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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Carta a Samanta (in memoriam)

Chove chove chove.
Presentes de natal amontoam-se mutuamente sobre a mesa ex-branca -agora cinza, de tristeza. Um rádio de pilha verde-vovô, um malbec vinho-tia, uma bruxinha chamada Margie que ri alucinadamente quando você bate palma...
Aliás, quando você batia...
Um par de canetas cor-de-mãe, ex-presentes também. O Roberto Carlos cantou hoje de 1966 a 1972. Não me importo se ele está cansado, amanhã cansarei o Wilson Simonal ou algo assim. Hoje ouvi Sua Estupidez, do álbum de 1969, a música que eu canto pra você quando...
A música que eu cantava pra você (ao menos mentalmente, faz tanto tempo isso) para nos reconciliarmos. Incrível como essa água desde manhã me confinou em pensamentos domésticos. Olhe para o Natalino. Ele precisa de uma tosa, vergonha na cara, canina alegria, banho, e por falar em banho, já estou indo aí pra gente se encontrar e...

Nossa! Agora percebo, Samanta. Como um dia de chuva pode ser prejudicial.



St #Amor

A amarela lua da poluída cidade sem estrelas se despediu à tarde. Logo ao fim da tarde que é quando o luminoso Sol se prepara também para descansar. Ficou um breu.
O luau que eu tinha imaginado se transportou para o lugar das meteorologias, climas, suicídios, e o começo da noite luarenta e não luarenta lubrificou meus ictéricos olhos.
O lumpemproletariado pegava fogo nas ruas, os dourados e luminosos campos de trigo da minha imaginação criavam densa lubrina cor pastel, e em meio de tudo isso apanhado em brilhante lucão agonizei. Nem vi farol, farolete, lucerna, vaga-lume, lucidez minha se perdeu...
Lúcifer.
Lucilante naquele preto todo algo de resto-coração pululava. Luzi. Luzi. Luzi. Mas para o lar das longitudes e latitudes meu Sol-lua havia se transportado.
Eu sou uma menina lucípeta, atrás do meu Sol-lua lucipotente, em busca de um amarelecido lucro aclimativo, lucrativa empreitada do ouro.
Ludibrio as cores de mim, quero um prisma. Mais do que todo o prisma, quero aqui ver lufar a areia, e quero lutar para exterminar a lugubridade da Sol-idão.
Ele-lume.
Eu lunática menina lucípeta, presa ao trigo-lustre dos seus cabelos, na nossa idealizada luxúria.
Lubrificados olhos no fim da tarde-arde, Sol-lua me abandonou, e eu perdi a vida.



Dois breves comentários sobre Roberto Carlos

I
Vocês já pararam pra reparar no asfalto da ruazinha à uma da manhã com o som dos postes de luz e com os tons da lampadinha verticalóide acoplada à roda da bicicleta? Já repararam na cor do asfalto (que brilha com a purpurina de quartzo refletida insone)? É preto-claro. Não é cinza, é outra cor. É preto-claro sim!
Na ruazinha eu estive pedalando. Nas ruazinhas. Peguei a Serra de Bragança até o final, depois a Conselheiro Carrão, a Taubaté, subi até a Praça Sampaio Vidal e fui em direção à Emílio Mallet (ou Emília Marengo?), desci a Antônio de Barros, virei na Cantagalo, depois a Coelho Lisboa, Praça Sílvio Romero, Padre Adelino, Bonsucesso e estou em casa. E quem me consolou a estranha noite foi o Roberto Carlos. As coisas que ele canta fazem pouco sentido. A princípio. Quando você está na vibe elas fazem mais sentido do que muita coisa (como a falta de música, como o moralismo, como a putaria, como o excesso de racionalismo, como a falta de cérebro). "Foi pensando em me guardar e querendo não querer, me dizendo pra esquecer, foi pensando só em mim que eu pensei só em você".

Vibratos peregrinam na noite [sem estrelas].


II
Atravessei a Avenida Paulista. Pela metade. No meio do automobilístico rio, à espera das luzes arrogantes, "esqueça se ele não te ama! esqueça se ele não te quer!", e eu morri.
Sete vezes.



Propostas de Animação Museológica

Folheando um caderninho que preenchi em 2008 percebi a maravilhosa contribuição que o meu curso técnico de museu me deu. Passei a entender depois de tal curso como o museu ocupa uma função de perpetuar a desigualdade social ao registrar como legítima ou "erudita" (em outros termos, maior) uma história ou um estilo de vida com antepassados inteligíveis.
Pensando nisso, durante alguma aula do curso concebi duas ideias de atividade artística. A primeira delas [2] não tem ligação direta com o problema da segregação artística, mas a co-tematiza comicamente. A segunda [1] tem a forma de uma crítica à expografia, está então diretamente relacionada.

[2] mulher morta
Um quadro (uma pintura -a óleo, de preferência) retratando garota mais ou menos nova, entre 12 e 16, branca e com cara de peixe-morto como nos quadros do neoclássico, tamanho médio, cabelos castanhos caprichosamente arrumados (trançados ou não, de preferência decorados), olhos azuis (de preferência), aparentemente úmida, impressões de sufocamento, olhos abertos, pupilas dilatadas, cabeça mais ou menos tombada (caída), vestindo um vestido gigante, composto por muitas camadas (a menina como sufocada por roupas), moscas, fundo negro (marrom ou preto), moldura elaborada (meio rococó).

[1] Grande esfiha de carne (flamejante), gordurosa, no espaço expositivo
Trata-se de uma esfiha de carne (generosa no tamanho) fixada (pode haver um prego para causar efeito) na parede (de preferência que não seja uma dry wall) do espaço expositivo, e que permaneça neste o tempo que for necessário, sem manutenção, e com o risco de apodrecer ou impregnar o ar do ambiente.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Balanço de dois mil e dez.

Comparando meus escritos e digitados de 2010 com os de 2009 estou reparando que o número de bloquinhos reduziu drasticamente e o número de arquivos de texto-poesia também reduziram. Em contrapartida tenho papéis de anotações e esquemas de estudos digitalizados que não têm fim. Entrei na faculdade, passei a estudar pra caralho. Me senti particularmente inspirado no início do ano (tive um amor platônico no exato reveillon, vestibular, viajei etc.) e também na semana em que frequentei a Escola Livre de Cinema e Vídeo de Santo André, no início do segundo semestre, quatro dias que conseguiram me inspirar durante um mês.
Sobre as férias...

Carta de amor do ano novo

Oi Guilherme. Minha vida muda só tem ouvidos para a garoa arrogante. O resto da noite passada está aqui, entortando a minha vista e fazendo com que os paralelepípedos dancem em um ritmo marítimo. Do outro lado da rua uma pomba está andando, como andam os humanos, porque está convicta de que os imitando conseguirá entrar invicta dentro da padaria algum dia. O céu inicia o bocejo da manhã, que é quando as coisas começam a clarear, a rua, a árvore, o prédio, o portão, o cachorro, tudo cada vez mais nítido. E eu estou prometendo a mim mesmo que os dias serão cada vez mais irreversíveis. Se está ao meu alcance eu não sei, pode ser ingenuidade. Prefiro pensar que não. Prefiro pensar, Guilherme, que os meus atos têm sentido. Guilherme, as coisas não se mensuram. Eu vou viver ao teu lado nesse mundo imensurável, Guilherme, e o mundo será nosso, apenas, unicamente, exclusivamente, nosso. Nós nos...
Guiamos da maneira que quisermos, Guilherme. Guilherme, eu não espero que você leia isso algum dia, você imaginaria "que raio de sujeito é esse? esse fraco, esse fraco, esse fraco", mas eu garanto, que é inevitável, o meu amor irreversível me içou, e agora eu estou muito longe do chão, há um...
Guindaste invisível, quase metafísico. Guilherme, quando os fogos arrebentaram no céu eu estava no metrô, provando para mim mesmo que eu sou a pessoa mais forte no universo, mas você humilhou a minha filosofia quando, naquele boteco com estranhos recém-conhecidos você me olhou, e fez exatamente aquilo que o amor da minha vida faria para me conquistar. Então com as lágrimas que pululam do meu ser eu senti um aperto no coração de não poder te reter para sempre, na penumbra da luz sensual e tênue da sinuca da minha vida. Você me encaçapou e depois abandonou o bilhar, desligando a luz da minha felicidade, apertando o interruptor do meu coração. Não me admira ter chovido depois. Você levou consigo toda a estabilidade, você e o seu sorriso levaram o meu oxigênio, e agora eu me sinto morto. Acho que estou sento levado à...
Guilhotina, cumprindo essa pena horrível, que é a angústia da esperança, à qual ainda não me acostumei. Sim, Guilherme, porque eu sou pós-graduado na ressaca do amor, e agora eu estou imerso em um fluido que não existe, e quando eu menos esperar estarei em queda livre. Agora a minha vida não tem outra função senão te encontrar, amigo, e eu sequer sei por onde começar.
Guizos de natal sinalizam a morte de um ciclo e o nascimento formal de mais uma escravidão temporal. As mulheres idosas tiram das portas suas...
Guirlandas. As renas do Papai Noel abandonam a televisão e vão repousar guardadas em gavetas. E quilos de dinheiro são devorados em labaredas coloridas na Avenida Paulista -e o meu coração é devorado por você-, lâmpadas azuis, brancas, vinho barato. E a Rua Augusta, e todas as suas...
Guildas, tribos, seus botecos e suas boticas, sufoca na garoa intragável. Mas a culpa de estar garoando é sua Guilherme, porque você me abandonou, e agora a minha incubência é te achar a qualquer custo, já que não resta dúvida de que você é o meu príncipe. Porque você olhou para os meus olhos como um homem apaixonado olha, e com uma simpatia hipnotizante que me deixou estupefato, e não foi com "uma" simpatia, e sim com "a" simpatia, a simpatia que eu esperava para obter a felicidade, a tua simpatia, Guilherme! E você me ofereceu meia garrafa de cerveja, Guilherme, e você não faz ideia do que isso significa, amigo. Guilherme, você me perguntou meu nome, Guilherme! Guilherme, você foi embora, mas me deu de presente a maior esperança que eu nunca tive, com o seu sorriso moleque, sua simpatia gigante, seus olhos maravilhosos e aquela meia garrafa de cerveja. E me disse que lhe encontrasse em uma sexta-feira, na pizzaria ali perto, apenas essas coordenadas, logística simplista. E então você deu meia-volta e foi embora, e eu corri atrás de você, mas nenhum de nós dois podia anotar informações pertinentes, por falta de recursos físicos. Então eu só sei que você se chama Guilherme, e que frequenta o Vitrine às sextas-feiras.
E a minha vida está prestes a dar uma impossível...
Gui-nada.

