quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

_carta da noite do dia seguinte ao 16 de fevereiro de 2022

eu tive medo de tirarem minha voz

na verdade cortarem minha voz
com navalha faca afiada ou não tão afiada com aquelas pontas pra fora que estraçalham e escalavram a pele e e as vísceras como o rabo da arraia
cortarem a minha voz em pequenas partes não pequenas pequeninas estraçalhadas que o mosaico das pregas vocais como a refração rota da luz se converte no negror de uma pulsão gultural nas ondas a ferir o areu acordei com o sonho mal dormido de ter sido rendido a faca ter sido rendido a troco de pouco e quiçá ter sido rendido à redenção à rendição total e o sonho mal dormido visitou-me ao longo de todo o dia
mas existe essa passarela entre a praça Kobayashi que leva aos idos da Sé da margem inexistente do inexistente córrego Anhangabaú e sem música sem nada me disse tanta coisa a brisa que eu subitamente aceitei a felicidade de estar vivo
a beleza de estar vivo foi isso que eu senti senti essa beleza correndo nas veias e me amaciando as frontes e mexendo meus tecidos e decorando meus miolos e temperando minha goela feito a voz que não me tiraram ter tomado tento e ter crescido e matado as bactérias purulentas que em um desvario dos dias me colonizaram as glotes todaseu estou vivo
I'm alive and vivo muito vivoontem ouvi do meu terapeuta cabeça telefone no céu frio e ventoso do décimo sexto andar num terraço Bela Vista que eu estava vivo e que eu estava apaixonado e eu concordei com essa cabeça sem vídeo
que estar apaixonado e bem apaixonado e apaixonado de verdade é sempre estar apaixonado com a vida a para com todos os seres os animais o vinho os outros amores e a brisa e o corpo gorducho e a música e é sempre com a música 
não existe paixão alguma que não tenha música
não tenha música que não suscite paixão de qualquer ordemuma paixão boa de verdade é essa paixãoI'm alivepaixão com voz
aroma de café 
Oswald
e um carburador ziguezagueando o incenso Lua Julie London e a pestana sorrindo ao contrário só que dentro da cabeça sorriso

terça-feira, 25 de agosto de 2020

arisco
há risco?
arrisco

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

s/t (tudo vai dar errado)

na vida se tem tanta preocupação
sobre a certeza, o sucesso e o fracasso,
mas, pelo menos eu tenho o alento
    eu tenho o alento
de que tudo vai dar errado.
que viver nada mais é que acidente
e a vida sopra desde uma certa manhã,
e quando vê, acaba de repente...


a seriedade, meu amor,
não faz verão nessa cidade, meu amor,
e essa vaidade, meu amor, é a mortandade, meu amor.
eu não aguento o sabor de ser canalha,
eu sou cantor – e o meu canto é navalha, meu amor.


se você vier me perguntar por onde andei
as dores que eu carrego só eu sei
e que amanheça o véu da resistência
o mundo não tem rosas e só é feito de rosas
e que floresça o gen do pensamento
e que as ideias voltem a ser perigosas
e que as ideias voltem a ser perigosas
e que as ideias voltem a ser...


tudo vai dar errado
tudo vai dar errado
tudo vai dar errado
s
e der certo vai dar errado

C. & F.

parece cocaína, mas é só pressa

pela vastidão-devassidão do pertencer.

o seu beijo não se vende em garrafa.

parece cocaína, mas é só você.


dentro e fora dos absolutismos

e exageros das curvas, declives

do corpo e dos corpos, os vãos

e sulcos sulcados no colchão.


parece pressa, mas é só a paz,

quinhão de vida no meio nu,

culhão, pulsação olorosa na ponta

do dedo arriscando o rio da derme.


licor de promessas e espumas

ao ventre, a vida desponta do três,

seis olhares perplexos e embevecidos

- santo milagre, trindade, aparecidos.


os olhos se fecham em comunhão.

os ouvidos se encerram, comungam.

as bocas desistem de ser: fala e falácia.

e incontinenti reina o tato, tarântula.


o sonho emerge lento e real

dos recônditos amenos do que é

e sussurra em verso e prosa à alma

que é de amor, é de vida, é de calma.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

você sabe que eu sou uma estrelinha na cidade.
eu fico pensando nisso quando saio vagando por aquelas velhas calçadas.
existem muitos moços barbudos flanando por entre a fumaça.
e por entre os vórtices, grupelhos e manchas acústicas ressoa a canção.
no sonho eu rondo a cidade a te procurar, não hei de encontrar nada
além de vontade, além dos bons e velhos mesmos rostos rotativos
e dos quase amigos quase novos quase antigos.
na cidade da minha canção tocam os DJs, os sintetizadores e os sinalizadores.
e os corações batem como bombas de efeito moral.
e as tristezas choram com o gás lacrimogênio.
o meu choro é de outro gênero, abrupto, sufocado, mudo e gelado.
o perfume da cidade mudou desde que você sumiu das praças
dos bares, baladas, festas, karaokês e smartphones.
o que sinto no ar é o cheiro forte de saudade, vindo bem longe da sua nuca.
não sei se o que sinto é esse cheiro, ou senão o cheiro do nunca.
a cidade da minha canção ratifica lacunas de coisas que nem existiram.
talvez a estrelinha que eu sou nunca tenha existido.
talvez num avesso irônico nem você tenha desistido.
e está apenas evitando banhar-se da minha luz por um momento.
esta estrelinha enfeita o céu dando lhe um caimento.


