acordaremos às vinte e três, sem pressa.
a casa ampla, arejada, portas abertas. cheiro de praia. o frescor fazendo cafuné em nossos rostos. lençóis desarrumados no meio da sala. se eu estiver com olheiras, não vai ser de tristeza ou cansaço, apenas marca do dia quente. sua pele reluzirá as fontes de luz, disputando seu reflexo.
pela primeira vez me contará de sua reação quando abriu o bilhete, "vamos fugir!". você já sentado no meio-fio da cama, após suavemente me carimbar os sulcos dos lábios na minha bochecha. nunca entendi por que seus olhos sempre brilham. permanecerão acesos quando evanescer? ou quando contemplar o aspecto plenamente inerte da minha silhueta sem vida? [chegaremos a esse dia?]
e o papel, que terá feito com ele? rasgou na hora, como faz com tudo que possa incriminá-lo. isso pode explicar por que, no receio de que avistassem numa palafita o rumo medíocre que a sua vida tomava, de súbito tomou a curva que deslizava rumo ao afluente inóspito, rasgando a terra. e cá está, comigo, agora, deste lado do canyon.
deixo você falar até o fim, eis por que sempre tolerei seu silêncio: apostando minha vida no escuro, por uma intenção de fala, por quantas madrugadas passei verborrágico esperando que ao menos sua cabeça se precipitasse nas palavras mais vulgares como "eu gosto de você". ou que, por falta de Shakespeare, você me respondesse em Leminski. mas vinha Walter Franco: um silêncio eloquente, mas machadiano. até hoje não sei se você gosta de mim (será injustiça dizê-lo? não me responderá). não sabê-lo, contudo, me mantém vivo.
antes que levante já o terei feito. bem fiz em te convencer a tomar a caipirinha. "faço bem suave". a resposta de sua explanação sobre o bilhete foi um sorriso bastante loquaz. eu te ensino a falar, você me ensina a ficar quieto. gesto eloquente, coisa de ator. numa dada ordem cênica diacrônica, um sorriso é capaz de perturbar todo um arranjo. nesse caso não houve incongruência: meu sorriso era a sua fala.
o meu sorriso inibido, agora por não esconder que desejo profundamente, virá acompanhado pela sua reação ao copo colorido de caipirinha: uma vertigem ambígua, seus olhos. você estará na sala, sentado apenas de samba-canção - tão vestido estará -, e de seus pés em comunhão resultará o dissenso dos joelhos, mirados em opostos.
o primeiro gole você tomará segurando o copo com as duas mãos, uma coisa meio Lolita. jamais pensei verossímil assistir a uma cena como esta quando li Nabokov pela primeira vez. ainda mais porque eu sempre fui acostumado a partilhar da perspectiva Lolita na vida.
se o futuro é irônico, que se dirá do passado? quando meu xx-xxxxx xxxxxxxxxx xxxxxxx xxx xx xx xxxxxxxxx garoto de programa - tática estranha para me sugerir a abertura da relação -, xxx xxxxxx xxxxxxxxxxx xxx xxx xxxxxx xx xxxxx xx xxxxxxxxx xx xxxxxxxxx xxxxxxxxxxxxxxxxx xxxx xxx xx xxxxxx. não só não soube lidar com tal xxxxxxx, xxxx xxxxxxxx xxx x xxxxxx profecia que se processou por tanto tempo na minha identidade. táticas de sobrevivência: xxx xxxxxxx x xxxxxxxx xxxxxxxxxxx, eu me agarrei à heterodoxia pornô-beatnik pequeno-burguesa. quando você é um pós-estruturalista ateu pederasta, fica mais fácil surfar nas margens xx xxx xx xxxxxxxxx xxxxxxxxxxx.
nos entreolhamos. "quanto tempo demorará até que nos encontrem?", é o que penso. você parece pensar em coisas mais difusas, algo trivial como "quem passeará o Black?". Black é um cachorro preto de pelos lustrosos, gordo. "tá boa a caipirinha?". ele assente. passou meia hora desde que acordamos.
