quarta-feira, 23 de outubro de 2013

2011 is over!

a nossa imagem congelada é uma sombra que me assombra. cambaleia e camaleoa, trocando a bel prazer matizes sem à luz fazer pergunta. a projeção negativada dos meus quilos ganhos sobre o chão saturado de passos me tortura com a mesma película: pedalando sobre sonhos simplesmente, para logo, enferrujados, inumar nossas utopias neste chão de fantasmas, sobre o qual investimos hoje com empenho novas e fracassadas efígies e esfinges. seríamos mais justos e cruéis talvez se, imbuídos novamente desta já arcaica cara-de-imbuia, pudéssemos não culpar o tempo pelas suas vaidades malandras e divertimentos sem graça alguma, mas nos questionarmos pelo que fizemos com um tempo que era tão nosso... ou será que nossos passatempos, tão ansiosos em passar por aí, não passem de um passado tosco e necessário, e hoje pasmos só o possamos verificar não sem esta armadura blasé sobre a camisa de força do nosso desespero. 
tudo acabou, até certo ponto. tudo acabou, até a metade. porque a nossa imagem congelada é esta sombra prendendo, goma de mascar enredada no calcanhar do arquivo morto de descobertas, prazeres, afetos e apuros, salada de frutas da experiência, vitamina de quilômetros rodados em quase-buracos de conversas, corpos, confusões, convites, covardias, começos, cobiças e corações. agora nos encaminhamos para a consagração de um grande vácuo, este futuro em que vivemos, vergonhoso se aproximado do futuro que planejamos naqueles dias. por causa daquele susto bom, hoje vivemos assustados, e em que passado confiar?, e em que vocês confiar?, se o  vazio da nossa liberdade violentamente despida não nos quer oferecer nada além desta nudez transposta para a arrepiada superfície dos nossos sonhos desenganados.
abandonaremos um dia o fetiche do congelamento e o tabu do derretimento? estou pronto para resistir às histórias que tanto querem me possuir. posso ir além disso, ou podemos? se no pulo do gato capturam-me estirado sobre a perplexa melancolia das tardes, posso saber-me entendido se reitero - O QUE QUERO. e me esmero em dizê-lo: amig@s, está tudo acabado entre nós, até que a santa interceda (que tão cedo quanto fosse possível fôssemos embalados nos sedosos e santos hábitos, nas suas santas sendas e sulcos, ainda cederíamos incontinenti ao antisséptico ceticismo).
até que o passado nos engula, está tudo acabado entre nós. se não entendemos, será bom talvez repetirmos em voz alta, como em um ritual holístico, esotérico, asceta, e eu me voluntario, grito em alto e tom bom: FIM! É O FIM! ACABOU! 2011 is over!
quem sabe assim em paz podemos envelhecer de uma vez, terminando por matar - aleluia! - a mais bela história de adolescência tardia, arrebatando-a com o focinho estourado dos pobres dias vindouros que queremos tanto porque nos é insuportável a ideia de que uma vida como aquela possa ser possível, legítima e justa em um mundo obcecado por nos tornar doentes.
o peso da terceira década, enfim, escroto e irresistível. essa imagem congelada, teimosa projeção na sombra que rejeitamos, era um picolé mesmo, que derreteu e evaporou, e hoje olhamos dos nossos cubos monótonos a chuva com tédio, fatalismo e puro (fingido) desinteresse. aparentemente, nossos para-raios nos conservam do distúrbio, nossas carapaças nos protegem da chuva. mas, sabemos, aquilo que sai do mais fundo de nós, e que nos desespera por não podermos conter, é o meigo e irresistível e incontido desejo de espreitar a vista na busca daquele arco-íris que, sabemos, está em algum lugar além das aterradoras trovoadas.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Amor Irreversível #8

_____claramente rebrilharam teus dois olhinhos grandes e pretos do bananal saturado de negras vultuosas bananas quentes no pior arborizado ar paulistano, feito de pseud'oxigênio e excrementos bombardeados pelas cloacas dos aviões, e me disseram sim, com sagacidade e brilhume de olhos pretos grandes que eram meus e só, lição que só na casa do caralho, ou quase tropical quintal das pirocas, perfumado tabaco dos pelos e maconha das picas, só mesmo ali é que estão reunidos santos, orixás e interseções necessários para consagrarem e consagram: és, tal seu irresponsável reflexo, a cor mesma de chorume aceso destas bolinhas de rato.
 
_____te quero além, foi bem o que disseste ao me arrancar - pelo delicado toque de mãos das tuas palavras - para o teu carro, para o teu comentário acolhedor sobre a antiga casa do Clodovil, e disseste então: olha! ele nos olha de cima, nos quer tão bem que, na sujeira verdejante e brancacenta desta torpe natureza, ungiu a bênção em gotas de suor e esperma e discretos contatos com geadas incandescentes de sangue e merda, pois trafegávamos por Indianápolis com a única certeza que rodar por esta pequena e higienizada cidade era já metonímia e metáfora deste novo grande caminho chamado felicidade.
 
