. Quando eu falar do festival de cinema Mix Brasil o tom será outro. Enfim, uh!
Desejo desejos e beijo a vida no -acho!- morno domingo. E vamos à luta proletária, que o professor Musse (que não é necessariamente um doce) me espera -na porta das manhãs ou- quinta-feira.
Decidi agora contar a minha aparição na revista Época, e, portanto, sobre o grupo DS e what the fuck, e isto será depois da análise do rolê Mix Brasil, porque aconteceu antes. É, acho bom fechar este texto em cinco partes.
Ai, melhor! Vou falar da bicicletada também. Vocês verão, vocês-verão, whatever.
Para o resto, para a vida, para os dias, as manhãs,
tragam sua bandana rosa e entrem no mote frenético.

talvez 22h40
21112010dc


2. Impressões sobre o 18º Festival de Cinema Mix Brasil

Hoje, em mais um morno (abafadíssimo) domingo, me sinto inspirado para escrever mais sobre as minhas últimas incursões, talvez conclua o serviço, talvez não.
Enfim, não posso falar sobre o Mix Brasil sem declarar opinião a respeito de dois marcantes e recentes acontecimentos, mais precisamente ligados à disposição social desta cidade sem estrelas.
Sem mais delongas, nas três ou quatro últimas semanas a mídia tornou públicos três, quatro ou cinco casos de crime de ódio na cidade (estabelecendo ainda um diálogo com a população -massa- de cunho -chuto!- inédito). O julgamento dos envolvidos em um desses casos teve direito a remake, dada a pressão civil. Dada a pressão civil, quem diria.
Hoje rolou um "beijaço" (um evento estranhíssimo, confesso, mas tudo vale a pena se a alma não é pequena) em oposição a uma ação homofóbica da parte da Ofner versus dois boys que apenas se beijavam no estabelecimento e foram expulsos, há poucos dias. O rolê partiu da Ofner, na Alameda Campinas, um point familiar, chique e grã-fino situado no meio do Jardim Paulista, subiu até a Paulista e culminou no 777, endereço onde um boy foi agredido por cinco playboys há três ou quatro semanas, o que gerou repercussão absurda -e, quem sabe, positiva- no espaço do debate.
O mais interessante hoje, foi o fato de (impossível não usar categorias de classe para tornar mais claro) o beijaço ter partido de uma iniciativa da classe alta. A luta política por direitos de exercer a sexualidade na classe alta, com direito a cartolina e palavras de ordem -algo a que, visivelmente, as pessoas ali presentes não estavam muito acostumadas. Acho que isso representa alguma coisa.
O segundo -fantástico!- evento que gostaria de relatar, foi o ato realizado na frente da Universidade Mackenzie, em virtude do manifesto que o chanceler (algo parecido com o reitor, não está muito claro comigo) Augustus Nicodemus (será que é assim que escreve?), um representante da Presbiteriana (mais dela do que do Mackenzie, pelo que se viu), emitiu -como sendo da Universidade-, se pronunciando contra a aprovação do Projeto de Lei Constitucional que legaliza a união civil entre homossexuais e criminaliza a nível federal a discriminação por orientação sexual.
A comunidade não recebeu o manifesto de bom grado.
Não há como explicar como uma mobilização planejada por quatro estudantes inter-universitários se transformou naquele monstruoso ato de quatrocentas pessoa na frente do Mackenzie que, numa expontaneidade enudiana (mais tarde vocês entenderão o termo), transmutou-se, o ato, em uma passeata que mudava de objetivo conforme a disposição da multidão aumentava. Do Mack para o Maria Antônia, para a Augusta e depois para a Paulista e, por fim, para o 777. Repercutiu na mídia (a não ser a televisiva, tenho a impressão).
E eu me senti mais contemplado nesse dia (talvez mais precisamente pelo caráter não-institucional do evento) do que na Parada Gay, aquele grande carnaval fora de época.
Fundamentalistas, as bichas invadiram a Paulista!

O que se deve esperar de um festival que promove no próprio slogan a bandeira da diversidade? Oras, a diversidade.
O projeto democrático do Festival de Cinema Mix Brasil, pareceu-me, em uma análise rudimentar, uma tentativa de reproduzir -ou de adequar-se- a classes de indivíduos socialmente representativos de contextos sociais categorizados segundo um status econômico e cultural.
Assim, a classe alta foi contemplada com o Museu da Imagem e do Som (situado no meio das mansões do Jardim Europa), onde foram exibidas as mostras competitivas de curtas (já me detenho a estes) com direito a caipirinha de maracujá, tomate, cachaça de primeira linha e o escambau.
A classe média alta foi agraciada com o alto preço do tíquete do CineSESC e do Espaço Unibanco de cinema, e com a sessão do Show do Gongo (mas neste não me deterei, é uma experiência muito estranha, não sei se estou apto a explicar este fenômeno).
A classe média média e média baixa interessada foi até a Galeria Olido.
E a classe dos subrepresentados e marginais amantes irreversíveis ganharam da mostra um filme pornô de zumbis gays no Cine Dom José.
Sessões em dois SESCs também aconteceram, contemplando, enfim, o que viria a ser uma quase-periferia.
O público do Mix Brasil foi majoritariamente branco, masculino e, suponho, homossexual -ou quase isso. Então de diversidade não tinha muita coisa.
A expectativa do público talvez reflita a escolha dos curtas da mostra competitiva (e eu nem procurei ainda quais foram os ganhadores). Cinco dos dez curtas contemplavam o universo dos jovens de classe média no colégio -mais precisamente na adolescência, lugar em que a socialização secundária dá os grandes pontapés, no Ocidente, nos valores familiares "cristalizados"-, período em que descobrem determinados anseios e desejos: uma expectativa do público do MIS, onde os curtas foram exibidos. Um curta contemplou o ABC Bailão e as histórias dos 'cinemões' do centro; algo que compõe efetivamente a história da homossexualidade em São Paulo, a importante perspectiva da marginalização. Alguns dos curtas da mostra traziam a sexualidade como acessórios, e não como eixo central da narrativa. O que é uma pena.
E, pelo vista, a diversidade nos curtas, que anyway eram bons, não foi muito contemplada.
Mas tive oportunidade de ver boas sessões, como a Modern Family, de curtas sobre famílias compostas por membros de natureza sexual diversa. E também um filme ótimo chamado Revolução no Rock, sobre -muitas- bandas americanas formadas por transexuais e afins (leia-se travestis, gays, lésbicas etc) e, pasmem!, algumas muito boas. E de muitos estilos.
Contudo, toda maneira de amor vale a pena, e as manifestações supracitadas, assim como o projeto comercial do Mix Brasil, aparecem como maneiras de performatizar politicamente o nosso lugar na cidadania; seja nas ruas ou no comércio (embora a luta seja bem mais frutífera e menos problemática no primeiro local).
En-fim.

