Nada Quase Audível
I
pensando em termos do que viria a ser um nada quase, ou, nada-quase, em seu significado estrito, rejeita tudo que não for absoluto. (veremos de que forma essa leitura confronta e dialoga com a outra.)
aquilo que é nada quase é absolutamente.
absolutamente audível remete àquilo que é categoricamente passível de ser ouvido.
o é em sua forma pura (tem potência) ou efetivada (escutável ou sujeito ao silêncio).
II
quase [passível de ser ouvido]; aquilo que o é quase, não pode, em última análise, sê-lo. portanto, quase audível diz respeito àquilo que é ou absoluta e obrigatoriamente audível ou absolutamente inaudível.
quase-audível representa, portanto, a uma dessas condições.
o nada as nega categoricamente, o que remete simplesmente à impossibilidade de se usar aquelas classificações absolutas.
voltamos novamente, portanto, a considerar aquilo que está no limiar do escutável e do inescutável. leia-se, sua potência.
III
estamos falando, afinal, de uma condição que implica a potência de uma vibração sonora de ser considerada pelos nossos sensores auriculares.
uma proposta de discussão de nome Nada Quase Audível, concluindo, deve sugerir, ao menos, que aquilo que for considerado, o seja com investigação, sem se atribuir juízos absolutos.
Da Arte e sua faceta segregacionista
Meu namorado diz que eu concebo a Arte como forma de segregação. Sem ser desonesto, não posso conceber um tipo de Arte que, em níveis práticos, não o seja ela mesma uma dimensão cuja imprescindibilidade do fator segregador é absolutamente efetiva.
O sonho da supressão do artista, utopia dos situacionistas em que durante certo tempo cri -e ainda cegamente creio fazê-lo-, isto é, a ressignificação (ou dessignificação) do conceito de Arte por meio da emersão de toda individualidade à estima de produtor artístico -afinal, todos são artistas em potencial-, é, para Hakim Bey, uma hipótese tão absurda quanto a hipótese de simplesmente se encarar o fim da Arte assinando seu documento de óbito.
O criador dos conceitos de Terrorismo Poético e Arte-Sabotagem pensa sobretudo em uma realização pessoal (e aqui, corro o risco de diacronismo, me perdoem) onde a experiência da vida é o próprio happening, ou então uma que está relacionada com a convivência em Zonas Autônomas Temporárias (labirintos de ratos nas brechas da máquina social capitalista).
A proposta defendida por Bey, entretanto, também não passa de mais uma daquelas teorias (embora também convicente) faca-e-queijo-na-mão.
Supondo que a Arte ainda exista -contrariando Bey, para quem ela teve fim na rouca gargalhada de desabafo dos dadaístas-, não vejo de que outra maneira eu possa encará-la senão como essencialmente segregacionista.
Se até antes da Idade Moderna não haviam os especialistas que a legitimavam -isto é, os críticos da classe dominante-, antes de tal a Arte ao menos exercia uma função social -do artesão antigo, do cidadão com direitos, do religioso que possui um dom, até assumir o formato de um artesão moderno.
Talvez a questão da Arte tenha se tornado uma grande neurose -daqueles que se esforçaram e ainda se esforçam por delimitá-la- a partir do momento em que ela se tornou democrática, ou simplesmente a partir do momento em que ficaram nítidas as divisões sociais para se pensar em arte-modelo e arte-excêntrica.
Arte é sim uma forma de segregação. Mas também a mais bonita delas.

4 comentários:
"Arte é sim uma forma de segregação. Mas também a mais bonita delas". Seu texto é arte caro colega, poucos acompanham sua linha de raciocínio, segregando o entendimento do texto para poucos letrados, no entanto belíssimo texto e belissima visão de arte.
Bem, dizer que a arte é segregacionista é ignorar que a produção artistica vem dos mais diversos estamentos sociais, inclusive das "minorias".
Claro que apenas uma pequena parte da população tem acesso aos "Academicos Franceses" ou a "Escola Barroca Holandesa", mas por sorte as manifestações artisticas não se resumem a elaboradas e eruditas técnicas, um morador da periferia não é menos ligado a arte por não conhecer Renoir, ou Rembrendt.
O artesão talves não exista mais, mas mesmo a industria cultural não destruiu a criação artistica.
aah eros, li a primeira parte com mais atenção que a segunda, esse blog ja foi mais poético...
talvez você esteja estudando demais!
pare de teorizar a vida! :P
o amor é mais artistico que isso, que tal poemas sentimentais cheios de paronomásia e aliterações?! haha!
ainda assim adimiro sua nova forma de escrever.. (nem tão nooova!), sei lá faz parecer que foi um sábio quem escreveu!Mantenha sua estética, só não deixe seu blog virar um dicionario, ou uma erosciclopedia!, ou seu proprio volume dos pensadores dando pitacos em tudo que achar polemico! :P
Parabéns! estou com saudades!
Li a primeira parte com mais atenção que a segunda [2]. - não costumo usar palavras dos outros, mas foi o que eu achei para falar.
A primeira parte pareceu algo como discrição de dicionário. Achei bem interessante e ao mesmo tempo científico, não no sentido exato da palavra.
E, graças a nova forma do blogspot, eu pude ver seu comentário, há quase um mês atrás. Eu costumo responder comentários, então se não respondi é por que eu não li. Hehe
De qualquer forma, será sempre bem-vindo.
;*
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