a nossa imagem congelada é uma sombra que me assombra. cambaleia e camaleoa, trocando a bel prazer matizes sem à luz fazer pergunta. a projeção negativada dos meus quilos ganhos sobre o chão saturado de passos me tortura com a mesma película: pedalando sobre sonhos simplesmente, para logo, enferrujados, inumar nossas utopias neste chão de fantasmas, sobre o qual investimos hoje com empenho novas e fracassadas efígies e esfinges. seríamos mais justos e cruéis talvez se, imbuídos novamente desta já arcaica cara-de-imbuia, pudéssemos não culpar o tempo pelas suas vaidades malandras e divertimentos sem graça alguma, mas nos questionarmos pelo que fizemos com um tempo que era tão nosso... ou será que nossos passatempos, tão ansiosos em passar por aí, não passem de um passado tosco e necessário, e hoje pasmos só o possamos verificar não sem esta armadura blasé sobre a camisa de força do nosso desespero.
tudo acabou, até certo ponto. tudo acabou, até a metade. porque a nossa imagem congelada é esta sombra prendendo, goma de mascar enredada no calcanhar do arquivo morto de descobertas, prazeres, afetos e apuros, salada de frutas da experiência, vitamina de quilômetros rodados em quase-buracos de conversas, corpos, confusões, convites, covardias, começos, cobiças e corações. agora nos encaminhamos para a consagração de um grande vácuo, este futuro em que vivemos, vergonhoso se aproximado do futuro que planejamos naqueles dias. por causa daquele susto bom, hoje vivemos assustados, e em que passado confiar?, e em que vocês confiar?, se o vazio da nossa liberdade violentamente despida não nos quer oferecer nada além desta nudez transposta para a arrepiada superfície dos nossos sonhos desenganados.
abandonaremos um dia o fetiche do congelamento e o tabu do derretimento? estou pronto para resistir às histórias que tanto querem me possuir. posso ir além disso, ou podemos? se no pulo do gato capturam-me estirado sobre a perplexa melancolia das tardes, posso saber-me entendido se reitero - O QUE QUERO. e me esmero em dizê-lo: amig@s, está tudo acabado entre nós, até que a santa interceda (que tão cedo quanto fosse possível fôssemos embalados nos sedosos e santos hábitos, nas suas santas sendas e sulcos, ainda cederíamos incontinenti ao antisséptico ceticismo).
até que o passado nos engula, está tudo acabado entre nós. se não entendemos, será bom talvez repetirmos em voz alta, como em um ritual holístico, esotérico, asceta, e eu me voluntario, grito em alto e tom bom: FIM! É O FIM! ACABOU! 2011 is over!
quem sabe assim em paz podemos envelhecer de uma vez, terminando por matar - aleluia! - a mais bela história de adolescência tardia, arrebatando-a com o focinho estourado dos pobres dias vindouros que queremos tanto porque nos é insuportável a ideia de que uma vida como aquela possa ser possível, legítima e justa em um mundo obcecado por nos tornar doentes.
o peso da terceira década, enfim, escroto e irresistível. essa imagem congelada, teimosa projeção na sombra que rejeitamos, era um picolé mesmo, que derreteu e evaporou, e hoje olhamos dos nossos cubos monótonos a chuva com tédio, fatalismo e puro (fingido) desinteresse. aparentemente, nossos para-raios nos conservam do distúrbio, nossas carapaças nos protegem da chuva. mas, sabemos, aquilo que sai do mais fundo de nós, e que nos desespera por não podermos conter, é o meigo e irresistível e incontido desejo de espreitar a vista na busca daquele arco-íris que, sabemos, está em algum lugar além das aterradoras trovoadas.

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