talvez 23h56
12122010dc


3.

GENSEX, primeira semana de gênero e sexualidade da Universidade Federal de São Paulo, um evento pós-ENUDS (com pequeníssima margem de tempo entre um e outro) na tal universidade.

Rolou uma falta de organização dos meninos da UNIFESP. Nada que não pudesse ser esperado.
Ficou patente pra mim diversas falhas organizacionais. Desde falhas básicas de etiqueta (desde quando moderador de mesa sai pra interagir com colegas?) até falhas grotescas do tipo 'pedir a um professor de especialidade X para falar sobre algo Y, de forma a preencher um calendário temático ideal utópico' -algo que foi, contudo, pelo visto, superado pelos professores, que tiveram relativa autonomia para o desenvolvimento das mesas.
Contudo, um evento programado por menos de dez estudantes, sem nenhuma verba cedida pela instituição, na semana em que a universidade entra em greve, e com convidados do naipe da Helô Buarque, Pedro Paulo, Larissa Pelúcio e Berenice Bento merece, no mínimo, respeito.
Fui em quatro dos cinco dias de evento (o dia em que não fui gerou certa polêmica, fiquei sabendo -meu namorado incendiário). Apenas duas pessoas da minha faculdade (a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo) compareceram ao evento -sendo que eu fui em quatro dias e o Aryel em um, e, além disso, cerca de três pessoas -que pelo menos eu conheço- não estudantes ou ex-estudantes também compareceram. A UNIFESP campus Guarulhos fica muito longe, em um bairro de péssima urbanização, pobre, com nenhuma referência interessante. A comunicação deve ter sido precariamente realizada. Enfim, tinham poucos não-UNIFESP lá.
Prestei bastante atenção nas palestras do evento (em especial nas dos supracitados professores), mais do que talvez no ENUDS (onde a ressaca bloqueou parte das informações irradiadas nas mesas). A Heloísa Buarque da USP deu uma belíssima palestra sobre a história da teoria de gênero, o Pedro Paulo (acho que foi da UNIFESP) deu uma palestra fabulosa sobre pornografia -excelente!-, a Larissa Pelúcio mostrou seu trabalho sobre as travestis e a Berenice Bento sobre transexualidade (sua especialidade).

Ia ter uma festa pós-GENSEX, mas... mas... enfim.

talvez 1h27
27122010dc


4. Minha Namorada é um Homem!
ou De como eu virei um viado

No ônibus expectativas ingênuas. No campus matéria esperando para ser tingida das maravilhosas cores. Da paleta da diversidade as faculdades ali ovais -ou quase isso- eram. Em um ginásio uns quinhentos corpos estavam instalados, em barracas e sacos de dormir abertos como a disposição coletiva.
Afinal, aquela era a igualdade, algo muito próximo do sonho queer, estávamos todas lá, e o que nos unia era o cu! Vivíamos, e bastava isso.

