o epíteto de 2014 é O Vento, em referência à canção dos Los Hermanos. muitas músicas fizeram-se decisivas este ano (Pusher love girl, I wish i know how it would feel to be free, Conversa de botas batidas, No habrá nadie en el mundo, (Puro) Teatro, A mim e a mais ninguém, Happy, Agito e uso, Lady Marmelade, Agora só falta você, Esta noche, Tô usando crack), mas se eu tivesse que indicar aquela que me acompanhou obsessivamente ao longo do último semestre, admitiria: Meninos e meninas.
sambar das opressões com elas
admitir o conteúdo assimétrico implícito nas relações (de poder), vínculos, interações foi crucial para ingressar no jogo-vida de outra maneira.
ainda bem que eu posso brincar com opressões em cima delas, não porque essa é uma habilidade especial, mas porque eu estou munido desse pressuposto (o que posso chamar de tomada de consciência ou agência). já falei sobre isso aqui - acho que o texto mais importante de todos.
para além da estupidez de achar que eu sou um oprimido alienado e estacionado, acredito que aprendi muito surfando com minha prancha A.G.Ê.N.C.I.A. (Agora, Gato, Espero Nunca Cruzar Imbecis Again), e que tenho muito a ensinar. contra as opressões, seu détournement. para além da opressão, a liberdade de forjar sua própria realidade, da bricolagem de entulho rumo ao
céu
a
rasgar...
exercícios de alteridade radical
academia, mas sobretudo sexo explicitamente mediado por dinheiro e teatro foram cruciais para que eu tivesse contato severo com a alteridade out-of-bubble. desejo encenado com corpos que não desejava, olhares profundos e jogos cênicos cujo sucesso dependia de confiança e vibe com estranhos.
nas Sociais a gente acha que abre a cabeça, tsc tsc!, abrir a cabeça é sair da rede de gente escolarizada e militante - aliás, que é militar senão atravessar territorializações por seus efeitos subversivos? -, é pegar aquela porra de referências acadêmicas e políticas e ir viver e circular nos cantos da cidade, manhãtardinoiti...
e, claro, o maior tesão do mundo conhecer as pessoas mais incríveis... meu mundo é coisa outra, muito bom poder se reinventar, e eu muito me orgulho disso.
corpo como plataforma de transformação
publiquei ao longo do ano pelo menos quatro textos sobre mudanças fodas que se processaram ao longo da minha vida em 2014 relacionadas a sexo mediado ruidosa-e-silenciosamente por dinheiro (Mich'eu, Sobre trabalhar com sexo, ou Do sexo como trabalho, O puto e o capitalismo: Percursos da hipocrisia e Abuso policial: case report, ou, Choram _s militantes pelos prostitutos?). neste último eu listo uma série de tecnologias do corpo, das quais lancei mão para produzir efeitos e experimentações no domínio do corpo e da subjetividade.
xenical, piscina, alargadores, antropologia, whey protein, academia, teatro, bike, BCAA, prostituição, tribulus, tabaco, roupas novas, cocaína, batata-doce.
como diz Bia Preciado, um "conjunto de moléculas disponíveis hoje para fabricar a subjetividade e seus afetos". ter acesso a essas técnicas e artefatos foi crucial para empreender mudanças, testes, enfim... agência! s2
as coisas mudam
isto aqui eu já sabia, mas pude experienciar de uma maneira mais drástica este ano, pelo bem e pelo mau. dois exemplos de como as coisas mudam.
ʎ infligir gestos disciplinados e ministrar fármacos sistematicamente sobre meu corpo produziu arranjos outros; um conjunto de códigos que não acumula no nível do aprendizado, mas de uma economia da mudança física que é também cumulativa. diferente da escola, onde existem etapas, cursos etc., na academia - um "não-lugar" (péssimo termo), máquina de supressão histórica (outra péssima formulação) - as mudanças se processam em outro nível, do corpo, não mais passivo.
ʎ outra maneira de perceber a mudança nas coisas: alguém que você ama hoje, ojerizarás amanhã. alguém que poderia arriscar a própria vida por mim, hoje me difama. aquele por quem eu fui capaz de abdicar de mim mesmo, que então me oprimiu sistematicamente no âmbito conjugal-doméstico, hoje é uma pessoa por quem eu nutro ao menos indiferença-desprezo.
falei sobre este assunto de maneira mais detida quando refleti sobre um boy, mas sobretudo numa carta endereçada a uma amiga.
UNICÃO
Baraldo me aguarda.
há pouco mais de um ano atrás, quando escrevia meus campineiros leminskinhos, sonhei com UNICÃO. agora tenho condições de desenvolver minha pesquisa no mesmo chão que Néstor, ao lado de minhas melhores pessoas. vou inclusive ganhar dinheiro pra isto!
o puto, consumidor de pessoas; o filho da cantora; o maconheiro; o ateu; o promíscuo; o vagabundo; vai agora ganhar dinheiro pra fazer militância acadêmica!, e a pegação continua a mudar a minha vida cada vez pra melhor!
todo ano eu acho que é melhor que o anterior, e cada vez melhor. é assim desde 2009. 2013 foi um ano um pouco mala, confesso. mas 2011/2012 foram fodas demás... agora, 2014... viver é um barato! e ninguém me tira esse barato! nunca!

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