Guilherme me guiando guitarrante, guildas, guizos, guirlandas, guilhotinas, guindastes, guichês, guisados, guilhermes mil... Alvoroço em meu coração, amanhã ou depois de amanhã, resistindo na boca da noite um gosto de Sol...

janeiro 2010


texto

título que já perdeu acena
porque a conta do analista
me foi paga com o corpo
docente
doente
de bombeirinhos

2010


caroço-angústia-suspeita onipresença,

eu disse ao Francisco no sábado passado que o custo-benefício dos meus relacionamentos estabiliza-se com a negação das relações virtuais, a favor das trocas reais, relações verdadeiras.
ele me disse que, se eu sou convicto disso, sou a pessoa mais bela.
é uma pena que os meus amores não-perus não sintam por mim um amor tão avassalador que os faça superar seus medos, e também é uma pena que esse medo os impeça de que vivam amores avassaladores.
e enquanto isso, na cidade, o amor funciona como deve funcionar, sob este céu sem estrelas.

8 2 2010


por que o chocolate que você me deu me espia e as flores estão tão diferentes se até a porta para o quintal está aberta?
por que o ventilador teimoso gritando feito uma cigarra continua balançando de um lado para o outro, em um silencioso "não"?
por que o violão está mudo mesmo com todas as possibilidades de poesia que noite quente e estrelada oferta?
e por que escrevo estas linhas se tudo acabou definitivamente entre nós?
deve ser porque... definitivamente. acabou-se. tudo.

farmácia, 8 2 2010


você (realmente) acha e tem todo o DIREITO
de mudar a minha vida (assim -sem mais nem mais nem mais)
enquanto os sentimentos-pulga pululam dos meus poros e são arremessados uns contra os outros na garrafa térmica do meu ser, teus olhos castanhos -lindos olhos castanhos- mais fundos que o braço da floresta penetram nos meus e se instalam no meu intelecto-ecto-ecto, e impossibilitam o antigo Eros de respirar com o empoeirado ar da semana passada.
ou você queria apenas mais um beijo?
como sempre foi certo que o meu futuro seria promissor... sempre foi! eu senti que nas últimas semanas que a minha vida subia uma escada ruma a níveis cada vez mais catastróficos, fabulosos e fantásticos. e eu venço no cassino do amor, eu já posso virar para o fevereiro passado e gritar que EU VENCI O CASSINO. e isso tudo under meus abstracionismos ultrapassados.
mas é porque você tem o DIREITO.

18 2 2010


empecilhos em pé são cílios
de pé nos teus sexuais olhos
que dançam na minha fálica cabeça
mesmo que nem direito eu te conheça
dançam com a paixão mineral
co'a qual brilham

fevereiro ferve na rádio
dos atômicos tímpanos do dia promissar
as coisas todas não fazem ideia
de que eu sou o irresponsável cantor
na janela do frio e ignorante ônibus
no qual brilho

o dia é nosso
o dia é nosso sim
muito. muito.
o dia é muito. muito nosso

20 2 2010


o celular toca
eu tenho alface no dente
o fio dental corre
freneticamente
eu pego o aparelho
tão esperançoso
o fio dental dança
na boca raivoso
largo o telefone
alface no dente
quem é que me liga
amigo, parente
ou será o amor
que conheci quarta-feira
que imerge das horas
pra contar besteira

20 2 2010


COMUNICADO

não entendo por que, mas meus dedos, que roo incessantemente, estão cheirando ao teu beijo com dentes escovados. este frio, que se torna quente, que é o diálogo-amor das dialéticas-línguas, tem um porquê gutural. porquê da vida, combustível do meu sangue, saliva da saliva, antisséptico do meu ser.
(tua boca muito mais alva, gostosa e
re. fres. can. te.)

2 3 2010


a melhor poesia que eu escrevo
tem as letras do meu amor
eu luto pela poesia - do meu amor cogniscível
subcuecante e supracardíaco, o amor difícil
das centenas de horas, agoras, aforas
que chora, que flora, que adoro, deploro, que adorno, que chôro

a melhor poesia que eu canto
tem o cheiro do meu amor
eu luto pelo aroma - do meu amor reconhecível
lácteo-pigiante, naso-sudoríparo, o amor sensível
meu amor escovado, lavado, chupado
lambido, marido, na cama, sacana, deitado, jogado...

esperando minha boca

5 4 2010



Conheci o atual namorado Eduardo em junho, mais ou menos na mesma época em que havia conhecido o Daniel em 2009.
Participei de um assalto mais ou menos violento. No qual eu era a vítima.
Na volta das aulas, após nervoso processo seletivo, entrei na Escola Livre de Cinema e Vídeo de Santo André, onde, por falta de vergonha na cara e condições intelecto-temporal-geográficas do rolê eu não conseguiria estudar -excentuando a possibilidade de fazê-lo tendo como efeito um aumento na minha self-mortalidade.
Em outubro fui para o ENUDS e nos meses seguintes entrei em contato com algumas atividades que testaram meu projeto de vida, hipóteses, ideologias etc., corroboraram, aprimoraram, acrescentaram.
Terminei o caderno devolver a Eros Tesão este caderno de pornografia número XXXX-XXOX (não ligar a cobrar) ou esta caligraphia calipígia ou amor irreversível.
Os últimos dias de dezembro foram um saco.

[fragmento]

I
começa com um beijo, mais ou menos molhado, mais ou menos arbitrário, mais beijo do que desejo, mais vontade do que receio. incrivelmente.

II
é como se meu inconsciente dissesse
CORRA, VÁ EM DIREÇÃO A ELE
eu simplesmente podia ter dado meia-volta, mas não
CORRA, SEJA ASSALTADO
todavia aquilo me livrou de ter que arranjar explicações para o fato de o celular ter quebrado vinte minutos antes do assalto.

III
na queda quebrei um dente

IV
a teimosia, se bem estruturada, é uma virtude. por bem-estruturada entende-se que há uma lógica-argumentação suposta.
ora, negar a teimosia, que é uma condição geral da sociedade, é hipocrisia.

V
pavores de mim. os vaticínios têm durado facilmente até às duas, duas e quinze da manhã.

VI
eu posso seduzir facilmente o diretor. só preciso de um motivo. que tipo de poder ele pode oferecer?

s/d


os meus amores são natimortos
a maior parte deles não durou mais do que dez segundos

s/d


quando nossas sombras se fundiram, na rua, senti catalisarem-se nossas emoções. (desde o início achei que nossos corações trampolinharam na mesma velocidade.)
e então você me disse "oi" na rua, escura, senti que se não desmaiasse, flutuaria. escuridão. e nossos corpos se juntaram, na esquina. senti a eternidade no meu fluxo sanguíneo. esquinados, nossos lábios labiaram-se, na noite senti que nada mais importava. e, logo, o amor dos homens, personificado no negro líquido cardíaco que bombeava alucinadamente, converteu-se no alvo e cândido néctar morno da vida, que jorrou energicamente rumo ao céu.
da boca.
preta.

s/d


se tornar adulto é um crime contra a estabilidade e a esperança contínua do mundo mágico.

um par de pernas muito finas pouco presente quer estar em casa. passeia confiado e descorajoso nas paredes brancas de luz apagada. (da mente castanha.)
confinado na atmosfera gelada da estação, quer se morfinar.
e vai conseguir.

ele senta nos sofás brancos mais ou menos insípidos da cinemateca e cruza o par de pernas suspirante de satisfação em seu orgulho-dezessete. ele é feliz e sabe muito bem.
quer olhar. consegue. bate-bate, posso ouvir daqui. o céu nublado anuncia a noite sem estrelas da cidade.
vai começar a sessão. e depois dela, ele será apenas um pouquinho menos o mesmo.
(mas sabe o que quer.)

