sábado, 26 de dezembro de 2009

Amor irreversível.

Saí do carro irritado, não por ter sido um mal natal, mas sim porque eu teria que andar até em casa. Mas depois caí em mim mesmo novamente. Eros, caro Eros, desde quando andar é um problema? Você sabe que não é. Andei até o metrô Carrão, porque eu estava com sono e queria ir logo pra casa. Subi as escadas rolantes, ou melhor, as escadas rolantes me subiram até a plataforma vazia -e como ficam românticas essas plataformas de metrô durante a madrugada, nunca havia percebido. Encatraquei-me e as escadas rolantes me desceram da plataforma da minha vida, e eu arrastei os meus chinelos barulhentos pelo chão imundo dos meus sentimentos empoeirados. Debrucei-me em um muro e espiei as pedras, aquelas pedras que já devem ter o dobro ou triplo da minha idade, e prestei atenção nas luzes que vinham do leste, sempre na esperança de que alguma delas fosse o meu trem.
Senhores passageiros do metrô, informamos que nossas atividades terminarão em doze minutos. Lembrem-se de que o serviço é garantido apenas até meia noite.
Eco na estação quase-fantasma. Que maravilha, pensei. A noite é muito, muito poética. Passou pela minha cabeça a hipótese de eu ter perdido a oportunidade de economizar os últimos créditos do meu bilhete único -que na verdade já deixou de ser único há um bom tempo. Súbito senti uma angústia que me lembrou você, naquela época onde tudo era líquido e impermeável. Olhei pra trás, além de mim havia uns quatro outros, sozinhos, perdidos na noite, atrasados, angustiados, talvez, como eu.
Senhores passageiros do metrô, informamos que nossas atividades terminarão em seis minutos. Lembrem-se de que o serviço é garantido apenas até meia noite.
Eco na noite quase-fantasma. Que bosta, disse em um volume que só eu mesmo podia ouvir. E voltei a cantarolar, porque quem canta os males afasta, e eu inquieto parecia dançar, porque meus braços se cruzavam, e de repente já estavam no meu bolso, mas não havia porquê de me preocupar, já que não tinha a quem dissimular alguma calma naquela estação, tão vazia como eu. E muitas luzes passavam pelo horizonte, mas nenhuma delas era a do meu trem. Assim como naqueles dias os e-mails que eu recebia nunca eram os teus, as ligações não eram tuas e os torpedos idem. Eu pensava que nós nos esbarraríamos providencialmente, mas não passava de um sonho tosco de um moleque de dezessete anos sem maturidade, sem consciência.
Senhores passageiros do metrô, informamos que nossas atividades terminarão em dois minutos. Lembrem-se de que o serviço é garantido apenas até meia noite.
Eco na minha cabeça quase-fantasma. Não sei se parei de cantar. O relógio indicava meia noite e meia. Achei que estivesse tudo perdido. Quis falar com os meus colegas de angústia, mas não sei se eles queriam ser incomodados. Olhei para o céu, este céu que não tem estrelas, para a Lua, quase coberta por uma nuvem censora cor de carne. Será que as estrelas ficam angustiadas? Será que...
Informamos o término das atividades comerciais do metrô. Lembrem-se de que o serviço é garantido apenas até meia noite.
Minha cara incrédula devia soar no mínimo engraçada, o que é uma pena, já que ninguém a viu. Pisei alguns passos em busca de uma orientação magnética. Nada me puxou. Meus colegas continuaram. Pus as mãos nos bolsos traseiros. Olhei para o horizonte iluminado artificialmente. Pensei angustiado nesse meu amor irreversível. Mas, diferente de você, o trem veio, e eu fui pra casa confortavelmente.

Um comentário:

merdas de Potato disse...

digo que isso muito me encanta.

mas o meu natal me deixou muito confusa,não vou falar mais sobre isso,porque não quero estragar a coisa boa que seu post me fez sentir.