Teoria Geral das Coisas I
Lendo um artigo de política (sobre a desconfiança como vetor de ação no mundo democrático), logo após assistir a um documentário de um dos acontecimentos históricos que mais me fascinam (este, em especial, desde a minha infância, o Terceiro Festival Nacional de Música Popular Brasileira produzido na Record no ano de 1967), tive um insight mais ou menos fosco a respeito de mais um dos membros da teoria geral das coisas, no sentido que esta se apresenta para mim.
Estou numa curva que, segundo o meu palpite esperançoso, jamais acabará até que o próprio sistema social do homo sapiens finde. Essa curva é esta sociedade para mim palpável, aquela que conhecemos por moderna ou pós-moderna, e que pode, com esforço, ainda ser reconhecida enquanto era representada (ainda que, para os historiografadores, seja cada vez mais incomensurável e evolua sem qualquer tipo de estratégia narrativa definida para traçar marcos definitivos).
Sou parte deste monstro mutante cuja maior tensão é a expressão fabulosa do diálogo com o passado: a pessoalidade versus a impessoalidade.
Viver em uma sociedade que se diz civilizada, embora arbitre estimas e estigmas aos seus estratos (e, aliás, suponha a existência de camadas e níveis), permitindo-os viver conforme uma vontade que os homens não conhecem (e aqui nós tentamos diversas teorias, desde a metafísica, a fortuna divina, o liberalismo, o marxismo, o ces't la vie, até o sonho positivista, a teoria da conspiração, a física quântica, o anarquismo ontológico), é sem dúvida a experiência mais prazerosa para aquele que acredita que a vida pode ser divertida -embora este, eu não duvido, esteja mais sujeito ao suicídio em uma queda da fortuna do que o republicano que pode simplesmente escapar ileso e viver até o fim fingindo todas as noites que ainda é um conselheiro do magistrado-mor: as coisas na cidade são, sem pieguice, mais intensas.
O anarquismo ontológico funcionaria muito bem nesse sentido (ou não, nós nunca saberemos), se os homens fossem diretamente catequizados para serem ratos na brecha do sistema em uma socialização primária (mas também, nada que para uma socialização secundária violenta não fosse também impossível, apenas menos viável). Fora disso parece que reina aquele velho ciclo das coisas; existe uma idade em que os pequeno-burgueses têm de extravasar seus sentimentos impetuosos em relação às mazelas da sociedade. É um grande axioma dos grupos escolarizados: não ser comunista antes dos trinta é falta de sensibilidade, ser comunista depois dos trinta é burrice.
E o discurso sempre se resume a isto.
O caso brasileiro é peculiar nesse sentido. Às vezes, em busca de uma identidade legítima brasileira, penso que os pós-tropicalistas (porque nós não tivemos neo-tropicalistas; a arte brasileira estacionou no Hélio Oiticica, e o documento de óbito foi assinado pelo Cildo Meireles), estes jovens e quase-jovens da classe média alta, cuja ilustração predileta para mim seria a Praça Benedito Calixto aos sábados, são heróis de si próprios que representam aquilo que tenho vontade de chamar de brasilidade paulistana (não duvido que no Rio de Janeiro ou em Brasília seja muito diferente). Parece que não teremos mais heróis de fato, e a História se mostra uma empreitada tão absurdamente intransitável que não duvidaria que os historiografadores simplesmente passem a esquecer a pluralidade e a legitimar os costumes brasileiros no futuro como simples reflexos da Lady GaGa.
Sinto vindo no ar uma réplica neo-marxista, me acusando de fascismo simplesmente pelo fato de que, nessa minha visão romântica do que é a juventude, possivelmente enviesei meu discurso em um foco classista, acadêmico, segregacionista e o escambau. A minha resposta é mais ou menos frustrante: as guerrilhas em São Paulo (e aqui me refiro às tribos urbanas legítimas -e não às tribos civilizadas ou às tribos policiais), as feiras de troca-troca nos bairros paupérrimos, o patriotismo do teatro político, os shoppings, a novela, o futebol e as rádios brasileiras não podem, para mim, servir de critérios para delinear o que é o brasileiro e seu estilo-de-vida, simplesmente porque não há unidade. Os brasileiros nunca sempre foram apenas pretos, índios, pícaros, varguistas, corruptos, dançarinos de teatro de revista, cangaceiros, honestos, estudantes, caras-pintadas, baladeiros, teventes ou brasileiros; o meu esforço em eleger um tipo de estilo-de-vida como representante da nossa identidade, é um capricho subjetivo. Está claro?
Recapitulando. Parto do pressuposto de que minhas interpretações não fogem do contexto social em que eu, por exemplo, como homossexual, sou caçado, ao mesmo tempo que vários homossexuais vão atrás de se afirmar como seres sociais, seja como integrantes emergentes de um mercado em expansão que enxergam no horizonte a possibilidade de obter respeito com a estima econômica, seja como defensores dos seus direitos civis, políticos e sociais que -em virtude de um processo histórico que, obviamente, como histórico, teve origem no passado (neste caso, mais ou menos longínquo)- são sistematicamente negados a ponto de ainda serem caçados por isso. Ou seja, pessoalidade versus impessoalidade; o controle exercido por uma ideologia local versus o dissipar dos conflitos dos indivíduos qualitativos através do reconhecimento das funções quantitativas.