_____e quando então nos beijamos, é feito se a sua mística simpatia de silêncio com moléculas da minha boca decidisse - e tomei ciência - admitir: não tenho, Eros, outro motivo aparente e menos certo para ter chegado aos vinte e dois órfãos anos, senão participar presentificado e estuperplexo do estro dos teus eróticos beijos. Ó, Eros, como te agradeço por isso!
 
_____e, genuflexionado na cama deitada de sonhos penetrantes de uma câmara de aceleração de partículas, lhe respondi com minha língua - esta, feita imensa sorte grande, lhe passeava a glande - que a nossa certa vida era eterna e prenhe e não desejava mais que um canibal impulso de si mesma sobre a cabeça tonta de todos os seres humanos que aí se tornavam pobres. infelizes.
 
_____então estávamos de acordo, que o sangue expelido em salpicados vasos sanitários na já gasta semana, convertia-se na seiva da tua pica afogada pelo látex besuntado de KY, criando essa clara referência de que, ao arrombar o meu rabo, me juravas jamais ter antes gozado a uma só vez de tão ereta conclusão e insensata sensação: plenitude nunca antes experimentada em qualquer sua incursão pelos confins dos fins do mundo e jardins de pegação.
 
_____fato, abandonados os métodos inócuos de contracepção, dissemo-nos enquanto metia meu caralho duro e nu e nua sua bunda me engolia, em uma piscina vaporenta de lubrificações biomoleculares e bosta requentada e adormecida na penumbra dos teus fundos quentes, repito, nos dissemos, vemos este corpo que, carne, sangue e espírito, se funde na locomotiva dos milênios de vida condensados nos segundos condenados a milenares serem? é o corpo que corporifica a vida que sempre quisemos!
 
_____é óbvio, havia essa caneca com a água derradeira da torneira à beira da pia, de cujo líquido sorvido, de cujas lágrimas verticalmente vertidas ouvi, quando me disseste que cozinharia no jantar próximo, que me recitava na verdade:
fogo alto
fogo brando
cozinhar-te-
ei te'amando
na panela
feito mago
temperando-
te co'afago.
 
_____e o beijo dado, logo após você ter corretamente registrado o meu número no teu celular, sinalizou, não te preocupes, meu bem! nossa vida é uma vida só e nada mais, portanto não te aflijas, logo nossa mútua possessão mesmo escorrerá ao vento feito grande e imbatível flâmula, que com descarado e inevitável orgulho devastará toda tristeza, toda mediocridade, todos os dias mal passados de cru e chei' de verme amor.
 
_____mas eu passei o dia inteiro esperando um SMS que você não mandou.
 
_____ou será, então, que eu entendi tudo errado?

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

algumas anotações daquele caderno com a capa do Jardim das Delícias Terrenas, do Bosch, que a Eugênia me trouxe de Madri

tem samba que só no título é samba
e gente que é legal até a página dois -
mil - e - treze tem sido um ano para o desapego
e eu não pego mais ninguém - se for pra amar
eu não estou confuso, o samba samba na cabeça
os dedos sambam a caneta no tecido do meu corpo
eu estou branco, estou preto neste samba em que não há a-
manhã vou acordar num dia que não quero



Gi

Agitar os ovários
até os canários
de manhã Cantar
fazendo poesia
com nossos corpos
até o dia raiar

Eu

Agitar os contrários,
vacilar os armários
de manhã Dançar
na noite paulistana,
início de semana
até meu corpo raiar



21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28, 29, 30, 31, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10... vinte e um dias! faz vinte e um dias que nos vemos diariamente, esses vinte dias e esses vários beijos, interstícios, fugas, um olhar que me arranca o fôlego, um toque clandestino atrás de uma lona de barraca, um beijo tímido na praia, um beijo ávido na praia, meu pau duro no forró, um susto gostoso na minha vida, olhares cruzados no café da manhã, uma ternura vulgar, vulgar são meus sonhos, o anseio por ver-te levantar do banco de ônibus, lágrimas que escondemos, notícias inconvenientes, a vida que eu mais queria, sorrisos incandescentes, incandescentes são seus toques, e, de repente, a partida mais temida e horrorosa da minha vida.
hoje não dormimos juntos.
amanhã não nos veremos.



as funcionárias e funcionários da padaria na USP me chamam "jovem".
- Café com leite sem açúcar, jovem!
lá fora, aqui fora a falta de luz do sol me olha com a perplexidade que tem os olhos da cadela Frida, mesmo soFrida não me Kahlo.
experiencio guerras atômicas entre sentimentos.
experimento parágrafos curtos.
em um exercício de reflexividade admito que eles também me experienciam. na verdade não entendo como a dor se torna ponto final. se eu que sinto a dor, ou a dor fica me sentindo, curtindo a minha dúvida, a minha angústia... o quanto essas cartas do cárcere estão me escrevendo?
escrevo poesia como quem crê em um mundo paralelo, senão cercado por livros ambulantes - como em Farenheit 451 -, então poluído por figuras de linguagem, as traduções das traduções das traduções.
ele me disse que todo dia lembra de pelo menos duas coisas escrotas que fez comigo. eu também. incrível como até aqui estamos juntos.



