Minha Namorada é um Homem
Devaneios de um Octubro
1. Traga Sua Bandana Rosa
em troca de título melhor
Cheguei em casa agora, e comecei a digitar nisso que parece ser as vinte e uma e trinta e um de algo que parece um domingo -que parece quente- de algo aparentemente novembrino. E inspiradíssima para iniciar essa grande empreitada de explicar para mim mesmo -e o meu hipotético interlocutora- o que foi este último outubro -o que deve parecer estranho, já que, além das vinte e uma horas, me situo também no vigésimo primeiro dia de -nada mais nada menos que- um NOVEMBRO! Na real, uma tentativa -tive esse insight há pouquíssimos minutos, pode ser uma grande mentira- de tornar patentes as razões de um vórtice criativo -impassível de ser canalizado simplesmente em um texto de blogue. Este (vórtice)!
E vou começar a contar do avesso, e não farei um texto necessariamente artístico ou necessariamente jornalístico, ou necessariamente necessário a algum gênero (algum gênero!) de, de, DE, de algo generalizável (no sentido de compositor).
Do avesso, ai céus, explico, primeiro pela tarde/noite fantástica de hoje (meu nariz tem sangrado), depois passando para uma análise da minha experiência do Show do Gongo e do festival de cinema de "diversidade sexual" Mix Brasil (droga! não estou achando o meu tilibra -bom e barato LITERALMENTE moleskine), tratando de uma descobertinha-UNIFESP (marota!), e culminando (ai caralho, tenho uma prova sobre O Capital inteiro quinta, não me fará mal continuar falando, hein, hum, han), como uma forma de, de, de, tornar excitante, NÃO, como uma forma de tornar interessante isto aqui (isto aqui?), desculpa!, como uma forma de tornar MAIS interessante o ensaio (ensaio?), no enredar, no contar a grã-história, de responsabilidade de tudo ISTO AQUI, o que fui eu e o resto naquilo de nome ENUDS, o evento que mudou tudo, tudo... Ah! talvez vocês entendam, talvez eu esteja blefando CRUZES! nunca escrevi assim antes. mentira Mentira.
A-ny-way,
posso começar assim falando algo, uma citação, aproximada, de uma das falas, algo como eu falando algo que foi falado (dito)
[não sei se: 'okay, então temos de rejeitar -certa forma- a identidade', mas]
aqui muita gente fala SOU ANARQUISTA, bate no peito, e não interessa que corrente, mas -assumindo preceitos básicos- são anarquistas mesmo,
muita gente é punk, faz parte da cena punk, a gente assume até uma ESTÉTICA punk [pra mim essa parte é a melhor],
muita gente aqui também é vegetariana, ou vegana, e assume essa identidade,
agora, quando chega na sexualidade, a gente não pode simplesmente adotar uma identidade!
Sensacional a observação do rapaz no Espaço Impróprio, calor pós-pulos, na discussão sobre (In)Visibilidade Bissexual, um primor, um primor! Experimentei, finalmente, depois de uma certa curiosidade, o que é aquilo que está mais próximo do outro extremo do leque de tipos ativistas (o outro extremo em relação à academia, que tem sido a minha casa), e foi gostoso, e foi ótimo, 'inda que eu não tivesse como me entrosar muito bem no ambiente (mas é isso aí, quer dar uma de cientista social, antropologiza na marra!), porque eu vi o queerpunk, vi os bissexuais envolvidos com causas sociais, partindo de uma perspectiva que DETESTA a macroestrutura e se deparando também com problemas comuns à macroestrutura. Eu vi a galera dos zines, as superfeministas -já, as que eu vi lá, remediadas (teoria queer na veia) em relação ao rótulo "xiitas"-, vi os vegans, bikers, pansexuais, [se eu fosse chutar, eu diria que tinham também] poliamantes, todos unidos em um espaço, lutando entre a ciência rudimentar e a prática cotidiana para simplesmente se encontrarem, e PARA SE ENCONTRAR, porque não se sentem amparados -estes INDIVÍDUOS, se é que o termo pode ser empregado sem conotação pejorativa- pelas identidades comuns e coercitivas -afinal, no limite, ninguém pertence a nenhuma dessas identidades-, simplesmente para continuarem vivos moral, física e psicologicamente.
E vi o show do Teu Pai Já Sabe?, e cantei, e vibrei, a suei, e me realizei, no sentido em que venho inaugurando esse novo realizar, essa nova sensação. Puta, viado, travesti é engraçado!
