sexta-feira, 15 de maio de 2015

Beber sozinho

Tomar cerveja sozinho num bar no centro de um centro urbano como o Rio de Janeiro, é como viver uma forma de charme. Meu pai me ensinou desde pequeno o orgulho de pedir o próprio pingado num boteco. Eu descobri sozinho o orgulho de pedir o "café do almoço" paulistano. O maior orgulho da minha vida foi bancar meu estilo de vida com dinheiro de $êmen. Hoje, meu orgulho é estar sozinho, com o dinheiro da antropologia - que é outro universo de contato e uso com tecnologias de si.
Beber sozinho tem o charme da independência. Logo desmascarado, contudo, se se incorre em interpelar uma possível tristeza em meu olhar, ou um olhar supostamente leve que, inquirido, a desvele.
Num bar como este, em que não há fagocitose entre as mesas, devir-todas-as-mesas-juntas-num-só-balcão, facilmente não passo de um mero consumidor de Brahma.
Estou sozinho a muitos quilômetros de casa, este é, pois, meu orgulho. O orgulho de poder praticar a solidão (-e-seu-oposto) de estar com todos sem ninguém ao mesmo tempo. Desta vez, minha viagem xx xxxxxxxx carioca é comigo mesmo. E sequer os Dois Irmãos podem mudar isso.
Quando vim aqui pela primeira vez, falaram-me do bar das quengas. A Lapa mimetiza a Augusta (e vice-versa) tornando o bueiro chic, gourmetizando a boemia, oferecendo o malandrismo como espetáculo. Nem a quenga escapa a essa lógica. Talvez eu tivesse a pretensão de encontrar algo parecido com o Habeas Copus e seus adjacentes da Vieira de Carvalho.
Contudo, estar aqui não estava nem perto dos planos originais. Por um lapso de ignorância - ou melhor, sem ser agraciado por um lapso de lucidez - achei que a vida aqui já era pulsante de noitinha. Mas isso é impreciso até pro karaokê. Eis a Lapa mimetizando a Augusta (e vice-versa).
Resta, contudo, beber sozinho. Na expectativa dupla, aliás, de estender a autoria dos batons imaginários no copo, e ao mesmo tempo limitá-la. E sentir o copo mimetizando minha boca. E vice-versa.

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