s/d


quando caiu da mesa acordou. irada. quero dizer, que seu cabelo assemelhava-se à vida em sua explosão no limiar da intensidade. e olhou pro chão, e enxergou. e de repente se viu homem na escrivaninha, mas abandonou a carteira semi-bravo e quase-mudo, pondo a preta blusa na morena derme, mochilando-se e se dirigindo à porta. mas quando saiu estava branco, e as panteras que saíram da floresta em sua frente se esforçaram para violentá-lo. correm muito, e caiu em buraco, para uma boate gay, e aí era colorido. e vida passou a fazer todo o sentido. limites estreitos. estritos. uma boca molhada, saborosa, e um drinque cítrico. até que perdeu o chão. quando caiu da mesa acordou. irada. quero dizer, que seu cabelo assemelhava-se à vida em sua explosão no limiar da intensidade.

s/d


passa por mim a nuvem do amor ultrapassado
pisa no fundo dos pés de galinha
me reconhece
sabão de marchinha
beija minha nuca - certeza
filho da cidade - é normal
eu te ver assim - no circuito
continental - vai um biscoito?
vou num café genial
depois da película - audiovisual
vem vem comigo menino
ultrapassado tá bom
não não insisto mais, cara
eu vou seguindo na marchinha
a gente se vê dia desses,
eu sigo marchinha - sabão

s/d


(estrela de topete)
você foi pornografada em mim
estrela de topete e rala barba
estrela da assimetria
pornografada em mim
eu estigmatizade
você star-beldade
hetero-liberdade
você Sol eu Plutão
marginal coração
de estelar desejo
celestial submissão
daqui do inferno vejo
a sombra do avião

estrela de topete
pornografada em mim
você funciona como um deus
tô nas tua - eu no teus

s/d


quando ele chegou viu o chão pintado de assombrosa escuridão
sentiu tanto medo, mas tanto, tanto medo que desejou também morrer por um instante
[nada mais preocupante que a dúvida]
tentou respirar uma duas três tentativas -passivas! metabolizar de qualquer jeito, a qualquer custo
QUASE MORTE
deu meia volta, e outra, e outra volta, muitas meias voltas mentais
o chão assombrosa escuridão, sem previsão de chegada
amarrada ao não dito, preso, acorrentada na insegurança sua alma se matou cinco vezes (que era o número de meses)
vê-lo o outro, ali quietinho, com terceiro, rindo sim, grudado assim, de qualquer forma, sem mim...
[e o fim de semana mal tinha começado]

s/d

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Peça: Domingos na vida (Não faz a'loca!)

Deve acontecer na cidade sem estrelas, e absolutamente ao acaso.
A cena é composta por um vagão de trem razoavelmente vazio, em um metrô de um bairro médio de emergentes, também um polo social da região. Acontece no limiar entre as quinze e as dezesseis horas, em um domingo mais ou menos frio em medida nublado.


Personagens:

o homofóbico militante gay: roupas escuras, calça, blusa de manga comprida deixando à mostra algumas tatuagens (uma delas lembra uma cruz), boné, provavelmente tênis, cabelo curto ma non troppo, alargador, óculos sem contorno de armação em volta das lentes, magro, cara de louco;
o bissexual discreto: barba por fazer, inchado, óculos de armação unissex, cabelo curto ma non troppo, camiseta preta de manga comprida, calça jeans, tênis, segurando uma folha do jornal da Igreja Universal do Reino de Deus, que tinha cruzadinhas (o miolo do jornal havia sido recém-jogado fora, por motivos evidentes);
o homossexual havaiano: camisa florida, bermuda xadrez marrom com azul claro, chinelo, mais inchado que o homofóbico gay mas menos inchado que o bissexual discreto, ponta do cabelo com gel descolorida e mezzo desbotada mezzo violeta versus rosa.


Prólogo

O bissexual discreto senta em um banco duplo paralelo ao do metrô, enquanto o homossexual havaiano no banco duplo perpendicular. O homofóbico gay militante senta no banco duplo perpendicular que forma uma linha contínua com o banco perpendicular em que está sentado o homossexual havaiano. As portas fecham. O metrô começa a andar, deixando à mostra a pequena ponte estaiada prestes a ser inaugurada.
O homofóbico gay militante começa a encarar o bissexual discreto. Olha fixamente para ele, em uma expressão crescente que aparentemente misturava medo, perplexidade, ódio e vários outros sentimentos mistos. Ainda não estava evidente que de fato ele olhava para o bissexual discreto, que apenas achava graça.
Tem início o diálogo.


O Diálogo
HH: I guess, he's with a fork, and he's going to start killing us.
Risos.
O homofóbico gay militante se levanta põe o dedo em riste, acusando o bissexual discreto. Quando fala, fala gravemente, com muito sentimento, misturando alerta com ameaça, e com assustador fôlego. O primeiro clímax.
HGM: Não faz a'loca! Não faz a'loca.
Acusa o bissexual discreto mais um tempo, fazendo ameaças e também com sentido de ofensa. Vai se afastando de repente em passos largos e desajeitados, e também hesitantes e chega até próximo do fim do vagão em pouco tempo. Entretanto, o homossexual havaiano não parava de provocá-lo.
HH: Ei, cara, vamos conversar, vamos conversar! Vamos bater um papo! [E quando ele se afasta,] Olha só, mas que homem nós temos aqui!
Enfurecido com a última provocação, o homofóbico gay militante volta rapidamente, enquanto o homossexual havaiano levanta, e posteriormente o bissexual discreto. Enquanto o primeiro, peitando reciprocamente o segundo (de forma que este notou o doce hálito daquele) continua a praguejar, e o terceiro se esforça em previnir qualquer contato físico apartando os dois primeiros, o segundo consegue engendrar uma conversa mais ou menos lógica no sentido narrativo, que consiste no segundo clímax da peça.
HH: Cara, vamo bater um papinho. A gente desce na próxima estação e vai conversar com os policiais.
HGM: Pra quê?
HH: Porque você está me discriminando.
HGM, surpreendemente, em uma voz mais ou menos audível: Você acha que eu não sou veado igual a você?
Chegavam à seguida estação. Encaminhavam-se para a porta de saída, as vítimas insistentes para que o louco (como se as próprias vítimas fossem sãs) com elas descesse para que a conversa chegasse de fato em termos mais sérios e efetivos -não necessariamente graves. A porta se abre, o homossexual havaiano desce, o homofóbico gay militante fica do lado de dentro mas próximo do limite da porta para o lado de fora, e o bissexual discreto entre o chão da plataforma e o trem. E é este último que engendra o terceiro grande clímax (logo, as três principais personagens da peça são suas três protagonistas).
BD, acusando: Você está preso! Eu como cidadão estou te prendendo por discriminação!
A porta apita. O bissexual discreto tenta trazê-lo para a plataforma, mas não conseguindo, empurra o homofóbico gay militante, que neste ato arranca do primeiro o resto do jornal da Igreja Universal do Reino de Deus que continha as cruzadinhas.
A porta se fecha. O bissexual discreto mostra-lhe o dedo do meio, o homossexual havaiano manda-lhe um beijo, o homofóbico gay militante continua olhando odiosamente através do vidro da porta do metrô.


Epílogo

HH: Gente, que cara loucão, velho!
BD: Eu prendi ele!
Risos.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Nada Quase Audível

I
pensando em termos do que viria a ser um nada quase, ou, nada-quase, em seu significado estrito, rejeita tudo que não for absoluto. (veremos de que forma essa leitura confronta e dialoga com a outra.)
aquilo que é nada quase é absolutamente.
absolutamente audível remete àquilo que é categoricamente passível de ser ouvido.
o é em sua forma pura (tem potência) ou efetivada (escutável ou sujeito ao silêncio).

II
quase [passível de ser ouvido]; aquilo que o é quase, não pode, em última análise, sê-lo. portanto, quase audível diz respeito àquilo que é ou absoluta e obrigatoriamente audível ou absolutamente inaudível.
quase-audível representa, portanto, a uma dessas condições.
o nada as nega categoricamente, o que remete simplesmente à impossibilidade de se usar aquelas classificações absolutas.
voltamos novamente, portanto, a considerar aquilo que está no limiar do escutável e do inescutável. leia-se, sua potência.

III
estamos falando, afinal, de uma condição que implica a potência de uma vibração sonora de ser considerada pelos nossos sensores auriculares.
uma proposta de discussão de nome Nada Quase Audível, concluindo, deve sugerir, ao menos, que aquilo que for considerado, o seja com investigação, sem se atribuir juízos absolutos.


