Sobre lentes de contato verdes, alisamento de cabelos, tingimento de loiro
Talvez seja um pouco mais do que 'emular branquitude'. Na economia das interpelações concernentes a raça talvez caiba dizer, quando é grande o "contraste" entre signos de distinção racial, que se possa falar menos em 'emular branquitude', mas de fato em 'negritudes europeizadas'. Ou ciborgues mezzo brancos mezzo pretos. Às vezes, quando vejo clipes estadunidenses de black music, é difícil compreender o status do cabelo alisado em meio à circulação de referências à negritude.
Na minha família [de sangue], há dez anos atrás, se ouvia sobre esse conjunto de convenções estéticas ligadas a raça, que agregariam a um processo chamado baianagem, junto com um conjunto de procedimentos associados à incivilidade. Há aqui a presença do caráter de classe operando interseccionalmente (bem como um regionalismo embutido no termo que designa as práticas e convenções destacadas).
Felizmente, meus familiares [de sangue] estão mais "civilizados" e "politicamente corretos"; embora façam tal tipo de julgamento de maneira eufemística - ao menos na minha frente, que sou um chato. Felizmente, também, meus familiares [de sangue] estão cada vez mais distantes de mim.
Sobre boné e baby look aos cinquenta anos
A coisa do "contraste" funciona para se pensar em termos etários. Como cada coisa deve estar no seu lugar, não é de bom tom que um corpo interpelado como velho reivindique uma indumentária incompatível com as convenções vigentes associadas a sua faixa etária.
Sobre baby look para gord_s
Aqui os marcadores de silhueta indicam a que corpo cabe determinado corte. Nessa economia ao nível do corpo, algumas saliências são interditadas, e talvez só sejam parcialmente autorizadas caso elididas do espaço público.
Estou lembrando quando uma tia, se dirigindo a mim, censurava uma mulher gorda que exibia sua barriga na rua. Lembro também do efeito (supostamente) cômico do corpo gordo em quadros de humor (o filme Prinsessa, por exemplo, tematiza a juventude de uma incrível atriz que é gorda).
Sobre WhatsApp
Não confundir isolamento com hiper-socialização.
Creio que o dispositivo de controle embutido nesses mecanismos capilarizados de comunicação - atrelado a exigências de mercado, e associado e um determinado paradigma de linguagem - é mais digno de nota do que um suposto isolamento, ilustrado por aí em imagens que atestam a "tristeza" da desintegração dos laços sociais.
Creio que o que está em jogo não é isolamento do mundo social, mas talvez dispersão em relação ao mundo não-virtual. São mundos sociais que se tensionam, ora concorrendo, ora convergindo.
Os smartphones processam algo incrível, dão pulos de pulga na direção do sonho do fim das barreiras na comunicação. Trata-se de duas redes sociais superpostas, e ao mesmo tempo interconectadas. As pessoas no metrô não mais exibem pura letargia, estão conectadas a outras pessoas.
A minha experiência com aplicativos remete à dilatação da minha rede e vínculos. Por meio de apps voltados para encontros entre homens (Grindr, Scruff, GuySpy, Hornet etc.) ampliei minhas possibilidades de encontro na vida não-virtual com pessoas que ainda não tinha conhecido, por meio do WhatsApp estou mais próximo de uma rede muito ampla de pessoas, dividindo com facilidade fragmentos da minha vida diária, mas também articulando encontros não-virtuais a partir da distribuição cartográfica contingente, por meio do FaceBook Messenger me aproximei de pessoas que me contactam esporadicamente, e com aquelas que não têm celular com android - ou sequer têm celular.
Duas observações necessárias, porque eu não sou trouxa. Em primeiro lugar, estou ciente dos mecanismos de controle presentes nessa forma de experienciar interações entre pessoas. O controle passa a ser coletivamente mediado, com um forte componente voluntário, e associado a uma espécie de twitterização da vida. Em segundo lugar, a aquisição e manutenção de determinados bens de consumo é necessária para se ter acesso às redes suportadas por esse conjunto de tecnologias. Classe é um elemento importante aqui, mediando a inclusão ou exclusão a tais redes. No entanto, uma vez popularizado o android em contexto urbano, classe permanece operando, definindo redes não a partir do acesso a 3G, internet, smartphones, mas através de referências "culturais" e "sociais" que circulam na/s rede/s.

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