Em São Paulo me cantaram uma prévia-prévia sobre o que seria Teoria Queer, um assunto que instantaneamente me cativou: pré-intuições preenchidas.
Sexta me instalei no ginásio com a caravana mais ou menos desinteressada da USP, fui a uma mesa inaugural do rolê e bandejei -tendo contato com a condimentação florida unicampense. Talvez tenha tomado um banho. Talvez não. Mas muito provavelmente eu tomei banho todos os dias. O vestiário era um lugar para se fazer amizades. Como em qualquer outro dos prédios enudianos, já que a faculdade estava relativamente calma: feriado prolongado. Era tudo nosso.
Enfim, no sábado consegui acordar cedo suficiente para tomar o breakfast e fui ver um Grupo de Apresentação de Trabalhos na área de educação, bom, por sinal, com uma das minhas maravilhosas roupas a dedo escolhidas em São Paulo para em Campinas arrasar.
Almoço. E fui conhecendo melhor as pessoas da minha universidade, que eram -nossa!- peculiar e particularmente interessantes -ou, no limite, legais! E oficina de Teoria Queer com o Leandro Colling da UFBA.
Uau! Incrível! Incrível!
Então janta, então festa!
Peregrinação até a república tal, com maracatu, um maracatu! A coisa mais linda do mundo, um maracatu LGBTT-Queer com jovens e quase-jovens e ex-jovens estudantes ou ex-estudantes brancas, pretos, rosa & etc. purpurinado, da UFAC até a UFRGS, altas e baixas, vaginais e penianas ou nem isso, marchando-andando-ando!
Ressaca dominical.
No GAT marquei presença. Depois voltei para o saco de dormir, devo ter dito algo para os meus vizinhos de colchão, um carioca, um paranaense, um pernambucano etc. e voltei a dormir até a hora do almoço. A palestra do Richard Misckolci da UFSCAR deveria estar ótima de fato mas a ressaca ainda doía, então voltei ao saco. À noite, após uma mesa (e as mesas em geral foram ótimas, a melhor foi a sobre feminismo na segunda-feira -polemíssima), rolou a TransENUDS, a tradicional festa do ENUDS, que rolou numa balada fechada lá em Campinas, devido a restrições de festas nas faculdades da UNI -ou alg'assim. Comecei praguejando mas terminei pulando de excitação. 'Té beijei o paranaense bonito, chamado Heverton. Na fila do banheiro. Aliás, fiz vários BFF's em filas de banheiro, muitos. Não me lembro de um só. Lembro da Renata Facchini no banheiro unisex, da performance da mina seminua chupando uma manga, dos cus sendo mostrados no palco, das performances e do Rauni, o chubby bear direito-Mackenzie que eu conheci no busão de volta pro ginásio. Fomos para o quarto em que estava hospedado, numa república próxima da UNICAMP e tive u'a experiência ótima. Era como um tapete felpudo e gelatinoso, sei lá, peculiaríssimamente gostoso. Perdi um rolê cultural na cidade por causa a) da ressaca e b) por causa do sexo; e também quase perdi o almoço, pois saí da república 13:45, e o RU fechava às duas. Fui a todas as -ótimas!- mesas daquele dia e à noite aconteceu a última festa no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Ótimas músicas, bebi até não cair -o que é bom!- e curti lindamente, com mais amigos e quase-amigos, ex-conhecidos virtuais, beijos instantâneos, esnobadas -o Rauni me trolou! me trolou!-, e o Anderson, com quem casei. Um moço bonito, muito bonito, homem, muito homem, muito homem, muito homem, inesquecivelmente homem, demais homem, homem, homem, homem, homem, homem, homem, homem, homem, homem, homem, homem, como era homem... A Tawne ia lá chamá-lo, e de sua barraca saí, semi-ressacado, direto para o meu saco de dormir (que só foi desconfortável e duro no primeiro dia, que foi aquele em que não bebi nada).
No fim de tarde, terça-feira, a assembleia, engraçadíssima, ônibus, São Paulo, táxi, casa do Poli e DR com o boy. Mas eu whatever sabia que jamais seria o mesmo. Tinha voltado uma viada. Sem dúvida estou outra. Só 'tando lá pra entender com precisão. Tentem.
Kisses mil.

talvez zero horas e 46 min.
31122010



Sabe o outro?

Então, imagina que ele aparece na forma de substrato virtual no seu portátil em um dia de chuva enquanto você e o seu namorado estão presos em um brechó no meio do Ipiranga (ou melhor, Cambuci) porque as gotas são muitas e muito -muito mesmo!- violentas, onde as paredes vermelhas e uma senhora, ao estímulo das gotículas rebeldes, fazem de tudo, como um trem de penas em queda livre, para te chamar toda a atenção do mundo.
Agora imagina que a única coisa mentirosa disso tudo é que as paredes não eram propriamente vermelhas, mas meus olhos de alguma forma projetam esse tom sobre a cena de ontem à tarde.
Então depois de mais de um ano sem dar as caras, depois de três quartos de ano sem responder um e-mail, depois de toda a dúvida, toda a angústia da dúvida e todo o inconveniente da angústia, inconvenientemente ele me acha (no número que talvez nem mesmo fosse o mesmo, mas o da história que nunca tivemos), com o sucesso que -talvez- esperasse: eu respondo-ondo-ondo! na fissura-ura-ura da curiosidade-ade-ade-ade-ade...
E até agora cada cheiro de fumaça na chuvosa cidade sem estrelas é reflexo-odor da nuvem que a caixa -esqueleto- de chocolate que me dera exalou na combustão do fogão do meu desespero cinco meses atrás. E, irônico, com meu novo quase-homem comemos no restaurante das nossas (minhas e do outro) madrugadas marginais & gente fina.
Ele digitou nas letrinhas da comunicação impessoal os tipos do nada-sei, papo que estava comigo mesmo quedando ausente, o que é convicente para o meu umbigo, que quer enredar um tricot, que é engendrar um novo tricô, ou que, não, não, não, Eros, não.
E a viagem para o litoral sul, como na viagem que fiz na metade de certo passado ano, será expectativa, ou expectorante? Sei não, inda esperava história de passeio, pode ser mera balela, mas, mas, não imaginava isso do moço, coisa de saudade, não, não podia esperar, filhadaputagem isso sim, não, é, não, Eros, não.
Você está feliz, moço. Com o seu excêntrico dançarino goiano de balé na gordura do chão gelo-banha paulistano-ano, não precisa desse, desse lapso-relapso. Que, que, como era? um, dois, quatro meses, você está aqui direitinho aos seis, por que de revivals, nostalgia do que tanto te fez só-sozinho-solitário-otário-ário-o.
Mas era um sedutor, me seduzia -eu certamente o rechaço-boicoto, provo para mim mesmo-, apartamento & batatas & madrugadas -não deve ser tão bom quanto hoje, né? será?- & línguas...
Sabe o outro?
O outro é o meu passado.