Não consigo entender que tanto se importar com a minha sexualidade, se vai ou não aceitar. Minha vida só pertence a mim, eu não devo nada dela a você, faço o que eu estiver afim e não me importo com o que você vê! E gritos e braços e vidas saltando rumo ao limite dos músculos (e também aos limites dos fluidos músico-espaciais -bateria e guitarra e baixo e voz e vidas de verdade!) em um uníssono: GAY! GAY! GAY!
Mas obviamente são/éramos todos QUEER.
Definitivamente, fodeu o meu re-seio pré-rolê. Trombei uma conhecida tagarela, e isso ajudou. Mas, não tem como falar se não for assim como estou, emotivamente, porque o rolê foi alg'assim, tipo, precisamente emocional. Quando eu falar do festival de cinema Mix Brasil o tom será outro. Enfim, uh!
Desejo desejos e beijo a vida no -acho!- morno domingo. E vamos à luta proletária, que o professor Musse (que não é necessariamente um doce) me espera -na porta das manhãs ou- quinta-feira.
Decidi agora contar a minha aparição na revista Época, e, portanto, sobre o grupo DS e what the fuck, e isto será depois da análise do rolê Mix Brasil, porque aconteceu antes. É, acho bom fechar este texto em cinco partes.
Ai, melhor! Vou falar da bicicletada também. Vocês verão, vocês-verão, whatever.
Para o resto, para a vida, para os dias, as manhãs,
tragam sua bandana rosa e entrem no mote frenético.
talvez 22h40
21112010dc
2. Impressões sobre o 18º Festival de Cinema Mix Brasil
Hoje, em mais um morno (abafadíssimo) domingo, me sinto inspirado para escrever mais sobre as minhas últimas incursões, talvez conclua o serviço, talvez não.
Enfim, não posso falar sobre o Mix Brasil sem declarar opinião a respeito de dois marcantes e recentes acontecimentos, mais precisamente ligados à disposição social desta cidade sem estrelas.
Sem mais delongas, nas três ou quatro últimas semanas a mídia tornou públicos três, quatro ou cinco casos de crime de ódio na cidade (estabelecendo ainda um diálogo com a população -massa- de cunho -chuto!- inédito). O julgamento dos envolvidos em um desses casos teve direito a remake, dada a pressão civil. Dada a pressão civil, quem diria.
Hoje rolou um "beijaço" (um evento estranhíssimo, confesso, mas tudo vale a pena se a alma não é pequena) em oposição a uma ação homofóbica da parte da Ofner versus dois boys que apenas se beijavam no estabelecimento e foram expulsos, há poucos dias. O rolê partiu da Ofner, na Alameda Campinas, um point familiar, chique e grã-fino situado no meio do Jardim Paulista, subiu até a Paulista e culminou no 777, endereço onde um boy foi agredido por cinco playboys há três ou quatro semanas, o que gerou repercussão absurda -e, quem sabe, positiva- no espaço do debate.
O mais interessante hoje, foi o fato de (impossível não usar categorias de classe para tornar mais claro) o beijaço ter partido de uma iniciativa da classe alta. A luta política por direitos de exercer a sexualidade na classe alta, com direito a cartolina e palavras de ordem -algo a que, visivelmente, as pessoas ali presentes não estavam muito acostumadas. Acho que isso representa alguma coisa.
O segundo -fantástico!- evento que gostaria de relatar, foi o ato realizado na frente da Universidade Mackenzie, em virtude do manifesto que o chanceler (algo parecido com o reitor, não está muito claro comigo) Augustus Nicodemus (será que é assim que escreve?), um representante da Presbiteriana (mais dela do que do Mackenzie, pelo que se viu), emitiu -como sendo da Universidade-, se pronunciando contra a aprovação do Projeto de Lei Constitucional que legaliza a união civil entre homossexuais e criminaliza a nível federal a discriminação por orientação sexual.
A comunidade não recebeu o manifesto de bom grado.
Não há como explicar como uma mobilização planejada por quatro estudantes inter-universitários se transformou naquele monstruoso ato de quatrocentas pessoa na frente do Mackenzie que, numa expontaneidade enudiana (mais tarde vocês entenderão o termo), transmutou-se, o ato, em uma passeata que mudava de objetivo conforme a disposição da multidão aumentava. Do Mack para o Maria Antônia, para a Augusta e depois para a Paulista e, por fim, para o 777. Repercutiu na mídia (a não ser a televisiva, tenho a impressão).
E eu me senti mais contemplado nesse dia (talvez mais precisamente pelo caráter não-institucional do evento) do que na Parada Gay, aquele grande carnaval fora de época.
