Estaria ainda longe de saber como dizer-te, Ó, garoto de globos oculares amendoados... Não, não! Peraí! Humm...
Veja as mãos, ou melhor, olha para as tuas mãos, ou melhor, eu fico vendo as tuas mãos... Peraí, agora vai, hein!
O movimento fugaz - pra mim um raio de Zeus, pra você talvez lapso de São Pedro -, este aperto de mãos, genérico. Pra você, quem sabe aperto de mais, aperto demais dentro de mim. Sobre os conceitos, podemos dizer que por vezes denotam coisas dessemelhantes, quiçá opostas. Acredito que com vida ou morte seja assim. Para aqueles que acreditam em transubstanciação, morte é igual a vida. Se bradam os entusiastas da liberdade para a interrupção da concepção, vida é igual a morte, dirão exaustos os anti-abortistas.
Creio que nada é tão simples como isso. Há um estilo aí. Uma entonação. Se queres entender, pense nesta cena: Você estende sua mão, eu a aperto, soltamos, olhos nos olhos. Te digo:
- E aí queridão!?
Puxemos uma nota de rodapé. O conceito de queridão requer um contexto, não é? Não basta defini-lo de acordo com o verbete da lexicografia disponível.
Quando te digo isto, E aí, queridão!?, estou dizendo muito mais do que qualquer coisa relacionada a afeição ou querer. Note como minha fisiologia se organiza agora para enunciá-lo: E aí, queridão!?
Viu? Significa, me dê um beijo?.
NÃO! Não, carai, péssimo na verdade, não é isso! Eu sou melhor, eu sou melhor que isso, peraí, que vai sair bem, porque eu não quero que você não me leve a mal, é só ficar no lance das mãos, sabe o lance das mãos?, fica nisso, esquece a coisa da voz, da entonação, tem a ver só com as mãos, a coisa da textura, peraí. Sabe o lance que eu falei?, o assunto tem a ver com o aperto de mãos, então foca nisso. Presta atenção, esquece a fita do beijo.
A superfície da sua mão passou bem rápido pela minha. É aqui que residem os limites dos rituais de gênero da nossa sociedade. Não, tsc!, não é isso!
A superfície da sua mão passou rápido pela minha. E não pudemos sentir... Isso, é isso.
Lembra quando nos cumprimentamos hoje? A superfície da tua mão passou muito rápido pela minha, a ponto de quase não podermos sentir e decodificar nossas respectivas dermes. O que você sentiu, eu não sei. Eu, por meu turno, estremeci através do contato com a textura lisa da sua pele. Pouco tenho a dizer da profundidade e da extensão, e mais da tecitura que então sou capaz de projetar. Concernente a cada instante do teu... corpo-em-relação, concernente a cada secção, cada sulco mal explorado, cada canto...
Ah! Você já entendeu, né? Desculpa.

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