quarta-feira, 23 de outubro de 2013

quase nós 

foi um quase olhar, a princípio, desconfiado ainda que se arriscasse a cruzar com o meu. foi uma quase entrega, pois enquanto nos metíamos circularam monológicas apenas minhas palavras, as tuas incubadas na tua cabeça. foi uma quase janta, eu estou à mesa e o convite ainda não foi feito. foi uma quase troca de telefones e uma quase promessa, pois sequer dividimos demais aqueles gracejos concernentes a um retorno então possível. enfim, foi uma quase vida, que você expeliu do seu mundo como uma árvore que, cansada da flor decrépita e obsoleta, regurgita o ornamento a que dera vida, substituindo-o pela expectativa da próxima coleção primavera-verão.



você foi uma tragédia
extremamente necessária
e deliciosa - na minha
olhe bem que bem posso morrer
por já ter bem vivido com você
e o fracasso por nós sentido
entre fracassadas sensações
mal atendidos foram certos pedidos
e tantos foram os nossos perdidos
que enfim ao me encontrar
estava longe de você
e também longe de mim
em um cine pornô, um fractal
feito de bares, maconha, vinho, e bananal
da mais bela vista da Bela Vista
vimos o céu abaixar - baixo
mas que tal se tivéssemos direito
de não termos mais nenhum jeito
fomos uma tragédia necessária e deliciosa
mas faça as malas, vamos entrar de férias
vamos viver outras tragédias



parágrafo único:

mais um sinal do meu passado, 2011. um amigo da Isabel. ele retornou àquele dia, derivando pelas augustas e paulistas encontrei pelo menos dois conhecidos. normal, para uma tarde ensolarada na maior metrópole do país. nós todas contribuímos com afinco para tornar cada brecha e inflexão um paraíso absolutamente previsível. quando não podemos fazê-lo, brincamos de transformar nossa casinha de bonecas em um castelo de areia de sonhos paulistanos e intranquilos. aí encadeamos grãos de areia com a engenheira convicção de que manipulamos meros tijolos. só não seremos capazes de prever que é nosso o sangue que o tinge.
me irrita a magreza dos outros, me irrita a magreza de um outro Eros, dezessete anos, saindo da sessão com esta mesma bermuda, feliz por ter assistido Prinsessa - faltara no colégio só pra isso! -, cantando a plenos pulmões, com seu emudecido sorriso, Haven't met you yet, para uma pessoa que jamais conheci como o B.T., que jamais conhecerei como o Eduardo de I., ou que cheguei a bem conhecer, como o Thiago. naquele 2009 eu não me importava em ser desejado. digamos, jamais tivera uma noção do que era efetivamente ser fustigado por olhos ferozes e rodeados por ferocidade humana e viril, ou então teria apenas alguma noção prévia e precária, como a misteriosa troca de olhares que, em 2008 - ou 2007? - me atiçou o espírito na terrível ânsia de eternizá-los. cheguei a desenhar um croqui, talvez vasculhando minha gaiola repleta de tigres de papel higiênico usado, encontre, em meio a tardes cantando Amy Winehouse e Leny Andrade e Ivan Lins no Parque da Juventude e trechos sublinhados de A arte de viver para as novas gerações de Raoul Vaneigem, o esboço original, a efígie marcada a caneta com ímpeto numa folha desesperada em me ajudar inutilmente a imortalizar aquele momento que hoje não passa de uma vaga lembrança. aquela fila - estava eu a pagar o livro do Hakim Bey quando teus olhos irresponsáveis insultaram meu autocontrole fazendo meu coração explodir e meu pau latejar -, aquela plataforma de metrô, aquela camiseta (feia) cuidadosamente conservada. Thiago me ajudou a desapegar dela, faltava apenas um lampejo mínimo de juízo estético para cair em mim. no dia em que B.T. desmarcou com apenas uma hora de antecedência o nosso rolê, sentei-me chateado no quintal. vestia aquela camiseta azul, feia. sendo refém e coronel dos meus sentimentos, fui naquele ensolaradíssimo dia para o Ibirapuera, em parte sozinho, em parte acompanhado por seu fantasma. vi caixões da Yoko Ono, meus sovacos choravam. estava tudo começando a ficar bem.
no fim de 2011, enquanto meditava em Pontal do Paraná, ouvi várias vezes a gravação de uma música que fizera naquele ano, que dizia, dentre outras coisas:
no penúltimo dia do ano retrasado
eu me via sozinho na sala de cinema
esperando que os outros me oferecessem algo
é algo que esperei durante muito tempo
talvez eu espere até hoje
não posso ser seguro se todos os homens são iguais
eu desisti e voltei, procurei, não sei, não sei se acho
ah! mas que vontade de sonhar que eu tenho - com outro macho
tardes inteiras de bike, café, museu
ah! tolo sou, sou tolo eu
certa vez disse no facebook a uma amiga que essa música falava bastante sobre mim. ela ouviu atentamente a gravação e elogiou um verso fictício ao qual provavelmente atribuiu o título da música (, ou Sozinho): ah! todos são só, como eu, provavelmente uma leitura plausível baseada na minha péssima dicção ou na qualidade horrível da gravação. no entanto, a alternativa sugerida pelo acaso me pareceu extremamente sincera e reconfortante.
durante a sessão do chato filme equatoriano, vi então esse amigo da Isabel. e, com a eroticidade que me é bem peculiar, logo botei-me a escrever a próxima lista dos meus dias.
parágrafo único:

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