terça-feira, 25 de novembro de 2008
Narrativa, filosofia de bordel e poesia sobre ansiedade.
Eram quase quinze rapazes e moças muito bem apresentáveis. Um deles chegou até o outro lado da sala e disse a uma das moças:
-E aí? Rola?
Silêncio pseudo-quase-constrangedor. Essa minha mania de concretismos cretinos no meio de narrativas já quase me fez perder um frango assado. Felizmente eu o perdi.
A moça olha para uma de suas amigas, essa com um impecável vestido cor-de-qualquer-coisa-que-excite-os-rapazes, e faz uma cara incompreensivelmente entendível.
Sua amiga hesita. Olha para o rapaz e como quem fala com a balconista de um supermercado cujo nome não começa com Z profere a seguinte expressão:
-Pega nada.
Sorrisões por parte de todos. Esse é o casamento perfeito em dois mil e noventa e sete. Me consola saber que este texto não terá a mínima importância em dois mil e noventa e sete e, se caso isso ocorrer, peço que por favor parem de dançar sobre o meu caixão, que eu não mereço. Dúvidas com verbos. Coisas que acontecem com pessoas burras.
Quê? EU me chamando de burro? Eu sou tri-inteligente. Às vezes as pessoas vêem uma certa arrogância na minha convicção. Eu sou fodão mesmo, e o mundo seria melhor se todos se considerassem fodões assim como me considero. Ativos versus passivos, e olha que bosta está a terrível antroposfera deste lixo de planeta. A evolução do homem cheira a lixo. Mas, tudo muito natural, no seu tempo etc. Sou fruto de discursos que foram sendo lapidados e atravessaram séculos e mais séculos, sendo aprimorados etc. Cabe a mim fazer bom uso deles, independente dos meus companheiros de espécie.
Ótimo quase desfecho para um texto que começa como este começou. Preciso falar agora sobre a minha ansiedade.
Acho que linhas poéticas soam melhor agora, por isso pensem em poesia, e não mais em prosa, a partir da próxima frase.
Um momento metafísico, branco e abstrato não-espacial.
Vários momentos como esse, e todos esses dedicados a contemplar o nada. O passado, que é algo desprezível. Como foi mesmo? Por que foi? Foi assim fácil mesmo ou está sendo difícil agora porque eu estou realmente condenado a não gozar plenamente para sempre?
Momentos patafisicamente perdidos, tédio, frustração escrita em folhas amareladas, em branco, em cor-de-nada.
Passeios da minha cabeça pelo antiquário. Um nada, mas um nada tão bonito e tão perfeito para mim... Como terminar algo que não começa? Foi bom enqüanto durou, não? Não interessa.
Superações que não superam nada. Esperando um dia de ruptura desse tédio relativo, esperando esse dia que não vem, e que não virá jamais, então...
Então você me ligou.
Os meus segundos viraram minutos, meus minutos viraram horas, minhas horas viraram dias, meus dias semanas, minhas semanas viraram meses, meu meses se converteram em longos anos que não passarão jamais...
Maldito fim de semana que não chega.
Que bosta de clichê. A única coisa que realmente importa são os três últimos versos.
Prometo que escreverei textos mais coerentes a partir de ontem.
Mentira.
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Minha Novela apresenta: The Association salvou a minha vida!
De verdade.
Até que ponto chega a incopetência neste país. Nem os pequenos assaltantes -pelo menos os que moram aqui no Tatuapé, mais precisamente no subdistrito Cidade Mãe do Céu- 'tão conseguindo manter seu negócio mais.
Há poucas horas "sofri" mais uma pseudo tentativa de assalto. 'Takioparíl.
Pseudo sim, porque tenho até vergonha de chamar aquilo de tentativa. Se eu soubesse que era assim, tão engraçado, já tinha deixado de temer esse tipo de coisa.
