quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Mich'Eu

devir-michê em conta-gotas


passo

xxxxxx, nick do skype, e Renan Diego, o meu, um cruzamento de olhares abrigado pela efeverscência de gentes esperando atualizadxs conterrânexs artificialmente bronzeadxs em Times Square e coisas assim, Aeroporto Internacional de Guarulhos, e a conversa dura três minutos - menos que os cinco previstos -, mostro conforme combinado meu pé, tirando-o discretamente do crocs.
- estou com seu dinheiro aqui.
- suave.
livre de seu olhar clinicamente treinado para identificar dominadores, perco a compostura.
algo como desejar rir de regozijo, berrar de nervosismo e chorar de desespero, obviamente acompanhado por um terrível enjoo para o qual a larga quantidade de cafeína ingerida pouco antes agregava.
cinquenta reais, lucro de quarenta e poucos, logo convertidos em uma cueca amarela com a palavra dinheiro no elástico e uma corrente de latão.
chamo de investimento.


acidente de trabalho

ele pechincha, mas não dá: é muito feio! ainda assim contrata: meu primeiro programa de rua.
depois de poucos minutos me chupando, sinto uma fisgada tremenda no pau, vermelha é a cor que visualizo no instante da dor fodida! vermelha é a cor que tinge minha cueca à medida que meu pau latejando esguicha sangue a partir do meio centímetro de fissura recém-aberta! vermelha é a cor da poça que se formaria ao seu redor caso o que desejei naqueles instantes se convertesse em realidade!
receoso, o FDP esboça preocupação, mas receia represálias imprevistas, corretamente, como qualquer um faria ao se defrontar com minha feição desoladora e maníaca calculando o prejuízo sobre o instrumento de trabalho.
cara, seus trinta podres reais não vão pagar nunca os vários dias que deixei de trabalhar por causa desse acidente de trabalho.


janta

- gosto de dar pra moleques desde criança, ele confessa pra mim já dentro da pizzaria.
seria surreal se não fosse ardentemente possível. do que você teria mais nojo? da barata que vi passeando matreira por entre as mesas, ou da esporrada que ele alvejou sobre o piso no qual mamãe, vovó, titia, bebê deslizariam na noite seguinte antes de sentar e pedir uma margherita?


xenicalizar

orlistate é um fármaco que tem interagido com meu corpo. um de seus efeitos secundários, por mim almejado, é a perda de peso.
outro efeito é a excreção de gordura humana líquida pelo rabo - e por isso alcunhei a pílula de cheque-anal. termos presentes na bula, como incontinência fecal e perdas oleosas servem para agregar à ambientação de filme de terror e suspense.
a partir de um certo momento, xenicalizar-me tornou-se convergência entre aspiração estética e investimento em um plano de carreira.
xenicalizar e prostituir; tenho encarado estes verbos como formas de testar e atualizar meus afetos e desejos.
e de repente ganhar uma grana com isso.


xxxxxx (em três atos)

às vésperas vespertinas, irremediáveis e neuróticas de 2014, desço no metrô República, saio na rua do Arouche, viro à direita na Aurora, à esquerda na Vieira, e passo por ele. a cena de sempre sobre flertar.

última tarde do primeiro dia de 2014, saio da casa daquele viado enormemente asqueroso depois de meia hora de suplício, oitenta e cinco dinheiros no bolso. o nick $ 2 Ativos rendera aquele montante. tenho que de alguma forma retribuir ao xxxxxx.

trabalhar com prostituição implica em lidar com formas contingentes e imprevistas de ética, responsabilidade, atribuição de valor de uso e de troca, e contrato. o coleguismo não escapa dessa lógica. xxxxxx se apaixonou por mim, e isso não apenas marcou nossa parceria, como assinou seu óbito.


xxxxxx

xxxxxx queria me esganar até entrarmos no apartamento na Herculano de Freitas. xxxxxx é um doce - o doce veneno de xxxxxx. queijos importados, cerveja à vontade para mim, para eles uísque.
de posse do resto de uma garrafa de Red Label, xxxxxx foi assaltado. levaram, além do meu boné e seus documentos, os oitenta reais do programa. eu, de posse dessa edição laranja da CIA das Letras da obra poética completa do Leminski, flertei com um moço muito bonito chamado xxxxx, que infelizmente viaja muito.