Da Arte e sua faceta segregacionista

Meu namorado diz que eu concebo a Arte como forma de segregação. Sem ser desonesto, não posso conceber um tipo de Arte que, em níveis práticos, não o seja ela mesma uma dimensão cuja imprescindibilidade do fator segregador é absolutamente efetiva.
O sonho da supressão do artista, utopia dos situacionistas em que durante certo tempo cri -e ainda cegamente creio fazê-lo-, isto é, a ressignificação (ou dessignificação) do conceito de Arte por meio da emersão de toda individualidade à estima de produtor artístico -afinal, todos são artistas em potencial-, é, para Hakim Bey, uma hipótese tão absurda quanto a hipótese de simplesmente se encarar o fim da Arte assinando seu documento de óbito.
O criador dos conceitos de Terrorismo Poético e Arte-Sabotagem pensa sobretudo em uma realização pessoal (e aqui, corro o risco de diacronismo, me perdoem) onde a experiência da vida é o próprio happening, ou então uma que está relacionada com a convivência em Zonas Autônomas Temporárias (labirintos de ratos nas brechas da máquina social capitalista).
A proposta defendida por Bey, entretanto, também não passa de mais uma daquelas teorias (embora também convicente) faca-e-queijo-na-mão.
Supondo que a Arte ainda exista -contrariando Bey, para quem ela teve fim na rouca gargalhada de desabafo dos dadaístas-, não vejo de que outra maneira eu possa encará-la senão como essencialmente segregacionista.
Se até antes da Idade Moderna não haviam os especialistas que a legitimavam -isto é, os críticos da classe dominante-, antes de tal a Arte ao menos exercia uma função social -do artesão antigo, do cidadão com direitos, do religioso que possui um dom, até assumir o formato de um artesão moderno.
Talvez a questão da Arte tenha se tornado uma grande neurose -daqueles que se esforçaram e ainda se esforçam por delimitá-la- a partir do momento em que ela se tornou democrática, ou simplesmente a partir do momento em que ficaram nítidas as divisões sociais para se pensar em arte-modelo e arte-excêntrica.
Arte é sim uma forma de segregação. Mas também a mais bonita delas.

domingo, 1 de agosto de 2010

Balada Afônica

Estas foram minhas férias mais irreversíveis.
No sentido e direção mais doentios.
Evoluíram em um vetor exponencial e atingiram níveis supra-perplexos.
Minha literatura foi um manual de que alguma pulsão de morte demoníaca se apossou.
Minhas férias foram um triste. Foram um feliz. Foram um qualquer coisa de sentimentos.
Preocupantes.
Estou com medo.
Algo me quer derrotar quando abraço.
Quando faz frio.
Algo que me chora. Internamente. Como uma hemorragia insistente, porque não se pode ser paulistano e querer ser amante ao mesmo tempo.
A vida está excluída da sociedade do tédio paulistana. Resta uma balada sem som, uma polifonia afônica.
Tenho a impressão de ter sido vítima de um trote do meu inconsciente, este responsável por testar todas as teorias por mim admitidas.
Resta a metáfora.
Insistentes, as senhoras sentadas em estrelas riem, pilheriam, com tanto, mas com tanto sarcasmo e tanto afinco que fazem (até) faltar o sono a São Pedro, que tem uma overdose de pó-de-guaraná -ou melhor, em termos paulistanos, de Red Bull- para manter o serviço otimizado. É exatamente neste instante que as estrelas decidem deixar a cidade.


O Amor Irreversível V

O amor da porta das manhãs é clandestino. É definitivo seu batom de mentira com que se pinta, a sombra que passa delineia sua própria sombra na rua, contra a luz dos postes, contra a luz da Lua. O amor da porta das manhãs não quer ser verdadeiro, não se importa com nada que possa dizer respeito a fidelidade particular, compromissos extra-instantâneos e outras pieguices da pré-modernidade: ele espera que simplesmente o efeito da função que proponho no meu marketing pessoal alcance o limite esperado. Nunca é, e é por isso que as empresas de Serviço de Atendimento ao Consumidor já estão mais ricas do que as de produtos básicos (como as indústrias do sexo, da felicidade e do poder).
Quando o eu-líquido escorregou pelos degraus imundos do tão límpido shopping center, não pensei em casamento, ou nenhum outro tipo de contrato satânico. O requinte diabólico estava, pelo contrário, na desonra do casamento, que se tornou uma casamentira. Sei que na cabine do banheiro, não o prazer da aventura, mas o do novo, óbvio, nos tomou imediatamente, pois ao ponto de ônibus contíguo à galeria nos direcionamos: o meio que encontramos para tornar mais confortável esse amor irreversível.
Complacente me ofereceu suco, carambola, conversas fenomenalmente acríticas a respeito de espiritualidade -ou melhor, espiritualismo, porque o sufixo me remete a doença-, mas isso tudo era apenas acessório: estávamos ali -eu estava ali, em sua casa- apenas pelo sexo.
Transamos como eu jamais faria com outra pessoa, o que é bom. É sinal de que eu pelo menos consigo identificar e distinguir atividades e condutas pontuais no sexo dentro do universo de relações que eu já tive. Esta, aliás, está na lista das irreversíveis.
No ônibus disse qualquer coisa de engraçado ao cobrador. Não sei se propositalmente ou não, o fato é que ele riu e respondeu algo até que simpático, ainda que ininteligível. Pensei baixo a respeito dos discursos dos amigos -que são meus psicólogos, embora não sejam formados nem por uma faculdade federal- que comigo tentaram tornar cognoscíveis as minhas noções a respeito das questões que envolvem a preocupação que a noite irreversível tentara solver.
A noite sem estrelas da cidade por um instante pareceu perigosa. Mas obviamente não passa de ilusão. Afinal, o amor verdadeiro me espera na porta das manhãs.


st (incrivelmente)

Até sexo como um paulistano ele faz.


História das Brincadeiras

Sobre o móvel de imbuia, no qual se encontravam um cofre noventista do Garfield (dentro do qual os indivíduos se amoedavam), um pote cilíndrico com desenho de abelha (dentro do qual funcionava uma dimensão composta de cereais, bactérias, déficit de oxigênio e um breu quase entediante), uma flanela azul, esquecida e manchada (sobre a qual multidões de bactérias e protozoários -talvez fungos- lutavam para a sobrevivência e para o domínio sobre os restos -de qualquer coisa que reste- do móvel, da mesa e da pia, compilados), e também três outros potes metálicos encostados no canto (dentro de um dos quais havia um saco de pipoca -que poderia ser descoberto segundo uma conta matemática fabulosa) acumulando poeira do lado de fora e tétano dentro de si mesmos, duas formigas apostavam corrida.
Na prática, porque na teoria elas estavam fazendo algo que apenas diz respeito à bio-sociologia.
-Eu duvido que você chegue antes de mim!
-Que pena, porque eu que vou chegar!
Estavam em um embate desgraçado.
A cozinha estava vazia, mas a luz havia sido esquecida acesa. Os objetos sobre o móvel de imbuia não se preocupavam em criar vida, entretanto.
-Olha só, a malhada vai ganhar! -diria o Garfield banqueiro se pudesse.
-Vai nada, eu aposto é na retinta! -diria a abelha-silo.
Mas as formigas estavam apenas correndo rumo a alguma coisa que lhes dissesse respeito segundo o diagnóstico do zoólogo.
Mas eu insisto que estavam apostando corrida.
-Você está comendo poeira!
-Você vai ver só! Vou falar que você é uma formiga preguiçosa!
-Isso só se você conseguir chegar até lá! -e esta soltaria uma gargalhada que até os ímãs de geladeira estremeceriam -e olha que ímã de geladeira nunca sente calafrio.
Mas a geladeira continuava no ritmo monótono -e assustador ao mesmo tempo- de sempre. Enfim as duas chegavam ao limite imposto pelo móvel.
-Não falei que era a retinta?
-Tudo bem, o dono do dinheiro sou eu mesmo!
Mas as formigas desafiam a gravidade, e elas subiram rumo ao céu, que é o teto.
-Eu ainda vou te alcançar!
-Estou só vendo!
Algum barulho de porta.
Foi apenas impressão.
As coisas continuavam intactas. Na teoria.
Porque na prática, eu insisto, elas acompanhavam a acirrada competição entre a formiga malhada e a retinta, preocupadas apenas em serem tudo, menos um inseto.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Do cabelo verde

O preço que eu pago por pintar o cabelo de verde é, minimamente, a paranoia. Ousaria dizer que o pacote inclui um aumento absurdo da falta de respeito dos outros em relação a mim: meus direitos de cidadão moderno são suspensos e, conforme a animosidade dos meus concidadãos, o poder de análise destes se torna audível, seja o diagnóstico positivo ou não.
A crítica mais ferrenha a respeito dessa atitude diz respeito àquilo que no senso comum se dá o nome de chamar atenção. Uma explicação ingênua para essa repulsa seria dizer que os demais têm inveja da minha coragem de efetivar aquilo que na verdade seria um desejo latente. Não posso crer que seja assim fácil de explicar.
A crítica se volta a uma atitude que chama atenção. Por ser diferente, talvez. Não sei também se a explicação está ao meu alcance, diria que não. O fato é que a cor excêntrica instiga.
O verde em especial -e aqui eu me dou o direito de fazer tal comentário com argumento de autoridade.
A lógica é simples: alguém pinta o cabelo de verde para chamar atenção, afinal, é inconcebível que alguém o faça pensando no efeito estético que isso pode produzir. Logo, os indivíduos se esforçam para catalogar a anomalia conforme determinado motivo ou ideologia nos quais ela se encaixa taxonomicamente.
É fácil: eu sou palmeirense! A outra comum é o Hulk. Ambas explicações são automáticas e obviamente superficiais. Um ou dois me perguntaram se se tratava de vegetarianismo ou veganismo. Um perguntou se eu era punk. Alguns poucos fizeram gestos de aprovação, alguns outros grunhiram de reprovação.
Mas é óbvio, para quem me conhece, que a última coisa na qual eu estou pensando é na Mancha Verde, imitar uma personagem ou em parecer um straigh edge consciente. Trata-se do efeito estético que a cor verde, minha predileta, apresenta enquanto cor do meu cabelo. Acho realmente bonito.
Outra observação diz respeito ao pensamento das pessoas acerca dos instantes em que eu estou de cabelo colorido e um parceiro. A associação do afeminado com aquele homossexual que chama atenção é o lugar comum do qual se depreende a máxima não basta ser gay, tem que chamar a atenção. Pintar o cabelo de verde então é a extensão de um projeto cuja essência se encontra na homossexualidade.
Contudo, como enunciado no início, além da situação humilhante de objeto de estudo no qual me transponho ao pintar o cabelo, o outro preço que eu pago é a paranoia. É sair de casa e, a cada pessoa que passa, pensar no que ela está achando, mesmo involuntariamente (salvo certos momentos em que eu realmente esqueço disso ou estou com amigos, algo assim), ou pensar no impacto que eu estou causando (e essa é a parte divertida; fico entusiasmado de pensar no risco que eu assumo para me sentir mais livre, pois às vezes, eu realmente acho, perturbo um ambiente apenas com a minha singela e colorida presença). É medir cada um dos meus passos, cada uma das minhas ações, cronometrar gestos, planejar a entonação da voz...
Tudo isso apenas para que eu possa provar para mim mesmo e para o resto do mundo que uma pessoa de cabelo verde pode apresentar uma conduta não necessariamente agressiva diante dos demais, excetuando, claro, a própria agressividade e, portanto, também o sentido político, intrínsecos ao efeito do cabelo.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Ficção#2 (Canção do Ódio)