Fundamentalistas, as bichas invadiram a Paulista!
O que se deve esperar de um festival que promove no próprio slogan a bandeira da diversidade? Oras, a diversidade.
O projeto democrático do Festival de Cinema Mix Brasil, pareceu-me, em uma análise rudimentar, uma tentativa de reproduzir -ou de adequar-se- a classes de indivíduos socialmente representativos de contextos sociais categorizados segundo um status econômico e cultural.
Assim, a classe alta foi contemplada com o Museu da Imagem e do Som (situado no meio das mansões do Jardim Europa), onde foram exibidas as mostras competitivas de curtas (já me detenho a estes) com direito a caipirinha de maracujá, tomate, cachaça de primeira linha e o escambau.
A classe média alta foi agraciada com o alto preço do tíquete do CineSESC e do Espaço Unibanco de cinema, e com a sessão do Show do Gongo (mas neste não me deterei, é uma experiência muito estranha, não sei se estou apto a explicar este fenômeno).
A classe média média e média baixa interessada foi até a Galeria Olido.
E a classe dos subrepresentados e marginais amantes irreversíveis ganharam da mostra um filme pornô de zumbis gays no Cine Dom José.
Sessões em dois SESCs também aconteceram, contemplando, enfim, o que viria a ser uma quase-periferia.
O público do Mix Brasil foi majoritariamente branco, masculino e, suponho, homossexual -ou quase isso. Então de diversidade não tinha muita coisa.
A expectativa do público talvez reflita a escolha dos curtas da mostra competitiva (e eu nem procurei ainda quais foram os ganhadores). Cinco dos dez curtas contemplavam o universo dos jovens de classe média no colégio -mais precisamente na adolescência, lugar em que a socialização secundária dá os grandes pontapés, no Ocidente, nos valores familiares "cristalizados"-, período em que descobrem determinados anseios e desejos: uma expectativa do público do MIS, onde os curtas foram exibidos. Um curta contemplou o ABC Bailão e as histórias dos 'cinemões' do centro; algo que compõe efetivamente a história da homossexualidade em São Paulo, a importante perspectiva da marginalização. Alguns dos curtas da mostra traziam a sexualidade como acessórios, e não como eixo central da narrativa. O que é uma pena.
E, pelo vista, a diversidade nos curtas, que anyway eram bons, não foi muito contemplada.
Mas tive oportunidade de ver boas sessões, como a Modern Family, de curtas sobre famílias compostas por membros de natureza sexual diversa. E também um filme ótimo chamado Revolução no Rock, sobre -muitas- bandas americanas formadas por transexuais e afins (leia-se travestis, gays, lésbicas etc) e, pasmem!, algumas muito boas. E de muitos estilos.
Contudo, toda maneira de amor vale a pena, e as manifestações supracitadas, assim como o projeto comercial do Mix Brasil, aparecem como maneiras de performatizar politicamente o nosso lugar na cidadania; seja nas ruas ou no comércio (embora a luta seja bem mais frutífera e menos problemática no primeiro local).
En-fim.
talvez 23h56
12122010dc
3.
GENSEX, primeira semana de gênero e sexualidade da Universidade Federal de São Paulo, um evento pós-ENUDS (com pequeníssima margem de tempo entre um e outro) na tal universidade.
Rolou uma falta de organização dos meninos da UNIFESP. Nada que não pudesse ser esperado.
Ficou patente pra mim diversas falhas organizacionais. Desde falhas básicas de etiqueta (desde quando moderador de mesa sai pra interagir com colegas?) até falhas grotescas do tipo 'pedir a um professor de especialidade X para falar sobre algo Y, de forma a preencher um calendário temático ideal utópico' -algo que foi, contudo, pelo visto, superado pelos professores, que tiveram relativa autonomia para o desenvolvimento das mesas.
Contudo, um evento programado por menos de dez estudantes, sem nenhuma verba cedida pela instituição, na semana em que a universidade entra em greve, e com convidados do naipe da Helô Buarque, Pedro Paulo, Larissa Pelúcio e Berenice Bento merece, no mínimo, respeito.
Fui em quatro dos cinco dias de evento (o dia em que não fui gerou certa polêmica, fiquei sabendo -meu namorado incendiário). Apenas duas pessoas da minha faculdade (a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo) compareceram ao evento -sendo que eu fui em quatro dias e o Aryel em um, e, além disso, cerca de três pessoas -que pelo menos eu conheço- não estudantes ou ex-estudantes também compareceram. A UNIFESP campus Guarulhos fica muito longe, em um bairro de péssima urbanização, pobre, com nenhuma referência interessante. A comunicação deve ter sido precariamente realizada. Enfim, tinham poucos não-UNIFESP lá.
