deitados na cama, ainda suados, ele levemente ofegante pergunta no motel rústico da marginal Tietê.
- mas isso dá dinheiro mesmo? porque é tão fácil conseguir sexo hoje em dia...
- a pergunta correta não é "se isso dá dinheiro", mas "por que isso dá dinheiro?".
- qual o perfil, assim?
- homens de 28 a 60 anos, em geral brancos, de bairros nobres de São Paulo. a maioria tem entre 35 e 45.
ele, que é negro, comenta:
- então eu me afasto desse perfil.
- um pouco. onde você mora?
- perto da Saúde.
- então nem tanto. aliás essa parte aí, Saúde, Praça da Árvore, Chácara Klabin tem um puta potencial, conheci este ano por conta do trampo.
- você acha que os clientes têm um fetiche de mostrar que têm dinheiro?
hesito.
- não. acho que existam gays empresários pros quais michês internacionais figurem como signos de distinção. não é o meu caso, nem dos meus colegas, nem da maioria, porque meus clientes têm vergonha de sair com garotos de programa, só eles e eu sabemos.
- eu acho que tem o fetiche em pagar. e eu também gosto de cara novinho que nem você.
eu, meio que socraticamente, lhe digo:
- então você está ajudando a responder a pergunta.
silêncio-dúvida. completo:
- a pergunta "por que se paga, se é tão fácil conseguir sexo?". tem o fetiche do dinheiro, e o fetiche da idade também, por exemplo.
- é, muda quando entra critério.
- isso.
ele prossegue:
- quando alguém tá afim só de rola é muito fácil, é só ir pra qualquer canto que já consegue. agora, quando entra critério, a coisa muda.
concordo. levanto impaciente com o tempo - que era dinheiro - e digo:
- preciso urgentemente de um banho.

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