Ano passado (caso um) foi uma tentativa quase bem sucedida. Quase bem sucedida porque os pivetes queriam um celular -que eu não tinha-, e acabaram levando um óculos piratex. Suas armas: um jornal.
É sério, levei uma jornalada. Por incrível que pareça, levei aquilo tudo numa boa, mas todas aquelas pessoas que me amam me deixaram numa paranóia tal, que dois dias depois fiz a maior merda da minha vida. Levei dois inocentes para a delegacia, os policiais lhes humilharam etc. Não acredito em arrependimento, porque acho que os eventos negativos contribuem para a superação do indivíduo; mas eu gostaria muito de ter evitado aquilo.
Ri dos pivetes.
Semestre passado (caso dois) um carinha me seguiu em volta do shopping Metrô Tatuapé, em busca do meu dinheiro. Abri minha carteira e mostrei-lhe que eu não tinha trocados, mas na verdade eu tinha uma nota de dez.
"Pô! 'Cê 'tá cheio das nota!"
O cara era um incopetente. Fazer aquilo logo no meio daquele monte de gente!?
Convenci-o de que iríamos à polícia; ele e eu, grudadinhos e andando lado a lado como estávamos. Depois de encher um monte o saco dele, ele desistiu.
"Seu Zé Povinho."
Faz uns três meses (caso três), logo quando eu comecei a ir ao curso técnico. Estava voltando pra casa à noite, umas onze horas, perto do shopping também. Dois caras, incopetentíssimos, tentaram me imobilizar enqüanto eu mexia no fone de ouvido do meu mp3 player. Perto do shopping e d'um bar aberto, na frente do guardinha que cuida dos carros. Burros. Comecei a gritar e me contorcer até me desvencilhar dos dois. Dois. E maiores que eu. Nem para me seguirem até as ruas vazias do entorno da minha casa.
Minha mãe me busca de carro até hoje.
Bom... Uma ciclovia nova que liga algumas estações da zona leste, e ajuda bastante os ciclistas (caso quatro).
Que maravilha aquilo. Segui a ciclovia um monte, e continuaria seguindo se não aparecesse um idiota. Na verdade eu continuei seguindo. Ele também estava de bike. Parou e ficou me olhando enqüanto eu seguia. Ué! Segui. Cantando "...along comes babyyyyyyyyyy", um verso da música que tem o mesmo nome, do The Association. Barulho de bike amplificado.
O sujeito apareceu do meu lado, e começamos a andar lado a lado, sobre a bike, na mesma velocidade. Eu pensei; "será que ele quer apostar corrida comigo?"
Ele começou a ziguezaguear; "será que ele quer brincar?"
Tirei o fone de ouvido de um dos ouvidos. Ele falou "'tá co'o celular?"
Uáááááááááááá!! Fi-lo comer poeira. Quero ver agora quem é que vai falar que eu gastei dinheiro demais em bicicleta.
E olha que ele era mais magro e mais alto que eu.
Enfim, segui até certa altura da ciclovia e voltei, vendo que ele não estava mais atrás de mim. Pensei que ele tivesse voltado para o local onde primeiro nos vimos, afinal, tinha um ponto cheio de pessoas ali perto, e ele não marcaria bobeira.
Incopetente; marcou.
Comecei a voltar na outra direção e o filho da puta 'tava lá, indo na minha direção.
Burro; justo na parte mais larga da ciclovia.
Zigue-zague na grama, na calçada, na ciclovia.
Despistei o idiota, inda comecei a rir de tanto gozo e Jamiroquai.
Corri que nem... que nem algo que corre bem rápido.
Parei no Parque Sampaio pra tomar uma água, quando cheguei ao Metrô Carrão.
Depois segui até o Metrô Tatuapé, de novo pela ciclovia, e quando olho pra trás, lá estava o carinha.
Subi na passarela do metrô, e de lá não vi mais ninguém.
Incopetente.
