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sábado, 1 de janeiro de 2011

Balanço de dois mil e dez.

Comparando meus escritos e digitados de 2010 com os de 2009 estou reparando que o número de bloquinhos reduziu drasticamente e o número de arquivos de texto-poesia também reduziram. Em contrapartida tenho papéis de anotações e esquemas de estudos digitalizados que não têm fim. Entrei na faculdade, passei a estudar pra caralho. Me senti particularmente inspirado no início do ano (tive um amor platônico no exato reveillon, vestibular, viajei etc.) e também na semana em que frequentei a Escola Livre de Cinema e Vídeo de Santo André, no início do segundo semestre, quatro dias que conseguiram me inspirar durante um mês.
Sobre as férias...

Carta de amor do ano novo

Oi Guilherme. Minha vida muda só tem ouvidos para a garoa arrogante. O resto da noite passada está aqui, entortando a minha vista e fazendo com que os paralelepípedos dancem em um ritmo marítimo. Do outro lado da rua uma pomba está andando, como andam os humanos, porque está convicta de que os imitando conseguirá entrar invicta dentro da padaria algum dia. O céu inicia o bocejo da manhã, que é quando as coisas começam a clarear, a rua, a árvore, o prédio, o portão, o cachorro, tudo cada vez mais nítido. E eu estou prometendo a mim mesmo que os dias serão cada vez mais irreversíveis. Se está ao meu alcance eu não sei, pode ser ingenuidade. Prefiro pensar que não. Prefiro pensar, Guilherme, que os meus atos têm sentido. Guilherme, as coisas não se mensuram. Eu vou viver ao teu lado nesse mundo imensurável, Guilherme, e o mundo será nosso, apenas, unicamente, exclusivamente, nosso. Nós nos...
Guiamos da maneira que quisermos, Guilherme. Guilherme, eu não espero que você leia isso algum dia, você imaginaria "que raio de sujeito é esse? esse fraco, esse fraco, esse fraco", mas eu garanto, que é inevitável, o meu amor irreversível me içou, e agora eu estou muito longe do chão, há um...
Guindaste invisível, quase metafísico. Guilherme, quando os fogos arrebentaram no céu eu estava no metrô, provando para mim mesmo que eu sou a pessoa mais forte no universo, mas você humilhou a minha filosofia quando, naquele boteco com estranhos recém-conhecidos você me olhou, e fez exatamente aquilo que o amor da minha vida faria para me conquistar. Então com as lágrimas que pululam do meu ser eu senti um aperto no coração de não poder te reter para sempre, na penumbra da luz sensual e tênue da sinuca da minha vida. Você me encaçapou e depois abandonou o bilhar, desligando a luz da minha felicidade, apertando o interruptor do meu coração. Não me admira ter chovido depois. Você levou consigo toda a estabilidade, você e o seu sorriso levaram o meu oxigênio, e agora eu me sinto morto. Acho que estou sento levado à...
Guilhotina, cumprindo essa pena horrível, que é a angústia da esperança, à qual ainda não me acostumei. Sim, Guilherme, porque eu sou pós-graduado na ressaca do amor, e agora eu estou imerso em um fluido que não existe, e quando eu menos esperar estarei em queda livre. Agora a minha vida não tem outra função senão te encontrar, amigo, e eu sequer sei por onde começar.
Guizos de natal sinalizam a morte de um ciclo e o nascimento formal de mais uma escravidão temporal. As mulheres idosas tiram das portas suas...
Guirlandas. As renas do Papai Noel abandonam a televisão e vão repousar guardadas em gavetas. E quilos de dinheiro são devorados em labaredas coloridas na Avenida Paulista -e o meu coração é devorado por você-, lâmpadas azuis, brancas, vinho barato. E a Rua Augusta, e todas as suas...
Guildas, tribos, seus botecos e suas boticas, sufoca na garoa intragável. Mas a culpa de estar garoando é sua Guilherme, porque você me abandonou, e agora a minha incubência é te achar a qualquer custo, já que não resta dúvida de que você é o meu príncipe. Porque você olhou para os meus olhos como um homem apaixonado olha, e com uma simpatia hipnotizante que me deixou estupefato, e não foi com "uma" simpatia, e sim com "a" simpatia, a simpatia que eu esperava para obter a felicidade, a tua simpatia, Guilherme! E você me ofereceu meia garrafa de cerveja, Guilherme, e você não faz ideia do que isso significa, amigo. Guilherme, você me perguntou meu nome, Guilherme! Guilherme, você foi embora, mas me deu de presente a maior esperança que eu nunca tive, com o seu sorriso moleque, sua simpatia gigante, seus olhos maravilhosos e aquela meia garrafa de cerveja. E me disse que lhe encontrasse em uma sexta-feira, na pizzaria ali perto, apenas essas coordenadas, logística simplista. E então você deu meia-volta e foi embora, e eu corri atrás de você, mas nenhum de nós dois podia anotar informações pertinentes, por falta de recursos físicos. Então eu só sei que você se chama Guilherme, e que frequenta o Vitrine às sextas-feiras.
E a minha vida está prestes a dar uma impossível...
Gui-nada.