tekar

tekar, na gíria virtual sexual, é dar um tiro, cheirar padê, cocaína. fazer sexo tekado é uma modalidade de encenação: criar um ambiente propício para excessos - tais como sexo com pederastas.
naquele motel da Vergueiro, próximo à estação Ana Rosa, ele me disse: só faço isso tekado. cheirou pelo menos três vezes na minha frente, e aí, quando o beijava, parecia estar lambendo a tampa de um vidro de verniz.
meu caro, se tekado você é capaz de me dar oitenta reais só pra chupar o meu pau, espero que morra de overdose!


licença

quando a porta do elevador se abre, o pórtico de seu apartamento, o xxx do xxxxxxxx, uma obra-prima do xxxxxxx a poucxs destinada, na Avenida Higienópolis, estou descalço e apenas de cueca, com a camisa e a bermuda de ótimo bom gosto e a bota finlandesa com as quais ele me vestira para ir aquele dia n'Alôca.
jogo as peças em um canto qualquer assim que entro, a passos largos trepido em direção à sala da televisão - onde minhas roupas plebeias estavam guardadas -, visto-me rapidamente, passo pela cozinha, pego uma Budweiser e, sem dizer palavra, saio do apartamento.
até que se prove o contrário, pela última vez.


super'stição

em 2009 com a xxxxxxxxxxxxxx em Praia Grande adquiri um vidro de colônia Pega Homem. até hoje se dispenso sobre esta torpe epiderme tal solução, imediatamente minha cabeça delira deslizando sobre o cheiro daqueles dias.
não acho que a magia da loção seja infalível. acho que atrai homens que me deixam nervosa na rua, aumentando a propensão de gastar meu precioso $êmen com vícios.


fazer um vício

difícil esquecer'tos gostos. a primeira vez que comi lichia, as várias primeiras vezes que comi lichia. hoje bem sei que comer lichia é quase sempre submergir em delichioso deleite.
a cabeça da sua pica era rosinha, lembrava a carne da fruta que tanto gosto de desfiar, e cujo sugo desejosa e prazerosamente sorvo. restava aí cotejar o leite da sua lichia com o suco daquelas que estou habituado a comer.
entro no carro cinza, placa xxx.
e o doce gosto da sua porra era idêntico.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

ontem Mazinho na noite Perila

---- dei
me conta
__de que você é a/s lágrima/s vertida/s a obcecada-preocupadamente tingir promíscua meus bolsões de água espumando com a aquarela do lápis de olho cuidadosamente rabiscado sobre a feroz carne querendo ser miserável, menor, desprezível
__e é também a sedosa superfície de um cobertor dupla-face, friccionando sobre as crateras e quimeras da minha cabeça, brindando condições aos destemidos ácaros dos meus cravos de imiscuírem-se aos primos abrigados na manta tua; transculturalismo, multiculturalismo, reflexividade
__é por fim o conjunto de fluxos e correntes e flutuações e suspensões (suspeitinhas e suspeitonas) que nos levam e trazem de volta para o mundo das pirocas que sul que são como ouvir killing me softly

você é Mazinho tudo isso
e mais algo
a aventar



mago dos pombos

ao concordar com a assertiva Eduardo
rima com perturbado
(censura Dorival com sua postura altiva
como se expiasse enfim... o
psico-pato
fechando o bico
e a sócio-pata
outros bicando)

gatos decrépitos
-------------------velhos
-------------------------neuróticos
---------------------------------cancerosos
------------------------------------------neurogatos
------------------------------------------esquizogatas
------------------------------------------e você
um você um você um você um você limpou o cocô limpou o cocô limpou o cocô e desabou e desabou e desabou até por completo desabafar, até desabafar por completo enxofre o ovo às pressas engolido.
se ao menos os bichos que te consomem te consolam,
quem sabe eu não possa me juntar ao pombal-gatil que te orbita, deixa eu ser
teu gat'ombo, me dê o alpiste
com que te alimentas,
e se o único jeito de ter sua atenção e amor seja cagando fora do vaso,
me deixa ser teu gato neurótico prostrado pela casa.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

para o cigano podólatra de Mairiporã

cada teu SMS
é rebelde ereção
se a pica adormece
logo ponteiro aquece
me enchendo o moletom


transcendência

tenho pena de repente
da trans sem dente


pinto à vista

navegando na internet
Pedro Álvares Cabral
desvelou certo pacote
descobriu sob ele um pau


baticlinógrafo

no contrachoque
da nossa carne trêmula
ligo o cronômetro
e espero teu bafômetro
se aproximar do meu termômetro


estagiário sonho

ele quis me provocar, chamando de delícia quando entrei, mas o máximo que tirou de mim foi uma ereção.


