Você, de repente, concreto, conciso (não obstante cretino, mas) reto, perdoa este pobre abstrato, substrato absurdo, coisa difícil de engolir, perdoa? Faço um desenho na minha perna, minha coxa flexionada goza de um sorriso macabro, tão macabro que eu o violo, canetadas ávidas em transformar o sadismo desta mão inconsciente na mais pura expressão de inconsequência, rabiscos incessantes, um pretume desesperado. Que ideia, desenhar a caneta na coxa! O que é mais macabro, a insistência do seu sorriso, ou o sorriso da sua insistência? Acho que são mesmo os olhos, em espirais, remetem ao infinito e à loucura, e, logo, ao inferno! O sorriso persiste na coxa apesar dos rabiscos incessantes, mas não quer ser censurado, exige reconhecimento, e então o primeiro filete vermelho macula o pretume da tinta, coincidindo com o doloroso gesto que rasga a carne, tatuando meu corpo com a desesperada vontade de não vê-lo feliz - ou ostentando aquela suspeita alegria. Com a rubreza do meu sangue, vem o insight. Vou na cozinha, pego a mais afiada faca, elejo aquela com as serras mais minuciosamente conservadas pelo tempo, e então desenho com sua ponta aguda o contorno do enredamento de linhas pretas a esconder o indesejado sorriso. Como quem corta fora a casca de uma batata prestes a explodir, escalpelo-me, na região desenhada, que passa a exibir então um brilhante e vistoso círculo de carne, sangue e tecido adiposo, uma lua esquecida, rejeitada. O destino da lamentável obra-prima? A privada. Retorno à leitura. Quando dou por mim, observo que o mesmo sorriso infeliz foi traçado com exatidão pela mesma tola mão -desta vez no meu coração. Suspiro. A noite vai ser longa.
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Um comentário:
=O
eros eros eros eros!!
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