Uma pirataria cega o guiava, porque tinha olhos de roubar, mas eram líquidos e traziam uma impotência desesperada à visão.
Emergencial, como o azul do céu.
Uma vontade sorvetante e carente, porque era fria e seca, chupava tudo à sua volta, as paredes de concreto, as placas de acrílico, as superfícies de alumínio, cortadas pelas estacas dos homens, feitos de corações rasgados e exaustos -essa é a magia da cidade.
Um amor perigoso disputava locação com aquele ar abafado, que não conhece a liberdade nem nunca pagou a conta do analista.
Senhoras sentadas em estrelas ministravam as lições do rebanho, era hora de se ficar quieto, no sofá, quie-ti-nho! Mas eu não me preocupava com a lei, quem faz meu carnaval sou eu (percebo agora o real significado desse lema, que é: não dou a mais ninguém o direito de cavar meu próprio túmulo).
O motorista governava a grande minhoca metálica, nessas pulsações elétricas que dão origem àquela sensação que só quem mora neste lugar que não tem estrelas sabe o que significa. Esse magnetismo da morte, que a gente adora, porque aprendeu a apreciar esse perfume de dióxido de carbono, descobriu o prazer de se banhar nessa bacia de chuva ácida (com direito a indisposições estomacais autoimunes), e se doutrinou com a filosofia de pensar da cidade, andando sempre naquela velocidade das informações, achando que é feliz por navegar nesta nave imunda, esse cometa chamado estresse.
E, nessa noite, as senhoras sentadas em estrelas comunicavam aos brasileiros o que fazer amanhã, e eu viajava, e seus olhos de roubar, apesar de líquidos e de trazerem uma impotência desesperada à visão (emergente como o azul do céu), chupava tudo à nossa volta, todas as coisas concretas -aquelas feitas por homens de corações rasgados e exaustos- e todos as minhas vontades sangrentas e cósmicas, minhas cores e as minhas covinhas e todos os seus dezessete anos de sorrisos e afetos.
Descobri-me dentro de um túnel, que eu não sei se era de aço e concreto ou se simplesmente eu fora hipnotizado, e eu não sabia no fim do caminho que tipo de abismo eu encontraria (a minha convicção apenas me fazia acreditar de que sim! tratava-se de um abismo).
O ar abafado ainda disputava aquele amor perigoso, emanado por ele. Devia ser alguma ação metabólica, ele substituía tudo por aquele cheiro de paixão conveniente, devia ser como respirava.
Enfim, sorri. Olhei para ele e então abri a minha boca, ainda seca de solidão, notei que o túnel expirara e agora uma luz de coisa fechada enchia o ambiente. Visualizei em letras comerciais a palavra "Sé", então conformei-me com a logística dos homens, desci do trem e esqueci dele para pensar em outra coisa qualquer, que certamente preencheu o meu intelecto com mais competência.
domingo, 20 de dezembro de 2009
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