Eu devo ter as manhas pra emputecer os caras que tentam me assaltar pois eu me acabo de rir da cara deles (exceto dos do caso três, que realmente me assustaram). Mas sou mais fã deles do que dos caras que os botam nessa situação. O babaca mais rico do Brasil, que todo mundo que lê a Veja aplaude, por exemplo. Alguém vai falar "você nunca foi assaltado de verdade". Raiva eu tenho. Mas eu também tenho cérebro.
Indo pra casa passei pelo Augusto, que me disse "Sinta-se capaz".
domingo, 16 de novembro de 2008
1ª Imagem Digna de Aparição no HN
terça-feira, 11 de novembro de 2008
Ruptura.
Nada de anti-tédio.
Estamos na era da falta de imaginação.
Na era do gozar vazio.
O gozar vadio, o gozar no rio.
(espaço para poesia concretina)
POESIA CONCRETINA
QUÃO CRETINA ÉS?
(gostaria que os dois versos supracitados fossem de minha autoria)
Simulacro, fleumático, e palavras que ninguém entende.
Só eu, e a minha boca recém-encerada, magnificamente desvirginada ao pôr do nada.
Ao pôr do nada.
Uma bactéria congênita, hospedada no fundo das minhas entranhas, esperando a hora certa para explodir, causando um Big Bang, flores e chumbo.
Sou eu durante essas horas de angústia existencial, e que bela angústia.
Angústia do reconhecimento.
Angústia do conhecer-me como ser normal que me sou.
Vestido, maltrapilho ou maltratado, allegro ma non troppo, vivo e morto de pseudo-anti-reacionarismo-de-adolescente-passando-por-fase-de-afirmação.
VAMOS AO PSICANALISTA!!
E as pessoas da sala de jantar?
São sempre as mesmas, esperando o dia em que irão pro (fim do -- findo) céu.
Eu já estou nas nuvens e só uma bela pancada me tiraria daqui.
Não existe poder, sou igual a você e utopias à parte, o que me parte é esse raio de nada-singelo, esse raio de nada-terrível, esse raio de quase-nada-vulgar.
Pervertor, distorcedor, subvertor.
Oh! Lua linda
Não fique nua
Teu brilho finda
No fim da rua.
Sou humano, e sei de mim.
domingo, 2 de novembro de 2008
A Máquina Social
Todos os indivíduos têm potencial para administrarem a si próprios, desde que as suas faculdades mentais o permitam, ou seja, desde que não estejam clinicamente comprometidas. Hoje em dia as pessoas estão sujeitas à sobrevivência, pois existe um dispositivo de poder centralizado que as induz a isso. Tal dispositivo é responsável por coagir, alienar e iludir os indivíduos quanto à validade do poder.
As pessoas condicionadas a sobrevivência, são pessoas que "vivem por apenas viver". Por mais que tenham objetivos a serem alcançados, acabam vazias e frustradas. O conteúdo dos objetivos em questão, se analisados de um ponto de vista social, são vazios, superficiais e extremamente falsos. Há o dispositivo de poder, formado por um conjunto de regras e de agentes que executam-nas. Esse dispositivo induz os indivíduos a sobreviverem (no sentido apresentado), já que é conveniente os organizadores dele; manipular fantoches, evitando que eles se revoltem, vigiando-os e punindo-os.
O indivíduo é fruto da convivência deste com o meio em que está, e absorve dos demais os discursos que farão dele um individuo. Tais discursos englobam diversos conhecimentos adquiridos que vão desde o aprender a falar até a estrutura do caráter do indivíduo. Sendo assim o indivíduo fruto de seu meio, ele tem potencial para administrar a si mesmo, mas a sua autonomia depende da reflexão que ele faz em relação aos discursos por ele absorvidos.
