terça-feira, 26 de maio de 2015

Questão dos bancadores e folgadões.

Este texto é como se fosse um resumo de algo a ser mais problematizado. Trata-se de pensar as dinâmicas entre bancadores e folgadões; na qual os primeiros prometem a partir de expectativas compartilhadas em relação aos segundos. As promessas, no entanto, são de difícil execução, ou se dão de maneira fragmentada. Há uma esquizofrenia voluntária do primeiro, o que implica na consolidação de um traquejo para o segundo. O texto em questão foi escrito no celular entre algumas estações de metrô.

Por que é tão difícil estender o sonho do gasto ao seu correlato efetivo? Por que são tantas as dificuldades para processar um gasto indiscriminado, senão, o que caracteriza o discurso do bancador como mais propenso à fantasia? Estaria o sonho da classe média, sobre o qual discorre Chauí no sua famosa palestra-stand-up, operando na construção de utopias gigantistas, megalomaníacas, ostentatórias? Há uma modalidade de tensão libidinal celebrada, mas cuja concretização em momentos offline é pouco processada, embora evocada como desejável no "real".
Argumento aqui que há pelo menos duas formas de interpretar tal afunilamento, cruzadas. Uma diz respeito à enunciação de uma renda incompatível com a prática por ela evocada. Condição para a interação, o dinheiro é vivido numa esfera propositiva que não necessariamente pode ser aplicada - frequentemente não o  é, por sinal - à forma de administração ou renda de fato do proponente. A experiência do bancar-de-fato mostra-se de difícil efetivação offline, ou frequentemente fragmentada. Contudo, tal propensão a não trans-locar o desejo no sentido offline, está certamente relacionada a uma posição de desprestígio dentro de um leque de possibilidades de expressão da sexualidade, que tendem a ser mais severamente avaliadas de um ponto de vista mais amplo, quando refratam-se em esferas mais públicas. Medo de um garoto de programa agressivo, mas principalmente  de uma sociedade que dignifica o trabalho e consagra o dimorfismo sexual e sua expressão hetero-conformada, saturando de normatividade os mundos mais públicos.
Para entender por que os bancadores enrolam os folgadões, é preciso levar em consideração, portanto, renda, gestão financeira e propensão a gasto a partir do capital material, por um lado, e por outro,  as expectativas e exigências sociais relacionadas a padrões de inteligibilidade, gênero, desejo e formas de habitar o mundo. Dinheiro passa a ser enxergado não apenas como condição racional de efetivação de um serviço, mas como mediador da fantasia. Desejo, por outro lado, não pode ser compreendido fora da mediação com o dinheiro e com padrões de existência mais ou menos possíveis.
Parto da minha experiência profissional que remete a atividades marcadas por afeto e desejo mediante pagamento financeiro.

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