Prestei bastante atenção nas palestras do evento (em especial nas dos supracitados professores), mais do que talvez no ENUDS (onde a ressaca bloqueou parte das informações irradiadas nas mesas). A Heloísa Buarque da USP deu uma belíssima palestra sobre a história da teoria de gênero, o Pedro Paulo (acho que foi da UNIFESP) deu uma palestra fabulosa sobre pornografia -excelente!-, a Larissa Pelúcio mostrou seu trabalho sobre as travestis e a Berenice Bento sobre transexualidade (sua especialidade).
Ia ter uma festa pós-GENSEX, mas... mas... enfim.
talvez 1h27
27122010dc
4. Minha Namorada é um Homem!
ou De como eu virei um viado
No ônibus expectativas ingênuas. No campus matéria esperando para ser tingida das maravilhosas cores. Da paleta da diversidade as faculdades ali ovais -ou quase isso- eram. Em um ginásio uns quinhentos corpos estavam instalados, em barracas e sacos de dormir abertos como a disposição coletiva.
Afinal, aquela era a igualdade, algo muito próximo do sonho queer, estávamos todas lá, e o que nos unia era o cu! Vivíamos, e bastava isso.
Em São Paulo me cantaram uma prévia-prévia sobre o que seria Teoria Queer, um assunto que instantaneamente me cativou: pré-intuições preenchidas.
Sexta me instalei no ginásio com a caravana mais ou menos desinteressada da USP, fui a uma mesa inaugural do rolê e bandejei -tendo contato com a condimentação florida unicampense. Talvez tenha tomado um banho. Talvez não. Mas muito provavelmente eu tomei banho todos os dias. O vestiário era um lugar para se fazer amizades. Como em qualquer outro dos prédios enudianos, já que a faculdade estava relativamente calma: feriado prolongado. Era tudo nosso.
Enfim, no sábado consegui acordar cedo suficiente para tomar o breakfast e fui ver um Grupo de Apresentação de Trabalhos na área de educação, bom, por sinal, com uma das minhas maravilhosas roupas a dedo escolhidas em São Paulo para em Campinas arrasar.
Almoço. E fui conhecendo melhor as pessoas da minha universidade, que eram -nossa!- peculiar e particularmente interessantes -ou, no limite, legais! E oficina de Teoria Queer com o Leandro Colling da UFBA.
Uau! Incrível! Incrível!
Então janta, então festa!
Peregrinação até a república tal, com maracatu, um maracatu! A coisa mais linda do mundo, um maracatu LGBTT-Queer com jovens e quase-jovens e ex-jovens estudantes ou ex-estudantes brancas, pretos, rosa & etc. purpurinado, da UFAC até a UFRGS, altas e baixas, vaginais e penianas ou nem isso, marchando-andando-ando!
Ressaca dominical.
No GAT marquei presença. Depois voltei para o saco de dormir, devo ter dito algo para os meus vizinhos de colchão, um carioca, um paranaense, um pernambucano etc. e voltei a dormir até a hora do almoço. A palestra do Richard Misckolci da UFSCAR deveria estar ótima de fato mas a ressaca ainda doía, então voltei ao saco. À noite, após uma mesa (e as mesas em geral foram ótimas, a melhor foi a sobre feminismo na segunda-feira -polemíssima), rolou a TransENUDS, a tradicional festa do ENUDS, que rolou numa balada fechada lá em Campinas, devido a restrições de festas nas faculdades da UNI -ou alg'assim. Comecei praguejando mas terminei pulando de excitação. 'Té beijei o paranaense bonito, chamado Heverton. Na fila do banheiro. Aliás, fiz vários BFF's em filas de banheiro, muitos. Não me lembro de um só. Lembro da Renata Facchini no banheiro unisex, da performance da mina seminua chupando uma manga, dos cus sendo mostrados no palco, das performances e do Rauni, o chubby bear direito-Mackenzie que eu conheci no busão de volta pro ginásio. Fomos para o quarto em que estava hospedado, numa república próxima da UNICAMP e tive u'a experiência ótima. Era como um tapete felpudo e gelatinoso, sei lá, peculiaríssimamente gostoso. Perdi um rolê cultural na cidade por causa a) da ressaca e b) por causa do sexo; e também quase perdi o almoço, pois saí da república 13:45, e o RU fechava às duas. Fui a todas as -ótimas!- mesas daquele dia e à noite aconteceu a última festa no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Ótimas músicas, bebi até não cair -o que é bom!- e curti lindamente, com mais amigos e quase-amigos, ex-conhecidos virtuais, beijos instantâneos, esnobadas -o Rauni me trolou! me trolou!-, e o Anderson, com quem casei. Um moço bonito, muito bonito, homem, muito homem, muito homem, muito homem, inesquecivelmente homem, demais homem, homem, homem, homem, homem, homem, homem, homem, homem, homem, homem, homem, como era homem... A Tawne ia lá chamá-lo, e de sua barraca saí, semi-ressacado, direto para o meu saco de dormir (que só foi desconfortável e duro no primeiro dia, que foi aquele em que não bebi nada).