Guilherme me guiando guitarrante, guildas, guizos, guirlandas, guilhotinas, guindastes, guichês, guisados, guilhermes mil... Alvoroço em meu coração, amanhã ou depois de amanhã, resistindo na boca da noite um gosto de Sol...

janeiro 2010


texto

título que já perdeu acena
porque a conta do analista
me foi paga com o corpo
docente
doente
de bombeirinhos

2010


caroço-angústia-suspeita onipresença,

eu disse ao Francisco no sábado passado que o custo-benefício dos meus relacionamentos estabiliza-se com a negação das relações virtuais, a favor das trocas reais, relações verdadeiras.
ele me disse que, se eu sou convicto disso, sou a pessoa mais bela.
é uma pena que os meus amores não-perus não sintam por mim um amor tão avassalador que os faça superar seus medos, e também é uma pena que esse medo os impeça de que vivam amores avassaladores.
e enquanto isso, na cidade, o amor funciona como deve funcionar, sob este céu sem estrelas.

8 2 2010


por que o chocolate que você me deu me espia e as flores estão tão diferentes se até a porta para o quintal está aberta?
por que o ventilador teimoso gritando feito uma cigarra continua balançando de um lado para o outro, em um silencioso "não"?
por que o violão está mudo mesmo com todas as possibilidades de poesia que noite quente e estrelada oferta?
e por que escrevo estas linhas se tudo acabou definitivamente entre nós?
deve ser porque... definitivamente. acabou-se. tudo.

farmácia, 8 2 2010


você (realmente) acha e tem todo o DIREITO
de mudar a minha vida (assim -sem mais nem mais nem mais)
enquanto os sentimentos-pulga pululam dos meus poros e são arremessados uns contra os outros na garrafa térmica do meu ser, teus olhos castanhos -lindos olhos castanhos- mais fundos que o braço da floresta penetram nos meus e se instalam no meu intelecto-ecto-ecto, e impossibilitam o antigo Eros de respirar com o empoeirado ar da semana passada.
ou você queria apenas mais um beijo?
como sempre foi certo que o meu futuro seria promissor... sempre foi! eu senti que nas últimas semanas que a minha vida subia uma escada ruma a níveis cada vez mais catastróficos, fabulosos e fantásticos. e eu venço no cassino do amor, eu já posso virar para o fevereiro passado e gritar que EU VENCI O CASSINO. e isso tudo under meus abstracionismos ultrapassados.
mas é porque você tem o DIREITO.

18 2 2010


empecilhos em pé são cílios
de pé nos teus sexuais olhos
que dançam na minha fálica cabeça
mesmo que nem direito eu te conheça
dançam com a paixão mineral
co'a qual brilham

fevereiro ferve na rádio
dos atômicos tímpanos do dia promissar
as coisas todas não fazem ideia
de que eu sou o irresponsável cantor
na janela do frio e ignorante ônibus
no qual brilho

o dia é nosso
o dia é nosso sim
muito. muito.
o dia é muito. muito nosso

20 2 2010


o celular toca
eu tenho alface no dente
o fio dental corre
freneticamente
eu pego o aparelho
tão esperançoso
o fio dental dança
na boca raivoso
largo o telefone
alface no dente
quem é que me liga
amigo, parente
ou será o amor
que conheci quarta-feira
que imerge das horas
pra contar besteira

20 2 2010


COMUNICADO

não entendo por que, mas meus dedos, que roo incessantemente, estão cheirando ao teu beijo com dentes escovados. este frio, que se torna quente, que é o diálogo-amor das dialéticas-línguas, tem um porquê gutural. porquê da vida, combustível do meu sangue, saliva da saliva, antisséptico do meu ser.
(tua boca muito mais alva, gostosa e
re. fres. can. te.)