conforme apagava a lousa, a professora incompetente de sociologia apagava sonhos. e eu, enquanto observava meu corpo soterrado por snowflakes - poeira do giz - amaldiçoava o calor, a poeira, aquela escrota...


sem perigo de errar

rio de janeiro. não aquele paradisíaco, dos macaquinhos, pastoral, mas o secular, dos macacões, lumpemproletarioso. peço um café com leite. retorna em pouco, não há.
-tem café só.
-pode ser.
coça os bagos como se visasse agregar valor ao produto. um e cinquenta. é o mínimo que poderiam pagar a mim por tomar aquele líquido cor de barata. fixo minha atenção sobre a aparência da substância. pondero, seria óbvio e almofadinha demais que, depois de tanta coxinha paulistana verde podre, qualquer chá de esgoto vendido como café me envenenasse.
um miserável - como eu - pede um café. o "coceirinha", como eu apelidaria o ser humano incubido das transações primárias, responde mais amargamente que o próprio café.
-se tiver um e cinquenta aí eu dou.
o pobre miserável acafetado expõe seus míseros trocados. algo como um e trinta. "coceirinha" respira fundo, se coça mais uma vez e, com o ar virtuoso e enfastiado de um santo popular atendendo a milagres de baixa estirpe, traz seu copo de pseudo-café. se tivesse me apetecido oferecer ao coitado minha pequena dose de má sorte requentada, teria lhe poupado suas parcas moedas e em mim o receio do sofrimento.
da próxima vez vai ser cerveja logo.

sábado, 23 de novembro de 2013

CA(M)P/D(ERN/M)O - campineiros leminskinhos

encharcado

chove na UNICAMP
pobre unicão
sozinho em Barão


etnografia tradicional

o etnógrafo preocupado
pensa
avunculado
ou pro outro?


heregia

sancta et ágil
a hagiografia
do agiota


glue-glue

para o per'ustadunidense
o dia é de ação desgraças


minhas cabeças cheias de perguntas
e respostas suas, sujismundas
ou um corpo só que se inunda
pela doce lembrança da sua bunda


na minha frente
ele olha pra trás
de min
---------ha gente


mas veja só
que irônico
eu moscando
atazanam tosca
a mosca e seu vôo
macarrônico


kópros-ducção

coprófilo par
na vala se engaja
na co-produção


LGBT amo


pequena prosa descompromissada sobre um pequeno estruturalista descompromissado

ele se veste como nos anos 1950s. sorri e me olha de esguelha como nos anos 1960s. pensa como nos 1970s. fala como nos 1980s. e me ama como um clássico.


até parece que você não quer
----menino do pantanal
que eu queira te ter
---------------------------eré


você - me - fita
e ---------- evita
você umedece
e ----- esquece
você -- m'olha


caro acadêmico guatemalteco

me mostra logo, não fala!
o que há por debaixo
da tua Guate
------------------mala


pequena prosa descompromissada sobre pequenas rugas pretenciosas

cada pé-de-galinha dela denota uma década de acúmulo intelectual, vivacidade burguesa, sedimentação cortês e ocultos furúnculos na bunda.


enquanto isso o etnógrafo (ainda) tradicional

ficará preocupado
"quem está vinculado
ao meu avunculado?"


discreto terremoto

após o abalo, cismo
me jogo no buraco
abismado


Joel: case report

cheio de vontade d'um vazio
o menino então vermelho
tira a água do Joel
--------------------------ho


pequena prosa descompromissada sobre a paixão-Monet

quando nos vimos pela primeira vez, imaginei que nos conhecêssemos não menos do que duas vidas inteiras. mas, ao retornar ao maquínico e distraído compromisso do teu olhar, tive certeza de que me enganara.


eis que grita o empreendedor

SOLTEM-NO!
eu estou farto
pelo silêncio
e pelo olfato!
quem soltou pum
na dark room?


despretenciosa nota sobre
sereno terno flerte

quero te abraçar
te darei uma blusa minha
--para te abrasar
quero te dar uma balinha
para tua língua tão sozinha
--acolher e chacoalhar
você vem pra minha fileira
a cada vez que torto entorto
carne, ossos, pele e alma
meu pescoço
--------------------(na) esteira
-------------------------------------(da) calma