23h06
14122010dc



Um prólogo da invisibilidade

Já me sinto um traidor. Me sinto um traidor pelos olhares.
Mesmo que as retinas não se fundam já me considero um traidor. Agora sim. Sei lá. Estou traindo a confiança não só do meu, mas a minha com o respeito alheio, do hétero -que, olha ele, olha o olho dele! será que é hétero mesmo?- (confiança/responsabilidade), traindo seu sigilo atmosférico-invisível, seus silogismos, meus silogismos, a lógica toda das coisas estabelecidas na galera-era-era-era. Não me olha mais, não me olha não. Me olha sim. Me olha mais! Vamos fugir juntos para o Canadá, e teremos uma vida feliz, eu, você, eu, você, e nossos olhinhos casados.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Teoria Geral das Coisas I: Notas de rodapé

Anexo A: Do Sexo

A revolução estética será iminente quando da supressão da dualidade (e bipolaridade) sexual. Durkheim, Mauss, Hertz e todos esses antropólogos nos tentaram provar a a recíproca entre sociabilidade e religiosidade, polaridade "estrutural" e funções sociais. A mulher sexual é socialmente construída enquanto função para ser submissa na relação de poder entre os gêneros sexuais. Não é tanto uma relação natural e necessária com fins de reprodução como Aristóteles o concebeu: é antes um efeito do movimento social, algo cujo pioneirismo de Mead acusou, tornando patente a condição de maleabilidade das funções sociais sexuais. A polaridade religiosa portanto não responde totalmente às intenções da dimensão sexual.
Eu nunca li Clarice Lispector. Isto é, não a li por enquanto. Entretanto, certa vez um amigo disse em uma discussão -que por sua causa tornou-se caótica (seja lá o que possa ser interpretado como caótico)- que a celebrada ucraniana escrevia como uma mulher. O comentário pode ser considerado incendiário, polêmico, radical e perigoso como uma porta -que, para machucar alguém necessita que tal alguém seja talentoso. Entretanto, existe algo que escapa do alcance da interpretação de que se tratou de puro machismo. Não sei se é verdade, porque a minha ignorância acerca do assunto -como já colocado- não me permite conjecturar nada consistente (apenas hipotético, mas vocês entenderão o porquê de tudo isto logo), mas eu creio que, no fundo, o que o meu amigo queria dizer, era que a condição de mulher inevitavelmente trazia uma carga de feminilidade patente na obra da autora (o que soa como óbvio), o que para o meu amigo -e aí haveria um pouco de machismo, de fato- seria a dificuldade das mulheres, em relação às quais os homens seriam mais versáteis.
Quis dizer isso tudo porque hoje, ouvindo a feminíssima Andreia Dias, que é um produto pop, entendi com precisão que, pressupondo que a sociedade é sujeita a mudanças de seus membros sexuais e sociais, a supressão da polaridade tradicional nesse aspecto, que me soa como uma tendência da metrópole. Acho que posso citar Regina Spektor como um símbolo dessa geração de mulheres que impõe seu respeito na concepção de um estilo pretensamente inovador, mas inequivocamente feminino, não apenas vaginal.
No fundo, o sonho universal pós-tropicalista (e talvez neo-tropicalista), o sonho da brasilidade paulistana, me aparece intuitivamente -e agora eu posso explicá-lo racionalmente- simpático à androgenia e à teoria queer; ontem os Dzi Croquettes (talvez Secos & Molhados também), e hoje Solange, Tô Aberta! e Teu Pai Já Sabe?, contribuintes underground (o último, contudo, em menor medida, simplesmente pelo pedante caráter doutrinário da cultura punk) da subversão das funções sociais (inclusive das extra-heterossexuais) são personagens de biologia masculina (e aqui eu de fato corro o risco de parecer controverso com meu próprio argumento). Entendo agora o projeto político d'Os Mutantes e da banda americana The United States Of America; Arnaldo, Sérgio e Rita, Moskowitz e Byrd: pioneiros do som universal que efetivamente suprimiram as divisões sexuais em suas carreiras.
Dentre as mulheres cito Hilda Hilst (que conheço pouquíssimo, a única referência que tenho de sua versatilidade é de duas páginas de um texto ótimo -cujo nome não faço ideia qual seja- que foi recitado para mim há um ou dois anos) e Marli. Aquilo que portanto não foi realizado nas duas bandas supracitadas -no fim do último parágrafo- foi, para além da inclusão, a subversão dos papéis sexuais.
A crescente liberalidade sexual, em relação à qual os pais da geração do ego-herói citadina fazem parte por seu legado, é um dos termos da brasilidade paulistana.
Tentei, neste anexo, esclarecer as mudanças da dimensão sexual e social que são patentes na brasilidade paulistana. Tentei fazê-lo explorando os padrões de gosto, o movimento contemporâneo da arte pop e, especificamente e predominantemente, dentro disto tudo, o gênero musical de massa. A Arte de uma sociedade é reflexo da produção efetiva dos homens dessa sociedade (codificada ou não em pluralidade, ideologia, espetáculo, indústria cultural e todos esses termos). Espero que tenham entendido por que este texto é um anexo da Teoria Geral das Coisas I: a subversão dos papéis, a revolução estética, o sonho do domínio da brasilidade paulistana devidamente historiografado etcætera, são algumas de suas facetas.
Discordarão de mim do caos da universalização? Discordarão do quão bom será? Discordarão do processo? Discordarão de conceber juntas esteticamente a sub-humanização do Projeto B, a política de Marli, a agressividade de Solange, Tô Aberta! e a feminilidade elétrica da Andreia Dias?
O surf acontece aqui efetivamente. Espero ter contribuído para a cognoscibilidade dessa teoria geral.


Funcionalismo Sexual

Mais ou menos bonito, o que é em medida controverso.
-Opa, você sabe onde é o puteiro?
-O puteiro?
-É, onde tem um puteirinho aqui. Não tem um puteiro aqui na região?
-Olha amigo, tem um mas, hum, eu acho que 'tá fechado. Lá na Bonsucesso.
-Ah é? Mas como eu chego lá, é...
-Segue aqui e vira a direita e é lá na esquina, você vai ver, é uma casa amarela, mas eu não sei se 'tá aberto, não 'tá com jeito.
-Ah, beleza, eu vou lá. Obrigado!
-Por nada.
Eu fui para casa, e ele foi tentar dar uminha na noite sem estrelas.