as suas pequenas tentativas - que foram nossas, que são, talvez -, tão sinceras, tão amáveis, são evidências, são pequenos grandes sucessos.
nosso amor, tudo o que lindamente vivemos foi bem descrito por você hoje no telefone. em formato esférico, túrgido, ou em forma de coração, cheio, apertado, denso, nosso amor está todo ele sustentado por um fragilíssimo fio de tênue e obstinada teimosa-vivência. e o nosso papel, hoje, é amar sobretudo este
fio.
com.
todas.
as.
nossas.
forças.



thI - A - E

não é tanto o terçol no meu olho esquerdo o que me azucrina. nem tanto os problemas e as severidades por ter cedido à tentação no almoço do dia 23 - ou 24 - e cair na piscina. não uma valsa na esquina. nem a estarrecedora ambulância e sua estridente tercina. não é a aterradora buzina - daqueles que resistem de terno sob o sol escaldante ou gelada garoa fina.
ter.
ter-vos.
ter tremedeiras de perdê-los.
problemas. de pronomes.
cascatas que se desdobram, triplicam, ao cubo.
cada parte do meu peito que vacila, é um terço, e cada ciclo de orações finda às três da madrugada.
e todas essas trivialidades por mim tergiversadas, não têm mais a ver do que com a afobada e serena sensação de ser. mos. três.



a iminência do espirro

passo no USPão e compro, como de costume, um pingado. então, sinto que vou espirrar, com uma espontaneidade tal, que não seria jamais capaz de pousar meu copo de café com leite quente sobre qualquer superfície plana e estável. portanto, me encontro na desconfortável posição de não deter controle inequívoco do futuro. não sei, por não conhecer a intensidade do espirro e os impulsos precisos que o mobilizará, qual a quantidade de café que se derramará sobre o meu braço e minha camiseta de manga comprida, e talvez no meu crocs e assim, no meu pé. não sei se alguma área sofrerá algum grau de queimadura, não se se o açúcar provocará aquela desconfortável sensação de que se é uma meleca. não sou tão capaz de vaticinar os danos que o espirro causará, pois ainda há a possibilidade remota de o meu corpo mobilizar gestos contra-catastróficos, meus reflexos ligeiros, rápidos como encadeada fora a situação. assim, não descartaria o alarme falso.
minha vida está essa iminência do espirro - o momento exato, exatamente prévio à tragédia, dura e tragicamente congelado.

tenho aprendido a viver nessa situação. na verdade, vivido bem, até. não me preocupo mais tanto com esse futuro dado, uma vez que o futuro já havia começado e eu não havia me dado conta. estou mais interessado em futuros outros, e tentado mostrar para as pessoas que a vida entre a consciência do espirro e seus efeitos temíveis e imprevisíveis é não só possível, mas desejável. na verdade, o que temo hoje, acho, é a consumação do espirro.



como que por uma revirada volta - T. retorna clandestinamento ao meu coração clandestino - mirei retro & ativamente este passado recente. se, banais, me escapam formulações genéricas - não obstante verdadeiras - do tipo "tenho te amado mais que muito nesses dias tais", não sou menos vítima de miriateísmos portáteis feito "fulgura a Lua como mera tentativa albina, alta & ávida de presentificar certa ocular e castanha beleza, que todavia, por a ti pertencer, jamais dela será, num lunar e exitoso fracasso". toda a minha consideração a ela, mas certamente, perto de ti, será menos que um satélite.
satélite - tadinha - não és, satélite soy yo. um satélite meio confuso, confesso, transitando entre dois sóis, duas órbitas de gravitacionais e interestelares campos.
ao meu redor apenas redes e linhas, que me novelizam, que me enredam em pretos cachos, espalhados heterogeneamente em uma riqueza de topografias a serem desvendadas à exaustão.
como num Brasil, castanhos que desvelam longínquas paisagens, depressões insuspeitas, florestas de negra cútis, pântanos de cândidos tesouros... na saborosa numismática dos nossos possíveis - deliciosas e alvas poças que misturam desejo com abortos -, sou o insaciável tio Patinhas a deslizar meus gostos por superfícies banhadas pela vida interrompida e convertida em suculenta moeda.
gozam minhas papilas gustativas de você.



