terça-feira, 25 de março de 2014

Textos feitos numa aula de antropologia

Alguém podia me dizer, chamar de lado, no intervalo, Eros, não olhe assim desse jeito para aquela garota... É confusão o que você quer? Pessoas ao redor assentiriam timidamente, mas eu estou acostumado - desde que virei uma pessoa - a ser mesmo o único que discorda.
Aquele vestido, responderia, orna suas curvas, valoriza seus ângulos, expressa excelência na composição estética, estende o deleite cromático de sua pele... Apesar da minha falta de credibilidade, suscito estranheza e surprezinha. Ele começa a responder, tá, tá, mas se gostou do vestido, ainda assim, pode fazê-la passar por um constrangimento desnecessário, admira o vestido, mas, mas... No seu balbucio residiu meu trunfo:
- O quero no §¢£@#$%&.
Até a cafeteira cessou seu canto acafetado. Restou a respiração dos bancos de concreto, da frondosidade das copas das árvores e do meu coração-escola-de-samba.


Fui mordendo a caneta. Quando ela enfim entrou toda dentro de mim, começou a pintar em minhas cavidades, um estilo rupestre esferográfico. Se o cúmulo da vaidade andava sendo passar batom na boca do estômago, soube que podia ostentar - para algum escafandrista que ousasse saltar goela-tobogã abaixo - uma vaidade anti-vaidosa, anti-estética.


As rugas daquela antropóloga tem muitas habilidades ocultas. Além de suar a partir de movimentos faciais, elas
I - Conseguem pensar em mais de uma coisa, e trocar de obsessões
II - Andar em dois pés durante horas sem tropeçar
III - Fazer macarrão com queijo
IV - Cantar uma música dos Los Hermanos inteira sem esquecer um verso
V - E sabem que sair de casa/s já é se aventurar!


Moço, antes de hoje andei tendo um passado. Esse passado foi marcado por alguns grandes eventos. Não é só que acordo pensando nesses dramas todo dia. Vê esta pele? Estas vísceras? Foram tecidas através desses eventos. Mas hoje, o dia de hoje, não é sobre como me enredei até aqui. Isso aí eu já tô cansado. O dia de hoje é sobre se posso, quando e como vou me enredar a você.
Mas não tenha pressa. Estou em paz.


Cabelo curto, semi-estrábico, alargador, barba, tatuagem, bigode, camiseta colada, corpo desejável, bermuda bem servida, pernas mordíveis, meia soquete...
Teoria queer, pós-estruturalismo, estudos culturais, antropologia contemporânea, geografias da sexualidade, etnoarquitetura, pós-colonialismo, música, teatro, bicicleta...
Chocolate meio amargo, queijo, vinho seco, cerveja, macarrão, sorvete de iogurte, damasco, coxinha, coca-cola, atum, grão-de-bico, batata, feijão branco, maconha...
Praça, largo, rua, parque, cinema, bar, botecão, balada, cinemão, supermercado, calçada...
Elogios gratuitos, bocas convidativas, amores desentrincheirados, brisas irreversíveis nas tardes paulistanas, devir noturno, solidariedades ecléticas potentes, furtos à deriva e reapropriação de mais-valia, dias que quero, deitar na grama, publicar um artefato meio amargo em uma rede por aí, deslocar entre minha vidas, surfar em cabeças, corpos em trânsito, pé na cara, viver poesia intensamente...


O intercambista lindo e boliviano gaguejava à medida em que o rufar insistente e encadeado das caixas se aproximava da sala de aula. Meu coração tremia... Foi bom ter vivido até agora, mas alguns medos ainda são corriqueiros. Cf. Minhocão pulando com o peso dos foliões; Ponte Eusébio Matoso em uma das manifestações ativistas das quais participei.

sexta-feira, 7 de março de 2014

28/2/2014

nos enlouquecemos. um par de abismo, nós, nossos pares de abismos oculares. todos sabem que você enlouqueceu, inclusive o teu séquito de gente que hoje me odeia mais do que você. eu sei também que estou louco, e uma prova disso é o fato de eu continuar te defendendo aos quatro ventos mesmo que vez ou outra alguém mal-intencionado me diga que você não quer me ver nem pintado de ouro. ontem tive a oportunidade de olhar penetrantemente nos teus olhos. mais uma vez brigávamos. mas, desta vez, era teatro - como se um dia não tivesse sido.
doce saber que (ainda) não estamos imunes a nós mesmos.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Sobre trabalhar com sexo, ou Do sexo como trabalho.