Amor Irreversível VI

Não apenas difícil, mas impossível amar outro.
Penso nas possíveis noites regadas a beijos, madrugadas beijadas até o suspirar do dia, no êxtase da vida na mais potente das atemporalidades.
Impotente, na verdade, na mentira o luxo do hedonismo.
Hedonismo na cidade tem nome, e se chama impotência.
A ciência não descobriu ainda o milagre do prazer pleno. Simplesmente porque o prazer pleno não deve existir mesmo; se existisse fórmula que efetivasse essa quimera onírica, certamente ela seria o tiro no pé da humanidade. Pois olha só o que nós fizemos com essa fração minúscula do que podemos chamar de amor pleno: desvastamos cidades, engravidamos crianças (com moralismo e amor-alismo), passamos em décadas a seres vegetantes e carentes de anti-depressivos.
Não dá, não dá, e não é nem fruto da crítica social moderna.
Não dá pra amar se não for você. Não dá pra gozar se não contigo. Eu não quero ter que lamentar simbiose, porque a real graça de viver é justamente acompanhar os altos e baixos dos diversos vínculos nos quais estamos acorrentados. E aquele que não tem vínculos certamente, se nunca os teve, é o mais feliz, e se os já teve no passado, é o mais infeliz dos homens.
Não dá pra ser feliz se não for com você.
Não me importo se daqui a dez anos eu direi esta mesma frase para outro. Me importa agora, a saber você, que eu não posso me imaginar sem que você consista em parte, que a minha vida seria outra, intuitivamente uma menor, sem você, que te estimo, e esta estima só tem uma inimiga, ou amiga incondicional, que é o tempo.
Não dá pra ser feliz se não for com você.
Eu te amo.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Peça: Domingos na vida (Não faz a'loca!)

Deve acontecer na cidade sem estrelas, e absolutamente ao acaso.
A cena é composta por um vagão de trem razoavelmente vazio, em um metrô de um bairro médio de emergentes, também um polo social da região. Acontece no limiar entre as quinze e as dezesseis horas, em um domingo mais ou menos frio em medida nublado.


Personagens:

o homofóbico militante gay: roupas escuras, calça, blusa de manga comprida deixando à mostra algumas tatuagens (uma delas lembra uma cruz), boné, provavelmente tênis, cabelo curto ma non troppo, alargador, óculos sem contorno de armação em volta das lentes, magro, cara de louco;
o bissexual discreto: barba por fazer, inchado, óculos de armação unissex, cabelo curto ma non troppo, camiseta preta de manga comprida, calça jeans, tênis, segurando uma folha do jornal da Igreja Universal do Reino de Deus, que tinha cruzadinhas (o miolo do jornal havia sido recém-jogado fora, por motivos evidentes);
o homossexual havaiano: camisa florida, bermuda xadrez marrom com azul claro, chinelo, mais inchado que o homofóbico gay mas menos inchado que o bissexual discreto, ponta do cabelo com gel descolorida e mezzo desbotada mezzo violeta versus rosa.


Prólogo

O bissexual discreto senta em um banco duplo paralelo ao do metrô, enquanto o homossexual havaiano no banco duplo perpendicular. O homofóbico gay militante senta no banco duplo perpendicular que forma uma linha contínua com o banco perpendicular em que está sentado o homossexual havaiano. As portas fecham. O metrô começa a andar, deixando à mostra a pequena ponte estaiada prestes a ser inaugurada.
O homofóbico gay militante começa a encarar o bissexual discreto. Olha fixamente para ele, em uma expressão crescente que aparentemente misturava medo, perplexidade, ódio e vários outros sentimentos mistos. Ainda não estava evidente que de fato ele olhava para o bissexual discreto, que apenas achava graça.
Tem início o diálogo.


O Diálogo
HH: I guess, he's with a fork, and he's going to start killing us.
Risos.
O homofóbico gay militante se levanta põe o dedo em riste, acusando o bissexual discreto. Quando fala, fala gravemente, com muito sentimento, misturando alerta com ameaça, e com assustador fôlego. O primeiro clímax.
HGM: Não faz a'loca! Não faz a'loca.
Acusa o bissexual discreto mais um tempo, fazendo ameaças e também com sentido de ofensa. Vai se afastando de repente em passos largos e desajeitados, e também hesitantes e chega até próximo do fim do vagão em pouco tempo. Entretanto, o homossexual havaiano não parava de provocá-lo.
HH: Ei, cara, vamos conversar, vamos conversar! Vamos bater um papo! [E quando ele se afasta,] Olha só, mas que homem nós temos aqui!
Enfurecido com a última provocação, o homofóbico gay militante volta rapidamente, enquanto o homossexual havaiano levanta, e posteriormente o bissexual discreto. Enquanto o primeiro, peitando reciprocamente o segundo (de forma que este notou o doce hálito daquele) continua a praguejar, e o terceiro se esforça em previnir qualquer contato físico apartando os dois primeiros, o segundo consegue engendrar uma conversa mais ou menos lógica no sentido narrativo, que consiste no segundo clímax da peça.
HH: Cara, vamo bater um papinho. A gente desce na próxima estação e vai conversar com os policiais.
HGM: Pra quê?
HH: Porque você está me discriminando.
HGM, surpreendemente, em uma voz mais ou menos audível: Você acha que eu não sou veado igual a você?
Chegavam à seguida estação. Encaminhavam-se para a porta de saída, as vítimas insistentes para que o louco (como se as próprias vítimas fossem sãs) com elas descesse para que a conversa chegasse de fato em termos mais sérios e efetivos -não necessariamente graves. A porta se abre, o homossexual havaiano desce, o homofóbico gay militante fica do lado de dentro mas próximo do limite da porta para o lado de fora, e o bissexual discreto entre o chão da plataforma e o trem. E é este último que engendra o terceiro grande clímax (logo, as três principais personagens da peça são suas três protagonistas).
BD, acusando: Você está preso! Eu como cidadão estou te prendendo por discriminação!
A porta apita. O bissexual discreto tenta trazê-lo para a plataforma, mas não conseguindo, empurra o homofóbico gay militante, que neste ato arranca do primeiro o resto do jornal da Igreja Universal do Reino de Deus que continha as cruzadinhas.
A porta se fecha. O bissexual discreto mostra-lhe o dedo do meio, o homossexual havaiano manda-lhe um beijo, o homofóbico gay militante continua olhando odiosamente através do vidro da porta do metrô.