Gui: case report

e não esconde
sob a epiderme
esta quimera
tão pós-Guilherme
Antunes-kuera


EROS NOV/2013 BARÃO

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

o homem do pau mole II

a segunda parte - da história - é menor.
me ligou. seria no sábado, me ligou hoje, sua voz parecia fanha, prematura, a cobrar, de um orelhão. logo, polidamente, naquele mono-tom, pediu desculpas que soaram muito sinceras e necessárias por atribuir ao custo da ligação a minha boa vontade - e que vontade boa eu estava.
não me retornaria. não vou retornar mais nenhuma ligação, foi mesmo o que disse. fui legal em lhe dar o papel com meu telefone, me retornara em virtude da promessa feita segunda, mas, foi enfático em me dizer, não vislumbrava possibilidade de me procurar mais uma vez. lastimava o fato de - levando-se por alguma pretensão - ter me desapontado.
lhe disse, bom, tens meu telefone, se precisar conversar comigo pode me ligar. Eros, repetiu cristalinamente as já gastas palavras, te liguei para te dizer que não vou te retornar, e lamento ter te decepcionado, não posso te dar feedback esse que esperas. podemos nos falar em outro momento das nossas vidas.
como ele lamento. lamento por não ter podido me entra(nha)r e desestranhar através da sua mórbida esquisitisse, pois, foda-se!, estava mesmo era disposto a morrer de amor.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

o homem do pau mole

"...para mim 'ser humano' e 'respeito à pessoa' não me diz nada, é conversa fiada. Não tenho a menor vontade - concordo, minha situação é diferente - de ser um 'ser humano'; não quero que me respeitem, pelo contrário. Se alguém passa a mão na minha bunda, fico muito feliz. Se alguém assovia para mim na rua, isto me enche de alegria"

"...a morte de Pasolini não me parece nem abominável, nem lastimável. Até acho que foi muito boa. Tão menos banal, por exemplo, do que um desastre de automóvel. Se é para morrer, eu, de certa maneira, a desejo para mim e para todos os meus amigos"

Guy Hocquenghem

o homem do pau mole

suave, lhe disse. suave na nave, me respondeu. suave na nave repeti, como quem encena com desgastada vontade de não parecer enfadonho, mas acompanhando um suspiro de pura ânsia. passeando pelo shopping, me perguntou, aqui é grande, respondi perguntando, gostava das vitrines, e assim seguiram as dialógicas interações. logo as revisitamos, coisa de uma hora, parece que foram duas, mas foi umazinha só, ele me perguntou, depois da terna casquinha - que lhe deixou encasquetado com misteriosa minha generosidade -, me disse, se eu não tivesse chegado em você, você teria chegado em mim. achei que tivesse sido só eu o primeiro a nos desbravar, mas admiti um possível engano, só que não durou muito, que minha cabeça estalou como se o eco profundo de uma escadaria de emergência de um shopping derrubasse suas estalagmites e estalactites. foi pioneiro suave meu que inaugurou nosso tiroteio de interpelações. ele concordou. foi fácil, já que estava encantado pela sua esquisitisse, teria sido difícil pelo fato de seus olhos me enganarem na sanitária incursão, olhando apenas quando os meus desistiam.
em uma segunda, obviamente.
o que gosto de fazer, ainda lambíamos o sorvete de marrom e branco, gosto de andar de bike, eroticamente, está curioso, e eu lhe respondo sim, e então elocubramos todas as modalidades possíveis de relações sexuais envolvendo bicicleta.
parece futebolista você, corintiano, com alvinegra essa camiseta manchada e esse boné de mano. fico feliz de parecer descolado, me desafiou, não, não, corintiano. então, fico feliz de parecer acéfalo, e também ser intelectual, nu e um tanto.
zapeando assuntos, explotation, após um convite cujo sucesso foi polida procrastinação, me disse, e se eu estiver apontando uma arma para você por debaixo da mesa, como em Inglourious Basterds, ao que só pude assim reagir, eu teria uma ereção.
(na escada irreversíveis amores. imiscuíam quase pré-puberes pêlos, nossos vinte e uns. mais tarde me pediu um telefone em pedaço de papel. te ligo no sábado. podemos ir ao MASP, você gosta de museu, coisas culturais. pareceu aflito e consciente. estranho que dói. sexy de tão estranho que dói.)
ele jamais sorriu. te ensinaram a sorrir, lhe perguntei. enquanto nos labiávamos e linguávamos, mais de uma vez tocou meu pescoço como se desejasse apreender com exatidão seus tecidos, fluxos, músculos, com fins de, com precisão, censurar-me a respiração e tirar-me a vida. toquei mais de duas vezes o volume da sua calça, que enigmaticamente abrigava pedaço de carne frouxo, flácido e inerte. tenho mais de três motivos para achar que ele é um serial killer homofóbico. como em Cruising. como em L'inconnu du lac. mas* não me importo, pois quero morrer de amor.