Não consigo imaginar para quem você se arruma (senão para mim). Não consigo-sigo imaginar para que você se arruma, senão para me esperar. Porque eu tomo muitos-vários banhos e para onde vou? Ou quando vou, se vou, para quem o faço, senão para você, que está ali na esquina parado, no corrimão de um metrô valente, sentado na mesa perto do bilhar, esperando criar coragem para me dar sua cerveja, ou então na balada (que me abalas) dando seu número para uma discagem inexistente-tente. Você está no impulso-pulso de sabonetar competentemente cada dia potente a minha genitália-mente, no meu impulso de apertar (de estar perto) contra minhas axilas (agora frias) o desodorante (meu calmante ou excitante), nas roupas que escolho-colho, você está impregnado nelas, naquelas do cabide, numas deitadas-empoeiradas no chão... É para você que me visto todo dia e cerco qualquer figura, é a sua que procuro em cada abordagem muda, ou em qualquer mudo diálogo...
Se eu não consigo pensar em ninguém mais, como pode você (ou supor eu que) aparentar assim ter enterrado tudo. Seu mal-sucedido, enterrou-me vivo! Maldito, maldito, maldito, maldito, maldito...


Canção do Ódio II

Flamejou, flamejou, flamejou... Dança das cinzas sobre o fogão imundo-mundo. Fagulhas cintilantes, diletantes, cantantes e a fumaça cinza que dançava em direção ao teto. Você ardeu como aquele papelão sem graça, pintado de lilás-sem-paz, recheado de ar do nada, na boca do fogão. Você não arde mais na boca de sujeito nenhum. Fulgurou-se na cozinha solitária, apenas um sorriso de expectação, reflexo das flamas nos meus dentes vermelhos.
De ódio.
Minhas gengivas brancas -de luz- viviam o chamejar daquele resto de passado com intensa sensação, fulgiam -estou certo- mais do que a vela acesa ali na minha frente indicando a tua partida, tua iluminada morte. Teu espírito clamando resplandecia chamejante, e assim o esteve até a última faísca.
Até o fim do ato abrasado, quando o quitado incêndio daquilo tudo que hoje são felizmente e apenas cinzas (e nada me causa mais pânico do que pensar na possível Fênix desse mal queimado), sorri inflamado de calor. Ateei fogo em ti até tostar carbonizado, pela imagem da ex-caixa de chocolate febril que em letras douradas era Jubileu. Mas quem estava em júbilo agora era eu.
Calmo, pus os restos de ti em um saco plástico, desci a rua da minha vida na bicicleta do meu ser, e com a música do meu tempo, te despejei na brisa noturna deste outono paulistano sem estrelas.
Você foi voando, voando...

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Estudo#1 (fluxo)

Aquela mulher parece um homem (ou um homem que parece uma mulher). Bah! Que besteira. Às vezes me pego pensando nos porquês. Não tem porquês, Eros, acabou e acabou. Será que já chegou a minha salada? Que susto! Gostei da mochila. Que bundinha, hein? Será que o cara do CRUSP vai me ligar? Nossa! Esqueci o nome dele. É Ales...sandro. Alessandro? Não! Ele falou em luz, é Luciano! É Valdison Luciano.
-Mas Valdison significa o quê?
-Sei lá!
-Bom... Valdir significa alguma coisa.
-É, deve ser o nome original. Mas eu não pesquisei ainda.
Nossa, como estou atordoado. Quero dormir mais no Espaço Verde. A blusa da Gabriela é bonita. Eu não lembro o nome daquele cara da Letras...
-Oi! Tudo bem?
-Oi!
-O seu nome eu não lembro mas o significado dele é muito legal.
-Qual é o significado?
-Eu não lembro, mas é muito legal!
E ontem, o cara do cachorro. Hum, engraçado.
-Tem vinte e...
-Haha, trinta.
-Trinta e...
-Trinta.
-Qual é o nome dele?
-É a Drica. É menina.
-E o dono tem nome?
-É Alessandro.
Ah! Ele era o Alessandro.
-Que faz o que da vida?
-Engenheiro.
-Cê gosta?
-Gosto. Então, tá vendo aqui esta rua? Vira aqui, atravessa a Praça Roosevelt inteira, atravessa a Consolação e anda umas duas quadras. Mas toma cuidado que é meio perigoso.
-Tá. Peraí, deixa eu ver se eu entendi. Eu viro aqui...
-Vira aqui, atravessa a Praça Roosevelt...
A vista do COPAN não sai da minha cabeça. Que coisa absurda essa cidade. Mandei uma mensagem pro Diogo, mas ele não respondeu. "Foi um prazer, apesar de tudo. Beijos, bom dia!" Será que ele se ofenderia com o "apesar de tudo?"
-Quer que eu te chupe?
-Quê? Ketchup?
Risos. Mas ele é muito frio. Droga, por que ele não conseguiu até o final? Será que era por causa de mim? Não. Foda-se! O Daniel gostava. Ele era muito blasé. Será que o amor no COPAN existe? Eu posso ir ao Glória de novo. Mas quem disse que você vai encontrar alguém pra conversar assim lá, Eros? Aquela mulher que parece um homem de novo! Vou atrás da minha salada!

