terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

fingiu recuperar-se de um susto e disse

– e aí?
– e aí que eu jamais trocaria aquilo por um Spoleto com bacon, milho, ervilha e molho branco. não é assim, também, tô exagerando, porque, por incrível que pareça, não foi traumático. foi divertido, até!
– cruzes!
– ah, tive um momento de crise existencial, mas já passou. quando eu bebo, qualquer crise parece decisiva para o que eu fui, sou e serei.
– me lembra a época dos programas.
– meus ou seus?
– meus, né?
– o nome dela era Susi, perguntei se era de verdade, não tenho a menor dúvida que ela mentiu. mesmo se tivesse dito a verdade estaria mentindo, seriam duas Susis para pessoas diferentes, meros homônimos.
– concordo com você. mas não sei se a sua perspicácia me ajudaria com uma contradição.
– não falamos mais de Susi.
– não, o tema programas com a minha rubrica.
– diga.
– por que as pessoas se importavam mais com o fato de eu tomar remédios para emagrecer do que me prostituir?
– para esse povo que somos nós, acho que a primeira coisa tem relação com a ideia de um corpo escravizado, e o seu uso da prostituição sinalizava uma ideia de corpo auto-consciente, produtor de agência...
– me soa hipócrita. tenho dois contra-argumentos. só que um depõe contra mim.
– sim?
– o primeiro, eu-friendly, é assim: por que eu sou mais auto-consciente pra me prostituir do que pra tomar remédios?
– e o outro?
– é inescapável: minha auto-consciência não existe.
– sou mais esse!
– pois é!
– será que poderiam dizer isso para mim agora, sobre a Susi, depois de tantos anos de perversão praticante?
– diriam sim. você é uma farsa!
– não me faça retornar aos meus bad feelings existenciais.
sorry, dear!
– sussi!
– bom, que tal então um Spoleto pra comemorar?
– prefiro ser um otário do Starbucks hoje.
– por que não?
– partiu!
– ...
– vou passar no crédito.
– sempre!

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