e você passa escondido por ela, tão invisível como o vento.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Hello Niti -- minha primeira década

em 21 de julho de 2007 fiz meu primeiro post neste blogue.
é muito interessante ver como em dez anos os pequenos êxitos e as tão inspiradoras crises tiveram a duração de espirros. eu estava no primeiro ano do Ensino Médio. mês que vem defendo minha dissertação de mestrado. houve uma graduação inteira aí no meio, além do técnico. em 2012 estava tão academicamente absorvido que sequer tinha inspiração para nada. alguns momentos foram críticos por conta do coração.decepções (e às vezes celebrações) amorosas são um prato cheio para motivar a escrita. é quando há muito sentimento envolvido.
é muito gratificante ver as mudanças na minha escrita. e no meu estilo. de uma escrita anárquica e adolescente, quase concretista, até o barroco atual, muitas águas passaram, muitas bikes foram roubadas, muitas madrugadas perdidas ganhadas, muitas Samantas enterradas, muitos amores reciclados, muitos acordes vertidos pelo ar. aprendi a escrever, reaprendi, me formei e deformei. houveram anos em que eu fazia um balanço dos meus caderninhos de poesia. cacete, houveram muitas poesias boas e muitas ruins também nesses dez anos. sempre escrevi os dois tipos, haha! houve até difamação, risos.
no meu primeiro post eu dizia Cansei de blogues com crise existencial. não deu certo, para o bem e para o mal. os amores irreversíveis estiveram sempre aí, os meus, de dentro para fora e de fora para dentro. os temores e anseios também. os experimentos, as Sociais, o teatro, a academia, os programas, os anabólicos e a antropologia. a ansiedade.
este blogue é um flagrante da/s fase/s mais feliz/es da minha vida. pois escrever se tornou uma das melhores ferramentas para virar gente. passei a escrever na vida, encarando meus passos, rumos e abordagens como um escritor escreve e reescreve poesia, amassando folhas, rachurando laudas, rasgando páginas. no meio de todos esses anos, você, meu bloguezinho, foi minha casa, me ofereceu guarida e alívio.
sou grato a sua existência como sou grato ao próprio alfabeto.
no espaço infinitesimal da big data, de repente, fazer dez anos é eterno.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

delirante fábrica de encontros -- o mais relevante o encontro de si consigo mesmo --, o caderno é uma grande utopia. nele, uma mente singular e singela pode demonstrar a temerária capacidade de criar e edificar mundos, searas, babilônias. a cidade que eu invento esta noite, é tecida pelos trajetos que você realizou. nada suntuosa, ela é feita sobretudo de sorrisos. aqueles seus involuntários, eu diria, criaram instantâneos pontos de referência. aquele sorriso, seguido de um brilho no olhar, lembra? criou uma praça inteira. aquele beijo-mácula, reinventou um velho e tão-conhecido bar. a utopia, que translado da cuca para a folha tão concreta quanto amarela, é essa tentativa vã de dar vida e solidificar a cidade que você foi construindo ao redor no meu delírio desejoso. restam algumas questões de cunho técnico, ladras da minha desalojada paz. se eu arremessar este opúsculo ao mar, a cidade submerge? se eu fazê-lo, então, em direção ao Sol, a cidade incendeia? quedará arruinada no caso de eu trucidar o libelo e avarias suas folhas? ou nada disso seria preciso para fatalmente vê-la e senti-la pulverizando o intervalo de uma piscadela? o asfixioso drama de deixar esta cidade aqui, fechar a brochura e encarar o ponto final.


história de uma cueca

eu a vi dando sopa sobra a porta de um dos box do vestiário da SmartFit Campos Elíseos, desbotada e esgarçada como deveria ser, e com o presumido olor que fazia dela mais especial: que pau teria ela guardado em sua enigmática história? teria sido ela para sempre fiel à mesma pessoa como costumam ser as cuecas no geral? ou estaria eu raptando-a de sua prometida genitalidade? cheirava a amaciante, mas pelo menos me servia bem. oito meses se passaram desde então. tenho uma belíssima foto na Cachoeira das Andorinhas em Ouro Preto, em que a dita está lá, toda chavosa, cobrindo minhas partes qual tarja de coisa obscena. no dia de hoje, oito meses depois, veja bem, um cliente me pediu a roupa -- era (quase tão somente) ela que eu vestia. relutei muito, nunca aceitei essa proposta, mas como ele fosse jovem e afável, cogitei uma troca. após algumas Budweiser, perguntei seu número. M. as minhas normalmente são G. esta inclusive era. ele, contudo, teria nela a certeza de que seu dono a para sempre a havia maculado. éramos jovens nesta tarde. convicto da minha heterossexualidade, o cheiro do verdadeiro macho ali residiria para sua fruição. ele conhecia (bem) o pênis que ali residira, coisa que eu sequer sabia quando a furtei de algum homem presumidamente heterossexual. hoje a cueca era minha. agora era sua, dele. saí de seu apartamento com uma Lupo branca. as cuecas podem ter muito a contar do que supomos. elas guardam intimidades mais íntimas que nós mesmos.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

talvez sem perceber muito bem tenho apostado nos ímpares.
depois de alguns anos, quem diria, voltando a este tema...