Epílogo

HH: Gente, que cara loucão, velho!
BD: Eu prendi ele!
Risos.

domingo, 1 de agosto de 2010

Balada Afônica

Estas foram minhas férias mais irreversíveis.
No sentido e direção mais doentios.
Evoluíram em um vetor exponencial e atingiram níveis supra-perplexos.
Minha literatura foi um manual de que alguma pulsão de morte demoníaca se apossou.
Minhas férias foram um triste. Foram um feliz. Foram um qualquer coisa de sentimentos.
Preocupantes.
Estou com medo.
Algo me quer derrotar quando abraço.
Quando faz frio.
Algo que me chora. Internamente. Como uma hemorragia insistente, porque não se pode ser paulistano e querer ser amante ao mesmo tempo.
A vida está excluída da sociedade do tédio paulistana. Resta uma balada sem som, uma polifonia afônica.
Tenho a impressão de ter sido vítima de um trote do meu inconsciente, este responsável por testar todas as teorias por mim admitidas.
Resta a metáfora.
Insistentes, as senhoras sentadas em estrelas riem, pilheriam, com tanto, mas com tanto sarcasmo e tanto afinco que fazem (até) faltar o sono a São Pedro, que tem uma overdose de pó-de-guaraná -ou melhor, em termos paulistanos, de Red Bull- para manter o serviço otimizado. É exatamente neste instante que as estrelas decidem deixar a cidade.


O Amor Irreversível V

O amor da porta das manhãs é clandestino. É definitivo seu batom de mentira com que se pinta, a sombra que passa delineia sua própria sombra na rua, contra a luz dos postes, contra a luz da Lua. O amor da porta das manhãs não quer ser verdadeiro, não se importa com nada que possa dizer respeito a fidelidade particular, compromissos extra-instantâneos e outras pieguices da pré-modernidade: ele espera que simplesmente o efeito da função que proponho no meu marketing pessoal alcance o limite esperado. Nunca é, e é por isso que as empresas de Serviço de Atendimento ao Consumidor já estão mais ricas do que as de produtos básicos (como as indústrias do sexo, da felicidade e do poder).
Quando o eu-líquido escorregou pelos degraus imundos do tão límpido shopping center, não pensei em casamento, ou nenhum outro tipo de contrato satânico. O requinte diabólico estava, pelo contrário, na desonra do casamento, que se tornou uma casamentira. Sei que na cabine do banheiro, não o prazer da aventura, mas o do novo, óbvio, nos tomou imediatamente, pois ao ponto de ônibus contíguo à galeria nos direcionamos: o meio que encontramos para tornar mais confortável esse amor irreversível.
Complacente me ofereceu suco, carambola, conversas fenomenalmente acríticas a respeito de espiritualidade -ou melhor, espiritualismo, porque o sufixo me remete a doença-, mas isso tudo era apenas acessório: estávamos ali -eu estava ali, em sua casa- apenas pelo sexo.
Transamos como eu jamais faria com outra pessoa, o que é bom. É sinal de que eu pelo menos consigo identificar e distinguir atividades e condutas pontuais no sexo dentro do universo de relações que eu já tive. Esta, aliás, está na lista das irreversíveis.
No ônibus disse qualquer coisa de engraçado ao cobrador. Não sei se propositalmente ou não, o fato é que ele riu e respondeu algo até que simpático, ainda que ininteligível. Pensei baixo a respeito dos discursos dos amigos -que são meus psicólogos, embora não sejam formados nem por uma faculdade federal- que comigo tentaram tornar cognoscíveis as minhas noções a respeito das questões que envolvem a preocupação que a noite irreversível tentara solver.
A noite sem estrelas da cidade por um instante pareceu perigosa. Mas obviamente não passa de ilusão. Afinal, o amor verdadeiro me espera na porta das manhãs.


st (incrivelmente)

Até sexo como um paulistano ele faz.