Os meus amigos todos estão procurando emprego... – ou praticando modalidades sofisticadas e chiques de subemprego. No fim da graduação, é o que todo recém ingressante naquela que muitas vezes é considerada a mais prestigiada de todas as instituições públicas de ensino superior do Brasil, após um via de regra traumático processo seletivo, não julga possível esperar do futuro. Eu, em vias de me formar, após quatro anos de um treinamento exaustivo na área de Ciências Sociais, com professores com atestado de excelência e pedrigree que com frequência ultrapassa as alfândegas nacionais, um curso de setenta anos em uma universidade tradicional, posso dizer que estou prestes a ostentar um diploma de, como andou circulando ano passado, “gente de humanas que faz um monte de coisa que não dá dinheiro”. Eu, e muitos dos meus colegas que espreitam através da fechadura esse futuro turvo e embaçado, assombramo-nos com os versos atualizados da Legião Urbana: voltamos a viver como há quatro anos atrás, e a cada hora que passa envelhecemos dez semanas.
Até o fim do ano passado, minha bolsa de pesquisa era complementada por uma mesada cedida pela minha tia, correspondente aos quatro anos esperados da minha formação – não ao semestre adicional, que é praxe na trajetória dos meus colegas. Esse complemento, a partir de janeiro, poderia ser substituído por algum trampo informal que eu eventualmente arranjasse, uma vez que a bolsa supõe uma fidelidade capciosa; uma das condições para se ter acesso a ela, é não estabelecer vínculo formal de trabalho. Isto é, está vedada a possibilidade de conciliar pobreza e estímulo à produção de pesquisa na universidade pública em que estudo, pois, quem vive apenas com uma bolsa de quatrocentos reais (172 dólares, 124 euros) por mês em uma das cidades mais caras do mundo?
Havia uma série de opções aí; divulgar currículos em estabelecimentos comerciais (loja, restaurante), garçom, bartender, atendente de telemarketing, caixa de supermercado, funcionário de limpeza, limpador de pára-brisas, babá, camareiro, passeador de cães, transcrições de áudio (algo em que cheguei a trabalhar, e enxergo como possibilidade futura), flanelinha, entregar papeis com propagandas na rua, vendedor de quiosque em metrô, garoto de programa; todos trabalhos que poderiam ser praticados nos limites da formalidade, alguns mais rentáveis que outros, alguns mais complexos e infinitos que outros. Havia outros que exigiriam mais know-how, networking – e outros termos em inglês –, mas talvez implicassem em vínculos mais formais ou grande investimento de tempo, o que ofereceria um risco à permanência da bolsa, quatrocentos reais garantidos e upgrade a constar no meu currículo acadêmico (lattes mais alto que daqui eu não te escuto): monitor em cursinho pré-vestibular, professor particular de alguma coisa como português, geografia, história (algo em que obviamente eu não tenho competência alguma), músico de barzinho etc.
Não há um modus operandi estilizado e formatado, um manual de instruções, uma Bíblia, um Solfejo, as Regras do Método Sociológico, um Mankiw, para se trabalhar como prostituto. Fiz laboratório na rua, em um ponto perto de casa, logrei em um fim de semana uns trezentos reais, além de uma fissura no meu pênis, trágica efeméride, um encontro calamitoso entre um prepúcio sobressalente e um aparelho dental fixado no céu de uma boca qualquer. Conheci inesperadamente um cara no reveillon que havia decidido passar à deriva. Na tarde seguinte, a primeiro do ano, lá eu ia atrás do meu primeiro recorde, oitenta e cinco reais. Com meu colega de trabalho aprendi macetes da profissão, como acordar valores, utilizar o Chat UOL como ferramenta e trabalhar em equipe. Depois de uma semana intensa de trabalho, afastamo-nos por razões pessoais – vicissitudes envolvendo afeto e ética em um métier em que ambas se tensionam, e se amalgamam-se podem constituir-se em ameaça à produtividade.