um dois três
quantos pronomes cabem dentro desse mundo
rapsódico de vocês
episódico de uma vez
ou de tres-loucado
deslocado, onde estou
onde estarei, lado a lado
mês a mês
não sei valsar, e nem sambar
quanto mais pra onde olhar
enquanto o encanto vesgo
me faz quase vacilar
se meu pescoço não entende
que dirá o meu sorriso triangular 

um dois três
e os braços que eram quatro agora seis
e os peitos que eram dois agora batem desdobrados
quanto coração, convulsão de carnaval
e a minha canção não pode ser assim normal
e o surdo que ordenava meu refrão
repousa agora quieto na sonora imensidão
de um dois três
e a lua em claridão

quinta-feira, 11 de maio de 2017

O swing gay é possível?

Swing é um esporte sexual hétero.
Se você pesquisa swing gay conto no Google, as coisas gays e bissexuais que são realizadas nas narrativas são relatadas por um dos membros de um casal heterossexual. Meu marido comeu um gay, uma travesti comeu meu marido etc. etc. etc.
O desejo de ser ou sentir-se corno é igualmente heterossexual.
Basicamente a primeira página referente à pesquisa corno gay conto está lotada de maridos que viraram cornos e viados no mesmo dia. Para virar corno, você precisa ser casado. Para virar viado, heterossexual.
No campo do desejo, parece que os gays continuam alheios ao manejo da conjugalidade como repertório erótico -- com a clara exceção da relação com a conjugalidade dos heterossexuais com quem se relacionam (o primo, o tio, o namorado da fulana, o bróder da faculdade). Se você pesquisa comeu meu namorado conto gay no Google, existe apenas um conto que aparece na primeira página que muito estranhamente pode ser chamado de gay, já que um de seus protagonistas é hétero. Os demais contos para essas keywords seguem sendo héteros: Estuprei meu namorado, Meu namorado é gay, Comeram meu marido, Meu namorado comeu eu e meu amigo gay, não à toa escritos na primeira pessoa por mulheres, que certamente são homens fantasiando -- explorar os limites entre conjugalidade e orientação sexual a uma só vez é uma tarefa que envolve bastante fôlego social.
O conto em questão, O vizinho hetero comeu meu namorado, de Maumau, é uma pérola. Em que pese o altíssimo grau de violência homofóbica agenciada pela narrativa do desejo (ou desejo da narrativa), existem cenas primorosas. A minha predileta é quando o Paulão come o André na frente do marido deste, o Maurício. Triste é chamarem para a cena um homem heterossexual extremamente rude e homofóbico -- como se a dominação à brasileira justificasse o swing. Contudo, ele faz algo que é bastante excitante, que é comer um dos homens do casal, enquanto o outro assiste, comenta, ajuda etc.
Mas... Paulão não poderia ser um amigo gay do casal? Um affair? Aliás, por que apenas um Paulão, por que apenas uma história de terceiro elemento dentro de um universo pornô-representacional gigante, tão vasto de orgias, surubas, threesomes e ménages e gang bangs gays? Porque terceiros elementos não são excitantes?
Porque a conjugalidade entre gays não é erotizada!
Isso é um lado rico da nossa herança anti-familial, emancipação, #GozarForaDoSistema! Contudo, é um direito no campo do desejo que não exercitamos, e isso não é gratuito. Paulão trata o casal André-Maurício como lixo, e isto está justificado na narrativa de dominação. Todavia, quando é que o Paulo, o Paulinho, não o Paulão, o Paulinho mesmo, que namora o Beto, será convidado para um sexo respeitoso e cúmplice com André e Maurício? Quando leremos na sessão de contos gays um relato como o de Rafaela em Levando rola do amigo do meu namorado, (conto de Menina Curiosa)?

Fiquei maravilhada com o tamanho dos cacetes no vídeo, e meu namorado perguntou o que eu mais tinha gostado no vídeo. Fiquei sem graça, mas acabei respondendo que tinha adorado ver aquelas pirocas enormes. Ao ouvir isso, ele rapidamente gozou. E percebi que ele tinha gozado muito gostoso mesmo. Fiquei com aquilo na cabeça, e em todas as nossas transas acontecia dele me perguntar de outros homens, até chegarmos ao ponto de imaginarmos outro na nossa cama. Eu já havia percebido o desejo dele em me ver sendo comida por outro homem, mas nunca imaginamos seguir em frente. Até que certo dia, nós brigamos e acabamos terminando, e ele foi viajar com o seu melhor amigo, o Júnior. Durante essa viagem, comecei a receber mensagens do Júnior, dando em cima de mim. Não dei corda por saber da relação dele com o Marcelo. No entanto, o Júnior me contou que o Marcelo havia revelado que tinha desejo de me dividir na cama. Aquela situação me deixou excitada, e logo o Júnior já estava falando putaria comigo nas mensagens. Na volta da viagem, acabei voltando a namorar com o Marcelo, e então decidimos convidar o Júnior para realizar nosso desejo. Marcamos de nos encontrar na casa do Júnior. Puxa vida!!! Eu estava muito nervosa na hora, e meu namorado mais ainda.