"você não tem medo de assalto?". ele sabe a resposta. há certo tempo venho lhe dizendo que o risco é parte inexpugnável da experiência humana, fato que celebro. eu pinço seu lóbulo com meus dentes, ele puxa pela ponta um lençol para cima de si. pintura impressionista nos seus olhos - impressiona a quem quiser ver. um Van Gogh - que não era impressionista -, um moço de pele mascavo e sobrenome Van Gogh, de volta para casa; não Amsterdã, onde foi fecundado, mas a praia temperada onde viveu começos da vida.
de repente o vento forte - posso ouvi-lo passar. você, afeiçoado que é a uma certa ordenação dos arranjos cotidianos logo solicita o fechamento das portas, pedido que eu, indolente como se poderia esperar, me recuso a atender. em troca, calafrios e a ternura dos seus olhos contrariados pela brisa e pela minha manha. tudo de mais importante que eu já conquistei na minha vida foi trazido pelo vento. falta de movimento é sinal de malogro.
eu, cagão como sempre, te esperei na rodoviária com duas malas exuberantes e desnecessárias - convertidas em uma comportada valise logo na primeira etapa da viagem. você, de pirraça com minhas expectativas - como sempre -, veio, com uma mochila compacta, "que desapego!", pensei. lembrei depois quando você ia pro curso de teatro apenas munido da carteira - e das peças de roupa por vezes indesejadas, apesar de deslizarem suavemente pelos seus belos ângulos e curvas. naturalmente, nada duraríamos sem a aquisição urgente de um violão, este que toca agora.
o mar - esse sim nunca dorme - acompanha em background a melodia. meus suspiros incansáveis, somatória ao cálculo sonoro. me lanço no chão, um mergulho, queda livre contra o estrado de madeira, minha manobra favorita no teatro. o chão, meu céu. me desabo porque minha boca quer ter com seu pé - aquele, o mais imune ao ritmo que inscreve nos movimentos e no instrumento. nada muito agitado, você é fã de uma lisergia escorrida. juntos, lábios e língua deslizam desfiladeiro acima, tantos pelos, que prazer contá-los um por um, penteados pelas minhas membranas úmidas. arranco-lhe de súbito o violão, destilo com a arcada dentária um feroz abocanhar sobre o pobre e vulnerável joelho. grita alto, aquela voz que sempre emudeceu a minha.
o método mais eficaz de fazê-lo permitir a si mesmo um pouco de paz na cama, é também uma forma de pactuar com o deleite. sua porra tem gosto de lichia. livre da aflição da - suposta - sujeira, ele me autoriza a, nutrido pelo seu saboroso esperma, depositar meu rosto sobre sua barriga, meu nariz passeando ao redor do seu umbigo, aponta para a virilha. "mais uma?, pergunto me referindo à caipirinha. me responde com um longo beijo. outra resposta enigmática. decido me engajar no preparo do próximo drink.
eu pude deixar cartas, avisar os próximos etc. você, que nem próximos tinha, só deixou pairar uma certa desconfiança em relação à progenitora. não que você atuasse mal. ela que tem o grande mérito, de possuir faro canino, escuta hipersônica, faculdades dedutivas e propriedades oculares extraordinárias, lentes microscópicas e espaciais.
acordo - sobressalto, onde você está? suas coisas estão aí, espalhadas, que nem minhas cabeças, poeira acumulada em cantos abstrusos, zumbido impertinente do mar. sigo o vento. de camiseta você fita o longe com admiração. quase não há luz, mas dramatiza a audiência das ondas. três e meia da manhã. vacilo rapidamente, processo a logísica em inifinitesimais, à espreita. o rapto se processa por trás, você se surpreende como se o firmamento no horizonte se entortasse. "a gente fodeu?". você responde afirmativamente com um sorriso pouco receoso em admitir um grande volume de desejo na superfície da vida. "sim". "de novo?". ri desejoso, desejante. "sim". levanto você e, como de costume, arremesso sobre alguma superfície, não sem seus deliciosos murmúrios de protesto - que nunca me tornaram menos piedoso. pressiono meu corpo sobre o seu, no colchão prostrado e estratégico. em segundos você nos conduz em espirais para além da superfície de pelúcia, plano sólido parcialmente forrado por uma tapeçaria de gosto dúbio. compartilhamos o gosto pelo chão.