Trabalhar com sexo tem garantido uma rotina – ainda subvalorizada – de trabalho inferior em tempo e esforço a outras jornadas semi-formais disponíveis. Uma amiga minha trabalha que nem uma camela – e olha que as camelas trabalham, viu? – de segunda a sexta em uma empresa de telemarketing, pra ganhar menos do que eu (vale-refeição e plano de saúde subtraídos da conta). Nos últimos dois meses e meio, trabalhei algumas horas (refratadas na seguinte proporção – estimativas cabeçais: 90% de procura de clientes no Chat UOL, 6% de locomoção, 4% efetivamente de sexo), mobilizei-me com este fim na média sete dias por mês, e faturei na média 150% a minha bolsa de Iniciação Científica, o que superou inclusive razoavelmente o valor das mesadas que eu ganhava da minha tia – ah! se eu soubesse disso antes...
Mas sempre, sempre aquela impressão atrás da orelha de que se está fazendo algo completamente errado.
Certamente, para as pessoas que sabem comigo que a bolsa de Iniciação Científica do CNPq me impede de estabelecer vínculo formal de trabalho (e isso inclui estágio, o que, para a minha trajetória de carreira profissional pessoal – dois anos e meio de engajamento na pesquisa acadêmica – sinaliza um currículo voltado para um profissionalismo acadêmico, um futuro talvez pouco confiável e financeiramente gratificante para um graduado em Ciências Sociais), há uma expectativa de que eu me fixe a partir do fim da graduação em outro campo de trabalho, que de uma forma ou de outra implique em aproximação com um plano de carreira menos... difícil. Mas...
Difícil é admitir que existe algo cristalizado na minha cabeça que indique planos de largar este “freela informal” – uso a categoria porque a julgo útil para qualificar o tipo de atividade profissional que andei praticando. Mas não estou obcecado em afirmar que esta é uma atividade estritamente profissional para fazer crer ao/à meu/minha interlocutor/a de que se trata de um métier esvaziado de prazer, e retornar à breguice do resgate etimológico dos termos labor (dor) e trabalho (tripalium, um instrumento de tortura medieval). Pelo contrário, acredito que ele é extremamente prazeroso e, para alguém que anda se debruçando sobre “sexualidade” a partir de referências oriundas das ciências humanas, este trampo se apresenta como um lugar para refletir a respeito de práticas sociais e sexuais envolvendo meu próprio corpo e mais, testar efetivamente os limites e matizes dos meus desejos. Algo que eu descobri recentemente – acho que demorei para perceber –, por exemplo, é que qualquer coerência possível numa articulação entre ereção e desejo não procede, de forma alguma, para mim. Ao mesmo tempo, em tensão, desejar e ser desejado são peças fundamentais para gerar empatia entre mim e alguns dos meus clientes. Todas as vezes em que expresso desejo pelos meus clientes, há um órgão intumescido (algo que não aconteceria caso o objeto que mobilizasse tal inchaço fosse uma mulher ou uma criança) e um desejo dissimulado; um desejo parcialmente encenado, conceções múltiplas.
Então, tem sido relativamente prazeroso e, de certa forma, rentável trampar nisso, porque, além dos habituais cem reais – suposto objetivo central –, tenho ganhado em experiência, fazendo algo que gosto muito: meter-me em buracos – sem infâmias ansiosas: conhecer casas, conhecer pessoas, entrar em contatos com gente out-of-the-bubble, conhecer e praticar fantasias, desenvolver contatos profissionais e nutrir relações amistosas com colegas de trabalho, descobrir desejos possíveis em mim, mapear concepções sobre desejo e sexualidade de pagantes, surfar em conformações de “tensores libidinais” nunca dantes navegadas, passear por São Paulos outras, surpreender-me etc. etc. etc. Tal como minha pesquisa sobre cines pornôs a partir de abordagens agrupadas nos ditos campos de antropologia e estudos de gênero e sexualidade, trabalhar com sexo – também usando meu corpo como agente e núcleo a partir do qual teço gestos e reflexões –, e nos moldes em que tenho trabalhado, tem viabilizado entrar em um devir profissional que possibilita aprendizados e vivências desejáveis para outros âmbitos da minha vida.