Não preciso dizer que o sexo foi muito bom.
Há de se pontuar que Júnior não é uma pessoa qualquer que se conheceu em um aplicativo de celular numa noite entediada; Júnior é nada mais nada menos que o melhor amigo de Marcelo. Houve muita cumplicidade em jogo àquela noite.
Enfim...
Héteros têm tesão com traição, nós não temos. Não temos direito a ter tesão com traição porque nossas referências culturais-eróticas relacionam conjugalidade a heterossexualidade -- e homossexualidade a expedientes impessoais, não-conjugais etc. Casais gays se traem, mas não têm tesão nisso. Casais gays não têm tesão em verem seus parceiros fazendo sexo com um terceiro elemento que seja um amigo-affair, nem tesão em swing. E a única narrativa-de-primeira-página-de-pesquisa que é de fato um conto sobre alguém que comeu meu namorado, não fala da relação entre gays, mas entre gays e um homem hétero. Héteros só fazem sexo com gays ocasionalmente, quando estão na seca, e não dividem uma série de referências culturais e eróticas, não sendo, logo, affairs em potencial.
Eu uso esse tom generalista para falar do universo porno-representacional que salta das primeiras páginas de pesquisa dos temas supracitados -- eu pesquiso swing gay e acho swing hétero, WTF! Eu vivo com gente de carne e osso que pensa densamente poliamor, relacionamentos abertos, amor livre etc. Contudo, os dilemas certamente estão relacionados com essa socialização relacionada a gênero e orientação sexual. Tenho muitos amigos gays que jamais erotizariam a traição ou o amigo do casal, mas erotizam os homens heterossexuais e, quando muito, o terceiro elemento casual, não o affair, não o amigo, mas aquele cara que fará uma intervenção muito pontual numa noite regada a Catuaba -- o tal do threesome.
Aqueles amigos que admitem e exercitam conscientemente a abertura das relações em seus namoros com frequência esbarram em convenções que são antídotos à empatia e à afeição. Não acredito que namoros são tão permeáveis quanto os fantasmas que criamos dos terceiros elementos nos fazem supor. Ao mesmo tempo que muitos de nós possui um afã integrista em criar relações em par, conjugais, baunilha etc., parece insuportável que os limites tematizados nos contos heterossexuais de swing sejam trasladados para o lado pink da força.
Trair, para quem é socializado a se acostumar com o sexo seriado, escondido, culpado, é fácil. Difícil, subversivo, é, na contramão de um conjunto hegemônico de referências porno-representacionais que insistem na casualidade e na suruba, restaurar o afeto, e o afeto extra-conjugal, como elementos de um erotismo saudável e sem culpa.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

em breve fazemos dez anos

sexta-feira, 31 de março de 2017

ele se foi e eu fico pensando...
que com ele, para onde quer que tenha sido, Rolim de Moura, Curitiba, Orlando ou whatever, e também depois de tantos surfers, rapazes gays da minha idade, que visitaram tantos lugares no mundo, que eu quero ser como ele na vida de alguéns. que eu quero não passar incólume, quero deslocar casais, quero casar abroad, quero fazer diferença e viver diferenças. ele se foi para Lambari do Norte, a cidade imaginária que inventei para seu trôpego passeio tropical. no meu mundo e no meu sonho ele vem para São Paulo e eu vou para Rolim, no meu mundo e no meu sonho minhas habilidades de comunicador me levarão sem problemas, sem dilemas para onde quer que eu queira ir, pois o Capital estará ao meu favor, todo mundo me quererá, onde houver devir-casa hei de estar, nesse mundo em que eu posso, demando, quero-careço-preciso e FAÇO circular. Kant nunca saiu de seu quinhão e revolucionou a filosofia. mas a minha filosofia parte da premissa oposta, que é a de existir em função de circular. só conheço uma, duas escalas, não estou satisfeito. estou interessado em muitas histori-cidades, estou interessado em conquistar o espaço, A TERRA É GRANDE MAS NÃO É O LIMITE, aliás, EU NUNCA SAÍ DO MEU PAÍS, MAS - eu sei - A TERRA É PEQUENA, e, nossa, não há nada tão brochante quanto professá-lo (do alto da minha precária pequenez) e vivê-lo enquanto frustrada pulsão, vazio da vazão, inumado querer. para ser grande no meu mundo de querer-ser, falar não me basta. mas meu mundo me bosta, e fica bostando em promessas, histórias outras, propagandas muitas, e eu propago desejos e pago os apaixonados ensejos. ele se foi e agora com ele se esvaem sabores e multiplicam-se ânsias. há uma esperança sem pernas, e os antípodas da miséria não me sugerem opostos. pro dia de amanhã, espero, arroto suspiros, verto desesperos em lágrimas arregaladas, faço de sapato o gato que em mim habita e notívago grita: noite vago - em biritas - e em dia crônico faço saber, ATÉ O AMANHECER - e ele se foi - EU ME VOU ATÉ LÁ, haja o que houver, e pra o que ainda não está, há um dois três vários
ha
ve
rás.
quem viver...
verá.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