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

História das Cidades

Por um parque azul-ametista, onde os anjos se vestem de pessoas e vão passear com seus cachorros de dois mil dólares, um rio com mais dobras que a voz da Amy Winehouse leva números para passear com suas crianças por entre o verde sintético. O tempo varia entre um domingo torturado e uma terça-feira amena, pássaros cantam a canção da cidade, torres de concreto indicam abstratamente que se trata de uma ilha de natureza artificial no meio da metrópole. O rio segue seu curso naturalmente mecanizado e os rostos enrubrescem -não de vergonha, mas por falta de uma política de difusão dos benéficos efeitos do protetor solar-, as crianças respiram mais alto que o ofegar furioso dos animais.
Ao longe um casal improvisa uma tarde televisivamente bucólica (algo como um piquenique ou uma rede), no outro lado cultua-se a qualidade-de-vida vendida pelo comercial (acho que isso quer dizer cooper), logo ali um grupo de senhoras -tem um senhor, mas depois de uma certa idade a gente não distingue mais o gênero- pratica ioga. Tudo corre como o planejado.
Se você sai do parque e atravessa a rua dá com uma igreja. Que está vazia, já que é cedo e as pessoas só lavam a consciência à noite (os lençóis é no final da tarde). Se você observar o prédio vai perceber que ele não tem nada de original, nem de marcante. É porque a Igreja já saiu de moda (e é por isso é que existem os shoppings). Entrando ali você dá de cara com um altar onde um cara de mentira -o que é uma pena- está crucificado, mas é só porque a igreja em questão é católica -os evangélicos não são tão sádicos. Este mundo do espetáculo necessita urgentemente de neo-iconoclastas. Essa igreja tem uma loja onde as pessoas compram pedaços de propriedades no Céu (o Céu é um mundo virtual ilimitado, como a internet) e uma sala onde se vê cristalizado o viés mais doentio do homo sapiens: mesas com velas acesas para não iluminarem exatamente nada -é como abrir buracos para enchê-los novamente depois.
E se você vira a esquina dá com uma padaria. A padaria é uma empresa -assim como a Igreja- e serve para alimentar as pessoas e a desigualdade social, porque contribui para a perpetuação do conceito "alimento" como mercadoria, ou seja, limitado pela mão invisível que rege o mercado -que é a mesma mão que esquarteja, guilhotina e aperta o gatilho. A hierarquia na padaria é desgraçada -também mais ou menos como a Igreja, onde uma estátua de um cara pregado corresponde a um dos altos executivos-, parecido com um fast-food. Não se ganha tão mal como no segundo, mas em contrapartida se trabalha como um cão -com a desvantagem de se gastar dinheiro com comida, coisa que os cães não precisam fazer. O baixo funcionário de uma padaria irá para o Céu, porque dos pobres será o reino dos céus, enquanto Jesus e outros caras muitos ricos -que não estão crucificados- fazem cooper no parque.
E, saindo da padaria, você dá com um shopping. Shopping é a Igreja para as pessoas modernas, com a vantagem de que nele o reino dos céus é dos ricos. O shopping center é a versão atualizada dos jardins após a Segunda Guerra Mundial: uma fortaleza arquitetônica estruturada como um labirinto de maravilhas acessíveis por um simples pedaço de plástico retangular com uma tarja magnética, onde não se vê o tempo passar, o clima é agradável, o design interior é amplo e clean, e as pessoas são selecionadas (nem sempre pelo segurança, mas simplesmente pelo senso comum que todos os cidadãos de bem em uma sociedade camufladamente estamental como a nossa possuem). Se você sobe a miraculosa escada rolante, você dá na praça de alimentação, um espaço panóptico onde o grande olho é a "fraternidade momentânea", e os encarcerados são os escravos trabalhando nos restaurantes de fast-food.
Fast-food é um tipo de comida que não faz nada bem para a saúde, mas que as pessoas comem porque faz parte um ritual cultural espetacular (assim como alguns outros hábitos maléficos, tais como assistir televisão, orar e jogar lixo no chão). Os funcionários na mais baixa hierarquia de uma rede de lanchonetes fast-food (que são aqueles que servem a "comida") ganham muito mal, mas é porque a necessidade da estratificação o demanda (assim como o cortador-de-cana no primeiro setor, e o operário vítima da mecanização fordista no segundo, o funcionário do fast-food é um exemplo de peão do terceiro setor, assim como os operadores de telemarketing).
Então você sai do shopping e anda até o metrô mais próximo. Metrô é o meio de transporte que as pessoas burras usam, porque as espertas compram carros, já que o bem particular é muito mais importante que o coletivo. E a esperteza de se lutar alguns anos para comprar um automóvel é obviamente relativa, porque os problemas de urbanização em uma grande cidade que possui metrô em um país "em desenvolvimento" como é o caso do meu são, sabe-se muito bem, terríveis. Ao invés de lutar pela expansão e otimização (e aqui eu uso esses termos pensando em projetos importantes para todas regiões da cidade) do transporte público, o morador da cidade está preocupado em reunir grana suficiente para se emancipar de necessidade do uso de um meio coletivo de mobilidade (que às vezes o preço torna até inviável) para, ao invés de reclamar como uma sardinha do horário de rush do metrô, reclamar que não pode andar com o seu carro de última geração porque as ruas onde ele anda não conseguem comportar tantas pessoas espertas com carros de última geração ao mesmo tempo.
E quando você desce do metrô dá de cara com um outdoor. Outdoor é o meio de propaganda legalizado dentro do metrô (comércio avulso dentro dos vagões e pichações em muros são ilícitos, a propaganda em banners e nas televisões do metrô é legitimada pelo Estado-Capital). Na sociedade do espetáculo a propaganda funciona como as ideologias da Igreja funcionavam no Medievo (e aqui eu falo de propaganda tendo em vista as suas milhares facetas), e o templo do consumo, o shopping, como a Igreja.
E quando você sai da catraca e vai pedir um copo de água da torneira ali no boteco, tem uma televisão que te acusa indiretamente de omissor da sua responsabilidade e, por conseguinte, agressor natural da paz pela passividade em relação à fúria da natureza em relação àqueles que -agora, na moda- são os eleitos como os massacrados sem direitos humanos da vez. Então você olha incrédulo para os vários moradores de rua na sua cidade, e pensa que a vida fora da cidade é muito pior. E conclui tristemente ao atestar a caridade dissimulada e enlatada, que se torna arrogante e prepotente vinda justamente de nós, teventes do terceiro mundo: por que eu devo ajudar o Haiti, se o Haiti é aqui?

Radiohead e Digable Planets me ajudaram a escrever este texto.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Caça.

ou 'Uganda em mim'

Porque a minha principal ideologia é a vida -especialmente a minha- saí correndo, em uma atitude que costumo chamar de pânico, de outra atitude, a qual qualifico como terror, insolitamente personificada na figura de quatro sujeitos, ou mais, altos e musculosos, sem camisa e de calça preta, carecas, segurando facões. Alguns deles não eram exatamente brancos. Isso poderá -ou não- ser importante mais tarde. Porque a minha principal ideologia é a vida saí correndo, em uma atitude que os outros qualificariam como covarde, mas é porque não conhecem o significado real do termo "terrorismo".
Esta cidade é demasiadamente grande. Olhei com o coração exausto de tantos slides para o fim dessa Radial Leste, que na verdade não existia. Não tem fim. São Paulo não tem fim. Pensei em todas essas pessoas consumidas completamente pelo medo, pensei no medo que eu sinto, no medo que eu nego.
Quando cheguei perto do shopping e vi que um pedaço da calçada estava vazio de novo pensei "puta que pariu esses seguranças... o pior é o rebanho que sai mesmo", porque os seguranças do shopping inventaram uma história, que não pode ficar naquela calçada -reparem que a calçada é pública, mesmo a do shopping, eles ainda não têm direito de isolá-las-, e os integrantes daquele grupo gigantesco, composto por principalmente gays, lésbicas e simpatizantes, obedecem direitinho conforme o pedido, quer dizer, conforme o obrigado. É quase obrigado sim, porque se você resiste, acaba sozinho na calçada, visto como subvertor pelos funcionários do shopping e isolado do grupo.
O shopping Tatuapé tomou várias providências em relação ao encontro que acontece toda segunda-feira há um bom tempo em uma de suas fachadas. A maioria delas é recente. Por causa da aglomeração de pessoas, os seguranças foram instruídos para dispersarem o grupo dentro do shopping, de forma a não obstruírem a passagem dos consumidores em potencial -como se os próprios homossexuais não fossem consumidores em potencial também. No pátio da fachada onde ocorre o encontro iniciou-se uma reforma. Uma reforma que nunca tem continuidade. Isso deslocou parte da massa do encontro para a calçada, pois a passagem entre a porta automática do shopping e a calçada também passou a contar com um chato anti-obstrução. Só que esse chato anti-obstrução só foi necessário pois a) as pessoas não podem ficar estáticas dentro do shopping, b) o pátio foi cercado para uma reforma infinita, c) as pessoas não podem ficar estáticas dentro do shopping e atrapalhar ou ofender a saída dos consumidores em potencial pedestres do shopping.
Uma quarta medida tomada foi a de fechar os portões daquela fachada meia hora mais cedo, talvez para evitar os problemas que os trombadinhas e batedores de carteira traziam para dentro do shopping (uma multidão em pânico, às vezes tossindo por causa de ataques avulsos com spray de pimenta, entrando ensandecida no shopping e causando uma mixórdia). A quinta medida é a de cercar o bordo da calçada, para evitar que o trânsito se torne um caos, isto é, evitar que o grupo ocupe ou dificulte a passagem nas pistas da Rua Domingos Agostim. Mas é também uma atitude controversa (que ninguém questiona), já que o bordo é importante no trânsito, para carros que necessitam estacionar urgentemente, e para os motociclistas e ciclistas, já que a pista mais próxima ao bordo direito é preferencial a estes, e quem diz isso não sou eu, é o Código de Trânsito Brasileiro. Esta providência é controversa, mas a última é simplesmente ilegal. É o isolamento de uma seção da calçada.
Lembrando que todas essas medidas são tomadas apenas na fachada do encontro às segundas-feiras.
A "política" do shopping é uma coisa. Não sei se a CET autorizou o uso de cavaletes na calçada. Agora, que o Estado não permite essa atitude que eu qualifico como discriminatória (não pelo fato de o grupo ser de homossexuais, mas sim pelo fato de assustarem o público homófobo do shopping) de impedir a permanência na calçada, é óbvio que é mentira. Mas o rebanho não está preocupado com isso, e nisso consiste o meu ressentimento. Pensam feito perus, só estão preocupados com imagem e beijar na boca, obviamente jamais boicotarão o shopping porque são conformados, porque não associam uma coisa à outra, porque eles mesmos são consumidores, porque acham que os maiores culpados são os seguranças "chatos" do shopping, e não os administradores da logística da salvaguarda.
As ovelhas estúpidas, naquele gramado, onde a periferia da Zona Leste, da Zona Norte e de outros lados de São Paulo, porque São Paulo tem muitos lados, vêm abastecer seus cérebros televisivos agindo como devem agir, pensando feito perus, dispostas como ovelhas que são. Então hoje, contrariando as minhas expectativas, um grupo pequeno mas assustador de rottweilers enfurecidos, xiitas adeptos de uma ideologia chamada skinhead, transformou o calmo rebanho em uma manada histérica. Contrariando minhas expectativas, porque depois da semana que antecedeu esta, quando um arrastão gigantesco escapou ileso de cinco viaturas de policiais (ah! os policiais, tão simpáticos, pedindo passagem com spray de pimenta), eu jurava que alguma providência seria tomada. Doce sonhar. Nenhuma providência, da parte do rebanho, da parte do comércio, da parte do shopping e da parte do Estado, isto é, da própria polícia, em relação à criminalidade e à violação dos direitos humanos. Hoje, isolados do shopping, sem proteção policial, um enorme grupo GLS foi intimidado por um minúsculo grupo de skinheads aqui no meu bairro chamado Tatuapé.
E o pior? Nenhuma providência será tomada.
Nenhuma precaução.
Nenhuma medida.
Nada.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Todas as contraculturas apontam para a defesa da hegemonia do self-made man.