Não me importo muito com a pecha de “vagabundo”, trata-se apenas da reiteração de um repertório muitíssimo antigo, numa sociedade cujo costume de valorizar e hierarquizar pessoas a partir de práticas profissionais remete a tempos imemoriais: risos! Acho que sou um “vagabundo profissional” então. Passo tardes e noites – e inclusive manhãs! – praticando um treinamento baseado em uma formação eclética e interdisciplinar: teatro amador experimental, antropólogo e sociólogo, militante LGBT, bichassexual, treino em diferentes meninossexualidades, figurinista, cinismo aplicado, agenciador de um repertório de práticas sexuais atualizante, convivência com campos semânticos distintos – estrategicamente acionados –, circulante paulistano, domínio de ferramentas virtuais, marketing pessoal, empresariado autônomo etc. etc. etc. Passar uma tarde no Chat UOL escrevendo as frases certas, convencendo as pessoas de coisas que eu não sou, enviar fotos adequadas, gestualizar da maneira correta na webcam, agir da maneira correta pessoalmente, falar as coisas certas, ter um desempenho sexual adequado, o corpo aceitável... E o melhor, no meio do caminho, o aceitável, o adequado, o correto mudam, o que implica em adquirir continuamente um certo traquejo para lidar com situações adversas.
Como michê, eu me empresario, e as sociedades que nutro com colegas encerram-se nos contratos estabelecidos, 50% para cada uma das partes, às vezes pago uma breja para celebrar as alianças. Trabalho 100% autônomo. Adquiro com os clientes diversas modalidades de relação, alguns mais fixos que outros. Me empresariando enquanto gê pê (garoto de programa), tenho controle total dos gastos e lucros. Agora, o dinheiro que vem do CNPq... Eu sei é lá de onde vem! Eu só sei que o meu esforço enquanto pesquisador-júnior é subvalorizado em relação ao dinheiro que ganho agenciando meu corpo.
Qual é a diferença? Um é trampo de aluninho uspiano, e outro de vagabundo. Um é digno e o outro é indigno. Indigno? O que é um emprego indigno? Indignar-se com a promessa infrutífera de prestígio ou financiar meu estilo-de-vida cotidiano com a monetarização do meu próprio $êmen? Um trampo é mais digno na medida em que você se escraviza ao longo da carreira? Bom, se for este o caso, mesmo o trampo de pesquisador na área de antropologia parece muito mais razoável, prazeroso e desejável do que uma porrada de outras coisas que eu poderia fazer. O que o faz mais digno que o ofício de garoto de programa? O label USP tatuado na testa? Em defesa de que algumas pessoas à minha volta se mobilizam através do pressuposto de que esse freela só pode ser mero delírio passageiro autodepreciativo? Mas eles/as querem ser prolixamente cuidadosos.
Você tá se cuidando, né?”, uma interpelação facilmente convertível em “Obviamente, você está se controlando!”; um controle compulsório sobre o meu corpo, limite supostamente concedido à minha integridade neste processo de devir-puto. “Mas é até o fim da Iniciação, né?”. Sou instado a produzir uma série de justificativas para me apresentar pessoalmente para pessoas que circulam na minha faculdade como profissional do sexo. Se eu me apresentasse como engenheiro para as pessoas que conheço, teria de fazê-lo com ressalvas? Alguns pés-atrás são promessas de rasteiras.
Mais! Ainda devo uma resposta a uma estirpe de argumentos borbulhados de pensamentos feministas pré-jurássicos, operados por conhecidas com xoxota. A elas só posso treplicar: com meninos tende a ser diferente, ainda que isso não soe consolador.
Enfim, estou com meus amigos procurando mais que um emprego, um futuro! Não acho que alguém pretende fixar-se para sempre como meta a ser assistida na vida em uma carreira do tipo subemprego, informal ou que envolva grande risco e estigmatização. Não acho que voltei a viver como há alguns anos atrás, e que o que me resta é assistir meu rosto definhando na medida dos meus insucessos. Me encanta, pelo contrário, uma infinitude de possibilidades que posso tecer a partir dessa minha vida, vivências afetivas, amor às ciências sociais, buracos metidos. Entregues os alvos e a artilharia, definitivamente, só posso dizer que me aproximar da abjeção, do esgoto, do submundo me dá tantas asas, que eu não posso almejar uma vida menos alada que essa que eu vivo me permite.