eu sou jovem, mas não sou rico como alguns jovens da minha idade que têm empresas, e que pagam pra mim para sodomizá-los, nem talentoso como aqueles que cantam na TV, e não dá tempo de voltar no passado e estudar em escolas construcionistas bilíngues, nem pedir pro meu pai ser da área de exportações e ter o alongamento de uma menina de seis anos, e o que dá pra fazer é trocar um pouco das minhas intumescências por cédulas de cem e cinquenta e alimentar a ilusão de que um dia eu serei rico porque esses jovens reprimidos com carros de última geração vão me cobrir de dinheiro, mas é uma ilusão, eles já financiam uma casa e eu não tenho nem poupança, mas no juízo final dos corações, e minha alma está engomada, tenho certeza de que terei minhas mãos e pés lavados pelo sangue borbulhante dos medíocres.
miséria não é uma conta no negativo. miséria é um câncer que nasce imperceptível em um homem - ou numa mulher -, que se lhe apossa, domina e envenena como uma barata zumbi, antes que qualquer coisa possa ser feita.

e eu estou a salvo.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O garoto de programa é qualificado? – Notas de um anarco-puto sobre mercado de trabalho, ética profissional e Estado

O puto é um artista?

Há um mês fui cortar o cabelo. Uma mapô. R$25. Quarenta minutos. Desses R$25, parte substancial a casa lhe vai arrancar. Pus-me a perguntar, por que eu, sendo homem jovem, ganho pela mesma quantidade de tempo várias vezes mais que aquela mulher de meia idade. Qual é a qualificação (possível) do garoto de programa?

Creio que essa pergunta é exequível em dois intervalos: um antropológico e um atinente à ética profissional, o primeiro etnograficamente ancorado e o segundo um ato prescritivo ficcionalmente elaborado.

Do ponto de vista antropológico, a pergunta equivale ao exame do como uma atividade supostamente limiar emerge como uma prática profissional, ou sexual, ou contratual, ou jurídica, e até política, ou contingencialmente marcada por esses aspectos... Senão, a pergunta-investigação da liminaridade emergente enquanto tal, como o mundo força a prostituição como uma forma de vida liminar, um ponto de estrangulamento privilegiado para a definição dos limites entre humano/sub-humano, intelegível/ininteligível, oficial/hipócrita, moral/ameaçador...

Essa investigação é habitualmente levada a cabo por antropólogos, e por isso periga às vezes quedar-se formalista e blasé, cheia de perguntas respondidas pelos seus enunciados. Arrogante em sua elaboração, a pergunta muitas vezes contém o germe de sua desconstrução, quanto toma a liminaridade como suposta, quando capturada pelo olhar colonizador de um antropo-escandalizado. Contudo, é esse ponto de vista etnográfico, metodologicamente aposteriorístico, que facilita uma reflexão densa e situada sobre a prostituição. Assim, o que é uma qualificação para um garoto de programa? deve ser estrategicamente precedida de outras perguntas de valia antropológica, acerca da produção de um sujeito-GP, um imaginário social do gênero e do trabalho, uma pesquisa acerca de territorializações ao nível molecular, acerca do corpo e o que ele pode/fode etc.

A mesma pergunta, no entanto, entendida aprioristicamente, é que me interessa aqui, pois é uma pergunta sobre a condução política (agenciada e consciente) de uma ética profissional em construção (como qualquer ética, historicamente situada). A prática de GP (ou cyber-GP, como vou chamar aqueles que anunciam em sites especializados) tem me aproximado da compreensão de que (1) alguma qualificação é (entendida como) necessária, (2) essa qualificação é dinâmica, processual e transdisciplinar, (3) qualificação agrega valor, (4) qualificação é pesquisa e (5) qualificação-como-processo possui limites exógenos.

(1) Qualificação, quando operacionalizada, é o que define os contornos do marketing-puto, sendo construída não apenas a partir de uma matriz material, mas também representacional e performática. Quando você se anuncia na internet, não existe superfície e volume, mas texto e imagem a evocá-la. Diferentes plataformas favorecem diferentes formas de representação. O conteúdo dessas representações (cujos limites são dados [a] pela matriz que reconhece um corpo como pertencível a um GP e [b] pela interface da plataforma virtual) é performático, e é dentro desses registros que vimos a variação entre garotos contribuir para a consolidação de um valor de uso e, logo, de um mercado.
Método: qualificar é operacionalizar algo como qualificação.
Dificuldade: É fácil entender o mercado virtual para GPs, ele é estruturante; uma vez que você seja reconhecido como pertencente ao mundão, não terá dificuldade em operacionalizar o que for (tamanho do pau, performance sexual, habilidades sociais e terapêuticas etc.) como qualificação.