2 3 2010


a melhor poesia que eu escrevo
tem as letras do meu amor
eu luto pela poesia - do meu amor cogniscível
subcuecante e supracardíaco, o amor difícil
das centenas de horas, agoras, aforas
que chora, que flora, que adoro, deploro, que adorno, que chôro

a melhor poesia que eu canto
tem o cheiro do meu amor
eu luto pelo aroma - do meu amor reconhecível
lácteo-pigiante, naso-sudoríparo, o amor sensível
meu amor escovado, lavado, chupado
lambido, marido, na cama, sacana, deitado, jogado...

esperando minha boca

5 4 2010



Conheci o atual namorado Eduardo em junho, mais ou menos na mesma época em que havia conhecido o Daniel em 2009.
Participei de um assalto mais ou menos violento. No qual eu era a vítima.
Na volta das aulas, após nervoso processo seletivo, entrei na Escola Livre de Cinema e Vídeo de Santo André, onde, por falta de vergonha na cara e condições intelecto-temporal-geográficas do rolê eu não conseguiria estudar -excentuando a possibilidade de fazê-lo tendo como efeito um aumento na minha self-mortalidade.
Em outubro fui para o ENUDS e nos meses seguintes entrei em contato com algumas atividades que testaram meu projeto de vida, hipóteses, ideologias etc., corroboraram, aprimoraram, acrescentaram.
Terminei o caderno devolver a Eros Tesão este caderno de pornografia número XXXX-XXOX (não ligar a cobrar) ou esta caligraphia calipígia ou amor irreversível.
Os últimos dias de dezembro foram um saco.

[fragmento]

I
começa com um beijo, mais ou menos molhado, mais ou menos arbitrário, mais beijo do que desejo, mais vontade do que receio. incrivelmente.

II
é como se meu inconsciente dissesse
CORRA, VÁ EM DIREÇÃO A ELE
eu simplesmente podia ter dado meia-volta, mas não
CORRA, SEJA ASSALTADO
todavia aquilo me livrou de ter que arranjar explicações para o fato de o celular ter quebrado vinte minutos antes do assalto.

III
na queda quebrei um dente

IV
a teimosia, se bem estruturada, é uma virtude. por bem-estruturada entende-se que há uma lógica-argumentação suposta.
ora, negar a teimosia, que é uma condição geral da sociedade, é hipocrisia.

V
pavores de mim. os vaticínios têm durado facilmente até às duas, duas e quinze da manhã.

VI
eu posso seduzir facilmente o diretor. só preciso de um motivo. que tipo de poder ele pode oferecer?

s/d


os meus amores são natimortos
a maior parte deles não durou mais do que dez segundos

s/d


quando nossas sombras se fundiram, na rua, senti catalisarem-se nossas emoções. (desde o início achei que nossos corações trampolinharam na mesma velocidade.)
e então você me disse "oi" na rua, escura, senti que se não desmaiasse, flutuaria. escuridão. e nossos corpos se juntaram, na esquina. senti a eternidade no meu fluxo sanguíneo. esquinados, nossos lábios labiaram-se, na noite senti que nada mais importava. e, logo, o amor dos homens, personificado no negro líquido cardíaco que bombeava alucinadamente, converteu-se no alvo e cândido néctar morno da vida, que jorrou energicamente rumo ao céu.
da boca.
preta.

s/d


se tornar adulto é um crime contra a estabilidade e a esperança contínua do mundo mágico.

um par de pernas muito finas pouco presente quer estar em casa. passeia confiado e descorajoso nas paredes brancas de luz apagada. (da mente castanha.)
confinado na atmosfera gelada da estação, quer se morfinar.
e vai conseguir.

ele senta nos sofás brancos mais ou menos insípidos da cinemateca e cruza o par de pernas suspirante de satisfação em seu orgulho-dezessete. ele é feliz e sabe muito bem.
quer olhar. consegue. bate-bate, posso ouvir daqui. o céu nublado anuncia a noite sem estrelas da cidade.
vai começar a sessão. e depois dela, ele será apenas um pouquinho menos o mesmo.
(mas sabe o que quer.)

s/d


quando caiu da mesa acordou. irada. quero dizer, que seu cabelo assemelhava-se à vida em sua explosão no limiar da intensidade. e olhou pro chão, e enxergou. e de repente se viu homem na escrivaninha, mas abandonou a carteira semi-bravo e quase-mudo, pondo a preta blusa na morena derme, mochilando-se e se dirigindo à porta. mas quando saiu estava branco, e as panteras que saíram da floresta em sua frente se esforçaram para violentá-lo. correm muito, e caiu em buraco, para uma boate gay, e aí era colorido. e vida passou a fazer todo o sentido. limites estreitos. estritos. uma boca molhada, saborosa, e um drinque cítrico. até que perdeu o chão. quando caiu da mesa acordou. irada. quero dizer, que seu cabelo assemelhava-se à vida em sua explosão no limiar da intensidade.