Teu cheiro ainda está em mim

não sei bem a certo se você possui o perfume que comprou na loja
ou se de repente o cheiro que ontenta teu corp'escoço suculento foi na verdade roubado pelo tal perfume
eu lá não tenho grilos - desde que o frasco vil, possuindo-te com moderação, não esgote a fragância-esta, frescorosa flor do cerrado
nos empesteamos esta madrugada
nos imiscuímos, promiscuímos olores, procrastinamos odores e prostituímos fedores
até ultrapassarmos o meio dia, como deliza-liz o R teu, no boa taRde teu
minha mão está com o seu cheiro
pudesse imaginar com detalhes um mundo em que, para cada quente-Júlio aperto de mão eu empreendesse, multiplicassem aromas-esses, um fantástico mundo em que todos exalassem tal juliano perfume, que de tão cheiroso me fizesse perder o metrô
bom...
teu cheiro está em no meu corpo
ou será que este cheiro era meu o tempo todo
- e eu não sabia?



canção da solidão segunda-feira
canção da segunda-feira só

I

só.
sozinho na plataforma da estação anhangabaú.
lembro e sinto nós não com a condescendência implausível daquele que entre certa antipatia por um massacre ou etnocídio. mas tremo pavorosamente como alguém que sabe o que é à força ter o couro fatiado, acompanhando de perto a chaga que destrói e carcome o peito de alguém próximo, um familiar, um amigo importante, talvez.
não sem rancor escrevo estas palavras sobre esta parte de mim que, acometida por uma paixão ao avesso, cedeu à capilar penetração de uma mediocridade cosmética e de um desinteresse endêmico.
pobrezinho, não é mais o mesmo, e os fiapos de nossa história atual - que sem saber se é bom, me acompanham - só me arrematam sofreres.
disto que é hoje, tenho medo e horror, daquilo que éramos, só lamento, somente.

II

só.
sozinho entre as estações brás e bresser.
nunca entendi direito você, que me acusa de nunca ter querido lhe entender. nunca nos entendemos plenamente. isto não é objetiva e necessariamente ruim. acho que, quando nos abríamos ternamente - jamais esquecerei daquelas cervejas na frente da PUC -, e você tem em si uma ternura deliciosa quando quer, era como imergir num oceano delicado de sensibilidade e coisas bonitas.
de um certo momento em diante, passamos a discordar com perigosa recorrência. do meu ver, parece que não havia nada em mim com o que você pudesse concordar, fosse minhas ideias, sentimentos, sensações, práticas afetivas, opções estéticas, posicionamentos acadêmicos, relação com nossos amigos, teu namorado - que fora um dia amigo meu -, e agora discorda até da possibilidade de nos comunicarmos e, quiçá, da minha existência.
em um certo momento, concordar com você parecia ser obrigatoriamente discordar de mim.

III

só.
sozinho na passarela do metrô tatuapé.
meu coração tremeu a cada vez que chequei meu e-mail hoje, sonhando em encontrar nele menor sinal que fosse. tremeu quando colhi o envelope - tão vazio estava - com apenas um mero guia de exame médico e um par copiado de chaves da minha casa. a cada SMS que recebeu ao longo do dia, tremeu temerosamente. tremeu quando estive tomando pingado e comendo pão na chapa com um amigo na nossa padaria. e tremeu muito - quase saiu por algum buraco meu - quando deixei um bilhete na sua porta, apertei a campainha e corri pro elevador.
tremeu e tá tremendo de ansiedade e medo.
ansiedade de te ver e tocar e sentir, medo de perder teu tato e olhar e tudo em você que me faz tão feliz.

IV

só.
sozinho andando pra casa.
vendo a foto tirada em Madri, lembrei da tua magreza ousada. não exatamente uma mera magreza magra - não! certamente isso não! -, mas aquela que fornece os passos sensuais e trilhas inóspitas - mas, óbvio!, desejantes - do teu corpo. a porta de entrada deste parque exuberante é certamente a afabilidade gratuita do seu sorriso amigável, e a plataforma de identificação se processa no protocolo hipnótico de apreciação ocular. decerto, e ainda bem, tuas durezas e malemolências são labirínticas e não me permitem jamais sair.
mas, ainda que houvesse sabida saída, jamais dela faria qualquer uso.

V

só.
sozinho na cozinha de casa, a casa que recusaste conhecer.
embora estejamos tão distantes - okay!, confesso, não é a maior distância que conheço, e já estou ficando mestre em distâncias -, tua doce fragrância - da qual certos perfumes têm oportuna e sensatamente se apropriado - enche todos os aposentos em que entro - ainda que a única parte material daquela noite que ainda não tenha sido lavada seja a camisa prostrada na cadeira azul que está na sala. e mais, como não a lavei, também não o fiz com a minha alma.
com saborosa intensidade, teu cheiro abandonou a Ceilândia e inundou a minha vida nos vinte e três minutos e dezesseis segundos em que nos falamos por telefone.
com uma nostalgia de quem ferve de lembrar do calor da presença única de uma certa pessoa única em uma madrugada única, suspiro flores e sonho com mais dias saturados do seu perfume.
quem sabe (em) novembro?