(2) Como já dito em outros textos, o devir-puto envolve aprendizado e contato com diversas áreas de atuação.
Passo tardes e noites – e inclusive manhãs! – praticando um treinamento baseado em uma formação eclética e interdisciplinar: teatro amador experimental, antropólogo e sociólogo, militante LGBT, bichassexual, treino em diferentes meninossexualidades, figurinista, cinismo aplicado, agenciador de um repertório de práticas sexuais atualizante, convivência com campos semânticos distintos – estrategicamente acionados –, circulante paulistano, domínio de ferramentas virtuais, marketing pessoal, empresariado autônomo etc. etc. etc.
Método: Qualificar é estar aberto a diferentes forma de qualificação.
Dificuldade: Depende da sua disponibilidade em aprender e experimentar.

(3) Minha experiência-cyber-GP aponta que, à semelhança de outras áreas, esse aprendizado tem grande potencial cumulativo, e que uma qualificação sólida (que valorize originalidade, dinamismo e ética) tende a exprimir crescimento de valor agregado ao uso.
Método: (A forma) como se qualificar é decisivo para explorar as potencialidades do valor de uso.
Dificuldade: Grande. Converter aprendizado, originalidade, dinamismo e ética em valor agregado é desafiador e depende da capacidade criativa do GP de agenciar tudo isso.

(4) Qualificação é saber qualificar, é saber pesquisar, é saber converter pesquisa em cifra e... É também pesquisa contínua; sobre performance sexual, formas de inserção no mercado, formas de se colocar profissionalmente, encarnar etiquetas diversas, experimentar limites do corpo, uma série de habilidades, consciência corporal.
Método: Qualificar tem uma dimensão longitudinal.
Dificuldade: Equivalente ao desenvolvimento de um feeling particular para compreender mudanças, intervalos, sazonalidades. Vai da sua disposição e habilidade de converter experiência em corpus de análise.

(5) Os limites exógenos à qualificação são aqueles que definem previamente a capacidade alguém ser reconhecível como GP ou não. Eles atuam dentro do próprio campo mercadológico, operando ora diferenciações (cor e silhueta como tensores libidinais são bastante evidentes), ora exclusões (do gordo, do velho, do afeminado). Eles, contudo, podem vir (aliás, virão) encarnados na figura do deus Cronos.
Método: Cuidar de si, se agenciar, mas...
Dificuldade: Os limites são, como disse, exógenos, e o tempo destrói tudo.

Toda essa descrição, que ora apresento em forma-manual (para demonstrar aquilo que considero a pergunta da qualificação de um ponto de vista apriorístico), me aproxima da compreensão do puto como um performer. A arte de ser puto, tanto quanto a do performer, é (1) fruto da qualificação de aspectos subjetivos, cujo agenciamento é orientado por um repertório social consolidado, (2) iminentemente transdisciplinar, (3) cumulativa, (4) fruto de pesquisa contínua, e (5) sujeita à força do tempo. É, como toda boa arte, controvertida e sujeita a censuras, seja do falso moralismo, seja do senso comum ou da elite acomodada. Mas, como toda boa arte no hedonista hodierno, é feita do pacto silencioso de um público que a engole e regurgita.

Esse conjunto de assertivas referem-se menos a como um puto se torna puto, e sim a como deve ser essa modalidade de putanhismo que ora apresento. Assim, falo menos de condicionantes para a emergência de um sujeito com dignidade ontológica, mas como esses condicionantes mesmos podem ser e são entrajados pelo puto.

Esse entrajamento equivale à performatização da profissão e do profissionalismo. Produzir e exercer uma ética profissional em um mundo onde tal profissão (e, logo, tal ética) não existe formalmente, é prontamente um jeito de vivê-la. Liberdade, se existe, é prática.

Gostaria de sustentar que o pleito desse ato performativo, contudo, não é e não deve ser pela mediação do Estado. Enquanto essa ética profissional for praticada no negativo daquele, o mel subversivo da prostituição há de se conservar. O agenciamento de que se beneficia o puto, depende da aversão do Estado acerca da burocratização do negócio.

Como sugerido em outro ensaio, a falta de mediação do Estado é o que permite com que as trocas sejam simulacros da gestão financeira formal, e que a autonomia de ganho se processe horizontalmente, no tête-a-tête, sem a triangulação estatal. Padrões de beleza, desigualdade de classe, racismo, sexismo e homofobia já compõe um repertório bastante carregado para as tensões e tensores dos jogos eróticos cliente-GP; por que crer que a intervenção estatal agregaria benesses de qualquer ordem aí? O logro financeiro, e mais, a dignidade de mercado deflagram-se na prática de uma ética profissional, no melhor estilo Do it yourself.