Os indivíduos estão condenados a morrer de tédio. Esse é o efeito colateral e também o ponto imprescindível desta máquina social; a hierarquização social cria o tédio, mas o tédio também é o pressuposto para a hierarquização social. A mobilidade social, e também a falta desta, assim como o dispositivo de poder, não passa de uma ilusão, mas o tédio está longe de ser uma ilusão. O tédio é o inimigo e o antônimo da realização pessoal; a sobrevivência pura e vazia; é a morbidez que guia os indivíduos na máquina social, e que mantém neles o espírito vazio.
Deixa-se de viver autenticamente em prol da manutenção de um dispositivo de poder. O condicionamento coage o indivíduo a escolher a máscara que melhor lhe serve, indo à vitrine que está ao seu alcance. Supre-se um papel específico e perde-se em vida. Os papéis fazem parte da organização social. Todavia, na nossa sociedade atual, eles assumem o caráter de puros agentes da segregação. O papel é o símbolo que determina a posição de alguém numa sociedade. É como uma fantasia, que serve ou não em um contexto específico, e sua mutabilidade é definida por meio do sistema de hierarquização social proposto pelo dispositivo central de poder. Vive-se ou conquista-se a permissão de se navegar em um afluente, quando na verdade tais afluentes não passam de uma ilusão. Fisicamente, o que existe é um oceano, pleno, infinito, e sedento por desbravadores.
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
O Espetáculo.
"Nosso tempo, sem dúvida prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser. O que é sagrado para ele, não passa de ilusão, pois a verdade está no profano. Ou seja, à medida que decresce a verdade a ilusão aumenta, e o sagrado cresce a seus olhos de forma que o cúmulo da ilusão é também o cúmulo do sagrado."
Feuerbach
"Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação."
Debord
"Tenho pouca vontade de escolher entre o prazer duvidoso de ser mistificado e o tédio de contemplar uma realidade que não me diz respeito."
Vaneigem
Escândalo. A bancada inteira do Acessa São Paulo discute sobre esse último caso da moda, depois da terrível filhadaputice cometida pelo casal (assassino_assassinado) Nardoni.
A(s) coitada(s) vai(ão) se revirar no(s) seu(s) túmulo(s) até os organizadores da grande mídia enjoarem de tratar dela(s).
Mata, mata! Tem que linchar. Aplaudir "Tropa de Elite" pode, porque é de mentira. Mas aplaudir o silêncio discreto que o BOPE deu em Sandro Barbosa do Nascimento é bem mais gostoso.
Vitória. "Não pode atirar, senão Deus castiga", diz Roberto Marinho em pânico.
Nunca acontece; nem no cinema.
Também, com aquelas malditas campanhas midiáticas pró-pseudo-paz, é de se esperar que os cemitérios lotem.
Quero ver só! A Isabella já virou nada senão meia dúzia de gramas virtuais esquecidos no arquivo global. Que mané Isabella! A moda agora é falar sobre a Eloá e a Naiara. O pai dela, bandido em Alagoas? A menina pediu dois milhões de indenização? Bem mais emocionante.
Quem foi Geisa, quem foi Suzane von Richthofen, Carandiru sempre foi nome de tribo indígena.
Adoro aquela minha piada sobre os souvenirs da Isabella.
"Está para ser criada, pois, a Isabellamania (uma peculiar equivalência à Beatlemania, da década de 60s), um típico movimento brasileiro -nada que não possa ser esquecido na liquidez da nossa memória. Trata-se de uma estratégia de marketing responsável pela venda de uma infinidade de produtos, utilizando a imagem de Isabella, cedida (ou defenestrada) pelos seus pais, com um certo apelo emocional e piedoso implícitos, claro.
Com um certo tempo, um novo estilo-de-vida estará à venda, transformando Isabella na única superstar póstuma da história; para as crianças, cadernos e lancheiras com a clássica imagem de Isabella sorridente; para as donas de casa, portas-retrato que já venham com uma foto da menina; e, finalmente, para os idosos, fraldas geriátricas Isabella, óbvio -e com o máximo de absorção."