Tendo esse pressuposto claro, quero fazer entender como se dá a vida e a criação de estratégias de exercício dos vínculos sociais nesta sociedade de curva, em especial no caso brasileiro, e na expressão de uma juventude artificial, qual seja, a escolarizada, que vive: a) copiando uma trajetória paterna (porque ainda somos os mesmos e vivemos como eles); b) segundo critérios normativos (que são uma mistura dos valores tradicionais brasileiros, da disciplina europeia e da estética americana), que acompanham a identidade que nomeio como brasilidade paulistana; e c) sem definir de forma concreta personagens muito bem delimitadas como heróis de seu tempo.
Definitivamente, a sociedade pós-moderna e toda a sua confusão semântica simplesmente deu um nó na cuca da História. Não consigo definir de maneira clara a expressão da juventude, e nem unificar em uma só palavra e faceta o modo de viver desse grupo. Meu último argumento, entretanto, diz respeito justamente ao tentar. Já que simplesmente não posso convencer ninguém a conseguir. Imagino as coisas e os fatos como no surf bem surfado; algo previsível, perigoso e cansativo, mas também emocionante, ativo e prazeroso.
Arte como forma de segregação III
Talvez o mais sensato seja mostrar de uma vez por todas quais são os pressupostos da minha análise a respeito do fenômeno Arte.
Podemos vê-la segundo, por exemplo, uma dimensão histórica. Essa dimensão consiste na divisão entre a Arte legitimada pela História e tudo aquilo que está fora dessa legitimação. Aquilo que está dentro funciona como forma de segregação; o que está fora fica guardado ou não em registros ou documentos históricos, tutelados pela biblioteconomia, arqueologia, etnografia, e demais artes do empacotamento.
Sem querer parecer polar ou maniqueísta demais, reconheço ainda aquelas clivagens artificiais que a nossa sociedade adora: a Arte popular, a Arte folclórica e a Arte erudita (como se, em níveis práticos, toda a produção artística possa ser mensurada nesses termos).
A nossa sociedade democrática então consideraria essas três modalidades de Arte e as estudaria segundo um viés próprio. Embora, portanto, nos livros de História da Arte já se veja um esforço em tratar dos três tipos (ainda que, por enquanto, em medidas obscenamente díspares), admite-se tal estudo segundo um viés específico: o erudito é reconhecidamente o carro-chefe (mesmo porque a tarefa implícita do erudito sempre foi destruir sistematicamente aquilo que não o represente; na atual sociedade em que as relações de poder se dão de forma microscópica essa análise se torna mais complexa). Nietzsche já nos mostrou, na sua Genealogia da Moral, que aquilo que nasce com uma estima negativa, só pode ser a negação (e ele o prova por meio da filologia) de uma estima positiva precedente. A Arte que não seja boa jamais terá uma estima que não seja pejorativa. Acho que toda a teoria marxista corrobora esta tese.
A Arte, segundo uma outra dimensão, a conceitual, pode ser vista em termos, não de uma disputa histórica, mas de uma conceitualização que justamente só foi possível com a margem dada pela democratização dos meios de acesso à produção e contemplação artística no século XX. Por democratização da contemplação artística estou me referindo ao fato da Arte adquirir um lugar definitivo no debate cultural (um dos legados da indústria cultural, talvez), seja por meio da abertura pública dos museus ou através da veiculação artística pelo rádio, televisão ou internet.
Posso dizer que tem relação com o quadro geral a descoberta de que a Arte Contemporânea é pluri-significativa e multi-interpretativa; isto é, ela supõe a superação do conceito de observação como imprescindível para a contemplação artística, abrindo espaço para interpretações muito variadas. Muito variadas, porque observações distintas geram obrigatoriamente interpretações distintas, e mesmo observações equivalentes geram em grande medida também interpretações díspares entre si.
Gosto de definir, portanto, a experiência artística como aquela em que sua contemplação (tal como se contempla uma obra de Arte, uma experiência subjetiva) se dá por um ou mais espectadores em um tempo e espaço quaisquer.
No fundo, essa máxima é uma tentativa de a) tornar palpável o que viria a ser o sonho situacionista da supressão do artista, pois na concepção supracitada qualquer um tem potência de ser ao mesmo tempo um produtor e um crítico de Arte, e b) persuadir quem quer que seja que a paradoxal relativização da Arte tem que ter um limite, que é o critério subjetivo, compartilhado ou não, em parte ou inteiramente, com outros indivíduos (sendo este indivíduo uma personagem específica da nossa sociedade, aquela em que há a democratização da contemplação artística).
Tentei levar o alcance do significado artístico às últimas consequências. Mas quero fazer entender também que é essa mesma aparentemente vazia filosofia, dialogando com os limites da sociedade, que determina dentro desta aquilo que pode ser considerado Arte.
Temos um mundo incomensurável. Nossa Ciência, nossa Filosofia e nossa História serão sempre falhas nesse sentido. A Sociologia também. Mas eu simplesmente prefiro esta última porque é a que me permite tornar analiticamente articuláveis movimentos sócio-culturais (algo que a História não conhece com tanta profundidade), sem necessariamente me debruçar sobre a teoria geral das coisas para continuar fluindo (algo em que a Ciência em geral e a Filosofia vivem esbarrando sempre).
Vivemos a posteriori.

Nenhum comentário:
Postar um comentário