sexta-feira, 15 de maio de 2015

O rapto do fôlego, eloquência do silêncio em camadas rajadas, ou Pequena declaração I need u boy

Estaria ainda longe de saber como dizer-te, Ó, garoto de globos oculares amendoados... Não, não! Peraí! Humm...

Veja as mãos, ou melhor, olha para as tuas mãos, ou melhor, eu fico vendo as tuas mãos... Peraí, agora vai, hein!

O movimento fugaz - pra mim um raio de Zeus, pra você talvez lapso de São Pedro -, este aperto de mãos, genérico. Pra você, quem sabe aperto de mais, aperto demais dentro de mim. Sobre os conceitos, podemos dizer que por vezes denotam coisas dessemelhantes, quiçá opostas. Acredito que com vida ou morte seja assim. Para aqueles que acreditam em transubstanciação, morte é igual a vida. Se bradam os entusiastas da liberdade para a interrupção da concepção, vida é igual a morte, dirão exaustos os anti-abortistas.
Creio que nada é tão simples como isso. Há um estilo aí. Uma entonação. Se queres entender, pense nesta cena: Você estende sua mão, eu a aperto, soltamos, olhos nos olhos. Te digo:
- E aí queridão!?
Puxemos uma nota de rodapé. O conceito de queridão requer um contexto, não é? Não basta defini-lo de acordo com o verbete da lexicografia disponível.
Quando te digo isto, E aí, queridão!?, estou dizendo muito mais do que qualquer coisa relacionada a afeição ou querer. Note como minha fisiologia se organiza agora para enunciá-lo: E aí, queridão!?
Viu? Significa, me dê um beijo?.

NÃO! Não, carai, péssimo na verdade, não é isso! Eu sou melhor, eu sou melhor que isso, peraí, que vai sair bem, porque eu não quero que você não me leve a mal, é só ficar no lance das mãos, sabe o lance das mãos?, fica nisso, esquece a coisa da voz, da entonação, tem a ver só com as mãos, a coisa da textura, peraí. Sabe o lance que eu falei?, o assunto tem a ver com o aperto de mãos, então foca nisso. Presta atenção, esquece a fita do beijo.

A superfície da sua mão passou bem rápido pela minha. É aqui que residem os limites dos rituais de gênero da nossa sociedade. Não, tsc!, não é isso!

A superfície da sua mão passou rápido pela minha. E não pudemos sentir... Isso, é isso.

Lembra quando nos cumprimentamos hoje? A superfície da tua mão passou muito rápido pela minha, a ponto de quase não podermos sentir e decodificar nossas respectivas dermes. O que você sentiu, eu não sei. Eu, por meu turno, estremeci através do contato com a textura lisa da sua pele. Pouco tenho a dizer da profundidade e da extensão, e mais da tecitura que então sou capaz de projetar. Concernente a cada instante do teu... corpo-em-relação, concernente a cada secção, cada sulco mal explorado, cada canto...

Ah! Você já entendeu, né? Desculpa.

esboços assumidos

s/t

o prazer, q eu nunk entendi, de ser primorosamente normal


s/t (carta)

Ninguém vai ler esta carta. Porque eu limpei o meu cu embosteado nela. E como eu limpei meu cu embosteado nela, ninguém vai querer lê-la.


pan w/ eggs paradiso

Respiro
Respiro
Resvalam tecos de mim
Nexos de um fi-
Nalmente
As bichas de mim
Não mentem
São cegos assim
Legos de bi-
Polaridade
Sempre foi verdade

As vidas acima
Virando na esquina
As prima
Tabata
Surleide
Cida
Um mundo de ho-
Micidas
Planeta de su-
Perfície
Finda

Medra
Cascatas de pura merda
Será que a pessoa certa
Encontra--se sob a seta
De neon

Encerra
Daqueles que escaparam
Da cela, bife a cavalo
Enxergam no horizonte
Um monte
De não


s/t

Minha mãe começou a desconfiar que eu me prostituía na época em que me encerrei em casa por conta do pó.