Passividade! Triste é pensar na atualidade de textos que já têm quarenta anos de idade. Triste é pensar que o clássico, no fundo e na prática, exerce apenas a função de ser, clássico hasta la sepultura, existindo por existir.
domingo, 19 de outubro de 2008
Estória cruel com início fofo, fim fofo, um dono sedentário, um cachorro sem nome e uma garrafa de Coca-Cola.
Era uma vez um cachorro.
Ele era dócil, obediente e quase pretensioso.
Ele só tinha um desejo, um desejo tão simples que, aos nossos olhos, pode parecer o mais tolo dos fetiches já existentes.
Desde que nasceu, o cachorro morou sempre com o mesmo dono; presenciou as principais passagens de sua vida, assim como o dono passou alguns de seus momentos mais importantes ao lado de seu cachorro, numa relação recíproca de amor e fraternidade.
Porém, existia uma terceira fonte de felicidade, praticamente inesgotável naquela casa, e desde cedo o cachorro percebeu o quão importante aquela fonte era, da qual ele jamais havia bebido, mas que seu dono julgava impossível viver sem.
Enfim, em um belo dia, aos 32 anos, o dono do cachorro faleceu silenciosamente no sofá.
Depois de um dia clamando para que seu dono acordasse, o cachorro percebeu que não haveria mais volta.
Então, aproveitando o momento terrívelmente propício, foi até a cozinha e Oh! Ali estavam elas, esperando por ele.
O cachorro se aproximou das garrafas.
Deu uma patada.
Deu duas.
Três, quatro.
Depois de um certo tempo, o cachorro já se sentia familiarizado com a morfologia daqueles objetos.
Como previsto, a sede, a vontade, a curiosidade de provar aquela bebida que tanto aprazia o seu recém-falecido dono foi aumentando, crescendo ao ponto de fazer com que o cachorro lutasse até o limite de suas forças para provar daquele néctar, agora à sua disposição.
O cachorro lutou, estapeou, cabeceou, escoiceou, esfocinhou...
Enfim, cansado, estressado e ensangüentado, o cachorro tomba.
Mas seu esforço não foi em vão: uma gota do líquido vermelho jorra da garrafa plástica e, milagrosamente, alcança as papilas gustativas presentes na língua do animal.
Agora ele já era feliz, podia morrer em paz, junto com o seu dono.
Fim.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Inclusão Digital para fins escatológicos.
Oportunidades de estágio, informação e material de encher quantidades invisíveis de papel físico.
MSN iletrado, analfabetismo virtual, xadrez, letrocas, zumbis negros morrendo e pesquisas bem-sucedidas sobre personagens de desenhos animados.
Fim!
sábado, 13 de setembro de 2008
Comentário sobre o problema das doenças endêmicas e epidêmicas e das guerras civis na África
Alguns trechos revisitados.
Um dos grandes problemas do continente africano atuais (senão o grande problema), é a seqüela trazida a este pelo imperialismo (europeu ou estadunidense). Com a desculpa do progresso e com a necessidade de manutenção da economia, os países europeus no final do século XIX decidiram que seria melhor partilhar (da forma mais justa possível para o partilhador), simplesmente, a África -poucos séculos depois de decidirem que seria melhor escravizar a população, e importá-la.
Partilha feita, os colonizadores optaram por colonizar o continente visando a exploração dos meios naturais das regiões (como na América, e também em busca do progresso). Desde então o continente e sua população nativa foram explorados até abastecer e satisfazer totalmente o ego e os fetiches da comunidade européia, já na metade do século passado.
Consigo, o imperialismo trouxe tantos outros problemas, como a fome e a alta mortalidade causadas pela miséria, a dependência política e tecnológica causadas pelo atraso na educação, e sérios confrontos políticos internos, causados pela má partilha do continente, que uniu etnias inimigas e acelerou o processo de extinção de numerosas tribos.