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

de repente eu sinto essa saudade de você

como um sentimento de olhar para as próprias roupas e vê-las desbotando sem saber o que fazer
olhar para uma grande multidão que se dirige para um penhasco, consciente e convicta
sentir congelar cada célula do corpo, sem que resistir contribua para restaurar os próprios movimentos
ouvir "Pedaço de mim" do Chico Buarque
cambalear quente pelos cômodos do aposento, desafiando suas amigas a perceberem que o motivo por detrás dos seus passos rotos é aquela meia garrafa de vinho que você resgatou como um cachorro desenterra um osso
a tentativa frustrada de fazer aquela cueca cair-lhe bem, aquela que um dia já lhe caiu
o toque da gata que te assusta como uma falsa promessa de bomba nuclear
acordar a cada segundo de sonos intranquilos
porque
você
não
está
aqui
comigo...

domingo, 8 de setembro de 2013

Sentimentos dentro de sentimentos. O amor que tenho sentido trai com tenaz falta de responsabilidade as próprias convicções. Extra! O tal amor é um inconsequente, um irreversível. Com azulada falta de interesse beliscava amores outros, furtava pequenas porções de vida feito subtrações infames de barras de chocolate mal protegidas em grandes lojas de departamento. O amor-ladrão-de-colherinhas-de-boteco encontra-se agora desfigurado, em apenas um dia passou de um mero cleptomaníaco sofisticado para um grosseiro ladrão de joalherias, ávido por sangue, pelo sangue puro daquele pelo qual hoje bate.

Luz acesa, cheiro de incenso barato, Droga!esqueci a luz acesa mais uma vez. Portas destrancadas na madrugada vil e tardia, nem ligo, vou em direção ao banheiro. Batidas fortes enquanto mijo, ué!que porra é essa? Nem balanço nada, as gotas de urina tingem o samba-canção. Se meu samba-canção cantasse, certamente cantaria o ódio pelas lágrimas amareladas do meu pau.
Quando retorno para a sala-quarto, me deparo com ele, meu coração. Bate forte, mas sem resfolegar, empunha uma arma, não sei qual, não entendo de armas, e também jamais imaginei que ele pudesse entender.
Devia ter imaginado, lhe disse.
Que tens um coração?, respondeu cínico.
Pff! Que te traz aqui esta hora?, fingi desinteresse.
Pensei que estava o tempo todo aí, aponta ressentido para o meu peito.
Ah é?, penso um pouco antes de falar. Bom, está, mas, pela primeira vez está e não está. Que aconteceu? Saltou pela minha boca enquanto eu escovava os dentes?
Você é assim sempre? Até comigo?
Fingindo impaciência e desprezo, lhe digo:
Patético. Chega de sentimentalismo e diz logo para o que veio.
Vou me matar, diz como quem pede uma pizza por telefone.
Rio um riso estridente, algo entre nervosismo e incredulidade.
É? E eu vou morrer junto?
Por consequência lógica, sim. Mas não se preocupe, é praticamente instantâneo, geralmente as pessoas temem, mas...
Você está blefando!, interrompo sua fala como quem joga a toalha prematuramente.
O coração ergue os ombros melancolicamente, e aponta a arma para si próprio.
Calma!, esbravejo, Não faça isso! O que você fez, quer dizer, o que fizemos?
Este menino. Você tem que tomar a decisão certa. Se quiser que eu continue batendo no teu peito, né?
Não entendi. É uma ameaça? Que menino, o Allan?, eu estava confuso.
Esse!, impaciente, o coração acariciava a pistola como se, por masturbar um objeto fálico, esperasse que este atirasse sua munição espontaneamente.
Então, se até agora eu entendi, a pergunta certa não é "o que fizemos?", mas "o que vida fez de nós?", digo contemplativo.
Não me interessa suas perguntas, só suas respostas!
Você não está sendo injusto?, ponderei. Quer dizer... O que está ao meu alcance? Estava tão afobado que sequer conseguia formular frases com o mínimo de coerência.
Você tem que escolher, disse friamente – tanto quanto podia –, o coração. Ou ele, ou eu!
Arregalo meus olhos, tenho que segurá-los para que não pulem de perplexidade, lembro de como eles combinam com os teus, como se conheceram e ainda querem conhecê-los mais.
Espera, gaguejo como se o coração quisesse saltar pela boca, o que isso significa?
Significa, toma ar, que você tem duas opções: ou você preza pela minha integridade física e sanidade mental e desiste do garoto, ou faz um milagre, vai junto com ele na mala do avião, acorrenta ele no pé da cama.
E se eu não escolher nenhuma dessas?
Aí eu nos matoo coração suspira aliviado como se tivesse desabafado.
Mas, mas..., formulo em um misto de desespero e indignação, e se eu simplesmente não puder escolher apenas entre uma dessas?
Resignado e convicto, o coração responde:
Eu só posso lamentar...
Eu não posso fazer nada!, declaro.
Claro que pode!, o coração toma partido, mas mente para si mesmo. Você não o ama porque quer! Se pudesse, esqueceria!
Esquecê-lo? Prefiro morrer!, digo resoluto, meio sem pensar. O coração bate muito forte, mas dissimula a preocupação respondendo:
É para isso que estou aqui!
Espera!, Não sei se quis dizer isso! Ainda tenho vinte dias, não?
O coração respira enfadonho.
Vejo agora quem é o verdadeiro pateta. Já pensou no seu último pedido?
Tudo o que eu mais quero é tê-lo, sentir sua pele, tocá-lo com meus olhos, amar o castanho-claro da sua íris, mergulhar nos sedutores recônditos mais belos e protegidos de sua alma, sentir o cheiro do seu carinho, os músculos retorcidos da sua boca, sorver seus pensamentos, sentimentos e sua saliva, apertar seu peito e amassar seus cabelos, ouvir a melodia da sua voz, beber seus líquidos, passar minhas mãos pelos seus volumes, entrar em sua vida de cabeça, tamborilar seus joelhos com a ponta dos meus dedos, pensar como ele pensa, tatear suas florestas, cultivar seu sorriso lindo e ser feliz ao seu lado. Enfim, sorrio.
Não é um pouco demais?, o coração, desconcertado, permanece incerto.
Sempre foi.
Lá fora a luz do dia cega os olhos.

