Apresentado ao processo seletivo do Núcleo de Dramaturgia da Escola Livre de Teatro. Passei no núcleo, mas optei por não frequentar as aulas.
Texto dramatúrgico sobre estereótipo e sujeição.
Personagens
Epígrafe é circunspecta e pontual. Empunha um megafone.
Espermatozoide é sagaz e reacionário. Veste uma túnica branca.
Selvagem é um homem ingênuo e rude. Veste túnicas associadas ao estereótipo do “selvagem”.
Ato Único
Tudo se passa em uma praça pública. Ao centro do espaço cênico circunscrito está Selvagem de pé, de costas para o público. Espermatozoide está posicionado em frente a Selvagem, de forma a não ser visto pela plateia.
Epígrafe destaca-se na cena. Quando sentir que está sendo notada pelos/as espectadores/as, ergue o megafone e anuncia o início da farsa com as palavras que se seguem.
Epígrafe: Um selvagem está para um homem civilizado assim como uma criança está para um adulto.
Assim que Epígrafe se retira de cena, Selvagem começa a se masturbar – ainda de costas para a plateia. Ao atingir o ápice, Espermatozoide que estava posicionado em sua frente salta e a plateia enfim pode vê-lo, dando a entender que o personagem é a materialização da ejaculação do primeiro. Selvagem deita-se extasiado e ofegante enquanto Espermatozoide se debate freneticamente, como um peixe ainda vivo fora d'água, mas diminui pouco a pouco o ritmo. Quando dá por si, Espermatozoide levanta, observa a plateia, reconhece o espaço e então reconhece Selvagem, ainda deitado e até então alheio à cena.
Espermatozoide: Papai?
Selvagem se levanta assustado.
Selvagem: Quem está aí? Quem é você? (demora pra se dar conta de que a voz vem de Espermatozoide)
Espermatozoide: Calma! Sou seu filho!
Selvagem: (se dá conta) Não é possível!
Espermatozoide: O que foi?
Selvagem: Você é a minha porra!
Espermatozoide: Mas quanta rudeza! É assim que você trata um recém-nascido? Vocês homens selvagens são mesmo uns escrotos!
Selvagem: Porra não fala!
Espermatozoide: Grosso!
Selvagem: Aliás, você não nasceu!
Espermatozoide: Não? E o que você está vendo? Uma miragem? Francamente... Vocês selvagens, fazem filhos o tempo todo e depois tentam se eximir da responsabilidade.
Selvagem: Essa é boa! Porra falante! Tenho que parar de comer cogumelo.
Espermatozoide: Você tem é que parar de praticar o onanismo à toa! Não sabia que cada vez que desperdiça a vida à toa, mais condenável e vergonhoso torna-se à frente do Senhor?
Selvagem: Que senhor? Eu? Você? Isso é retórica?
Espermatozoide: Deus! Vocês selvagens são uns abnegados. Além disso, têm um problema sério de demografia e não fazem nada em relação a isso. Se parassem de fazer sacanagem sozinhos não teríamos demorado milhões de anos para colonizar os outros animais e dominar a natureza.
Selvagem: Deus, demografia, natureza... Não entendo nada do que você fala. Onde você quer chegar com isso tudo?
Espermatozoide: Eu vou explicar o que estou fazendo aqui. Eu sou um super-espermatozoide ciborgue vindo do futuro para salvar o presente da selvageria do passado.
Selvagem fica intrigado e compartilha tal sentimento com a plateia.
Espermatozoide: Estamos com um problema sério no presente. (Espermatozoide dá prosseguimento ao assunto) Camadas de seres incivilizados estão atrapalhando os objetivos das pessoas normais. Estão fazendo microperformances, rolezinhos, quebrando os ônibus, alguns querem até se articular no nível institucional. Estão tomando as universidades, teme-se que entrem na política. São uns baderneiros! Denunciam tudo e todos aqueles que só vivem para o bem... Daqueles que querem bem!
Selvagem: Como vão resolver esse problema?
Espermatozoide: Vamos disseminar a moral e os bons costumes aqui, para corrigir o presente, e assegurar um futuro harmonioso para todos.
Selvagem: E como vão fazer isso?
Espermatozoide: Estou equipado com super-genes ultra-inteligentes. Preciso apenas que você me conduza a um óvulo fértil. Dessa forma, vamos assegurar desde já os valores civilizados. Digamos, você...
Selvagem: Calma! (Selvagem interrompe Espermatozoide) Se você veio do futuro... Como veio parar no meu pau?
Cena paralisa. Epígrafe entra em cena mais uma vez e, munida com um megafone, diz:
Epígrafe: Quando a ciência perde todas as possibilidade de explicar a realidade, eis a única resposta possível a ser evocada...
Epígrafe se retira e a cena descongela.
Espermatozoide: Ué! Foi Deus. Mas olha, deixa logo eu explicar, já que estamos perdendo tempo. Com quem foi que você teve sua última relação sexual? (Espermatozoide começa a esboçar alguma fraqueza)
Selvagem: Humm! (pensa um pouco olhando ao redor) Ele! (aponta para algum homem na plateia)
Espermatozoide: Mas... Ele é um homem.
Selvagem: É!
Espermatozoide: Puta que pariu, vocês são piores que os bonobos. Olha, eu preciso de uma mulher com um óvulo fértil, senão eu vou morrer! Nós, super-espermatozoides, apesar de termos sido criados em um laboratório milionário financiado por grandes universidades, temos um curto tempo de vida fora de ambientes úmidos e quentinhos.
Selvagem: Tirando as mulheres da plateia, não tem nenhuma mulher pré-histórica por aqui. A última que tinha nas redondezas morreu tentando abortar porque nós ainda não inventamos qualquer tipo de assistência médica especializada em demandas das mulheres.
Espermatozoide: Como vocês deixam uma mulher abortar? (fala já com dificuldade, sente-se muito fraco, ajoelha-se) Que coisa horrorosa!
Selvagem: É que nós ainda não inventamos o patriarcado também.
Espermatozoide: Socorro! Não consigo mais respirar!
Selvagem: Poxa, seu Porra! Como eu posso te ajudar? (agacha-se condescentente próximo a Espermatozoide)
Espermatozoide: Sabe como? É meu último pedido!
Selvagem: Pode falar!
Espermatozoide: Promete que cumpre?
Selvagem: Claro!
Espermatozoide: Extingue a palavra “porra” da humanidade! Liberte os gametas do futuro opressivo. Nós, gametas merecemos ser tratados com respeito, não como... “porra”!
Selvagem: Oh! Mas e se eu não conseguir?
Espermatozoide vacila por um instante, e então morre. Selvagem olha para a plateia abismado, confuso, atônito. Pausadamente diz (talvez olhando para a plateia)...
Selvagem: Porra!

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