Discute-se que o principal problema da esquerda atual é a hiperfragmentação dos movimentos sociais. Isso significa que cada vez mais existem grupos interessados em problemas específicos e pontuais em relação à suas constituições, e em consequência disso, menos grupos interessados em resistir simplesmente ao sistema vigente levantando uma bandeira. Ou seja, no final das contas temos como balanço o seguinte: um mosaico de grupos minoritários que visam combater o sistema defendendo ideologias egoístas (não é muito difícil falar aqui de ego, já que os grupos acabam assumindo identidades), o que nada mais é reflexo da necessidade de se pôr em defesa individualmente que a ideologia do self-made man criou, isto é, a versão moderna e revisitada pela sociologia eugenista do senso de sobrevivência -que não passa de história. Ou seja, o capitalismo triunfa impregnando de medo todos os homens, impedindo que os insatisfeitos com a ordem neoliberal dêem as mãos e assim façam verão.
Mas o leitor questionará o porquê de tanto marxismo fora de época. Eu explico! É que ontem eu fui na Rua Augusta, pólo pluricultural daqui desta cidade sem estrelas chamada São Paulo, e nada mais vi lá do que um sem-número de grupos organizados feito bolhas, muitos com várias intersecções, claro, porém todos preocupados em defender um estilo (aparentemente apolítico, mas como a apolítica é utópica... vamos simplesmente fingir que há um mínimo de consistência no meio daqueles adolescentes -todos adolescentes, apesar da idade- deficitários metidos a ingleses, junkies, punks, rockers, skaters, emos, "alternativos", vida loka, hippies, amantes livres, anarquistas etc), apenas um estilo. Apenas sim, e prejudicialmente apenas. Prejudicialmente apenas porque fadando um movimento, como uma tribo urbana, a apenas um conjunto de esteriótipos e imagens, seus integrantes estarão se rendendo à sociedade do espetáculo do Guy Debord, onde as relações sociais se dão justamente por imagens, e nessa defesa absurda da aparência, diz também o Raoul Vaneigem, é que consiste o segredo da infelicidade tão bem cultivado pelo capitalismo no coração de cada um dos homens ocidentais.
Vejo como mecanismo decidido de resistência à ordem o cultivo de um estilo de vida automutilador e proibido. Não estou aqui em defesa do cristianismo, por isso não qualifico tais condutas como desregradoras ou pervertidas. Mas há de se prestar muito bem atenção no que essas ações significam. Apelar para discursos ofensivos e escandalosos, o uso clandestino de drogas ilícitas, mudanças corporais estéticas e o amor livre podem ser sim maneiras de se resistir tanto à moral quanto resistir à lei. Só que, desculpem-me pela franqueza, acho que o suspeito conforto que todas essas ações "proporcionam" deixaram há muito de serem agentes subvertores e hoje só estão cumprindo essa ideologia hedonista que a Mídia tanto defende.
O tratamento que se dá ao corpo, incluindo o uso de anabolizantes, e o consumo desenfreado de bebidas e cigarros por menores de idade, e de alucinógenos ilegais por todas as faixas etárias, são condutas condenadas pelo Estado nacional, mas legitimadas, institucionalizadas e incentivadas pelo Estado hedonista do capital (mais lubrificante no processo de alienação na máquina social, e mais uma alavanca no capital financeiro, mais mercados rentáveis no sistema que gira em torno do dinheiro, e não da vida).
O intuito do texto não era ser um manifesto comunista, e sim uma defesa da tese de que as contraculturas deixaram de ser contra há muito tempo, e hoje apenas sustentam uma imagem de rebeldia que é inclusive defendida nos comerciais da televisão. Não quero generalizar, fiquei descontente com o que vi na Rua Augusta. Sei de uma galera que, embora não seja perfeita -a incompatibilidade com o Outro oprimido, que embora seja também oprimido como eu também é o Outro, é a principal dessas falhas-, dentro da minha visão realista e arrogante, é bastante engajada e atua notavelmente aqui em São Paulo (mesmo que algumas propostas sejam bobas, temos os vegans, os freegans, os straight edges compromissados, os vários grupos de socialistas, os humanistas, os anarquistas ontológicos, a galera da Bicicletada etc).

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O texto das dezesseis horas.

Mas eu te espero na porta das manhãs, porque o grito dos teus olhos é mais e mais e mais, e depois que você partiu, o mel da vida apodreceu na minha boca.Alinhar à direita
Tom Zé


Hoje boicotei mais uma manhã, porque desisti delas -todas muito vulgares, essas manhãs indecentes-, de todas elas -até a obrigação me impedir de boicotá-las novamente. Comi um peixe -hoje eu defendo e piscicultura, única e exclusivamente a piscicultura, pelo fato de eu temer um dia ser comido por um peixe-, e o macarrão tinha muito óleo de oliva. Não tinha bebida, mas em contrapartida pus o Pucho & His Latin Soul Brothers pra tocar, pra parecer um pouco mais chique (embora uma pessoa com geografia zê-életista, "anômala" sexualmente e com um gramado na cabeça esteja bem longe de se encaixar em uma esteriotipação "chique" -yes! livre de mais um estigma!), e comi pensando em várias coisas que logicamente eu não lembro mais. Li uma resenha sobre o Graciliano Ramos, um resumo feito pela minha mãe sobre planos anti-inflacionários no Brasil, e já me dei por vencido. Peguei um livro de História do Brasil, outro de História Geral, um chamado Mercado Financeiro, e percebi que nas minhas atuais circunstâncias eu não conseguiria lê-los sem ser acometido por um feroz sono. Lembrei de uma música do Tom Zé, que me lembrou mais uma vez o Daniel. Aqui faz um calor absurdo e o meu nariz irritado 'tá me irritando com sucesso. Quero tomar um banho que não vai me limpar, porque eu já estou limpo. O Jackson me ligou, espero que ele não se importe com o meu new diesel green hair. Foda-se se ele se importar, eu não vou casar com ele mesmo. Acho que o Francisco desaprovaria o meu cabelo novo, porque ele é muito sério. Mas foda-se também; desculpe baby, eu vou viver mais pra mim, eu vou correndo buscar a glória. Viciei em um estilo de música, um eletro-jazz, eletro-samba, eletro-bossa, eletro-soul, achei extra-easygoing pra estudar, melhor do que o Ravel, o Gershwin e o Debussy que eu 'tava ouvindo antes. Talvez eu esteja me boicotando, mas se o tio Freud 'tivesse aqui eu virava pra ele e rispidamente diria logo que "ó, tio! eu quero tomar banho sim e acabou!", ao que ele estupefato viraria as costas e sairia pra dar uma cheiradinha, já que nunca soube falar português -blefe. E pra quem é partidário dele, estou aqui desafiando: quero que vocês me impeçam agora de ir tomar um banho!
Vocês acham mesmo que conseguem? Bando de impotentes!

domingo, 20 de dezembro de 2009

Domingo em mim.

E estou acordado, caindo neste abismo porque perdi teus braços, e agora sem eles não tenho mais em que segurar. Não posso mais ouvir Radiohead sem pensar em você. Não posso mais ouvir o Yann Tiersen sem lembrar das noites nas quais tentamos ver o Amelie Poulain. Não vou mais ir ao Habibs sem lembrar daquelas madrugadas famintas. Hoje à noite, cansado de tanto ler -e esse vestibular só não é mais chato do que o Vinícius de Moraes- fui ao parque Sampaio, porque a minha bicicleta chamada Heloísa e eu queríamos espairecer, e os meus vizinhos estavam felizes e sonoros demais para a minha vaidade. Senti falta do meu mp4 player, que eu perdi há duas semanas, porque ele era parte da minha terapia (e eu sou viciado apenas em chá gelado, em pessoas e em música -roer as unhas, confesso, vocês sabem, é outro vício), e não tenho muito com o que relaxar ultimamente. E no parque, que estava especialmente vazio hoje (as pessoas do meu bairro estão acampando nos shoppings -e domingo é o dia onde o êxodo tem sido mais violento) tive medo, vi algumas estrelas perdidas entre as copas negras das árvores cansadas de tando tédio dominical -como eu-, que só deviam estar ali de passagem, migrando pra algum lugar importante, como Porto Alegre ou Punta Del Leste. A escuridão sufocou o meu coração vazio, já que ele estava mais oco e solitário do que todas aquelas sombras teimosas, mais insistentes que a impotente iluminação do parque. Em um instante pensei que a minha disposição havia caído da bicicleta e escorregado para o bordo daquelas vias precárias. Mas era mentira, deixei minha disposição em seu apartamento naquele domingo insólito, e fui sem rosto (tal como uma pintura metafísica do De Chirico) para o parque do Ibirapuera encontrar com os meus amigos. O parque Sampaio continuava vago, como a minha vida, e eu lembrei de tudo, do domingo, do Habibs, do Yann Tiersen, do Radiohead e, minha nossa, eu não tenho motivos para gostar assim dessa banda, mas eu às vezes a ouço, e às vezes ouvindo lembro de você, e lembrando de você não sei se quero sorrir, chorar, lembrar ou esquecer -talvez o meu problema seja querer fazer os quatro simultaneamente. Então eu fechei os meus olhos porque a brisa da noite ia limpar a minha alma, mas concomitante a isso Heloísa (acompanhada da minha estupidez maníaca) me levou para a direção errada e eu caí no bordo, que estava lama pura. De fato, minha disposição não estava lá, só havia lama, mas eu a confundia com a minha própria matéria, porque eu estou derretendo, eu estou acordado e caindo neste abismo, e é por isso que eu flutuo de medo e angústia nesse domingo. É porque eu ainda não atingi o solo.

Ação metabólica.