História das Brincadeiras

Sobre o móvel de imbuia, no qual se encontravam um cofre noventista do Garfield (dentro do qual os indivíduos se amoedavam), um pote cilíndrico com desenho de abelha (dentro do qual funcionava uma dimensão composta de cereais, bactérias, déficit de oxigênio e um breu quase entediante), uma flanela azul, esquecida e manchada (sobre a qual multidões de bactérias e protozoários -talvez fungos- lutavam para a sobrevivência e para o domínio sobre os restos -de qualquer coisa que reste- do móvel, da mesa e da pia, compilados), e também três outros potes metálicos encostados no canto (dentro de um dos quais havia um saco de pipoca -que poderia ser descoberto segundo uma conta matemática fabulosa) acumulando poeira do lado de fora e tétano dentro de si mesmos, duas formigas apostavam corrida.
Na prática, porque na teoria elas estavam fazendo algo que apenas diz respeito à bio-sociologia.
-Eu duvido que você chegue antes de mim!
-Que pena, porque eu que vou chegar!
Estavam em um embate desgraçado.
A cozinha estava vazia, mas a luz havia sido esquecida acesa. Os objetos sobre o móvel de imbuia não se preocupavam em criar vida, entretanto.
-Olha só, a malhada vai ganhar! -diria o Garfield banqueiro se pudesse.
-Vai nada, eu aposto é na retinta! -diria a abelha-silo.
Mas as formigas estavam apenas correndo rumo a alguma coisa que lhes dissesse respeito segundo o diagnóstico do zoólogo.
Mas eu insisto que estavam apostando corrida.
-Você está comendo poeira!
-Você vai ver só! Vou falar que você é uma formiga preguiçosa!
-Isso só se você conseguir chegar até lá! -e esta soltaria uma gargalhada que até os ímãs de geladeira estremeceriam -e olha que ímã de geladeira nunca sente calafrio.
Mas a geladeira continuava no ritmo monótono -e assustador ao mesmo tempo- de sempre. Enfim as duas chegavam ao limite imposto pelo móvel.
-Não falei que era a retinta?
-Tudo bem, o dono do dinheiro sou eu mesmo!
Mas as formigas desafiam a gravidade, e elas subiram rumo ao céu, que é o teto.
-Eu ainda vou te alcançar!
-Estou só vendo!
Algum barulho de porta.
Foi apenas impressão.
As coisas continuavam intactas. Na teoria.
Porque na prática, eu insisto, elas acompanhavam a acirrada competição entre a formiga malhada e a retinta, preocupadas apenas em serem tudo, menos um inseto.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Tentativas

Sei que vai ser muito bom.
Pois eu tenho a imaginação fértil
Gosto de agradar.

#1
Quando ele entrar por aquela porta, eu vou simular estar durmindo, então ele se inclinará sobre mim e dirá
Acorda, amor, eu vou te levar pra cama.
Então agarrarei em seu pescoço e darei um beijo que vai deixá-lo sem língua pelo menos até o início da manhã seguinte.

#2
Quando ele abrir a porta, a casa estará inteira à meia luz, estará tocando James Taylor, e eu estarei na cozinha esperando ele se sentar.
Quando isso acontecer, servirei um vinho.

#3
Quando eu ouvir o carro chegando, correrei para a frente da casa apenas de cueca.

#4
Quando ele entrar no quarto receberá uma flor, que terá de morder enquanto eu amarro suas mãos e vendo seus olhos. Tirarei toda a sua roupa apenas com os dentes.

#5
Quando ele adentrar a sala de estar me ouvirá clamando do banheiro para que vá me fazer companhia no banho.

#6
Quando, depois de trancar a porta, ele olhar para trás e me ver com uma cara tristonha, perguntará
O que aconteceu, amor?
Eu direi
Acho que estou muito vestido. Será que você não pode me ajudar?

#7
Quando ele entrar na cozinha, me verá devorando um pote de sorvete.
Quer me ajudar?

#8
Quando ele se deitar ao meu lado esta noite, como em todos os outros dias, perceberá, como em todos os outros dias, que há um preço para se dormir em paz.



s/t

Sentimento mentiroso
Premente no peito
Quero o amor das manhãs
Irritado ou manhoso
De qualquer jeito
Seja qual for o afã

s/d



s/t

Namorado. Namorado.
Eduardo. Eduardo.

s/d

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Estudo#1 (fluxo)

Aquela mulher parece um homem (ou um homem que parece uma mulher). Bah! Que besteira. Às vezes me pego pensando nos porquês. Não tem porquês, Eros, acabou e acabou. Será que já chegou a minha salada? Que susto! Gostei da mochila. Que bundinha, hein? Será que o cara do CRUSP vai me ligar? Nossa! Esqueci o nome dele. É Ales...sandro. Alessandro? Não! Ele falou em luz, é Luciano! É Valdison Luciano.
-Mas Valdison significa o quê?
-Sei lá!
-Bom... Valdir significa alguma coisa.
-É, deve ser o nome original. Mas eu não pesquisei ainda.
Nossa, como estou atordoado. Quero dormir mais no Espaço Verde. A blusa da Gabriela é bonita. Eu não lembro o nome daquele cara da Letras...
-Oi! Tudo bem?
-Oi!
-O seu nome eu não lembro mas o significado dele é muito legal.
-Qual é o significado?
-Eu não lembro, mas é muito legal!
E ontem, o cara do cachorro. Hum, engraçado.
-Tem vinte e...
-Haha, trinta.
-Trinta e...
-Trinta.
-Qual é o nome dele?
-É a Drica. É menina.
-E o dono tem nome?
-É Alessandro.
Ah! Ele era o Alessandro.
-Que faz o que da vida?
-Engenheiro.
-Cê gosta?
-Gosto. Então, tá vendo aqui esta rua? Vira aqui, atravessa a Praça Roosevelt inteira, atravessa a Consolação e anda umas duas quadras. Mas toma cuidado que é meio perigoso.
-Tá. Peraí, deixa eu ver se eu entendi. Eu viro aqui...
-Vira aqui, atravessa a Praça Roosevelt...
A vista do COPAN não sai da minha cabeça. Que coisa absurda essa cidade. Mandei uma mensagem pro Diogo, mas ele não respondeu. "Foi um prazer, apesar de tudo. Beijos, bom dia!" Será que ele se ofenderia com o "apesar de tudo?"
-Quer que eu te chupe?
-Quê? Ketchup?
Risos. Mas ele é muito frio. Droga, por que ele não conseguiu até o final? Será que era por causa de mim? Não. Foda-se! O Daniel gostava. Ele era muito blasé. Será que o amor no COPAN existe? Eu posso ir ao Glória de novo. Mas quem disse que você vai encontrar alguém pra conversar assim lá, Eros? Aquela mulher que parece um homem de novo! Vou atrás da minha salada!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Di-Agressões Avulsas.