s/d


passa por mim a nuvem do amor ultrapassado
pisa no fundo dos pés de galinha
me reconhece
sabão de marchinha
beija minha nuca - certeza
filho da cidade - é normal
eu te ver assim - no circuito
continental - vai um biscoito?
vou num café genial
depois da película - audiovisual
vem vem comigo menino
ultrapassado tá bom
não não insisto mais, cara
eu vou seguindo na marchinha
a gente se vê dia desses,
eu sigo marchinha - sabão

s/d


(estrela de topete)
você foi pornografada em mim
estrela de topete e rala barba
estrela da assimetria
pornografada em mim
eu estigmatizade
você star-beldade
hetero-liberdade
você Sol eu Plutão
marginal coração
de estelar desejo
celestial submissão
daqui do inferno vejo
a sombra do avião

estrela de topete
pornografada em mim
você funciona como um deus
tô nas tua - eu no teus

s/d


quando ele chegou viu o chão pintado de assombrosa escuridão
sentiu tanto medo, mas tanto, tanto medo que desejou também morrer por um instante
[nada mais preocupante que a dúvida]
tentou respirar uma duas três tentativas -passivas! metabolizar de qualquer jeito, a qualquer custo
QUASE MORTE
deu meia volta, e outra, e outra volta, muitas meias voltas mentais
o chão assombrosa escuridão, sem previsão de chegada
amarrada ao não dito, preso, acorrentada na insegurança sua alma se matou cinco vezes (que era o número de meses)
vê-lo o outro, ali quietinho, com terceiro, rindo sim, grudado assim, de qualquer forma, sem mim...
[e o fim de semana mal tinha começado]

s/d

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Minha Namorada é um Homem

Devaneios de um Octubro

1. Traga Sua Bandana Rosa
em troca de título melhor

Cheguei em casa agora, e comecei a digitar nisso que parece ser as vinte e uma e trinta e um de algo que parece um domingo -que parece quente- de algo aparentemente novembrino. E inspiradíssima para iniciar essa grande empreitada de explicar para mim mesmo -e o meu hipotético interlocutora- o que foi este último outubro -o que deve parecer estranho, já que, além das vinte e uma horas, me situo também no vigésimo primeiro dia de -nada mais nada menos que- um NOVEMBRO! Na real, uma tentativa -tive esse insight há pouquíssimos minutos, pode ser uma grande mentira- de tornar patentes as razões de um vórtice criativo -impassível de ser canalizado simplesmente em um texto de blogue. Este (vórtice)!
E vou começar a contar do avesso, e não farei um texto necessariamente artístico ou necessariamente jornalístico, ou necessariamente necessário a algum gênero (algum gênero!) de, de, DE, de algo generalizável (no sentido de compositor).
Do avesso, ai céus, explico, primeiro pela tarde/noite fantástica de hoje (meu nariz tem sangrado), depois passando para uma análise da minha experiência do Show do Gongo e do festival de cinema de "diversidade sexual" Mix Brasil (droga! não estou achando o meu tilibra -bom e barato LITERALMENTE moleskine), tratando de uma descobertinha-UNIFESP (marota!), e culminando (ai caralho, tenho uma prova sobre O Capital inteiro quinta, não me fará mal continuar falando, hein, hum, han), como uma forma de, de, de, tornar excitante, NÃO, como uma forma de tornar interessante isto aqui (isto aqui?), desculpa!, como uma forma de tornar MAIS interessante o ensaio (ensaio?), no enredar, no contar a grã-história, de responsabilidade de tudo ISTO AQUI, o que fui eu e o resto naquilo de nome ENUDS, o evento que mudou tudo, tudo... Ah! talvez vocês entendam, talvez eu esteja blefando CRUZES! nunca escrevi assim antes. mentira Mentira.