O filme "O Jardineiro Fiel", direção de Fernando Meireles, traz a questão da falsa diplomacia existente nas relações entre os países europeus e africanos (em prol de um progresso imperialista e fascista camuflado, e que continua existindo), e a questão das doenças epidêmicas e endêmicas (DSTs, malária, tuberculose etc). O longa "Hotel Ruanda", direção de Terry George, põe em questão as guerras civis na África, exemplificadas pelo caso tratado no filme, hutus versus tutsis, e que dizimaram -e dizimam- milhões de vidas na história moderna da África -enqüanto os europeus cuidam de seu progresso.
O fotojornalista brasileiro Sebastião Salgado ilustra bem as duas questões; tanto em 1995, em Nyarubuye, Ruanda, quando tira fotos de cadáveres tutsis empilhados em uma escola abandonada; como quando examina a fome e a escassez de medicamentos no conflito do Sahel, em Bati, Etiópia, no ano (irônico) de 1984.
Contudo, pouco tem ajudado escancarar o problema das seqüelas do imperialismo na África (ou o que foi escancarado ainda não é o bastante e não tem tanta relevância). A mobilizacão da crítica tem que gerar a crítica da mobilização. Enqüanto o problema da África não for concretamente resolvido, não passarão de hipócritas aqueles que lucrarem com a miséria humana nela presente (por exemplo, Sebastião Salgado, Fernando Meireles, Terry George etc).
A África não precisa de intelectuais que mercantilizem (e vendam para outras elites intelectuais) seus problemas e conflitos; ela precisa de uma população ativa -e não passiva às decisões de seus países como tais elites dizem não desejar. Por enqüanto, qualquer imagem documentada sobre a miséria africana apenas afirmará a hipótese da seqüela imperialista.
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Uma Peça.
Por um instante, parou de comer como um lobo faminto e selvagem.
Olhou para os lados.
Voltou a devorar a panela de picadinho de carne recém-furtada da geladeira.
Parou por mais um instante.
Mais uma vez, se viu segurando uma panela, refletido no espelho.
Ele estava enorme.
Sentou.
Bateu a panela na mesa e começou a chorar.
Uma senhora aparece na cozinha acendendo a luz.
- Meu filho, de novo isto?
- Desculpa mãe -diz o rapaz soluçando-, eu não resisti.
- Se você continuar fazendo isso, nunca mais vai arranjar um emprego decente.
- Eu até tento mãe -esperneia-, mas a pressão é muito forte.
- Desculpa, mas eu não posso mais me intrometer na sua vida.
- Mas, mãe!
É tarde demais, a senhora já cortou a própria cabeça com uma machado e está caída no chão.
O rapaz volta a chorar e, sem levantar da mesa, continua a comer o picadinho de carne.
As cortinas se fecham.
Alguém na platéia grita:
- Eu não paguei trinta e cinco reais para assistir isto! Quero meu dinheiro de volta!
Em pouco tempo, a platéia está totalmente alvoroçada e clamando por seus direitos.
- Vocês não sabem o que é teatro -gritavam alguns escandalizados.
- Eu vou entrar na justiça para receber meu dinheiro de volta -gritavam outros.
Os treze atores da peça, o diretor, o figurinista, o engenheiro de som e a dona Nice (se fala Nice), mãe de um dos atores -e que por sinal faz um cafézinho ótimo-, se trancam em um camarote apertado.
Do lado de fora, ouvem-se batidas furiosas na porta, gritos raivosos, palavras ferinas.
Eles só saem daquele cubículo apertado no dia seguinte, quando a polícia já tomara o controle da situação.
Só aí então, Narciso, filho da dona Nice (se fala Nice), notou que faltava alguém.
- O Zé! O Zé!
José Pedro Santana, vulgo Zé Peçanca, era o autor da peça.
Ninguém sabia, mas naquele momento ele estava em um trem fugindo de uns fanáticos conservadores.
Por alguma coincidência, o trem se dirigia à cidade onde a mãe dele morava.

