quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A maldição da rosa

Dir-se-ia que, a cada rosa que entregasse, estava fadado a submeter-se à contagem regressiva. Não resistia, todavia, à tentação de presentear a cada um daqueles rapazes com quem se enamorava com o regalo. Em um primeiro momento, a rosa lhes causava parcial consternação. Por demasiado significativa, ou saturada de belicidade, os coraçõezinhos prenhejavam de brotoejazinhas coloridas, algumas denotavam dúvida, outras puro júbilo. A surpresa e o encanto, contudo, preenchia-lhes a face de distensões até antes nunca catalogadas pela história dos rostos amantes. Passados alguns dias, ou semanas, de repente viam-se entediados, qual o pretume que lhes acometia o botão, ou mesmo as sediciosas pétalas a se suicidar. A rosa, qual um presságio de mau agouro, anunciava então prematuro clímax, aclamava um final de bóstax. O nosso jovem apaixonado, entregue, jamais entendeu a razão de uma tal guinada em suas odisseias. Entrega-se aos álcoois, sempre disponíveis corpos outros, amigos e vícios ciclísticos e musicais, um violão aqui, uma roldana lá, pensando, "será o meu maior erro amar rosando?". Ele está certo de que sua resposta será sempre errada. Mas prossegue, insistente, teimoso, obcecado... Sabe que uma vida sem rosas, é uma vida sem cor, sem cheiro, e sem os sorrisos largos, autênticos, calorosos, das pessoas que tanto queremos bem.

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