A-ny-way,
posso começar assim falando algo, uma citação, aproximada, de uma das falas, algo como eu falando algo que foi falado (dito)
[não sei se: 'okay, então temos de rejeitar -certa forma- a identidade', mas]
aqui muita gente fala SOU ANARQUISTA, bate no peito, e não interessa que corrente, mas -assumindo preceitos básicos- são anarquistas mesmo,
muita gente é punk, faz parte da cena punk, a gente assume até uma ESTÉTICA punk [pra mim essa parte é a melhor],
muita gente aqui também é vegetariana, ou vegana, e assume essa identidade,
agora, quando chega na sexualidade, a gente não pode simplesmente adotar uma identidade!
Sensacional a observação do rapaz no Espaço Impróprio, calor pós-pulos, na discussão sobre (In)Visibilidade Bissexual, um primor, um primor! Experimentei, finalmente, depois de uma certa curiosidade, o que é aquilo que está mais próximo do outro extremo do leque de tipos ativistas (o outro extremo em relação à academia, que tem sido a minha casa), e foi gostoso, e foi ótimo, 'inda que eu não tivesse como me entrosar muito bem no ambiente (mas é isso aí, quer dar uma de cientista social, antropologiza na marra!), porque eu vi o queerpunk, vi os bissexuais envolvidos com causas sociais, partindo de uma perspectiva que DETESTA a macroestrutura e se deparando também com problemas comuns à macroestrutura. Eu vi a galera dos zines, as superfeministas -já, as que eu vi lá, remediadas (teoria queer na veia) em relação ao rótulo "xiitas"-, vi os vegans, bikers, pansexuais, [se eu fosse chutar, eu diria que tinham também] poliamantes, todos unidos em um espaço, lutando entre a ciência rudimentar e a prática cotidiana para simplesmente se encontrarem, e PARA SE ENCONTRAR, porque não se sentem amparados -estes INDIVÍDUOS, se é que o termo pode ser empregado sem conotação pejorativa- pelas identidades comuns e coercitivas -afinal, no limite, ninguém pertence a nenhuma dessas identidades-, simplesmente para continuarem vivos moral, física e psicologicamente.
E vi o show do Teu Pai Já Sabe?, e cantei, e vibrei, a suei, e me realizei, no sentido em que venho inaugurando esse novo realizar, essa nova sensação. Puta, viado, travesti é engraçado!
Não consigo entender que tanto se importar com a minha sexualidade, se vai ou não aceitar. Minha vida só pertence a mim, eu não devo nada dela a você, faço o que eu estiver afim e não me importo com o que você vê! E gritos e braços e vidas saltando rumo ao limite dos músculos (e também aos limites dos fluidos músico-espaciais -bateria e guitarra e baixo e voz e vidas de verdade!) em um uníssono: GAY! GAY! GAY!
Mas obviamente são/éramos todos QUEER.
Definitivamente, fodeu o meu re-seio pré-rolê. Trombei uma conhecida tagarela, e isso ajudou. Mas, não tem como falar se não for assim como estou, emotivamente, porque o rolê foi alg'assim, tipo, precisamente emocional. Quando eu falar do festival de cinema Mix Brasil o tom será outro. Enfim, uh!
Desejo desejos e beijo a vida no -acho!- morno domingo. E vamos à luta proletária, que o professor Musse (que não é necessariamente um doce) me espera -na porta das manhãs ou- quinta-feira.
Decidi agora contar a minha aparição na revista Época, e, portanto, sobre o grupo DS e what the fuck, e isto será depois da análise do rolê Mix Brasil, porque aconteceu antes. É, acho bom fechar este texto em cinco partes.
Ai, melhor! Vou falar da bicicletada também. Vocês verão, vocês-verão, whatever.
Para o resto, para a vida, para os dias, as manhãs,
tragam sua bandana rosa e entrem no mote frenético.

talvez 22h40
21112010dc


2. Impressões sobre o 18º Festival de Cinema Mix Brasil

Hoje, em mais um morno (abafadíssimo) domingo, me sinto inspirado para escrever mais sobre as minhas últimas incursões, talvez conclua o serviço, talvez não.
Enfim, não posso falar sobre o Mix Brasil sem declarar opinião a respeito de dois marcantes e recentes acontecimentos, mais precisamente ligados à disposição social desta cidade sem estrelas.
Sem mais delongas, nas três ou quatro últimas semanas a mídia tornou públicos três, quatro ou cinco casos de crime de ódio na cidade (estabelecendo ainda um diálogo com a população -massa- de cunho -chuto!- inédito). O julgamento dos envolvidos em um desses casos teve direito a remake, dada a pressão civil. Dada a pressão civil, quem diria.
Hoje rolou um "beijaço" (um evento estranhíssimo, confesso, mas tudo vale a pena se a alma não é pequena) em oposição a uma ação homofóbica da parte da Ofner versus dois boys que apenas se beijavam no estabelecimento e foram expulsos, há poucos dias. O rolê partiu da Ofner, na Alameda Campinas, um point familiar, chique e grã-fino situado no meio do Jardim Paulista, subiu até a Paulista e culminou no 777, endereço onde um boy foi agredido por cinco playboys há três ou quatro semanas, o que gerou repercussão absurda -e, quem sabe, positiva- no espaço do debate.
O mais interessante hoje, foi o fato de (impossível não usar categorias de classe para tornar mais claro) o beijaço ter partido de uma iniciativa da classe alta. A luta política por direitos de exercer a sexualidade na classe alta, com direito a cartolina e palavras de ordem -algo a que, visivelmente, as pessoas ali presentes não estavam muito acostumadas. Acho que isso representa alguma coisa.
O segundo -fantástico!- evento que gostaria de relatar, foi o ato realizado na frente da Universidade Mackenzie, em virtude do manifesto que o chanceler (algo parecido com o reitor, não está muito claro comigo) Augustus Nicodemus (será que é assim que escreve?), um representante da Presbiteriana (mais dela do que do Mackenzie, pelo que se viu), emitiu -como sendo da Universidade-, se pronunciando contra a aprovação do Projeto de Lei Constitucional que legaliza a união civil entre homossexuais e criminaliza a nível federal a discriminação por orientação sexual.
A comunidade não recebeu o manifesto de bom grado.
Não há como explicar como uma mobilização planejada por quatro estudantes inter-universitários se transformou naquele monstruoso ato de quatrocentas pessoa na frente do Mackenzie que, numa expontaneidade enudiana (mais tarde vocês entenderão o termo), transmutou-se, o ato, em uma passeata que mudava de objetivo conforme a disposição da multidão aumentava. Do Mack para o Maria Antônia, para a Augusta e depois para a Paulista e, por fim, para o 777. Repercutiu na mídia (a não ser a televisiva, tenho a impressão).
E eu me senti mais contemplado nesse dia (talvez mais precisamente pelo caráter não-institucional do evento) do que na Parada Gay, aquele grande carnaval fora de época.
Fundamentalistas, as bichas invadiram a Paulista!