Nem sei por onde começar.
Os textos longos ninguém os lê mais! Li uma crítica esses dias no blogue do Jean Wyllys sobre esse fenômeno da twitterização, de como hoje as informações têm que se prostituir adaptar a espaços cada vez mais curtos de difusão. O twitter seria o símbolo da cristalização desse processo, responsável por tornar o texto curto, com déficit de qualidade, como o padrão ideal de jornalismo. Daqui a algum tempo, pelo visto, os jornais virarão zines, a TV Minuto será transmitida na TV aberta, as músicas terão vinte segundos de duração (como as músicas no grindcore já têm), as semanas virarão dias e as noites serão perenes, já que o dia será abolido para se economizar luz.

Não sei se estou com remorso. Sei que eu não posso me sentir confortável depois de tantas richas que eu e a minha amiga Samanta, que mora na janela do banheiro, tivemos. Hoje, durante o banho, soprei-lhe para ter certeza de que estava viva, como sempre o faço, e notei que desta vez não se mexeu, mas em contrapartida, de uma bolsa cinza trocentas samantazinhas saíram correndo assustadas (mais ou menos parecido com o horário de rush do metrô). Concluí que, oh!, sim, o milagre da vida, que na verdade não é um milagre mas sim um evento logicamente previsto, desta vez teve como cenário a janela do meu banheiro. E agora eu não sei se a Samanta foi pro céu, não conheço a vida das aranhas.
Mas eu sempre pensei que elas botassem ovinhos.

Fiquei em dúvida se punha a minha bermuda quadriculada, que é quadriculada mesmo eu não sendo um bom jogador de damas ou xadrez. Mas felizmente eu saí da dúvida e pus uma bermuda lisa, que tinha mais a ver com a camisa que eu ia usar.
Ponto.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Declaração de amor ao Acaso ou Saudades de quando a gente ia no Habibs às três da manhã, que ficava do lado da sua casa.

Dissecando os textos de um não-robô, com o qual eu casualmente trombei aqui neste mundo virtual, que também não tem estrelas, encontrei uma pérola (acredite, dentre várias outras) cujo mágico brilho me lembrou, que o acaso pode ser o instrumento mais eficiente a ser usado por esta minha deusa chamada Felicidade, se manejado com técnica e sabedoria. Oras, juro que me esforço para extrair do acaso tudo o que ele pode me oferecer de melhor (desde refrigerantes distribuídos gratuitamente em uma praça qualquer até madrugadas maravilhosas incluindo licor de jabuticaba e batatas da perna carnudas), isto é, como bem me lembrou esse mesmo camarada, pra que serve um medo, senão para ser enfrentado? Se as coisas acontecessem na minha vida um pouco mais solidamente, do jeito sólido como eu vejo que esses robôs que me rodeiam -como me sinto sozinho!- vivem, eu surtava de desgosto mesmo! Viver o insólito -quando se tem oportunidade e capacidade para fazê-lo- é a coisa mais magnífica que um homem pode esperar, e é pensando que em um dia tudo em minha vida será inovador e surpreendente eu afirmo: não perdi todas as esperanças!, estou aqui colhendo as evidências que estão espalhadas neste chão sem fundo para provar -pelo menos para mim mesmo- de que vale à pena continuar vivendo como hoje vivo.
Estou louco, louco, ansioso mesmo, para que o meu acaso me pregue a próxima peça -e se isso não acontecer logo vai ser duro & chato de aguentar, e na verdade já está demorando e já está sendo duro & chato, PRONTOFALEI!!-, e quero encerrar este texto citando aquele meu amigo não-robô do primeiro período (e eu aposto que ele nem se lembra da passagem que eu citarei);
[Preste atenção ao seu dia. O inesperado nos aguarda em cada esquina. Não o procure, ele o encontrará.]

sábado, 5 de dezembro de 2009

Ode à meia-noite.

suruba.
-alô!
a esquina era vazia como uma boca.
-não, já 'tô chegando.
a função da rua era ter paredes, e paredes longas, minhocantes e barulhentas. as paredes eram o barulho da rua.
-okay. fica frio. até!
meio-susto. certo suspiro involuntário. um sujeito mijando na parede.
o rapaz do celular meio que esboçou um aperto de passo. mas passado o vulto afroxou-se e seguiu como antes, como quem está preso entre paredes barulhentas, e perto da meia-noite.
a noite inteira era das paredes, o rapaz era uma faísca, pulsando eletricidade naquela tão curta eternidade chamada medo.
paralisia.
perto do fim da rua, não havia reflexo, apenas uma fumaça, cor-de-bosta, denunciando os dois amantes, os dois recém-apaixonados rompendo o barulho dos afrescos, vazando aquele silêncio que só quem amou um dia sabe o que significa.
estupefato. e não ignorou. deu meia-volta, pensou em avisar os guardas, mas sabia que na noite as pessoas dormem, e os guardas deviam estar cansados.
pateticamente, iniciou um mantra interno, sussurrava palavras tão dissimuladas como o seu cristianismo, sua consciência, seus lençóis.
-não era um estupro. não era um estupro.
de fato não era. mas no medo a gente inventa coisas.
-não era um estupro. não era. não era.
prosélito, era uma criança, durante a catequese, lutando contra seus fantasmas.
um rato rasgou o escuro. um raio de silêncio esqueceu os segundos anteriores, mas não o rapaz.
-não era.
o sujeito de antes continuava mijando. o rapaz esticou o olhos, apertou os lábios e sugou o espaço, dentadas mastigando a noite, engolindo os ponteiros.
o desejo.
desapertou o ritmo, sentiu um, vários lapsos, arrepios. inflando o peito, dilatando os músculos, bombeando o sangue pelas cada vez mais selvagens cavernas de sua alma.
voltou-se para trás. eram agora dois pares de amantes na imensidão noturna.
suruba.