quarta-feira, 28 de julho de 2010

A Digressão

Dá um medo.
De não saber o que fazer.
Por um instante eu pensei.
Vontade de abraçar. E o abraço é engraçado, ele é só praticamente um dos gestos que mais dão margem para se acusar de insegurança. Parece que abraçar significa ingenuidade.
Talvez seja isso mesmo.
Não creio que os paulistanos gostem de abraçar. Nem acho também que estejam aptos para começar a fazê-lo.
Acho que, pobrezinho, o abraço será esquecido. Parece algo elementar em todos os lugares. Mas o que esperar de uma sociedade que abole o amor senão o esquecimento das práticas românticas. O abraço tende a durar enquanto continuarmos nos reificando. Quando esse processo terminar, nós, máquinas humanas, poremos em início o processo de hiperfuncionalização. Serão abolidas a estética e beleza, pois, a princípio, elas não têm utilidade para a manutenção daquilo que é vital. O beijo não fará, pois, mais sentido e, tampouco, o abraço. O sexo continuará a ser mecânico, mais ou menos como é hoje em dia, só que institucionalizado.
Mas será exatamente aí que a máquina ruirá. A beleza é apenas aparentemente improdutiva. Ela, entretanto, no mínimo, alimenta o espírito, e aí a máquina perderá no que diz respeito à sua alimentação.
Espera-se contudo que os homens perfeitos que a criarem se preocupem em manter a pluralidade, mesmo que artificial. Uma máquina social que prescindisse da alteridade, que minasse todas as particularidades estaria minando a si própria.

Engraçado.
Por um instante esta digressão monstruosa me fez esquecer do medo. Daquele medo de não saber o que fazer.
De não saber o que fazer quando não se tem o que ou quem abraçar.

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