segunda-feira, 3 de março de 2014

viadinho lamber pés

Numa das relações sexuais mais eletrizantes da minha vida, ele me via mijando no box do banheiro com olhar admirado.
Na cama, poucos minutos depois, eu lhe disse, você pirou em mim mijando né? Respondeu assentindo como uma menininha.
Então por que você não enfiou a cabeça debaixo do meu pau enquanto eu mijava? Eu não sei a diferença entre você e um ralo.
Ele sorriu, seus olhos brilharam, uma quase-lágrima fulgurou como reflexo de uma fonte de luz que não havia no ambiente. Balbuciou, como quem é acometido pelo cuspe do cupido: Obrigado.


-vamos supor que eu te mandasse uma foto do meu pau... o que você faria?
-eu lamberia a tela de joelhos, me masturbando...


tenho tantos planos pra gente...
abaixou a cara na webcam e ficou olhando para a mesa, como se esta fosse capaz de lhe consolar...

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Mich'Eu

devir-michê em conta-gotas


passo

xxxxxx, nick do skype, e Renan Diego, o meu, um cruzamento de olhares abrigado pela efeverscência de gentes esperando atualizadxs conterrânexs artificialmente bronzeadxs em Times Square e coisas assim, Aeroporto Internacional de Guarulhos, e a conversa dura três minutos - menos que os cinco previstos -, mostro conforme combinado meu pé, tirando-o discretamente do crocs.
- estou com seu dinheiro aqui.
- suave.
livre de seu olhar clinicamente treinado para identificar dominadores, perco a compostura.
algo como desejar rir de regozijo, berrar de nervosismo e chorar de desespero, obviamente acompanhado por um terrível enjoo para o qual a larga quantidade de cafeína ingerida pouco antes agregava.
cinquenta reais, lucro de quarenta e poucos, logo convertidos em uma cueca amarela com a palavra dinheiro no elástico e uma corrente de latão.
chamo de investimento.


acidente de trabalho

ele pechincha, mas não dá: é muito feio! ainda assim contrata: meu primeiro programa de rua.
depois de poucos minutos me chupando, sinto uma fisgada tremenda no pau, vermelha é a cor que visualizo no instante da dor fodida! vermelha é a cor que tinge minha cueca à medida que meu pau latejando esguicha sangue a partir do meio centímetro de fissura recém-aberta! vermelha é a cor da poça que se formaria ao seu redor caso o que desejei naqueles instantes se convertesse em realidade!
receoso, o FDP esboça preocupação, mas receia represálias imprevistas, corretamente, como qualquer um faria ao se defrontar com minha feição desoladora e maníaca calculando o prejuízo sobre o instrumento de trabalho.
cara, seus trinta podres reais não vão pagar nunca os vários dias que deixei de trabalhar por causa desse acidente de trabalho.


janta

- gosto de dar pra moleques desde criança, ele confessa pra mim já dentro da pizzaria.
seria surreal se não fosse ardentemente possível. do que você teria mais nojo? da barata que vi passeando matreira por entre as mesas, ou da esporrada que ele alvejou sobre o piso no qual mamãe, vovó, titia, bebê deslizariam na noite seguinte antes de sentar e pedir uma margherita?


xenicalizar

orlistate é um fármaco que tem interagido com meu corpo. um de seus efeitos secundários, por mim almejado, é a perda de peso.
outro efeito é a excreção de gordura humana líquida pelo rabo - e por isso alcunhei a pílula de cheque-anal. termos presentes na bula, como incontinência fecal e perdas oleosas servem para agregar à ambientação de filme de terror e suspense.
a partir de um certo momento, xenicalizar-me tornou-se convergência entre aspiração estética e investimento em um plano de carreira.
xenicalizar e prostituir; tenho encarado estes verbos como formas de testar e atualizar meus afetos e desejos.
e de repente ganhar uma grana com isso.


xxxxxx (em três atos)

às vésperas vespertinas, irremediáveis e neuróticas de 2014, desço no metrô República, saio na rua do Arouche, viro à direita na Aurora, à esquerda na Vieira, e passo por ele. a cena de sempre sobre flertar.

última tarde do primeiro dia de 2014, saio da casa daquele viado enormemente asqueroso depois de meia hora de suplício, oitenta e cinco dinheiros no bolso. o nick $ 2 Ativos rendera aquele montante. tenho que de alguma forma retribuir ao xxxxxx.

trabalhar com prostituição implica em lidar com formas contingentes e imprevistas de ética, responsabilidade, atribuição de valor de uso e de troca, e contrato. o coleguismo não escapa dessa lógica. xxxxxx se apaixonou por mim, e isso não apenas marcou nossa parceria, como assinou seu óbito.


xxxxxx

xxxxxx queria me esganar até entrarmos no apartamento na Herculano de Freitas. xxxxxx é um doce - o doce veneno de xxxxxx. queijos importados, cerveja à vontade para mim, para eles uísque.
de posse do resto de uma garrafa de Red Label, xxxxxx foi assaltado. levaram, além do meu boné e seus documentos, os oitenta reais do programa. eu, de posse dessa edição laranja da CIA das Letras da obra poética completa do Leminski, flertei com um moço muito bonito chamado xxxxx, que infelizmente viaja muito.


tekar

tekar, na gíria virtual sexual, é dar um tiro, cheirar padê, cocaína. fazer sexo tekado é uma modalidade de encenação: criar um ambiente propício para excessos - tais como sexo com pederastas.
naquele motel da Vergueiro, próximo à estação Ana Rosa, ele me disse: só faço isso tekado. cheirou pelo menos três vezes na minha frente, e aí, quando o beijava, parecia estar lambendo a tampa de um vidro de verniz.
meu caro, se tekado você é capaz de me dar oitenta reais só pra chupar o meu pau, espero que morra de overdose!


