terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Carta a Geórgia

Geo,


O AMOR É SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEL

Eis a epígrafe de um dos meus romances prediletos. Pensei nisso enquanto lia o seu desabafo.

Fiquei muito triste em ler o seu - belíssimo - texto sobre pensamentos avulsos, que de avulsos nada tinham. Pelo que parece eles pulularam espontâneos, mas eram monotemáticos, e se consagravam a um tema bem pouco aleatório: ______________ [lacuna que você pode preencher da maneira que achar apropriada].

Me chama a atenção você priorizar a escrita em português - e, por enquanto, não traduzir o texto. Isso pode significar pelo menos duas coisas: 1. afastar a interlocução da sua rede grega, chamando teus/tuas amig_s brasileir_s p/ pensar e sentir contigo; 2. quando a gente explode, as lágrimas-estilhaços vêm na língua-mãe(-e-pai).

Eu tenho um débito - péssimo termo - contigo, por muitos motivos, mas sobretudo pelo apoio que você me deu naquele fim de 2008. Talvez uma coisa parecida esteja pintando nesse teu coraçãozinho helênico: no momento em que você descobre de fato que um campo de sensações e afetos muito massa está disponível em vários níveis do corpo, o ser humano de quem você gosta arranca teu chão e diz VAI SOZINH_!

Esta cartinha é sobre FIM! Contudo, é um texto otimista.

Estou cada vez mais convencido que AS COISAS ACABAM! Os artefatos acabam, as coisas, as pessoas acabam, o Chaves, o Chávez, os vínculos acabam, também os gatinhos, as cobras, a Grécia Antiga, até a Grande Família - ufa! - e, se tudo der certo, o capitalismo, e se der mais certo ainda, o planeta Terra. A minha experiência com celulares, sentimentos, animais de estimação e diarreias, pelo menos, é essa. Nós, aproximadamente ocidentais, temos uma obsessão em um mecanismo específico de dar sentido ao mundo: essencializando fatos, substancializando eventos. E isso a gente faz com a cabeça, o coração, as mucosas, a boca, as mãos. A ilusão de estabilidade traz paz e inteligibilidade para nós terráque_s. Quando a gente se entrega a essa ilusão a gente perde do horizonte que a experiência real é um compensado mal-sucedido de fragmentos, seções e pontilhados aos quais damos o nome de vida, família, carreira, casamento, maturidade. Vivemos numa tensão entre vida real instável e a suposta estabilidade que muita gente quer e jamais terá.

Isso tudo acontece também através do afeto.

Durante certo tempo da minha vida, tive a ilusão de que estava condenado à felicidade ao lado de uma pessoa. Então, finalmente entendi o significado de "eterno enquanto dure". Ao cabo da frequência afetiva que eu tinha com o ser humano, uma série de perturbações já haviam se processado e causado enorme sofrimento, devo dizer, para ambos.

Hoje, quando as pessoas me perguntam "por que acabou?", eu acho que essa é uma formulação injusta. Assim o é porque, para mim, AS COISAS NÃO ACABAM! Ué, mas eu não disse exatamente o oposto lá atrás, que as coisas morrem, os processos findam...? É! É que o complemento que liga os dois axiomas é: A DESTRUIÇÃO É UM ATO DE CRIAÇÃO! Ou, as coisas acabam-começam/começam-acabam, nascem-morrem/morrem-nascem, ou, simplesmente, transformam-se.

Agora, qual o porquê dessa espinafração toda?

Se o FIM é por vezes uma bosta, ele também é possibilidades mil. Um monte de escombros são também criação pulsante. A matéria do meu cadáver pode virar uma bela estrela. Uma boa fossa é promessa de uma boa superação.

Eu não sei em que pé - mão, cabeça - você está com a grega. Mas, se eu posso te dizer algo pra te confortar em noites vazias, esse algo é isto: O FIM É UM COMEÇO, e dos processos que se apresentam como destruição a gente tem mais é que tirar proveito. 1. A gente aprende. 2. Ainda bem que viver é trágico - se fosse fácil não teria graça nenhuma. Se voltar aos braços da grega, tanto melhor - ou não, pois, lembra Gaspar Noé em Irreversível, O TEMPO DESTRÓI TUDO. Se não voltar, maravilha!, estamos aprendendo. E curta a fossa, que nem sempre a gente tem oportunidade de sofrer por amor.

Isso talvez seja antídoto pra ressaca, mas não pra entrega. Sobre esta, que posso dizer senão: se entrega mesmo!, quando quiser. A gente vê as relações de maneira tão produtivista que nunca se entrega pra ninguém se não houver reciprocidade - que é uma ilusão. Pois foda-se o individualismo, se entrega mesmo, chafurda na lama se preciso, mas cultive seu coração como uma bomba - já que, sabemos, até agora, não há nenhum indício de que ele vai durar pra sempre.

Mas, e isso é estratégico, tenha chãos alternativos. Se não os tiver pela vista, com 99% de chance, cedo ou tarde, os terá.

E, saiba amiga, que, para o que precisar, que seja para impulsionar teus saltos ou sedimentar teu solo para a queda, estou disponível.

Fica bem.

Bjs eróticos

PS: Ah! Tem uma música que eu ouvi muito este ano. Talvez você goste. Chama Meninos e meninas.

Um comentário:

justfuckandrun disse...

Ah, Eros. Seu texto me fez sorrir. Chorar. Ficar mais leve. Era tudo o que eu precisava.
Amo você.