terça-feira, 29 de junho de 2010

Declarações de amor com palavras ao vento I

#1
Aproveitando o jogo do Brasil, vesti aquela camisa verde-abacate que eu não usava há muito tempo por vergonha, e fui andar de bicicleta. Quanto verde, quanto amarelo... Mas o mérito verdadeiramente paulistano, e verdadeiramente verdadeiro, é o cinza.
Eu te amo, inferno.

#2
-Sim, gato, nós temos que resolver uma coisa sobre a tua cama.

#3
Acho que a sola do meu pé nunca mais será fina de novo. Não o temo, sinto-me protegido.
Acho que os calos que o guidão da bicicleta produziram na minha mão jamais sumirão. Não os temo, sinto-me parte de alguma da coisa da qual jamais terei vergonha.
Acho que o meu coração sofreu um acidente e jamais conseguirá respirar por conta própria. Não o temo, desde que você esteja lá para alimentá-lo, até que um dos dois primeiro se vá.


Cigarros Voadores!

Um cigarro voador muito bem planejado não significa que em tal processo se constitua como agente da perfeição. Mesmo porque tal processo está fadado à imperfeição se esquecido pelos delegadores de critério: a ciência é relativa.
Pés-de-galinha fenestradas estão dançando paradas. Apenas o foco míope defenestra a si próprio, acompanhando a catapulta digital. O arco descrito é luminoso feixe, faísca laranja na rua planejada. Ou quase planejada.
O importante é que assim começou o diálogo.
-Cigarros voadores!
-Opa! Foi mal aí!
-Que é isso!
Uma gargalhada inapropriada.
-Escuta campeão, como chego na Flores Campos?
-Aonde?
-Na Flores Campos.
-Ah! Vish! Acho que você tá meio longe.
Da fenestra os míopes olhos notaram os cansados interlocutores, comportados em bolsões cor-de-terra. Entretanto não cessavam de brilhar. Logo completou!
-Ah! Espera aí que eu te dou uma carona.
-Ah! Não! Não! Não precisa, eu vou ligar pro táxi.
-Preciso comprar cigarros, o Premium é o supermercado...
-Isso!
-Que fica...
-Então, é lá perto, me falaram.
-Na Flores Campos.
-Perto de onde preciso ir, quer dizer.
-Então peraí um pouco, vou só pegar uma blusa e avisar a velha.
No caminho não trocaram palavra. Um súbito constrangimento apossou-se do carona. Contas eram feitas a título de passatempo. Unhas, contudo, não foram poupadas da mutilação do acompanhante avulso. "Por enquanto foram dez minutos. Como é meia noite e meia e praticamente não há trânsito, a pé eu demoraria uma meia hora. Acho. Então, se disser à Lucinha quando chegar que..."
-Desculpa!
Disse antes da não-calculada parada. O carro fez doente ruído.
-Preciso ver uma coisa.
Assustado.
-Ah! Okay! Digo, já está perto? Posso ir andando.
Nenhuma resposta. Suave ré. Olhos arregalados.
-Que que há campeão? Tá tudo bem contigo? Tá passando bem?
Olhos estáticos. O novo amigo resolveu segui-los.
Em um beco insuspeito silhuetas brincavam. O campeão chora.
-Que foi? Acho que você está tendo alguma crise, né? Espera aí, eu já volto, vou buscar ajuda.
E no final da história, nem o dono dos pés-de-galinha esperou seu companheiro instantâneo-ocasional, nem este último voltou com recursos para auxiliar o primeiro a voltar ao estado de normalidade.
E, eu garanto, como que como um milagre, o cigarro arremessado só se apagou com o primeiro raio de luz arrogante matinal.

fim de junho
2010


a melhor poesia que eu escrevo
tem as letras do meu amor
eu luto pela poesia - do meu amor cogniscível
subcuecante e supracardíaco, o amor difícil
das centenas de horas, agoras, aforas
que chora, que flora, que adoro, deploro, que adôrno, que chôro

a melhor poesia que eu canto
tem o cheiro do meu amor
eu luto pelo aroma - do meu amor reconhecível
lácteo-pigiante, naso-sudoríparo, o amor sensível
meu amor escovado, lavado, chupado
lambido, marido, na cama, sacana, deitado, jogado...

esperando minha boca

5 4 2010

Um comentário:

merdas de Potato disse...

amei amei amei
o amor muda o mundo