sábado, 31 de agosto de 2013

Alta.

Naquele dia a pizza havia atacado nossos bolsos. Por que quarenta reais? Muito caro, fiquei de cara! Política: lhe disse, você é um ignorante! E então, se foi. Sem saber muito bem o que fazer, hesitei uns bons vinte segundos antes de depositar o dinheiro sobre a mesa e sair à sua procura. Quarenta minutos depois, na frente da porta do vinte e cinco zero um, as luzes se prostituíam pela chegada deste elevador ao derradeiro andar. Corro, você não sairia do cubículo se eu não lhe retirasse à força de lá. Sequer me mira, age como se um mero obstáculo de um metro e setenta o impedisse de alcançar seus objetivos prediletos, finge não me ouvir, seus olhos opacos são fantasmas macabros. Algo me goela, queima. Depois de um impulso incontrolável, olho para baixo, sangue quente no assoalho do aposento.

Doutor, me ajude, a cada briga que temos perco um pouco de sangue. Ontem foi isto - e então lhe mostro um tecido vermelho-bordô, um exemplar asqueroso e viscocento da minha última gorfada. O médico olha com resignado ar de gente aventalada e conformada: o que temos aqui na nossa frente vive acontecendo, o máximo que podemos fazer por enquanto é assistir isso aí.
Ao longo de seis meses perdi partes do meu coração. Na última consulta, doutor Mariano ficou inconsolável: olhe isto, girava no ar os resultados da última ressonância do meu peito, seu coração tá igual a um queijo suíço. O que eu poderia fazer? Esperava o momento em que terminasse por abortar sua carcaça de uma vez.

Nossos olhos saltaram, meu e os daquele menino, saltitavam, se beijavam, se almoçavam, jantavam. Meu sangue esquentou, intumesci-me todo, minha boca aberta boquiabertou-se em escalas até antes desconhecidas, suavam como porcos no banho turco as palmas da minha mão.
Doutor, é urgente, liguei para Mariano por volta das duas e meia, com voz de pura irresistibilidade. Milagre!, exclamou o médico ao examinar incrédulo o novo retrato deste coração magicamente reconstituído. Sorri para ele e, cúmplice, piscou-me um olho.
Voltei para casa ávido de te contar a novidade. E então aconteceu. Você ouviu atentamente o que eu tinha a lhe dizer, e então, repentinamente, pareceu acometer-se de um mal súbito, algo como uma possessão, revirou os olhinhos, de sua garganta se ouvia os rumores laterais que sinalizavam uma movimentação árdua, doída, fatal. Corri para o hospital, doutor, me ajude! Olha como ele está! Qual é o procedimento?
Agora?, ele me retrucou, agora é só esperar. Finalmente, depois de uma semana de convalescência, fui chamado com urgência para o setor dos desesperados. Do lado de fora do vidro, assisti teu sofrimento enquanto vomitava o próprio coração inteiro de uma vez.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Dois dias antes do meu aniversário, em 2009, escrevi isto.