Cê não entende o que eu falo
To cansado até o talo
Aperta a tecla SAP
Canto inferior do teclado
Conversar vc não sabe
To saindo do whatsapp
Aqui não tem mais wi-fi
Depois conversamos mais

Garoto telegrama
Econômico demais
Ele quer cada vez mais
Muleke faz programa
Seu desejo se inflama
Ele finge que te ama
E te leva para a cama
E arranca a sua grana

A concorrência eh desleal
Quanto vale o segundo
Para um pobre vagabundo
Ter acesso ao seu pau
Quanto vale o agora
Quanto eh que cê demora
Quanto vale o profundo
Gosto do sexo anal

Garoto elegante
Correntinha, aba reta
Debaixo da bermuda
Sua pica está ereta
Ele sonha com um possante
Uma casa, uma preta
E dispensa qualquer ajuda
Esse muleke eh mto treta

Nível universitário
Vacinado contra otário
Ele não marca bobeira
Já passou de estagiário
Esse muleke eh profissa
Quase é PhD
Já rezou a missa
Vai entrar no seu apê
Vai sair da tua banheira
E vai explorar você

Eu não vendo o corpo
Eu comungo
Por isso que eu sou
Assunto


s/t (ode ao Xxxxxxxxx)

Ele me diz todo dia
Que adora me adorar
Que é uma coisa leve
Também densa
Pique forever
Você pensa
Como eu penso em você
Todo dia, na saúde na doença
No trabalho, assistindo tevê
E eu lhe respondo o que ele quer ouvir
Ele sabe que eu só sei mentir
Mas ele ouve com ternura
À noite fumamos um beck
Ele conduz a minha pica dura
Que cada vez mais cresce
Mas quando adormece
Sua atenção madruga
Ele finge que me esquece
Ele fala todo dia
Que eu sou todo seu
Ele não sabe a fria
Em que se meteu
Eu o trato como um deus
E deus eh o q ele eh
Ele sabe disso e teme
Ele está perdendo a fé

De que nunca chega o adeus

domingo, 22 de fevereiro de 2015

cenas d'Erinhos_2014 #2

estava com B. na cozinha muito bêbado de caipirinha cantando "se você quiser alguém pra ser só seu, é só não me esquecer: estarei aqui!", luzes coloridas girando, como sempre. nunca mais vi meu skate.

naquele sábado, eu olhei para aquela grande sala, lembrei da última terça, e fiquei muito triste. vi aquele queijo, as marcações cênicas, a textura do chão que a partir do dia trinta ficaria interditada. no meio de um dos jogos cênicos tive que me retirar para lacrimejar em paz numa cabine do banheiro feminino - o meu predileto.
quando voltei, M_zim, M. e S. estavam ao meu redor. quando foi que aconteceu essa coisa tão linda, de meus grandes amigos estarem ao meu redor em um espaço de formação para a vida como a oficina de teatro do V.?

à tarde fui aO Oficina com B., trombei o F. e sua presa, bebemos vinho, foi honestamente incrível. fiquei bem.

à noite fui pra Augusta. li o esboço da poesia que eu recitaria na terça para desconhecidos, inclusive um viado nervoso de tesão por mim. trombei A_zinho: a sensação de ser desejado por uma pessoa que tu desejas. uma coisa incrível que está reverberando pulsante até o presente instante.

terça de manhã, pensei em tudo que havia acontecido, aquele viadinho escroto ia destruir tudo faltando no dia da nossa apresentação. chorei mais uma vez.

olho para aquela grande sala. meu cabelo estava bastante curto. o viadinho escroto foi.

chegou o momento enfim, o parabéns surpresa para D. ele se emocionou, in a very blonde straight way. e então, enfim, a poesia para aquela terça. tremi. quase chorei. joguei chocolates.

no ensaio para aquela cena, ele roçou sua perna na minha. fé cênica... meu ovo.

no último sábado da oficina do V., já na Oswald, disse, na presença de S., J. e R., mas também M. e S.: eu me despeço da oficina me sentindo meio órfão, mas absolutamente grato pelos momentos incríveis que ela me proporcionou. sim, V. e eu choramos.

agachados depois de muito correr da polícia militar, nos primeiros idos de 2015, ele futuca brevemente meu joelho.
uma promessa de retorno.
ao nada.

cenas d'Erinhos_2014

na véspera de 2014, eu ouvia duas ou três vezes O Vento até chegar no autorama do Carrão, guardava o fone de ouvido e o player, fazia um programa, tomava um pingado, fazia outro, passava depois no quiosque onde o W. trabalhava, e voltava pra casa pedalando ouvindo O Vento mais duas ou três vezes.

mal consegui dormir, Meninos e meninas ecoou na minha cabeça a madrugada inteira. acordei às sete da manhã daquele sábado, sendo que a oficina começava tipo às nove. pedalei o caminho habitual Padre Adelino-Vd.Guadalajara-Celso Garcia-Rangel Pestana, devia estar ouvindo o Ventura, e parei naquela esquina onde costumava comer, nas proximidades da Mazzaropi, e com o dinheiro do sexo pedi um pingado e um pão na chapa. era oito da manhã ainda.