O que se deve esperar de um festival que promove no próprio slogan a bandeira da diversidade? Oras, a diversidade.
O projeto democrático do Festival de Cinema Mix Brasil, pareceu-me, em uma análise rudimentar, uma tentativa de reproduzir -ou de adequar-se- a classes de indivíduos socialmente representativos de contextos sociais categorizados segundo um status econômico e cultural.
Assim, a classe alta foi contemplada com o Museu da Imagem e do Som (situado no meio das mansões do Jardim Europa), onde foram exibidas as mostras competitivas de curtas (já me detenho a estes) com direito a caipirinha de maracujá, tomate, cachaça de primeira linha e o escambau.
A classe média alta foi agraciada com o alto preço do tíquete do CineSESC e do Espaço Unibanco de cinema, e com a sessão do Show do Gongo (mas neste não me deterei, é uma experiência muito estranha, não sei se estou apto a explicar este fenômeno).
A classe média média e média baixa interessada foi até a Galeria Olido.
E a classe dos subrepresentados e marginais amantes irreversíveis ganharam da mostra um filme pornô de zumbis gays no Cine Dom José.
Sessões em dois SESCs também aconteceram, contemplando, enfim, o que viria a ser uma quase-periferia.
O público do Mix Brasil foi majoritariamente branco, masculino e, suponho, homossexual -ou quase isso. Então de diversidade não tinha muita coisa.
A expectativa do público talvez reflita a escolha dos curtas da mostra competitiva (e eu nem procurei ainda quais foram os ganhadores). Cinco dos dez curtas contemplavam o universo dos jovens de classe média no colégio -mais precisamente na adolescência, lugar em que a socialização secundária dá os grandes pontapés, no Ocidente, nos valores familiares "cristalizados"-, período em que descobrem determinados anseios e desejos: uma expectativa do público do MIS, onde os curtas foram exibidos. Um curta contemplou o ABC Bailão e as histórias dos 'cinemões' do centro; algo que compõe efetivamente a história da homossexualidade em São Paulo, a importante perspectiva da marginalização. Alguns dos curtas da mostra traziam a sexualidade como acessórios, e não como eixo central da narrativa. O que é uma pena.
E, pelo vista, a diversidade nos curtas, que anyway eram bons, não foi muito contemplada.
Mas tive oportunidade de ver boas sessões, como a Modern Family, de curtas sobre famílias compostas por membros de natureza sexual diversa. E também um filme ótimo chamado Revolução no Rock, sobre -muitas- bandas americanas formadas por transexuais e afins (leia-se travestis, gays, lésbicas etc) e, pasmem!, algumas muito boas. E de muitos estilos.
Contudo, toda maneira de amor vale a pena, e as manifestações supracitadas, assim como o projeto comercial do Mix Brasil, aparecem como maneiras de performatizar politicamente o nosso lugar na cidadania; seja nas ruas ou no comércio (embora a luta seja bem mais frutífera e menos problemática no primeiro local).
En-fim.

talvez 23h56
12122010dc


3.

GENSEX, primeira semana de gênero e sexualidade da Universidade Federal de São Paulo, um evento pós-ENUDS (com pequeníssima margem de tempo entre um e outro) na tal universidade.