é claro que eu te escuto
consciência minha não falha
nada falha, tudo é palha
por que eu te refuto?
enquanto luto, estás de luto
tudo é secreto e verdadeiro
inclusive o dinheiro
eu secreto no banheiro
nada é falha, tudo é palha
eu não te fumo, eu não te trago
não bebo o sumo do teu afago
não me afogo em teu lago
eu flutuo, eu ciclovôo
é claro que eu te escuto
consciência-fruto, e de você
desculpa, eu gosto de outros

E antes de ontem, escrevi isto

é trapo - mudo surdo
minha vida anti-fachada
nada é fada e tudo é um fato
é foda o dia inteiro
é mudo mas também ligeiro
tudo é veneno - e cortesia
café ralo jogo na pia
e pela pia o rodo ia
tudo roda - tudo é foda
eu esqueço um braço - mas abraço a fada
não abro safada - me safo calada
e não digo mais nada
eu flutuo num fátuo fogo
prescindo de outros remédios
peço uma média - e de moi?
sei lá, outros me gostam


também escrevi isto

epístolas
epistemologias arredias voadoras
_____e as pessoas se trocando para ir ao supermercado
misturas cosmopolíticas corrosivas - corrosivos olhares
_____nas ruas são bandidos em concorrência
_____congruentes
_____grudentos, obstinados - os bandidos se assaltam na noite bandida
e nós meninos nos assaltamos
_____roubamos mutuamente todos os matizes do castanho
_____da vida castanha dos últimos quase seis dias
eu te faço algumas coisas - fazer aqui é um substituto
_____substitui as coisas perceptivas - dor, sentir, aliviar
_____substitui as coisas que transcendem - amar, desejar, ter saudade
_____substitui as coisas tão completas e infinitesimais que jamais poderão ser escritas por mãos em folhas de papel, tão feitas do mero acaso de ter-lhe conhecido que parecem fruto da própria apreciação da sua proximidade imediata e infinita

