domingo, 1 de agosto de 2010

Balada Afônica

Estas foram minhas férias mais irreversíveis.
No sentido e direção mais doentios.
Evoluíram em um vetor exponencial e atingiram níveis supra-perplexos.
Minha literatura foi um manual de que alguma pulsão de morte demoníaca se apossou.
Minhas férias foram um triste. Foram um feliz. Foram um qualquer coisa de sentimentos.
Preocupantes.
Estou com medo.
Algo me quer derrotar quando abraço.
Quando faz frio.
Algo que me chora. Internamente. Como uma hemorragia insistente, porque não se pode ser paulistano e querer ser amante ao mesmo tempo.
A vida está excluída da sociedade do tédio paulistana. Resta uma balada sem som, uma polifonia afônica.
Tenho a impressão de ter sido vítima de um trote do meu inconsciente, este responsável por testar todas as teorias por mim admitidas.
Resta a metáfora.
Insistentes, as senhoras sentadas em estrelas riem, pilheriam, com tanto, mas com tanto sarcasmo e tanto afinco que fazem (até) faltar o sono a São Pedro, que tem uma overdose de pó-de-guaraná -ou melhor, em termos paulistanos, de Red Bull- para manter o serviço otimizado. É exatamente neste instante que as estrelas decidem deixar a cidade.


O Amor Irreversível V

O amor da porta das manhãs é clandestino. É definitivo seu batom de mentira com que se pinta, a sombra que passa delineia sua própria sombra na rua, contra a luz dos postes, contra a luz da Lua. O amor da porta das manhãs não quer ser verdadeiro, não se importa com nada que possa dizer respeito a fidelidade particular, compromissos extra-instantâneos e outras pieguices da pré-modernidade: ele espera que simplesmente o efeito da função que proponho no meu marketing pessoal alcance o limite esperado. Nunca é, e é por isso que as empresas de Serviço de Atendimento ao Consumidor já estão mais ricas do que as de produtos básicos (como as indústrias do sexo, da felicidade e do poder).
Quando o eu-líquido escorregou pelos degraus imundos do tão límpido shopping center, não pensei em casamento, ou nenhum outro tipo de contrato satânico. O requinte diabólico estava, pelo contrário, na desonra do casamento, que se tornou uma casamentira. Sei que na cabine do banheiro, não o prazer da aventura, mas o do novo, óbvio, nos tomou imediatamente, pois ao ponto de ônibus contíguo à galeria nos direcionamos: o meio que encontramos para tornar mais confortável esse amor irreversível.
Complacente me ofereceu suco, carambola, conversas fenomenalmente acríticas a respeito de espiritualidade -ou melhor, espiritualismo, porque o sufixo me remete a doença-, mas isso tudo era apenas acessório: estávamos ali -eu estava ali, em sua casa- apenas pelo sexo.
Transamos como eu jamais faria com outra pessoa, o que é bom. É sinal de que eu pelo menos consigo identificar e distinguir atividades e condutas pontuais no sexo dentro do universo de relações que eu já tive. Esta, aliás, está na lista das irreversíveis.
No ônibus disse qualquer coisa de engraçado ao cobrador. Não sei se propositalmente ou não, o fato é que ele riu e respondeu algo até que simpático, ainda que ininteligível. Pensei baixo a respeito dos discursos dos amigos -que são meus psicólogos, embora não sejam formados nem por uma faculdade federal- que comigo tentaram tornar cognoscíveis as minhas noções a respeito das questões que envolvem a preocupação que a noite irreversível tentara solver.
A noite sem estrelas da cidade por um instante pareceu perigosa. Mas obviamente não passa de ilusão. Afinal, o amor verdadeiro me espera na porta das manhãs.


st (incrivelmente)

Até sexo como um paulistano ele faz.


História das Brincadeiras

Sobre o móvel de imbuia, no qual se encontravam um cofre noventista do Garfield (dentro do qual os indivíduos se amoedavam), um pote cilíndrico com desenho de abelha (dentro do qual funcionava uma dimensão composta de cereais, bactérias, déficit de oxigênio e um breu quase entediante), uma flanela azul, esquecida e manchada (sobre a qual multidões de bactérias e protozoários -talvez fungos- lutavam para a sobrevivência e para o domínio sobre os restos -de qualquer coisa que reste- do móvel, da mesa e da pia, compilados), e também três outros potes metálicos encostados no canto (dentro de um dos quais havia um saco de pipoca -que poderia ser descoberto segundo uma conta matemática fabulosa) acumulando poeira do lado de fora e tétano dentro de si mesmos, duas formigas apostavam corrida.
Na prática, porque na teoria elas estavam fazendo algo que apenas diz respeito à bio-sociologia.
-Eu duvido que você chegue antes de mim!
-Que pena, porque eu que vou chegar!
Estavam em um embate desgraçado.
A cozinha estava vazia, mas a luz havia sido esquecida acesa. Os objetos sobre o móvel de imbuia não se preocupavam em criar vida, entretanto.
-Olha só, a malhada vai ganhar! -diria o Garfield banqueiro se pudesse.
-Vai nada, eu aposto é na retinta! -diria a abelha-silo.
Mas as formigas estavam apenas correndo rumo a alguma coisa que lhes dissesse respeito segundo o diagnóstico do zoólogo.
Mas eu insisto que estavam apostando corrida.
-Você está comendo poeira!
-Você vai ver só! Vou falar que você é uma formiga preguiçosa!
-Isso só se você conseguir chegar até lá! -e esta soltaria uma gargalhada que até os ímãs de geladeira estremeceriam -e olha que ímã de geladeira nunca sente calafrio.
Mas a geladeira continuava no ritmo monótono -e assustador ao mesmo tempo- de sempre. Enfim as duas chegavam ao limite imposto pelo móvel.
-Não falei que era a retinta?
-Tudo bem, o dono do dinheiro sou eu mesmo!
Mas as formigas desafiam a gravidade, e elas subiram rumo ao céu, que é o teto.
-Eu ainda vou te alcançar!
-Estou só vendo!
Algum barulho de porta.
Foi apenas impressão.
As coisas continuavam intactas. Na teoria.
Porque na prática, eu insisto, elas acompanhavam a acirrada competição entre a formiga malhada e a retinta, preocupadas apenas em serem tudo, menos um inseto.

2 comentários:

André Carvalho disse...

A competição chega em níveis entomológicos, as formigas estão dominadas pelo neo-liberalismo.

LM disse...

Resumo da opera:

Se permita. MAIS MAIS MAIS