durante meses e meses e meses eu fiz teatro. mas o ápice da minha coisa teatral veio depois daquele domingo - que rendeu óbito e nascimento. na terça-feira, aquele dia inesquecível, aquela sala com um piano. esperei ele recitar a poesia dele, sobre o outono, então levantei logo após, dei uma volta no círculo de gente, e então recitei, alternando o olhar que o eu-lírico-Eros lhe direcionava com os demais confidentes na sala:
Tens a face de mulher pintada pelas mãos da Natureza,
Ó Senhor, Ó Dona da minha paixão. Um coração gentil de mulher, embora avesso a rápidas mudanças e efemeridades passageiras...
Um olhar mais brilhante, e mais autêntico, e imantar tudo que contempla. E uma cor masculina, a guardar todos os seus tons.
Rouba a atenção dos homens, e causa espanto às mulheres - se como mulher tivesses sido primeiro criado.
Até a Natureza, ao te conceber, caiu-lhe o queixo
[aqui meu queixo de fato caía]
E eu, também, caído a teus pés,
[e eu de fato me ajoelhava aqui]
Nada mais acrescento ao meu propósito.
Pois,
[ia até a M.E. pegar a rosa vermelha]
Ao te escolher para o prazer mais puro,
[contornava a roda e ia até ele, ajoelhando em sua frente, com a rosa empunhada, guardada nas costas]
Teu é o meu amor e, teu uso dele,
[voilá! entregava-lhe a rosa]
O seu tesouro.

isto chama-se Soneto 20 de Will Shakespeare. foi minha melhor versão. tod_s ficaram passad_s, há uma interpretação diferente para casa pessoa sobre o que aconteceu. dupla assunção no grupo. e eu assumia estar de fato a seus pés. só eu sei quanto tempo fiquei ensaiando essa porra no quintal que nem um esquizofrênico, enquanto M.E. e M. dormiam embalados pelo Jigglypuff.
enfim, viver, com toda a putanhice - que há pouco completou um ano -, toda a política, todo o teatro e todo o amor, pareceu fazer muito sentido.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

amada Amaya

ilustre visita na Guanabara
ladra ladrando beira-mar a pé
....portando portentosa vara.
....las dos últimas passivas ardentes da ponte do Tatuapé
.............que a deusa enfim as tenha.
.................mi hermosa puta porteña
........- vapores que o rio de la Plata emana -
do alto da serra de Bocaina vejo a Lua
....................do Corcov(i)ado vês o Sol
......................sai de dentro de mi hermana
.................................prostituto portuñol


pau no cu--------------------
pau na buceta
i miss u--------------------
Enriketa

vá fazer 20 reais!

odeio fazer esse tipo de poesia, nesse formato. mas acho tanto que ela se encaixa com a proposta semântica...

eis o conselho que eu dou para os meus amigos
...............................................................................- jovens amigos
vá fazer 20 reais!

quando estiveres estressado
nenhum puto no bolso
vá fazer 20 reais!
pega uma bicicleta
e vai fazer 20 reais!

o frescor da juventude
as rugas que ainda não tens
uma promessa de futuro
dentro de uma Mercedes Benz

quando deixar de ser carona
e pilotar seu próprio auto
diga em bom tom - e alto
quando eu era jovem
fui fazer 20 reais

depois que fizer 20 reais
você vai chegar em casa
e dizer para si mesmo
acabou!
vai beber a sua cerveja
fumar a sua maconha
ler seu livro
talvez ligue para a sua mãe
vai olhar para o presente
e de dentro do seu peito
uma voz arranhará:
fazer 20 reais?
nunca mais!

mas enquanto houver tempo
e a grana estiver curta
vá fazer 20 reais!
não deixe o cotidiano
destruir sua vaidade
aproveita a sua idade
vai fazer 20 reais!
esse é um tempo que não volta
não hesite, vai correndo
e não esqueça de na volta
me devolver um abraço fraterno.

enquanto durar
20 reais é eterno.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

três sinais possíveis de que 2014s podem acabar - ou não

o que é, no meio do ano sair da Oficina Cultural Amácio Mazzaropi na Rangel Pestana, de bike, depois de jantar com subsídio $eminal naquela esquina com a galera, cantando O Vento enquanto ciclovoo sobre o viaduto Guadalajara, visitar Enriketa no alto da Serra de Bocaina e encontrar minha refugiada castilhense em casa!?