No fim de tarde, terça-feira, a assembleia, engraçadíssima, ônibus, São Paulo, táxi, casa do Poli e DR com o boy. Mas eu whatever sabia que jamais seria o mesmo. Tinha voltado uma viada. Sem dúvida estou outra. Só 'tando lá pra entender com precisão. Tentem.
Kisses mil.
talvez zero horas e 46 min.
31122010
Sabe o outro?
Então, imagina que ele aparece na forma de substrato virtual no seu portátil em um dia de chuva enquanto você e o seu namorado estão presos em um brechó no meio do Ipiranga (ou melhor, Cambuci) porque as gotas são muitas e muito -muito mesmo!- violentas, onde as paredes vermelhas e uma senhora, ao estímulo das gotículas rebeldes, fazem de tudo, como um trem de penas em queda livre, para te chamar toda a atenção do mundo.
Agora imagina que a única coisa mentirosa disso tudo é que as paredes não eram propriamente vermelhas, mas meus olhos de alguma forma projetam esse tom sobre a cena de ontem à tarde.
Então depois de mais de um ano sem dar as caras, depois de três quartos de ano sem responder um e-mail, depois de toda a dúvida, toda a angústia da dúvida e todo o inconveniente da angústia, inconvenientemente ele me acha (no número que talvez nem mesmo fosse o mesmo, mas o da história que nunca tivemos), com o sucesso que -talvez- esperasse: eu respondo-ondo-ondo! na fissura-ura-ura da curiosidade-ade-ade-ade-ade...
E até agora cada cheiro de fumaça na chuvosa cidade sem estrelas é reflexo-odor da nuvem que a caixa -esqueleto- de chocolate que me dera exalou na combustão do fogão do meu desespero cinco meses atrás. E, irônico, com meu novo quase-homem comemos no restaurante das nossas (minhas e do outro) madrugadas marginais & gente fina.
Ele digitou nas letrinhas da comunicação impessoal os tipos do nada-sei, papo que estava comigo mesmo quedando ausente, o que é convicente para o meu umbigo, que quer enredar um tricot, que é engendrar um novo tricô, ou que, não, não, não, Eros, não.
E a viagem para o litoral sul, como na viagem que fiz na metade de certo passado ano, será expectativa, ou expectorante? Sei não, inda esperava história de passeio, pode ser mera balela, mas, mas, não imaginava isso do moço, coisa de saudade, não, não podia esperar, filhadaputagem isso sim, não, é, não, Eros, não.
Você está feliz, moço. Com o seu excêntrico dançarino goiano de balé na gordura do chão gelo-banha paulistano-ano, não precisa desse, desse lapso-relapso. Que, que, como era? um, dois, quatro meses, você está aqui direitinho aos seis, por que de revivals, nostalgia do que tanto te fez só-sozinho-solitário-otário-ário-o.
Mas era um sedutor, me seduzia -eu certamente o rechaço-boicoto, provo para mim mesmo-, apartamento & batatas & madrugadas -não deve ser tão bom quanto hoje, né? será?- & línguas...
Sabe o outro?
O outro é o meu passado.
23h06
14122010dc
Um prólogo da invisibilidade
Já me sinto um traidor. Me sinto um traidor pelos olhares.
Mesmo que as retinas não se fundam já me considero um traidor. Agora sim. Sei lá. Estou traindo a confiança não só do meu, mas a minha com o respeito alheio, do hétero -que, olha ele, olha o olho dele! será que é hétero mesmo?- (confiança/responsabilidade), traindo seu sigilo atmosférico-invisível, seus silogismos, meus silogismos, a lógica toda das coisas estabelecidas na galera-era-era-era. Não me olha mais, não me olha não. Me olha sim. Me olha mais! Vamos fugir juntos para o Canadá, e teremos uma vida feliz, eu, você, eu, você, e nossos olhinhos casados.

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