licença

quando a porta do elevador se abre, o pórtico de seu apartamento, o xxx do xxxxxxxx, uma obra-prima do xxxxxxx a poucxs destinada, na Avenida Higienópolis, estou descalço e apenas de cueca, com a camisa e a bermuda de ótimo bom gosto e a bota finlandesa com as quais ele me vestira para ir aquele dia n'Alôca.
jogo as peças em um canto qualquer assim que entro, a passos largos trepido em direção à sala da televisão - onde minhas roupas plebeias estavam guardadas -, visto-me rapidamente, passo pela cozinha, pego uma Budweiser e, sem dizer palavra, saio do apartamento.
até que se prove o contrário, pela última vez.


super'stição

em 2009 com a xxxxxxxxxxxxxx em Praia Grande adquiri um vidro de colônia Pega Homem. até hoje se dispenso sobre esta torpe epiderme tal solução, imediatamente minha cabeça delira deslizando sobre o cheiro daqueles dias.
não acho que a magia da loção seja infalível. acho que atrai homens que me deixam nervosa na rua, aumentando a propensão de gastar meu precioso $êmen com vícios.


fazer um vício

difícil esquecer'tos gostos. a primeira vez que comi lichia, as várias primeiras vezes que comi lichia. hoje bem sei que comer lichia é quase sempre submergir em delichioso deleite.
a cabeça da sua pica era rosinha, lembrava a carne da fruta que tanto gosto de desfiar, e cujo sugo desejosa e prazerosamente sorvo. restava aí cotejar o leite da sua lichia com o suco daquelas que estou habituado a comer.
entro no carro cinza, placa xxx.
e o doce gosto da sua porra era idêntico.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

ontem Mazinho na noite Perila

---- dei
me conta
__de que você é a/s lágrima/s vertida/s a obcecada-preocupadamente tingir promíscua meus bolsões de água espumando com a aquarela do lápis de olho cuidadosamente rabiscado sobre a feroz carne querendo ser miserável, menor, desprezível
__e é também a sedosa superfície de um cobertor dupla-face, friccionando sobre as crateras e quimeras da minha cabeça, brindando condições aos destemidos ácaros dos meus cravos de imiscuírem-se aos primos abrigados na manta tua; transculturalismo, multiculturalismo, reflexividade
__é por fim o conjunto de fluxos e correntes e flutuações e suspensões (suspeitinhas e suspeitonas) que nos levam e trazem de volta para o mundo das pirocas que sul que são como ouvir killing me softly

você é Mazinho tudo isso
e mais algo
a aventar



mago dos pombos

ao concordar com a assertiva Eduardo
rima com perturbado
(censura Dorival com sua postura altiva
como se expiasse enfim... o
psico-pato
fechando o bico
e a sócio-pata
outros bicando)

gatos decrépitos
-------------------velhos
-------------------------neuróticos
---------------------------------cancerosos
------------------------------------------neurogatos
------------------------------------------esquizogatas
------------------------------------------e você
um você um você um você um você limpou o cocô limpou o cocô limpou o cocô e desabou e desabou e desabou até por completo desabafar, até desabafar por completo enxofre o ovo às pressas engolido.
se ao menos os bichos que te consomem te consolam,
quem sabe eu não possa me juntar ao pombal-gatil que te orbita, deixa eu ser
teu gat'ombo, me dê o alpiste
com que te alimentas,
e se o único jeito de ter sua atenção e amor seja cagando fora do vaso,
me deixa ser teu gato neurótico prostrado pela casa.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

para o cigano podólatra de Mairiporã

cada teu SMS
é rebelde ereção
se a pica adormece
logo ponteiro aquece
me enchendo o moletom


transcendência

tenho pena de repente
da trans sem dente


pinto à vista

navegando na internet
Pedro Álvares Cabral
desvelou certo pacote
descobriu sob ele um pau


baticlinógrafo

no contrachoque
da nossa carne trêmula
ligo o cronômetro
e espero teu bafômetro
se aproximar do meu termômetro


estagiário sonho

ele quis me provocar, chamando de delícia quando entrei, mas o máximo que tirou de mim foi uma ereção.


conforme apagava a lousa, a professora incompetente de sociologia apagava sonhos. e eu, enquanto observava meu corpo soterrado por snowflakes - poeira do giz - amaldiçoava o calor, a poeira, aquela escrota...