Rolou uma falta de organização dos meninos da UNIFESP. Nada que não pudesse ser esperado.
Ficou patente pra mim diversas falhas organizacionais. Desde falhas básicas de etiqueta (desde quando moderador de mesa sai pra interagir com colegas?) até falhas grotescas do tipo 'pedir a um professor de especialidade X para falar sobre algo Y, de forma a preencher um calendário temático ideal utópico' -algo que foi, contudo, pelo visto, superado pelos professores, que tiveram relativa autonomia para o desenvolvimento das mesas.
Contudo, um evento programado por menos de dez estudantes, sem nenhuma verba cedida pela instituição, na semana em que a universidade entra em greve, e com convidados do naipe da Helô Buarque, Pedro Paulo, Larissa Pelúcio e Berenice Bento merece, no mínimo, respeito.
Fui em quatro dos cinco dias de evento (o dia em que não fui gerou certa polêmica, fiquei sabendo -meu namorado incendiário). Apenas duas pessoas da minha faculdade (a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo) compareceram ao evento -sendo que eu fui em quatro dias e o Aryel em um, e, além disso, cerca de três pessoas -que pelo menos eu conheço- não estudantes ou ex-estudantes também compareceram. A UNIFESP campus Guarulhos fica muito longe, em um bairro de péssima urbanização, pobre, com nenhuma referência interessante. A comunicação deve ter sido precariamente realizada. Enfim, tinham poucos não-UNIFESP lá.
Prestei bastante atenção nas palestras do evento (em especial nas dos supracitados professores), mais do que talvez no ENUDS (onde a ressaca bloqueou parte das informações irradiadas nas mesas). A Heloísa Buarque da USP deu uma belíssima palestra sobre a história da teoria de gênero, o Pedro Paulo (acho que foi da UNIFESP) deu uma palestra fabulosa sobre pornografia -excelente!-, a Larissa Pelúcio mostrou seu trabalho sobre as travestis e a Berenice Bento sobre transexualidade (sua especialidade).

Ia ter uma festa pós-GENSEX, mas... mas... enfim.

talvez 1h27
27122010dc


4. Minha Namorada é um Homem!
ou De como eu virei um viado

No ônibus expectativas ingênuas. No campus matéria esperando para ser tingida das maravilhosas cores. Da paleta da diversidade as faculdades ali ovais -ou quase isso- eram. Em um ginásio uns quinhentos corpos estavam instalados, em barracas e sacos de dormir abertos como a disposição coletiva.
Afinal, aquela era a igualdade, algo muito próximo do sonho queer, estávamos todas lá, e o que nos unia era o cu! Vivíamos, e bastava isso.

Em São Paulo me cantaram uma prévia-prévia sobre o que seria Teoria Queer, um assunto que instantaneamente me cativou: pré-intuições preenchidas.
Sexta me instalei no ginásio com a caravana mais ou menos desinteressada da USP, fui a uma mesa inaugural do rolê e bandejei -tendo contato com a condimentação florida unicampense. Talvez tenha tomado um banho. Talvez não. Mas muito provavelmente eu tomei banho todos os dias. O vestiário era um lugar para se fazer amizades. Como em qualquer outro dos prédios enudianos, já que a faculdade estava relativamente calma: feriado prolongado. Era tudo nosso.
Enfim, no sábado consegui acordar cedo suficiente para tomar o breakfast e fui ver um Grupo de Apresentação de Trabalhos na área de educação, bom, por sinal, com uma das minhas maravilhosas roupas a dedo escolhidas em São Paulo para em Campinas arrasar.
Almoço. E fui conhecendo melhor as pessoas da minha universidade, que eram -nossa!- peculiar e particularmente interessantes -ou, no limite, legais! E oficina de Teoria Queer com o Leandro Colling da UFBA.
Uau! Incrível! Incrível!
Então janta, então festa!
Peregrinação até a república tal, com maracatu, um maracatu! A coisa mais linda do mundo, um maracatu LGBTT-Queer com jovens e quase-jovens e ex-jovens estudantes ou ex-estudantes brancas, pretos, rosa & etc. purpurinado, da UFAC até a UFRGS, altas e baixas, vaginais e penianas ou nem isso, marchando-andando-ando!
Ressaca dominical.
No GAT marquei presença. Depois voltei para o saco de dormir, devo ter dito algo para os meus vizinhos de colchão, um carioca, um paranaense, um pernambucano etc. e voltei a dormir até a hora do almoço. A palestra do Richard Misckolci da UFSCAR deveria estar ótima de fato mas a ressaca ainda doía, então voltei ao saco. À noite, após uma mesa (e as mesas em geral foram ótimas, a melhor foi a sobre feminismo na segunda-feira -polemíssima), rolou a TransENUDS, a tradicional festa do ENUDS, que rolou numa balada fechada lá em Campinas, devido a restrições de festas nas faculdades da UNI -ou alg'assim. Comecei praguejando mas terminei pulando de excitação. 'Té beijei o paranaense bonito, chamado Heverton. Na fila do banheiro. Aliás, fiz vários BFF's em filas de banheiro, muitos. Não me lembro de um só. Lembro da Renata Facchini no banheiro unisex, da performance da mina seminua chupando uma manga, dos cus sendo mostrados no palco, das performances e do Rauni, o chubby bear direito-Mackenzie que eu conheci no busão de volta pro ginásio. Fomos para o quarto em que estava hospedado, numa república próxima da UNICAMP e tive u'a experiência ótima. Era como um tapete felpudo e gelatinoso, sei lá, peculiaríssimamente gostoso. Perdi um rolê cultural na cidade por causa a) da ressaca e b) por causa do sexo; e também quase perdi o almoço, pois saí da república 13:45, e o RU fechava às duas. Fui a todas as -ótimas!- mesas daquele dia e à noite aconteceu a última festa no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Ótimas músicas, bebi até não cair -o que é bom!- e curti lindamente, com mais amigos e quase-amigos, ex-conhecidos virtuais, beijos instantâneos, esnobadas -o Rauni me trolou! me trolou!-, e o Anderson, com quem casei. Um moço bonito, muito bonito, homem, muito homem, muito homem, muito homem, inesquecivelmente homem, demais homem, homem, homem, homem, homem, homem, homem, homem, homem, homem, homem, homem, como era homem... A Tawne ia lá chamá-lo, e de sua barraca saí, semi-ressacado, direto para o meu saco de dormir (que só foi desconfortável e duro no primeiro dia, que foi aquele em que não bebi nada).
No fim de tarde, terça-feira, a assembleia, engraçadíssima, ônibus, São Paulo, táxi, casa do Poli e DR com o boy. Mas eu whatever sabia que jamais seria o mesmo. Tinha voltado uma viada. Sem dúvida estou outra. Só 'tando lá pra entender com precisão. Tentem.
Kisses mil.