te gosto em escalas mil

domingo, 11 de agosto de 2013

Um buraco todo seu

Você, de repente, concreto, conciso (não obstante cretino, mas) reto, perdoa este pobre abstrato, substrato absurdo, coisa difícil de engolir, perdoa? Faço um desenho na minha perna, minha coxa flexionada goza de um sorriso macabro, tão macabro que eu o violo, canetadas ávidas em transformar o sadismo desta mão inconsciente na mais pura expressão de inconsequência, rabiscos incessantes, um pretume desesperado. Que ideia, desenhar a caneta na coxa! O que é mais macabro, a insistência do seu sorriso, ou o sorriso da sua insistência? Acho que são mesmo os olhos, em espirais, remetem ao infinito e à loucura, e, logo, ao inferno! O sorriso persiste na coxa apesar dos rabiscos incessantes, mas não quer ser censurado, exige reconhecimento, e então o primeiro filete vermelho macula o pretume da tinta, coincidindo com o doloroso gesto que rasga a carne, tatuando meu corpo com a desesperada vontade de não vê-lo feliz - ou ostentando aquela suspeita alegria. Com a rubreza do meu sangue, vem o insight. Vou na cozinha, pego a mais afiada faca, elejo aquela com as serras mais minuciosamente conservadas pelo tempo, e então desenho com sua ponta aguda o contorno do enredamento de linhas pretas a esconder o indesejado sorriso. Como quem corta fora a casca de uma batata prestes a explodir, escalpelo-me, na região desenhada, que passa a exibir então um brilhante e vistoso círculo de carne, sangue e tecido adiposo, uma lua esquecida, rejeitada. O destino da lamentável obra-prima? A privada. Retorno à leitura. Quando dou por mim, observo que o mesmo sorriso infeliz foi traçado com exatidão pela mesma tola mão -desta vez no meu coração. Suspiro. A noite vai ser longa.
Suas palavras queriam ser meias, queriam ser meras. Hoje algumas palavras são dominadas por gente que busca algum conforto em uma ostentação barata na rede, mas outras ainda cortam, desferem golpes baixos feito uma bica na canela que te apaga os olhos como se uma chuva de maus espíritos irrompesse de um céu até então límpido. Se como as minhas, as tuas palavras não valem muitos centavos - e longe de apelar para o refúgio da iluminação e da diletância barata e serial - escrever é sobretudo o que posso fazer, se à força minha voz é arrancada, e minha garganta nada mais é do que um canal precário e dolorosamente necessário para a manutenção desta fisiologia torpe. Não há refúgios, não há conforto para esta pobre alma ateia, em nenhuma ilusão de boteco. Com a mediocridade que reina sob a minha, as nossas, espinhas, tirar algum prazer de uma mania como roubar pequenas colheres em lanchonetes chinfrins é praticamente subversivo. No entanto, se alguém ou alguma entidade do comando e da subserviência se prestasse a me observar, não sem algum divertimento atestaria o cômico e patético papel assumido por este ladrãozinho de colherinhas, que nem o pingado tomado vale. Pois este sou eu antes de te conhecer. Os pequenos prazeres ainda me pegam, mas nada é tão fatal quanto lembrar de forma tão esmiuçada deste sonho que coloridamente queremos enxergar, como se só tendo olhos para o vigor dourado que exibe a fresca face da laranja, não víssemos todavia aquela que lhe destrói e corrompe por dentro, um mofo azulado e desinteressante que a definha e faz evanescer. Temo padecerem nossos corações de um tal mal, como se, instalado sobre o tempo que lhe determina a vida, o bolor pouco a pouco nos transformassem em pequenas cascas sadias e amáveis por fora, mas podres e amargas por dentro, e a coisa mais fértil que nos restaria, seria a total decomposição.
E que insistência esta em teus olhos me ferirem, serem besta e compaixão. Os olhos que ora me fustigam com dúbio desinteresse, são aqueles que sob seus dourados cílios desvelaram com inédito pioneirismo essa vibração, capaz de tornar sensível mesmo as células mais mortas, pelo meu corpo rejeitadas. Se você reconhecesse a insistência deste olhar que teimosamente persigo e que com cega obstinação busco decifrar, se você soubesse que já sofro com seus sons, guinchos e ruídos, não abriria a boca para dizer palavra.
De onde, e de onde sai esta fúria?
Talvez um pequeno e ressentido homem, rabugento e mal educado - e que esconda uma misteriosa fraqueza em seu âmago - esteja alojado em seu corpo como uma substância entre o pâncreas e o fígado, bili que só pode ser retirada com uma bruxaria precisa. Na maior parte do tempo este homúnculo está adormecido. Mas quando acorda - e se um Deus existisse, este saberia como odeio este homenzinho - que terríveis sentimentos passo a nutrir, e o que eu não faria para vê-lo sendo fagocitado e eliminado deste pobre corpo que ingenuamente lhe abrira as portas outrora... Mas antes fosse isto, e o mistério dessa sua maledicência ácida só não é maior do que o enigma do meu coração que não pode viver sem teu sangue, meu peito que não vislumbra possibilidade outra que sequestrar teu ar, minha boca que não admite a secura da distância entre nós - teus lábios e os meus -, meus olhos que beatamente te sondam como se cada detalhe de ti apreendido fosse a última possibilidade de gozo pleno na vida, e das minhas mãos que são o canal e o casal pelo qual circula toda a minha energia quando tocam sua pele quente e enérgica, sempre ávida de ser tocada. Não tem nada que me mova neste mundo que não dependa de seus gestos, palavras e passos, como se fios invisíveis amarrados ao meu coração e cabeça me lembrassem o tempo todo de que o limite dos meus passos é condicionado pelo tamanho e elasticidade dessas ligações. E não há nada tão prazeroso quanto me enredar neles o máximo que posso.
E nada tão horroroso quanto ser compulsoriamente sepultado por esta âncora no meu coração, na areia movediça desta podridão que se assume, e conosco convive, como um inquilino indesejado, aquele agregado insuportável que colonizou a rede de esgoto subterrânea do nosso lar, tendo antes anunciado sua malgradada vida com uma comovente canção de dor, e disputado com a nossa disposição numa esgrima de faquinhas de rocambole.
Estamos inflamados. O homem se apaixona pelo fogo. No início, este aprende a brincar, brincar de chama, brincar de calor. Toda noite o homem vai de encontro ao fogo, destemido e insolente Ícaro buscando a promessa de noite calorosas e acolhedoras. Mal percebe o homem, mas o fogo pelo qual está apaixonado cresce com insuspeitável silêncio. O fogo, antes brando, abraços flamejantes na noite pobre, cresce e envolve o homem. Este passa a ter medo, muito medo, mas continua dispensando ao fogo todo o amor de sua vida, cultiva com afinco sua companhia, mas já está acorrentado. Um dia ele se aproxima, a casa está vazia. Acende o baseado, cai o fósforo ainda aceso no chão, e aí um clarão lhe fere a vista, o calor insuportável lhe consome. Morto de amor, suas cinzas enfeitam o macabro aposento onde, com olhos anteriormente vívidos e brilhantes, aquele homem amava e alimentava seu fogo com a própria vida.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Gerondif


que ideia, fazer francês. que aula chata. não quero mais saber do Gerondif, que foi, que faz, se faz faltá ou sofrê de flatulenciá cronicá. felizmente hoje, da janela ao lado da qual inocentemente me prostrei, há um camarada fazendo um trabalho dez vezes mais ágil do que o nosso aqui - em um trator.
um pequenininho, eufórico, vai de lá pra cá; fico em dúvida se são os anos de experiência, ou se se trata de um entusiasmo esbaforido que ele não consegue disfarçar nem pros alunos da faculdade de filosofia. retira massas de terra e grama sobressalentes, anda - o trator anda ou o quê!? - dois metros, ultrapassando uma estrada de pedrinhas artificial, e deposita sobre a área depressiva. obcecados - a máquina e seu cérebro maquínico - pela lisura da superfície. camisa branca xadrez e calça jeans. que ser humano consegue trabalhar em um trator de calça jeans debaixo desse sol.
...e a aula de francês vai se esmagando, esmagando, se deixando esmagar por interesses outros.

oh droga! ele foi almoçar, e eu não!