sem perigo de errar

rio de janeiro. não aquele paradisíaco, dos macaquinhos, pastoral, mas o secular, dos macacões, lumpemproletarioso. peço um café com leite. retorna em pouco, não há.
-tem café só.
-pode ser.
coça os bagos como se visasse agregar valor ao produto. um e cinquenta. é o mínimo que poderiam pagar a mim por tomar aquele líquido cor de barata. fixo minha atenção sobre a aparência da substância. pondero, seria óbvio e almofadinha demais que, depois de tanta coxinha paulistana verde podre, qualquer chá de esgoto vendido como café me envenenasse.
um miserável - como eu - pede um café. o "coceirinha", como eu apelidaria o ser humano incubido das transações primárias, responde mais amargamente que o próprio café.
-se tiver um e cinquenta aí eu dou.
o pobre miserável acafetado expõe seus míseros trocados. algo como um e trinta. "coceirinha" respira fundo, se coça mais uma vez e, com o ar virtuoso e enfastiado de um santo popular atendendo a milagres de baixa estirpe, traz seu copo de pseudo-café. se tivesse me apetecido oferecer ao coitado minha pequena dose de má sorte requentada, teria lhe poupado suas parcas moedas e em mim o receio do sofrimento.
da próxima vez vai ser cerveja logo.

sábado, 23 de novembro de 2013

CA(M)P/D(ERN/M)O - campineiros leminskinhos

encharcado

chove na UNICAMP
pobre unicão
sozinho em Barão


etnografia tradicional

o etnógrafo preocupado
pensa
avunculado
ou pro outro?


heregia

sancta et ágil
a hagiografia
do agiota


glue-glue

para o per'ustadunidense
o dia é de ação desgraças


minhas cabeças cheias de perguntas
e respostas suas, sujismundas
ou um corpo só que se inunda
pela doce lembrança da sua bunda


na minha frente
ele olha pra trás
de min
---------ha gente


mas veja só
que irônico
eu moscando
atazanam tosca
a mosca e seu vôo
macarrônico


kópros-ducção

coprófilo par
na vala se engaja
na co-produção


LGBT amo


pequena prosa descompromissada sobre um pequeno estruturalista descompromissado

ele se veste como nos anos 1950s. sorri e me olha de esguelha como nos anos 1960s. pensa como nos 1970s. fala como nos 1980s. e me ama como um clássico.


até parece que você não quer
----menino do pantanal
que eu queira te ter
---------------------------eré


você - me - fita
e ---------- evita
você umedece
e ----- esquece
você -- m'olha


caro acadêmico guatemalteco

me mostra logo, não fala!
o que há por debaixo
da tua Guate
------------------mala


pequena prosa descompromissada sobre pequenas rugas pretenciosas

cada pé-de-galinha dela denota uma década de acúmulo intelectual, vivacidade burguesa, sedimentação cortês e ocultos furúnculos na bunda.


enquanto isso o etnógrafo (ainda) tradicional

ficará preocupado
"quem está vinculado
ao meu avunculado?"


discreto terremoto

após o abalo, cismo
me jogo no buraco
abismado


Joel: case report

cheio de vontade d'um vazio
o menino então vermelho
tira a água do Joel
--------------------------ho


pequena prosa descompromissada sobre a paixão-Monet

quando nos vimos pela primeira vez, imaginei que nos conhecêssemos não menos do que duas vidas inteiras. mas, ao retornar ao maquínico e distraído compromisso do teu olhar, tive certeza de que me enganara.


eis que grita o empreendedor

SOLTEM-NO!
eu estou farto
pelo silêncio
e pelo olfato!
quem soltou pum
na dark room?


despretenciosa nota sobre
sereno terno flerte

quero te abraçar
te darei uma blusa minha
--para te abrasar
quero te dar uma balinha
para tua língua tão sozinha
--acolher e chacoalhar
você vem pra minha fileira
a cada vez que torto entorto
carne, ossos, pele e alma
meu pescoço
--------------------(na) esteira
-------------------------------------(da) calma