foi-se Enriketa para Guanabara
foi-se a Amácio para o Bom Retiro, e sua antiga carcaça para o restauro
foi-se a refugiada para o Instituto Butantã

ficam os piercings no coração

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

CONCRETO QUEIMADO #2

seria mágico... se eu não tivesse alguma ideia do que significaria um retorno seu. seria trágico... se no entanto as luzes cegassem-pirotecnia meu redor todo. seria letal... se o sopro da vida me beijasse as frontes com o seu frescor-sabor. seria muita coisa, na verdade. mas eu ainda não me decidi.
pode ser que eu simplesmente ignore toda essa coisa nojenta, esse tom meio autoajuda, eu sempre detestei essa coisa escorrida, espero que morram todos, inclusive eu. a brisa na praça Dom José Gaspar alivia o calor escroto, e eu em breve carimbarei a boca daquele jovem rapaz, mas prefiro dar vazão ao eterno retorno, que aconteceu, e que não aconteceu e talvez nunca aconteça, entre eu e você.
divido o banco com três africanos - o mais presumidamente preciso que eu posso inferir - que conversam em inglês. um deles come seriguela, o outro pegou emprestado a caneta com a qual iniciei este manuscrito e não devolveu até agora, e não vai devolver. há duas horas um haitiano me abordou nas cabines do Cine Paris. dei cinco reais para cheirar os pentelhos densos e mal-lavados de um garoto. me arrependi depois, pensando que eu poderia ser o azarado a ser diagnosticado com a primeira DST de transmissão nasal. minha relação com garotos de rua anda melhorando. semana passada dei um dois com um.
meu colega de banco, contra minhas expectativas, devolveu a caneta. eu lhe ofereci a mesma, ele negou, mas ainda assim reivindiquei uma seriguela como contrapartida.
seriguelas e lichias habitando a mesma carroça. quantas podem habitar de uma só vez um mesmo coração? lichias... deve ser época. antes fosse! o iogurte de lichia que em duas ou três vezes provei há quatro meses está disponível novamente na fonte.
o barulho é infernal aqui na Dom José de Barros, rap, reformas, pessoas. queria que um maremoto arrasasse tudo, que só sobrassem os africanos das seriguelas, eu e você, encerrados numa cápsula intra-ventilada de felicidade eterna.
mas ao invés disso, concreto queimado, ou nem isso, o cenário sujismundo da cidade que eu amo mas que só me fode, como se eu fosse algum dos meus clientes que não entendem como minha performance na cama é tão boa se eu jamais faria sexo de graça com um gordo destroçado patético e complexado e sem autopiedade.
não mais Dom, mas Barão! de Itapetininga, uma cartografia do vazio nos lugares que ganham sentido no fluxo alucinado diário.
o moleque que eu vou beijar diz que é uma esponjinha. ele não é você. você falou que eu sou seu guru. e eu lhe digo NÃO!, me interessa a troca. naturalmente eu destilo toda a minha falsa erudição pra te impressionar. mas se você sorri já estou enlouquecido. o guru, te disse, detém o monopólio do saber. eu, em oposição, estou interessado em troca. que eu possa falar de arquitetura modernista e design vernacular, que você ejacule iogurte de lichia na minha goela.
não me parece muito que resida sequer em parte nos fluidos o seu interesse de escambo. se você soltar um perdigoto enquanto grita ao correr das bombas de gás lacrimogênio, se uma gotícula alvejar a carne dos meus lábios, isso já tá bom pra mim, uma coisa como a relação entre o careca e Marinês em Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios.
ele vai descer em instantes, e você está aqui, tão aqui que... talvez eu esteja daqui a segundo de mãos dadas com ele pela República, mas o cheiro desejado a circular pelos dutos da cabeça-coração é aquele que nunca deixei de sentir desde a primeira vez que te vi.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

CONCRETO QUEIMADO

irônico que um parque bem desenhado e conservado seja antes índice de civilidade que emblema da natureza. cerquei suas mãos mais de dez vezes até ter algum sucesso.


agora nem tanto mais abstrato
assento o meu metrô
sobre o teu concreto queimado


a sensação impagável
de não só ter quem queira
mas também ter quem pague


afinal, esta é uma rima fácil

no canto escuro
uma fagulha incide
sobre a meia soquete
o cliente, o puto
num meio boquete


..olho então
pra tua orelha.
.passa lápis,
.passa o ar,
passam os dedos
....a futucar...
sei que passa tudo
...........pelo teu furo.
passa todo o meu
....................... ......amor,
.................no entanto,
..........pelo teu alargador?

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

já não mais sabia que sentiria ao vê-lo. se indiferença, se não-saber-o-que-ver-fazer, se não qualquer coisa ou coisa sim, senão, que pegava não coisar.
quando o vi - ele estava na minha frente PQP - soube por que tudo aquilo aconteceu, entendi as noites de choros intermináveis, a ternura toda - que transferi obsessiva para um outro atual -, a dedicação toda, o desejo, a consternação, a admiração sem saber ser admirada.
rick
u make me sick
van gogh
head is a fog