Alguém me dirá: você delira, puto! Esse mundo perfeito só existe nessa tua primavera beatnik-pequeno-burguesa. Hei de concordar, e acrescentar, ainda por cima, que a mulheres, as trans* e as mais pobres sobretudo, têm experimentado severos contornos nas margens dessa agência de mercado. Mas é porque este rascunho fala menos sobre como as coisas são, e mais sobre como devem ser (de volta à utopia), e o meu argumento é pela política do DIY, da livre-associação, do cooperativismo, e de uma ética profissional não mediada pelo Estado, humana, real life, concreta.

Então, (i) quis dissertar acerca não do que contingencialmente tem sido ou não encarado como qualificação, mas sim, sobre que qualificação é desejável (para o GP), e (ii) a qualificação que eu desejo é a aparentada à forma-performer. (iii) Essa qualificação, contudo, reside nos ruídos de um sistema de representação, o que nos coloca um dilema político-existencial (vide Parágrafo último).

Resta, talvez como um desafio aos economistas, entender que expediente é esse que se abriu para os cyber-GPs para que eles pudessem cobrar um valor/hora tão superior a uma série de trabalhos extremamente qualificados. Rio de quem leu esta última frase comprando-a inteiramente. O verdadeiro desafio do economista anarco-puto é explicar por que uma cabeleireira (cuja dignidade profissional é engolida pelo patronato e pelo asco estatal), uma performer do couro cabeludo, é quem ganha tão pouco na relação. Não se trata de nivelar por baixo, mas de conquistar e celebrar dignidade para todos e todas.

Parágrafo último.

No rastro dessas trôpegas reflexões, deixo um post-scriptumscriptum e vomitadumcontradição embutida em toda a minha argumentação: o agenciamento que resulta na performatização da profissão e da ética é, por sua vez, tributário e dependente de uma estrutura sócio-econômica brutalmente consolidada, o heterocapitalismo. A libertação do puto é Zona Autônoma Temporária ou Sociedade Anônima? Entender logro financeiro como libertador não é antes zombaria liberal? Como dar contornos mais realistas a dimensão do desafio-vida para o anarco-puto?

terça-feira, 19 de julho de 2016

você:
acidente mais picante.
pois, contente, doravante,
o sorriso mais sorriso
(brota dolorido um siso
nas arcadas deste amante)
escala monumentos
– um recorde de rendimentos –
pra bradar por sobre o pico
– brahmas, bramidos,
sonhos (re)sentidos –
“cá entrego os meus mundos”
(todos esses tão baldios),
“assassino meus jagunços”
(todos esses tão vadios),
“e chancelo a chancela
do que em mim grita, berra,
pra ouvirem mais de mil,
(que) ‘só é feliz quem erra’”!

sexta-feira, 15 de julho de 2016

se me permitissem,
toda noite seria assim.
um cálice de vinho seco, poesia...
toda noite assim seria.
muito papo e cultura,
um pouco de política...
um momento de fuga,
outro de calmaria.
a música dos teus lábios,
minha Ave Maria.
aquele anteparo
pro momento de olhar
como o olhar um do outro
é ímpar.
e do seu despreparo,
hahaha,
riso escancarado. ei!
a rua nos espera,
tem uma aventura,
nos espera a rua.

se eu me permitisse,
toda noite seria assim. sobre você,
com um cálice de vinho seco,
escrever poesia...
se eu me permitisse
só assim faria.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

ele tem problemas pra acordar,
e eu, pra dormir.
não se furta em sonhar
acordado.
a cor mel dada
arregala
à postura cordata
deste que o deseja
de maneira insensata,
que o cerca e beija,
afaga
_e dos olhos, refrata.
pôr-do-sol em cascata.
os lábios pelados
apontam e refletem
edifícios espelhados.
é difícil esperar,
e os lábios retorcem
_uma torcida discreta
que os poros escancaram.
o arrepio suave
saúda o toque.
o calafrio cala,
as dermes se colapsam,
há gargantilha de chêros...
_e o Sol já tá posto.
a Lua encara. em seu rosto,
um sorriso amarelo
ratifica imprudente,
e sem qualquer dano,
a noite mais quente
do ano.



I

é que alguns momentos não podem ser revividos.
podem ser emulados, evocados, mas só até serem percebidos como um quadro ou um filme, algo sobre o que se sabe, mas cujo sentimento nunca é replicado perfeitamente. algo consta no coração, mas nunca é idêntico ao que passou. inescapável efeito-Heráclito da música pop: quando você ouve cem vezes a mesma canção, não é como ouvi-la no derradeiro momento em que você se apaixona por ela. o que há de humano e precário nessa busca ingênua por felicidade é a obsessão por momentos únicos, que nunca poderão ser revividos. acreditamos ser felizes quando estampamos amarelos os currículos das nossas efemérides. é então quando assentimos » sinto que posso morrer agora.

momentos como esses causam insônias, inspirações, depressões, dramas existencialistas. melhor que seja assim, contudo.


II

o que faz de um beijo um bom beijo?

você já desejou uma boca como se deseja um banho de mar num dia de calor desesperado? um voo para fora do país? você já sentiu a disritmia de dois peitos urgentes? já prolongou uma conversa para gozar do afã da comunhão de lábios e mãos? a iminência de um desejo em erupção, nos olhos incandescentes...
o desejo transforma as pessoas.


