sexta-feira, 15 de maio de 2015

O Texto Perigoso

O Atlas Ambulante me informou duas coisas preciosas. A primeira delas é: Descrever é localizar. O mapa contém uma potencialidade ambígua; localizar é admitir um ator numa cartografia revestida pelo poder. Uma nação, uma tribo, uma reserva ecológica são delimitadas num mapa quando são reconhecidas como agentes de poder relevantes. A ambiguidade do registro cartográfico consiste, portanto, nessa atribuição de poder; quem está descrito, localizado, está suscetível de ser atingido pelos tentáculos do controle, está suscetível a estratégias bélicas.
Eu posso criar um mapa para registrar movimentos subversivos; ao fazê-lo, estou nutrindo o oponente com informação. O antropólogo descreve, e com isso, dá condições para que, por detrás do elo entre nativos/as e Estado, se estabeleça mecanismos de controle das populações e práticas registradas. Este é, afinal, o sentido histórico da cartografia e da antropologia. Eis o movimento de auto-reflexão empreendido pelo Atlas Ambulante.
Depreende-se daí, em segundo lugar, a seguinte questão: Como se imunizar do espectro do controle? Creio que, pensando a prática antropológica, não é possível estar-se alheio ao perigo de apropriações sofisticadas e opostas às intenções de quem escreveu um texto ou produziu um mapa. Como o discurso autóctone, o texto deve reivindicar em si o lugar politico de sua enunciação e evocar o contexto de sua produção.
Daí a importância, e concordo com a amiga que disse isso durante uma aula de teoria antropológica, do Texto Perigoso. A virtude do Texto Perigoso é oferecer uma descrição densa a uma só vez precisa e arisca. De todo modo, não estou muito certo que caminhos seguir, ou em que vieses mergulhar. Nada melhor do que dividir esta inquietação perigosa com gente perigosa.

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