Gui: case report

e não esconde
sob a epiderme
esta quimera
tão pós-Guilherme
Antunes-kuera


EROS NOV/2013 BARÃO

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

o homem do pau mole II

a segunda parte - da história - é menor.
me ligou. seria no sábado, me ligou hoje, sua voz parecia fanha, prematura, a cobrar, de um orelhão. logo, polidamente, naquele mono-tom, pediu desculpas que soaram muito sinceras e necessárias por atribuir ao custo da ligação a minha boa vontade - e que vontade boa eu estava.
não me retornaria. não vou retornar mais nenhuma ligação, foi mesmo o que disse. fui legal em lhe dar o papel com meu telefone, me retornara em virtude da promessa feita segunda, mas, foi enfático em me dizer, não vislumbrava possibilidade de me procurar mais uma vez. lastimava o fato de - levando-se por alguma pretensão - ter me desapontado.
lhe disse, bom, tens meu telefone, se precisar conversar comigo pode me ligar. Eros, repetiu cristalinamente as já gastas palavras, te liguei para te dizer que não vou te retornar, e lamento ter te decepcionado, não posso te dar feedback esse que esperas. podemos nos falar em outro momento das nossas vidas.
como ele lamento. lamento por não ter podido me entra(nha)r e desestranhar através da sua mórbida esquisitisse, pois, foda-se!, estava mesmo era disposto a morrer de amor.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

o homem do pau mole

"...para mim 'ser humano' e 'respeito à pessoa' não me diz nada, é conversa fiada. Não tenho a menor vontade - concordo, minha situação é diferente - de ser um 'ser humano'; não quero que me respeitem, pelo contrário. Se alguém passa a mão na minha bunda, fico muito feliz. Se alguém assovia para mim na rua, isto me enche de alegria"

"...a morte de Pasolini não me parece nem abominável, nem lastimável. Até acho que foi muito boa. Tão menos banal, por exemplo, do que um desastre de automóvel. Se é para morrer, eu, de certa maneira, a desejo para mim e para todos os meus amigos"

Guy Hocquenghem

o homem do pau mole

suave, lhe disse. suave na nave, me respondeu. suave na nave repeti, como quem encena com desgastada vontade de não parecer enfadonho, mas acompanhando um suspiro de pura ânsia. passeando pelo shopping, me perguntou, aqui é grande, respondi perguntando, gostava das vitrines, e assim seguiram as dialógicas interações. logo as revisitamos, coisa de uma hora, parece que foram duas, mas foi umazinha só, ele me perguntou, depois da terna casquinha - que lhe deixou encasquetado com misteriosa minha generosidade -, me disse, se eu não tivesse chegado em você, você teria chegado em mim. achei que tivesse sido só eu o primeiro a nos desbravar, mas admiti um possível engano, só que não durou muito, que minha cabeça estalou como se o eco profundo de uma escadaria de emergência de um shopping derrubasse suas estalagmites e estalactites. foi pioneiro suave meu que inaugurou nosso tiroteio de interpelações. ele concordou. foi fácil, já que estava encantado pela sua esquisitisse, teria sido difícil pelo fato de seus olhos me enganarem na sanitária incursão, olhando apenas quando os meus desistiam.
em uma segunda, obviamente.
o que gosto de fazer, ainda lambíamos o sorvete de marrom e branco, gosto de andar de bike, eroticamente, está curioso, e eu lhe respondo sim, e então elocubramos todas as modalidades possíveis de relações sexuais envolvendo bicicleta.
parece futebolista você, corintiano, com alvinegra essa camiseta manchada e esse boné de mano. fico feliz de parecer descolado, me desafiou, não, não, corintiano. então, fico feliz de parecer acéfalo, e também ser intelectual, nu e um tanto.
zapeando assuntos, explotation, após um convite cujo sucesso foi polida procrastinação, me disse, e se eu estiver apontando uma arma para você por debaixo da mesa, como em Inglourious Basterds, ao que só pude assim reagir, eu teria uma ereção.
(na escada irreversíveis amores. imiscuíam quase pré-puberes pêlos, nossos vinte e uns. mais tarde me pediu um telefone em pedaço de papel. te ligo no sábado. podemos ir ao MASP, você gosta de museu, coisas culturais. pareceu aflito e consciente. estranho que dói. sexy de tão estranho que dói.)
ele jamais sorriu. te ensinaram a sorrir, lhe perguntei. enquanto nos labiávamos e linguávamos, mais de uma vez tocou meu pescoço como se desejasse apreender com exatidão seus tecidos, fluxos, músculos, com fins de, com precisão, censurar-me a respiração e tirar-me a vida. toquei mais de duas vezes o volume da sua calça, que enigmaticamente abrigava pedaço de carne frouxo, flácido e inerte. tenho mais de três motivos para achar que ele é um serial killer homofóbico. como em Cruising. como em L'inconnu du lac. mas* não me importo, pois quero morrer de amor.


*como venenosos pratos de Gula, do Veríssimo filho.