*como venenosos pratos de Gula, do Veríssimo filho.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Páginas rejeitadas do Meu Primeiro Caderno de Sacanagem

aqui reunidos trechos pertencentes ao Meu Primeiro Caderno de Sacanagem (10/2009 - 12/2009), descartados da minha postagem sobre 2009, em 5 de janeiro de 2010.


se eu tivesse um ciclista amor, as coisas ficariam mais perto.
e Lua ficaria mais perto da Terra, minha alma do céu, minha casa da tua boca e eu de você.
seríamos felizes e toda manhã sairíamos para dar uma caminhada no jardim do Palácio de Versalhes.

24 10 2009


as minhas fraquezas, eu as escondo muito. as escondo sem orgulho, as escondo mesmo achando que devessem ser escancaradas. ontem lá no parque beijei outro. sabia que ele ia fumar um beck depois da peça de teatro. mas convivendo com os meus pobres eu descubro minhas verdadeiras necessidades. às vezes eu queria casar. mas quero morar na Vila Mariana.

26 10 2009


eu sou um canalha.
um patife.
um cretino.
sem precedentes.
mas aprendendo.
pronto-falei.

- e um patife.

26 10 2009


que vai ser?
vou ficar assim, aqui, escrevendo?
que nem bobo?
nem tem que escrever, nem tem.

listras.

26 10 2009


eu nasci com você, mas agora, meus pés de galinha me levam pra outros horizontes. serei feliz sendo. já sou. é nessa intermitência humoral que consiste todo esse amor que eu (acho que) tenho da vida. caminho nesses pés-de-galinha da vida cacarejando de vergonha ou orgulho. assumo.

27 10 2009


gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. gostoso. e gostoso. muito.

28 10 2009


Socialismo = Cristianismo

28 10 2009


te vi no shopping correndo atrás de outro. quis pedir teu telefone, mas não tive coragem. o outro sapateava e você gravatava balançante atrás dele. e te ver ajoelhar é muito esquisito.
mas continuavas charmoso.
palpitei de alegria, porque desfaria qualquer mal-entendido, mas corrias frio e preocupado, olhos robóticos e complicados.
ainda te vejo.

28 10 2009


é duro

29 10 2009


labirintado.
morfina cultural.
felicidade pseudo-noturna. carros azuis atropelando segundos mudos.
boicotes aos sentidos.
curvas violentas et canetas negras de 0,4 milímetros.
quase-amor instantâneo.
onipresença musical. não dor.
substantivos-tédio.

29 10 2009


ela era mais ou menos velha. uma velhice escondida na disposição dos sorrisos. uma mulher. criança, enérgica quando queria.
era muito magra, e lembrava mesmo uma linha. e flexível. dobrava-se, de forma assustadoramente elástica, como se um magnetismo sobrenatural distorcesse sua postura. um branco amarelado, expondo os ossos da cara. pouca pele pra muito osso.

29 10 2009


você se ofende se meus olhos te perseguirem?
eu não os controlo, já não posso mais. deixe-os saltitarem atrás na sua nuca - seus últimos fios de cabelo tímidos nascendo.
deixe meus olhos roubarem tua essência um instante.
não se ofenda.
não se ofenda.
eles só querem um deleite. contemplação. um beijo secreto.

2 11 2009


combinação insuportável = calor + carência

carência mais calor

3 11 2009


há dois segundos atrás pensei: gostaria de metamorfosear-me em uma grande e suculenta empada de palmito, e autofagocitar-me, engolir-me, mastigar-me em mordidas ao avesso.
então as migalhas de mim fundariam uma cooperativa, e se instalariam num estúdio fotográfico abandonado, cujo eterno fundo representa a eternamente romântica - ou romanticamente eterna - fachada do Jardim Botânico de Curitiba.