durante um daqueles dias paulistanos, em um desses embates no plano baixo, olhei para o fundo mais fundo de seus olhos brilhantes, como agora, e disse "lindo!". você, como de praxe, respondeu "idiot!". mais tarde, na despedida, lhe disse "eu tenho vontade de falar tanta coisa pra você...", e então você me respondeu "quando eu como uma banana, eu não digo pra ela 'você é linda!'", mas, meu caro pintor neerlandês, acontece que eu nasci depois de coisas chamadas surrealismo, dadaísmo e performance e, pra mim, uma banana pode ser elevada a estatuto de obra de arte - que, segundo o paradigma da arte contemporânea, se oferece de maneira interativa para o espectador. seus países baixos são arte conceitual, apenas me dê o manual de instruções e saberei o que fazer. é uma questão de fé cênica.
de pé, a pia nos espia, você toma a terceira caipirinha com uma avidez que eu não reconheci. "você tá meio duchamp hoje?". você, caçando pistas na memória, a piada é familiar. claro!, você é o autor!, "por quê?". "porque o que você faz... não faz sentido, mas é arte!". você ri. "idiot!". Idiot, idiot, idiot! eu sou um idiot. todo dia, quando me olhar no espelho, vou me lembrar que eu sou um idiot, um tecnocordeiro obcecado, que, para o Schianberg de Marçal, faz parte de uma
ínfima minoria, integrada por monges trapistas, alguns matemáticos, noviças abobadas e uns poucos artistas, gente conservada na calda da mansidão à custa de poesia ou barbitúricos. um clube de dementes de categorias variadas, malucos de diversos calibres. gente esquisita, que vive alheia nas frestas da realidade. só assim conseguem entregar-se por inteiro àquilo que consagraram como objeto de culto e devoção. para viver num estado de excitação constante, confinados num território particular, incandescente, vedado aos demais. uma reserva de sonho contra tudo que não é doce, sutil ou sereno.
"é o mais próximo da felicidade que podemos experimentar", conclui o autor.
na noite que antecedeu a partida, um breve encontro para determinar como processaríamos o plano. na despedida, seus braços se abriram qual um tríptico, me abraçaram com três retratos diferentes. em um, seu interior, povoado de tantas maravilhas, doces, exóticas, infernais, qual Bosch. noutro, o medo estampado no rosto do revolucionário em Madri, segundo Goya. no outro braço, a loucura obsessiva e exuberante de um van Gogh no Auvers-sur-Oise. senti, com alívio, pela primeira vez, que havia alguma fantasia naquela realidade toda.
"vou te embebedar", ofereço uma taça de conteúdo roxo, você e essa mania de ficar vestido, o pretume do céu anuncia desgaste. "de porra?". "iogurte de lichia". nada move nos rostos, apenas gargalham os olhos. então sorrio ternamente pra você, aprendeu a beber vinho seco, me fixo em cada detalhe semi-púbere. você, como de costume, não me encara de frente, cão tímido-espalhafatoso, embora saiba que minhas retinas querem penetrar cada canto da sua alma. pequena garoa.
qualquer coisa intimidava, né? uma garoa cotidiana era sinal de malogro. mas esta garoa que acompanha o alvorescer não nos intimidará. tá aquela coisa meio escura, meio molhada, meio cinco e meia da manhã. foda-se! atravessamos as árvores, a areia escorregadia e úmida, o orvalho da manhã. eu. você. a praia. o vinho. espero que um dia possamos fumar um baseado juntos. trocamos nossos sinônimos, olhares não mais anônimos, um segundo, dois segundos, a risada é inescapável - demais as coisas que pensamos. rio ruidoso, você não tão expressivo como eu, entendo alguns de seus limites, mesmo porque sei que a ternura quente do seu rosto reflete uma polifonia cardíaca. estamos juntos. beijo suavemente seu pescoço sempre perfumado. penso em falar aquela coisa, será que digo? sempre me esquivei de clichês, você sempre se confortou longe deles também. melhor não, sem metalinguagem, vamos curtir o momento, concluo, vou lhe dar um beijo, a chuva aumenta a contragosto da claridade celeste encaminhada, e eu diria que teria sido a vertigem do vinho, o canto confuso das ondas, o tilintar dos pingos na areia ou a tosse amarga dos quero-queros, se não tivesse sido tão nítida a recepção da sentença pelos meus ouvidos. "eu te amo".
isto, gatinho, é sobre nascer de novo.

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