“Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu”.
Olhar para o horizonte tem sido desafiador. O horizonte, que servia para alentar, hoje me dá arrepios. É por esse costume de pensar no que vai ser de nós amanhã. O horizonte está dando tchau mais cedo, estamos desintegrando o horizonte. Até ontem acreditávamos em dragões. Hoje sequer podemos sustentar a fé no retorno do Sol. Já sabemos que somos parte irrisória da história. Já sabemos que a nossa existência equivale a menos que um milésimo de segundo na escala do universo. E ainda trabalhamos obstinadamente em detonar essa parca existência com o medo recorrente de que tudo vai explodir. A crise vai nos dizimar, se as armas de destruição em massa não fizerem isso antes. Se um cometa não se precipitar contra nossas cabeças, o metano vai retirar o chão sob nossos pés. Se os hormônios não nos matarem de câncer, as ondas eletromagnéticas o farão. O melhor jeito de escapar da violência urbana é se amarrando a um divã. Antes que os mísseis atinjam São Paulo, as tropas virtuais terão sido engolidas pelo acelerador de partículas. E ainda nos vemos confortáveis, achando que, pelo menos, nos livraremos do HIV ou do zika, mas o nosso consolo, com um olhar pouco arguto, sincero, se materializará no coquetel cerveja e TV, café e Rivotril. Nunca entendi como tudo isso poderia ser conciliável!
Até ontem deitávamos sobre o oceano, livres, destemidos, nossos temores eram outros, outras eram nossas preocupações. Hoje o firmamento nos ameaça. O medo de atravessá-lo nos paralisa. Se optamos por cruzá-lo, é no ímpeto de firmar territórios. Uma bandeira por metro, estamos a salvo, a Terra foi inteiramente colonizada pelo olhar, e o que sobra dessa arrogância, é que sempre achamos que sabíamos tudo, quando na verdade estávamos mentindo para nós mesmos, fingindo saber lidar com a imensidão, na qual hoje simplesmente não podemos mais confiar.
Confiar, acreditar com. Qualquer convicção é suspeita. Como fiar algo cuja fiança é moeda morta? Em tempos de individualismo generalizado, como crer em conjunto? Não soa sequer possível. Parece que foi ontem, acreditávamos em deuses, em monstros, em revoluções. Hoje preferimos nos desgarrar do contrato de mentiras que assegurava a nossa unidade, para nos tornarmos um Leviatã de micro-verdades antipáticas e sanguessugas.
Francamente, a doença do século é essa dificuldade de tecer junto. Criamos uma vida de revista científica, nossa visão de mundo se sustenta até a semana que vem. Criamos uma vida de novela, nos desapontamos muito quando não conseguimos ter uma vida medíocre, uma paixão e um final feliz. Se a vida fosse uma poesia, dificilmente acreditaríamos nela. Lemos poesias como bulas de remédio e receitas de bolos pré-prontos. Não, a vida não pode ser uma poesia!
“Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal?”
Não importa muito a resposta atual.
Senão para as estatísticas.

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