3 11 2009.


descobri com um filme que a vida é a melhor coisa que existe, e que o medo é aquilo que a impede de fluir normalmente, então nós temos que lutar contra ele até as últimas consequências.
SIM - porque a coisas têm que acontecer magicamente, e a sorte não existe, e se existe não passa de uma visão de olhar o mundo, passa de nada a tudo, mas sem mais especulações filosóficas. só sei agora que verbalizar o substantivo felicidade quer dizer o mesmo que "viver".

s/d


vi uma notícia no jornal e lembrei de você
a matéria não importa, já não há mais matéria, só suspiros
apenas um suspiro apertado nas suas calças jeans
a razão pela qual essas desengonçadas saíram andando
tem a ver contigo? tem a ver comigo? tem a ver com o mundo? eu queria olhar pra um jornal e não lembrar de você.

6 11 2009


tire os seus pés de galinha do meu mundo infantil

s/d


A inteligência
o sorriso
o teu corpo
me apaixonam

PRÍNCIPE
que eu te amo
e (não) te conheço

s/d


eu te tucuruvi pegando a linha azul
as leis da Física me levaram até um passeio legal
na minhoca metálica de uma São Paulo cruel
com cus, crus, bares, lares, sensacional

eu levei um natal
no meu bolso igual
um osso, de Santa Klaus
eu levei um natal
regado a coca e cal
um fosso de Santa
é mal

ai ai ai ai ai...
ai ai ai ai ai

aaaaaaaaë!

s/d

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

quase nós 

foi um quase olhar, a princípio, desconfiado ainda que se arriscasse a cruzar com o meu. foi uma quase entrega, pois enquanto nos metíamos circularam monológicas apenas minhas palavras, as tuas incubadas na tua cabeça. foi uma quase janta, eu estou à mesa e o convite ainda não foi feito. foi uma quase troca de telefones e uma quase promessa, pois sequer dividimos demais aqueles gracejos concernentes a um retorno então possível. enfim, foi uma quase vida, que você expeliu do seu mundo como uma árvore que, cansada da flor decrépita e obsoleta, regurgita o ornamento a que dera vida, substituindo-o pela expectativa da próxima coleção primavera-verão.



você foi uma tragédia
extremamente necessária
e deliciosa - na minha
olhe bem que bem posso morrer
por já ter bem vivido com você
e o fracasso por nós sentido
entre fracassadas sensações
mal atendidos foram certos pedidos
e tantos foram os nossos perdidos
que enfim ao me encontrar
estava longe de você
e também longe de mim
em um cine pornô, um fractal
feito de bares, maconha, vinho, e bananal
da mais bela vista da Bela Vista
vimos o céu abaixar - baixo
mas que tal se tivéssemos direito
de não termos mais nenhum jeito
fomos uma tragédia necessária e deliciosa
mas faça as malas, vamos entrar de férias
vamos viver outras tragédias



parágrafo único:

mais um sinal do meu passado, 2011. um amigo da Isabel. ele retornou àquele dia, derivando pelas augustas e paulistas encontrei pelo menos dois conhecidos. normal, para uma tarde ensolarada na maior metrópole do país. nós todas contribuímos com afinco para tornar cada brecha e inflexão um paraíso absolutamente previsível. quando não podemos fazê-lo, brincamos de transformar nossa casinha de bonecas em um castelo de areia de sonhos paulistanos e intranquilos. aí encadeamos grãos de areia com a engenheira convicção de que manipulamos meros tijolos. só não seremos capazes de prever que é nosso o sangue que o tinge.
me irrita a magreza dos outros, me irrita a magreza de um outro Eros, dezessete anos, saindo da sessão com esta mesma bermuda, feliz por ter assistido Prinsessa - faltara no colégio só pra isso! -, cantando a plenos pulmões, com seu emudecido sorriso, Haven't met you yet, para uma pessoa que jamais conheci como o B.T., que jamais conhecerei como o Eduardo de I., ou que cheguei a bem conhecer, como o Thiago. naquele 2009 eu não me importava em ser desejado. digamos, jamais tivera uma noção do que era efetivamente ser fustigado por olhos ferozes e rodeados por ferocidade humana e viril, ou então teria apenas alguma noção prévia e precária, como a misteriosa troca de olhares que, em 2008 - ou 2007? - me atiçou o espírito na terrível ânsia de eternizá-los. cheguei a desenhar um croqui, talvez vasculhando minha gaiola repleta de tigres de papel higiênico usado, encontre, em meio a tardes cantando Amy Winehouse e Leny Andrade e Ivan Lins no Parque da Juventude e trechos sublinhados de A arte de viver para as novas gerações de Raoul Vaneigem, o esboço original, a efígie marcada a caneta com ímpeto numa folha desesperada em me ajudar inutilmente a imortalizar aquele momento que hoje não passa de uma vaga lembrança. aquela fila - estava eu a pagar o livro do Hakim Bey quando teus olhos irresponsáveis insultaram meu autocontrole fazendo meu coração explodir e meu pau latejar -, aquela plataforma de metrô, aquela camiseta (feia) cuidadosamente conservada. Thiago me ajudou a desapegar dela, faltava apenas um lampejo mínimo de juízo estético para cair em mim. no dia em que B.T. desmarcou com apenas uma hora de antecedência o nosso rolê, sentei-me chateado no quintal. vestia aquela camiseta azul, feia. sendo refém e coronel dos meus sentimentos, fui naquele ensolaradíssimo dia para o Ibirapuera, em parte sozinho, em parte acompanhado por seu fantasma. vi caixões da Yoko Ono, meus sovacos choravam. estava tudo começando a ficar bem.
no fim de 2011, enquanto meditava em Pontal do Paraná, ouvi várias vezes a gravação de uma música que fizera naquele ano, que dizia, dentre outras coisas:
no penúltimo dia do ano retrasado
eu me via sozinho na sala de cinema
esperando que os outros me oferecessem algo
é algo que esperei durante muito tempo
talvez eu espere até hoje
não posso ser seguro se todos os homens são iguais
eu desisti e voltei, procurei, não sei, não sei se acho
ah! mas que vontade de sonhar que eu tenho - com outro macho
tardes inteiras de bike, café, museu
ah! tolo sou, sou tolo eu
certa vez disse no facebook a uma amiga que essa música falava bastante sobre mim. ela ouviu atentamente a gravação e elogiou um verso fictício ao qual provavelmente atribuiu o título da música (, ou Sozinho): ah! todos são só, como eu, provavelmente uma leitura plausível baseada na minha péssima dicção ou na qualidade horrível da gravação. no entanto, a alternativa sugerida pelo acaso me pareceu extremamente sincera e reconfortante.
durante a sessão do chato filme equatoriano, vi então esse amigo da Isabel. e, com a eroticidade que me é bem peculiar, logo botei-me a escrever a próxima lista dos meus dias.
parágrafo único:

éramos mil/leminskinhos

talk show

andaram me questionando sobre a pertinência de se insistir sobre um coração retalhado, repartido
e eu só pude responder até agora:
tenho mais de um coração


ode às mônadas

esse prazer do não-sentido
(de gozar de uma certa expectativa gozada
ao imaginar onde logo estará a dedilhada mala)
já o posso sentir
pois
tal qual mônada tardiana
meu cu aberto está


cara Luma

você acha que é uma mulher
e eu acho que sou um menino
e a vida segue
eu mulherando
e você meninando


caro Júlio em outubro

quando voltar do cerrado
eu seu carro encerrado
traga a flor
de que Brasília és


Gi de asas

gire
como a gi re-
gira

pombe
como a pomba
gira


st#1

os mesquinhos
leminskinhos
na cabeça
fazem ninhos


st#2

aliás
a minha
é juventude
trans
e
viada


igorette

tô puída
tô moída

tô safada
tô sa(u)nada


caro Mazinho Perilo

atrás do seu períneo
ou na frente
encontra-se um perigo
aparente
aliás o seu amigo
está doente
...de esperar a sua volta para um bar com balcão prateado e frutas penduradas


st#3

___a chuva
leva a lama marrom
___a chuca
chocolate batom


chucai

acho
que a chuca
machuca


st#4

um facho
de sangue
chumaço
de pelos
saem fezes
da chuca
o cheque?
um medo


caigai

a chuca
me deixa
maluca


contra-dicção

encerro o meu cantar
cantando sem parar


caro Allan

que de tanto almejar 
teu nome em mim
quase - ao nos despedirmos -
te disse
Ah! Lão!


thaigai

viado
thiago
te amo


dê repente-ago

de repente assim
o mundo é um thiago
barulhento e delicado
para o qual só digo sim
sem o qual sou um coitado