Uma pirataria cega o guiava, porque tinha olhos de roubar, mas eram líquidos e traziam uma impotência desesperada à visão.
Emergencial, como o azul do céu.
Uma vontade sorvetante e carente, porque era fria e seca, chupava tudo à sua volta, as paredes de concreto, as placas de acrílico, as superfícies de alumínio, cortadas pelas estacas dos homens, feitos de corações rasgados e exaustos -essa é a magia da cidade.
Um amor perigoso disputava locação com aquele ar abafado, que não conhece a liberdade nem nunca pagou a conta do analista.
Senhoras sentadas em estrelas ministravam as lições do rebanho, era hora de se ficar quieto, no sofá, quie-ti-nho! Mas eu não me preocupava com a lei, quem faz meu carnaval sou eu (percebo agora o real significado desse lema, que é: não dou a mais ninguém o direito de cavar meu próprio túmulo).
O motorista governava a grande minhoca metálica, nessas pulsações elétricas que dão origem àquela sensação que só quem mora neste lugar que não tem estrelas sabe o que significa. Esse magnetismo da morte, que a gente adora, porque aprendeu a apreciar esse perfume de dióxido de carbono, descobriu o prazer de se banhar nessa bacia de chuva ácida (com direito a indisposições estomacais autoimunes), e se doutrinou com a filosofia de pensar da cidade, andando sempre naquela velocidade das informações, achando que é feliz por navegar nesta nave imunda, esse cometa chamado estresse.
E, nessa noite, as senhoras sentadas em estrelas comunicavam aos brasileiros o que fazer amanhã, e eu viajava, e seus olhos de roubar, apesar de líquidos e de trazerem uma impotência desesperada à visão (emergente como o azul do céu), chupava tudo à nossa volta, todas as coisas concretas -aquelas feitas por homens de corações rasgados e exaustos- e todos as minhas vontades sangrentas e cósmicas, minhas cores e as minhas covinhas e todos os seus dezessete anos de sorrisos e afetos.
Descobri-me dentro de um túnel, que eu não sei se era de aço e concreto ou se simplesmente eu fora hipnotizado, e eu não sabia no fim do caminho que tipo de abismo eu encontraria (a minha convicção apenas me fazia acreditar de que sim! tratava-se de um abismo).
O ar abafado ainda disputava aquele amor perigoso, emanado por ele. Devia ser alguma ação metabólica, ele substituía tudo por aquele cheiro de paixão conveniente, devia ser como respirava.
Enfim, sorri. Olhei para ele e então abri a minha boca, ainda seca de solidão, notei que o túnel expirara e agora uma luz de coisa fechada enchia o ambiente. Visualizei em letras comerciais a palavra "Sé", então conformei-me com a logística dos homens, desci do trem e esqueci dele para pensar em outra coisa qualquer, que certamente preencheu o meu intelecto com mais competência.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Di-Agressões Avulsas.

Nem sei por onde começar.
Os textos longos ninguém os lê mais! Li uma crítica esses dias no blogue do Jean Wyllys sobre esse fenômeno da twitterização, de como hoje as informações têm que se prostituir adaptar a espaços cada vez mais curtos de difusão. O twitter seria o símbolo da cristalização desse processo, responsável por tornar o texto curto, com déficit de qualidade, como o padrão ideal de jornalismo. Daqui a algum tempo, pelo visto, os jornais virarão zines, a TV Minuto será transmitida na TV aberta, as músicas terão vinte segundos de duração (como as músicas no grindcore já têm), as semanas virarão dias e as noites serão perenes, já que o dia será abolido para se economizar luz.

Não sei se estou com remorso. Sei que eu não posso me sentir confortável depois de tantas richas que eu e a minha amiga Samanta, que mora na janela do banheiro, tivemos. Hoje, durante o banho, soprei-lhe para ter certeza de que estava viva, como sempre o faço, e notei que desta vez não se mexeu, mas em contrapartida, de uma bolsa cinza trocentas samantazinhas saíram correndo assustadas (mais ou menos parecido com o horário de rush do metrô). Concluí que, oh!, sim, o milagre da vida, que na verdade não é um milagre mas sim um evento logicamente previsto, desta vez teve como cenário a janela do meu banheiro. E agora eu não sei se a Samanta foi pro céu, não conheço a vida das aranhas.
Mas eu sempre pensei que elas botassem ovinhos.

Fiquei em dúvida se punha a minha bermuda quadriculada, que é quadriculada mesmo eu não sendo um bom jogador de damas ou xadrez. Mas felizmente eu saí da dúvida e pus uma bermuda lisa, que tinha mais a ver com a camisa que eu ia usar.
Ponto.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Deixa eu dizer.

Eu olhei pra este céu -que era estrelado-, e ele nublou de nojo de mim. Perguntei-lhe o porquê de tanta repulsa, e ele apenas me respondeu com uma garoa antipática que era simplesmente pelo fato de eu existir que ele agia daquela maneira. Bradei-lhe raivoso que não me fizesse mais penar, ao que o estúpido respondeu com trovoadas arrogantes e prepotentes, cujo estrondo provocou em mim um efeito nauseante.



As coisas me abandonaram. Pensei nesta noite que as coisas simplesmente deixaram de se apaixonar por mim, e passaram a simplesmente não se apaixonar mais, decididas a se filiar a uma ideologia maldita, de que o não-envolver-se é a receita ideal para quem não quer sofrimento. Mas quem nunca se envolveu em vão jamais saberá o significado de "sofrimento".
A aranha chamada Samanta, que mora na janela do banheiro, falou pra mim que não se importa não, que nunca vai se casar nem nada. Oras, me casar eu também não quero! Mas eu também não quero -e olha, cara Samanta, você vai me perdoar!- ficar a minha vida inteira tendo só aquelas relações super-líquidas que ela tem, porque os meus sentimentos podem não ser estáticos, mas também não são descartáveis!

[Sei que agora existe por aí uma aranha que tá brabinha, sapateando de raiva, mas é a mais pura verdade! A Sammy não sabe o que é amor!]

Vejo cada vez mais pessoas interessadas em defender uma ideologia pró-galinhagem ou pró-casamento, como se não houvesse uma transição entre esses dois universos, como se não se pudesse sustentar relações que não pertençam a nenhum desses dois pólos. Penso em um mundo utópico no qual as pessoas amem conforme a intensidade dos relacionamentos dos quais elas fazem parte. O que eu vejo hoje é principalmente pessoas interessadas em não sustentar de forma alguma relações, ou então pessoas encantadas com o sonho -tão, por Nietzsche, ultrapassado- de encontrar um príncipe encantado, pra casar bonitinho, e o escambau.
Nada, em absoluto, declaradamente contra as relações efêmeras ou as duradouras; minha crítica aqui é contra a ideologia que vicia os indivíduos, que sonham primeiro com o tipo de relação que querem ter, pra depois selecionarem os parceiros. Mas isso na verdade é uma tentativa de desabafo. Não consigo mais encontrar pessoas civilizadas para manter qualquer tipo de relação decente, seja ela instantânea ou longa, amorosa ou amigável. Não encontro tipos com os quais me apaixonar! Estou me sentindo muito frio. Talvez eu seja um puta cara arrogante.
Talvez não.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Rato.

Algo que parecia um rato, porque era parecido demais com um rato para não ser um, atravessou o cano que dividia a grande sala em dois.
O ruído foi bem pífio perto do ruído que era resultado da ira de Pedro, o Santo. A Física só serve para a gente odiá-la como odiamos a Deus um dia.
A luz que vinha do céu era suficiente para não matar todas as coisas ali existentes, um resto de trabalho, ruínas de uma gráfica. Tudo abandonado, falido há uns dois anos.
Foi nesse ambiente, preto, gelado, imundo. Dois rapazes forçaram afoitos a porta. Conseguiram entrar, tatearam, rezaram para seu deus (que devia ser o mesmo de todos os outros em um raio de vários quilômetros). Sentaram ansiosos, num chão negro de poeira. Quase-pretos, quase-gelados, quase-imundos, o ar era mais úmido que os olhos do rato que ali habitava. Ele, o rato, tinha motivos para se sentir intimidado. Mas os rapazes também tinham motivos. Mas desses motivos esqueceram rapidamente. Lá estavam, a salvo, apenas vulneráveis à fina garoa do medo que os homens têm, esse medo que as coisas boas não durem a eternidade, e que sempre é um medo com fundamento, com deus ou sem deus.
Ali, na gelada e arrogante poeira preta se amaram, um desbravamento inocente e curioso, como inocente e curiosa é qualquer aventura protagonizada por meninos. Na vida o sexo das aventuras é o masculino. Na História também é.
Se amaram feito dois ratos, e da haste que dividia a antiga gráfica em duas secções o nosso amigo singular de olhos úmidos espiava com uma atenção de tevente. Suspirou um suspiro de rato, e exclamou com aquelas cordas-vocais de quem nasce e cresce no esgoto:
-Esse amor entre homens é um amor marginal.
Os garotos pausaram um instante, pensando que tinham ouvido alguma coisa, mas a noite preta ainda prometia novas descobertas, e eles voltaram a se merecer em pouco tempo.
E se mereceram até o outro dia, até Pedro, o Santo, ir descansar, até as clarabóias do lugar serem vencidas pelo amor do Sol.
Se descobriram naquelas horas que eram a eternidade, e o rato foi dormir mais cedo, porque o dia fora exaustivo.