III

há não muito tempo nossos corações sobreviviam longos invernos sem qualquer vestígio de confidência. hoje quedamos indomados, ansiosos, imediatistas. como trocar cartas _e esperar por elas_ em um mundo que demanda certezas? por que nossa obsessão por elas (as certezas), que são os adornos mais insossos das nossas caminhadas?

quando um amor hiberna... quando um amor hiberna, é como se um desafio se nos instasse. que espera é tão tormentosa que se nos impõe a necessidade de atirá-lo (o amor) à fogueira? _a não atirar a nós mesmos. que claustro é tão sufocante, que voluntária pena tão infernal, que nos conduz à renúncia do desconhecido? _esse continente que nunca chega, esse mar aberto que nos encerra no irrespirável perímetro do navio. há o coração convalescente que ergue o braço para deitar sobre o chão a tumba em auto-inumação. pensa esse coração na quantidade bruta e líquida de poesia que a sua incerteza e angústia podem produzir? mãos à obra coração: qualquer forma de agonia é uma oferta à poesia.



bairro grande ou cidade pequena
a mesma louca, idosos habitués
e eu, e você
irrompendo explosivos na aurora do mundo

o rádio diz que amanhece
e o céu ainda é café preto
pingado, pão na chapa
.......................................casal
e eu, e você
na manhã das ideias
..........................sorriso boreal

os voos no asfalto
as pombas da Grande São Paulo
voar é que é fácil
e eu, e você
na madrugada da vida
pé-ante-pé, salto após salto...
e o chão se agita

segunda-feira, 11 de julho de 2016

«balada do amor lunar» ou «meu peito é um canyon» ou «ele, a Lua e eu»

lá vem a Lua minguante
com seu sorrisinho amarelo...
implacável...
irritante...
singelo...

em tudo que meti-me por necessidade, nessas de passar, ultrapassar, perpassar, trespassar, sempre fui ratificado pela Lua.
lá vem ela ligeira uma vez mais, a Lua minguante com seu sorrisinho irritante, implacável, ai essa Lua... assim que saio de um ciclone, sento-me ansioso à espreita do próximo. tornando-me tornado. como se minha vida já não fosse esse vórtice desde que me entendo por adulto. como se minha cabeça-de-vento ignorasse o tormento das tormentas, dos abismos abissais, dos abalos císmicos, cataclísmicos. coração de pedra, tanto bate que furou, falha geológica, epifenômeno dos meus caminhos. meu peito é um canyon.
vem pra me azucrinar, o satélite dos satélites, e eu, satélite dos amores, acessório dos meus adorados amantes, minhas madonas de cueca, meus pódios de chegada, meu romantismo estendido no varal ao lado dos repentes, dos de repentes, dos repetentes. eu de pé, ajoelhado, escancaro os dentes, exponho obscenos os miúdos, de amor doentes.
lá vem a Lua e seu sorriso indecente, eu, o Cupido-de-mim-mesmo, a atingir-me em acidente a fatal flecha da paixão, a cegar-me imprudente, a empunhar o tridente, a saltar rumo ao poente, e a vagar contingente.
a Lua esnobe sorri amarela, pro continente.
e eu só a espivetar o garoto dos dias. passa por mim como passam as folias, como passam euforias, as minhas aporias, minhas epifanias.

passa.
sorri para mim o garoto, um sorriso amarelo...
implacável...
minguante...
sincero...

eu do alto o enxergo, enxergo tão fundo que quase o abduzo. mas, de baixo, vejo a Lua hedionda, de risinho abstruso, que lança a maldição, me instiga e me rechaça, acha feio, mas faz pirraça. ele o que vê não sei, tão garoto, só ri, sorri, e passa.
a Lua me enxerga, e eu tão sem graça, tem algo de mim que o segue...
com ele vai e não volta.
despedaça.

e o regaço do mundo
me arregaça.

domingo, 12 de junho de 2016

s/t (o menino)

o menino que havia em mim deve voltar
um dia
em uma escrivaninha gasta de madeira ingrata
a se cercar em caracteres no NotePad
ouvindo rock psicodélico antigo
em sonhos remasterizados
iniciando no café
e nos passeios de bike pelas madrugadas
ele tinha uma aranha que muito o ouvia em todos os banhos
Samanta era o seu nome
e sua bicicleta amiga de aventuras
Heloíse o nome desta
era capaz de imaginar roteiros de filmes imaginários
enquanto pedalava pela cidade
dedicou grande parte do seu amor
à atividade enérgica de escrever no NotePad
o tempo passou sem querer
e esse menino é a melhor parte do que ainda está em mim
querendo que eu volte
e seja

terça-feira, 1 de março de 2016

molestar-se-iam para o todo-sempre-amém, mas o todo-sempre-amém nunca é todo. e é cogitando o improvável que se consumiam. a falta constante de parcimônia terminou por esgotá-los, virando tão somente casal de pepinos em conserva rumo à estação central, onde se perderiam no meio das bagagens. expectativas.