talvez zero horas e 46 min.
31122010



Sabe o outro?

Então, imagina que ele aparece na forma de substrato virtual no seu portátil em um dia de chuva enquanto você e o seu namorado estão presos em um brechó no meio do Ipiranga (ou melhor, Cambuci) porque as gotas são muitas e muito -muito mesmo!- violentas, onde as paredes vermelhas e uma senhora, ao estímulo das gotículas rebeldes, fazem de tudo, como um trem de penas em queda livre, para te chamar toda a atenção do mundo.
Agora imagina que a única coisa mentirosa disso tudo é que as paredes não eram propriamente vermelhas, mas meus olhos de alguma forma projetam esse tom sobre a cena de ontem à tarde.
Então depois de mais de um ano sem dar as caras, depois de três quartos de ano sem responder um e-mail, depois de toda a dúvida, toda a angústia da dúvida e todo o inconveniente da angústia, inconvenientemente ele me acha (no número que talvez nem mesmo fosse o mesmo, mas o da história que nunca tivemos), com o sucesso que -talvez- esperasse: eu respondo-ondo-ondo! na fissura-ura-ura da curiosidade-ade-ade-ade-ade...
E até agora cada cheiro de fumaça na chuvosa cidade sem estrelas é reflexo-odor da nuvem que a caixa -esqueleto- de chocolate que me dera exalou na combustão do fogão do meu desespero cinco meses atrás. E, irônico, com meu novo quase-homem comemos no restaurante das nossas (minhas e do outro) madrugadas marginais & gente fina.
Ele digitou nas letrinhas da comunicação impessoal os tipos do nada-sei, papo que estava comigo mesmo quedando ausente, o que é convicente para o meu umbigo, que quer enredar um tricot, que é engendrar um novo tricô, ou que, não, não, não, Eros, não.
E a viagem para o litoral sul, como na viagem que fiz na metade de certo passado ano, será expectativa, ou expectorante? Sei não, inda esperava história de passeio, pode ser mera balela, mas, mas, não imaginava isso do moço, coisa de saudade, não, não podia esperar, filhadaputagem isso sim, não, é, não, Eros, não.
Você está feliz, moço. Com o seu excêntrico dançarino goiano de balé na gordura do chão gelo-banha paulistano-ano, não precisa desse, desse lapso-relapso. Que, que, como era? um, dois, quatro meses, você está aqui direitinho aos seis, por que de revivals, nostalgia do que tanto te fez só-sozinho-solitário-otário-ário-o.
Mas era um sedutor, me seduzia -eu certamente o rechaço-boicoto, provo para mim mesmo-, apartamento & batatas & madrugadas -não deve ser tão bom quanto hoje, né? será?- & línguas...
Sabe o outro?
O outro é o meu passado.

23h06
14122010dc



Um prólogo da invisibilidade

Já me sinto um traidor. Me sinto um traidor pelos olhares.
Mesmo que as retinas não se fundam já me considero um traidor. Agora sim. Sei lá. Estou traindo a confiança não só do meu, mas a minha com o respeito alheio, do hétero -que, olha ele, olha o olho dele! será que é hétero mesmo?- (confiança/responsabilidade), traindo seu sigilo atmosférico-invisível, seus silogismos, meus silogismos, a lógica toda das coisas estabelecidas na galera-era-era-era. Não me olha mais, não me olha não. Me olha sim. Me olha mais! Vamos fugir juntos para o Canadá, e teremos uma vida feliz, eu, você, eu, você, e nossos olhinhos casados.