Prelúdio
Quarta à tarde li para um.
Gostaria de falar duas coisas. A primeira é: Quem está no armário é você, não eu. Eu já destruí o meu há sete anos e não sinto a menor falta. E, se você me permite uma digressão, você não poderia estar em lugar melhor para abrir as portas do teu. Acredito que, dentro da XXXXX-XXX, assumir-se gay só vai impactar a tua relação com a faculdade positivamente.
Segunda coisa, acho extremamente brochante esse negócio de desmarcar compromissos, pois eu me organizo logística e emocionalmente para eles. Saber por que este, particularmente, foi desmarcado, foi ainda mais brochante, pelos motivos mencionados. Prefiro não marcar nada, se as condições forem estas. Acho incrível a ideia de te encontrar no fim de semana para irmos à casa de um ou de outro. Mas o melhor que duas - ou mais - pessoas podem fazer juntas, não está só em um quarto, mas também no mundo que o rodeia.
Presto
Amanhã eu vou entrar lindo belo radiante e altivo e nada terá acontecido nem com o ator nem com o efebo e com o primeiro nem aconteceu a rigor e com o segundo nada que ultrapassasse o afã de um sonho de uma madrugada de junho e junho é um mês de mágoa de cabocla e todos os meus encostos fazem aniversário neste mês mas eu ouvi uma música da Nina Simone sobre autonomia e eu sei que existe todo um mundo além daquela sala de aula e é melhor falar em mundos do que em um e se tem mais de um mundo por que eu vou ficar apostando pra dentro das vossas potencialidades epiteliais e mitocondriais se não passais de bixos e nada pode ser filosoficamente processado se vos intentareis alcançar minha veterania e é como se eu importasse e é como se eu me referisse a vós e é o que está acontecendo mas eu não me importo.
Andante con moto
Amanhã vou entrar lindo. Belo. Radiante. Altivo. Para eu-ator, ainda que lindamente brechtiano, talvez fosse agradável entrar em cena aquecido e já com a plateia posta, ou seja, entre dez e quinze minutos de atraso. Objetivo: abundar-me na cadeira. Tantos anos estudando na mesma universidade e ainda nem sei se as carteiras naquela sala são de resina ou estofadas. Não lembro da minha bunda suando nos dias quentes de março, deve ser a primeira opção.
Sento, aquendo meu caderno e, como bom aluno - de uma disciplina em que, ironicamente, não estou matriculado - farei meus olhos brilharem para a performance pedagógica do ilustrador. Na medida em que minha afobação planejada murchar à razão com que o ar foge pelo furo de um incenso numa bexiga vermelha, concederei a mim mesmo o direito planejado de praticar minha empatia pela plateia. Na vazão de ar, manipulada irritantemente como se faz com bico da bexiga vermelha com vistas a produzir um ruído agudo e humano, visitarei nas pontas finas dos dedos dos meus olhos gordos cada um, o primeiro apenas para alisar sua superfície visual de maneira a produzir o ranger aflitivo de quem masturba uma bexiga vermelha. No caso do segundo, meu olhar leve e castanhamente vívido será a ponta fatal da agulha afiada que estourará seus globos oculares como o suspiro derradeiro e desesperado de uma bexiga vermelha no instante em que é violada. Isso se ele tiver olhos de olhar.
Farei quantas vezes preciso, não muitas, imagino.
No intervalo trocarei as ideias necessárias com o professor. Sei que passarei por eles, e os cumprimentarei com a alegria de quem recebe um negativo no exame de gravidez. Melhor ator fosse eu, o aspecto seria de um alívio de quem aborta, como vivesse com prisão de ventre dentro do coração por três meses. Ao cabo da aula, vou convidar o gay que dá em cima de mim pra bandejar, não porque eu goste dele, nem porque eu o queira também, mas porque eu sinto que devo fazer parte daquilo.
Finale? Não que tenha sobrado muita coisa depois do terremoto. Sairei lindo de lá, sendo o mais bonito, loquaz, articulado e cruelmente irresistível que eu puder. Meu rastro de luz será a fermata inifinita. Se o efebo vier junto, o tratarei com o entusiasmo de um grande amigo, mesmo que me reporte um olhar de quem transforma a relação de desprezo em uma relação de dúvida, que, no caso, seria um recalque sem benefício, uma coisa mal resolvida, e se alguém notar, vão achar que ele está maluco. Dificilmente nos misturaremos, contudo.
Se me virem chorando depois, em algum momento entre as ruas escuras da Cidade Universitária e um gole generoso em um Concha y Toro reservado tinto carmenére, estarão certos se concluírem que, fora da partitura, mesmo ao virtuose resta apenas improvisar com as notas que o caminho oferece, essas nas quais derrapamos em terrenos incertos e cheios de pedrinhas chatas que nem o capeta.

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